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sexta-feira, 5 de março de 2010

OSCAR WATCH - A peleja dos filmes


O maior espetáculo de todos os tempos
Comentário
As nove indicações ao Oscar de Avatar podem ser controversas, assim como o é o título de filme mais visto da história. Contudo, é inegável que o momento é de Avatar. Um fenômeno de bilheteria e de repercussão pop. A chancela do Oscar para o maior sucesso do cinema de todos os tempos seria a cereja do bolo. Contudo, se analisarmos pelo âmbito da qualidade, Avatar é literalmente o menos merecedor do prêmio. Não que isso, em tempos que a politicagem domina até mesmo um prêmio de arte, sirva de parâmetro.
Indicações
Filme, direção, fotografia, montagem, direção de arte, trilha sonora, efeitos especiais, som e edição de som

À Pixar o que é da Pixar
Comentário
Demorou, mas a tão clamada, e aguardada, indicação de um filme da Pixar para melhor filme chegou. UP-altas aventuras não é o melhor filme do estúdio que criou obras referenciais como Wall E e Os incríveis, mas é um candidato para lá de digno. Em uma lista com 10 filmes, sua indicação é justa, merecida e oportuna.
Indicações
filme, roteiro original, animação, trilha sonora e edição de som

O clássico moderno
Comentário
Seguramente um dos melhores filmes do ano, Amor sem escalas perdeu força na disputa, ante a badalação de Guerra ao terror e a necessidade dos milhões que Avatar ostenta. O filme de Jason Reitman que casa com eficiência invejável fórmulas do cinema independente com arranjos comerciais, no entanto, está destinado se tornar um clássico. Na verdade já é. Daqueles instantâneos, cujo valor vai aumentando com o tempo.
Indicações
Filme, direção, roteiro original, ator e duas indicações para atrizes coadjuvantes

Sobre a alienação de ser humano
Comentário
Antes de ser uma ficção científica, e Distrito 9 é uma excelente ficção científica, esse filme é uma poderosa alegoria sobre preconceito. Daquelas que a academia adora prestigiar. Esse fato talvez ajude a entender a conquista pelo filme de uma vaga entre os finalistas do Oscar. Uma deferência justa e por si só bastante representativa.
Indicações
filme, roteiro original, montagem e efeitos especiais


O pão nosso de cada dia

Comentário
“Aceita o que acontecer com você com simplicidade”. A frase que abra o novo filme dos irmãos Coen entrega o que virá a seguir. Uma mordaz parábola sobre o homem comum, bom e bem intencionado. E de como essas qualidades podem ser saturadas e em que circunstâncias isso é possível. Um homem sério é um legítimo exemplar dos Coen, embora menos brilhante do que seus trabalhos anteriores.
Indicações
filme e roteiro original


A combustão da guerra
Comentário
De jogado fora a Darling da temporada. Essa foi a viagem surreal que Guerra ao terror fez. O filme que não conseguiu distribuição agradou a critica ao mostrar o cotidiano de um esquadrão anti-bomba no Iraque. Verdadeiro e impactante, filmado com a dose exata de urgência e contemplação, Guerra ao terror abre mão da política para iluminar algo muito mais aterrador.
Indicações
filme, direção, roteiro original, ator, montagem, fotografia, trilha sonora, som e edição de som


Era uma vez uma França sob ocupação nazista
Comentário
O tom fabular de Quentin Tarantino cativou. Mais senhor de seu universo peculiar do que nunca, Tarantino realiza uma obra prima e como tal, Bastardos inglórios foi contemplado pela academia. Ainda há chances dos bastardos de Tarantino roubarem o grande troféu dos Na´vi de James Cameron ou dos comandados de Bigelow, mas a essa altura do campeonato, isso parece improvável.
Indicações
filme, direção, roteiro original, ator coadjuvante, fotografia, montagem, som e edição de som

Charme burguês
Comentário
A academia adora os ingleses. Principalmente os filmes de época que eles fazem por lá. Educação, nesse sentido, é o candidato perfeito. Inglês do senso de humor a contextualização, o filme é um triunfo de roteiro e atuação. Esses pontos fortes valeram ao filme uma vaginha entre os finalistas na disputa de melhor filme.
Indicações
filme, roteiro adaptado e atriz

O sonho americano vive
Comentário
Você pode ser pobre, você pode ser rico ou até mesmo ser meio lerdo das idéias, a América está lá por você. Os valores e ideais americanos pontuam muitos filmes daquele país. Alguns de forma mais sutil e abrandada, outros de forma melodramática. Um sonho possível se ajusta mais a segunda definição. Chega ao Oscar embalado pelo bom momento de sua protagonista e pela polpuda bilheteria.
Indicações
Filme e atriz


O pesadelo americano vive
Comentário
Há sonhos, mas também há pesadelos. E o Oscar faz questão de colocar ambos em evidência com sua seleção. Preciosa- uma história de esperança, embora apresente discurso semelhante ao do filme de Sandra Bullock, sua verve é completamente diferente. É preciso sonhar. Mas batalhar enquanto se está acordado.
Indicações
Filme, direção, roteiro adaptado, atriz, atriz coadjuvante e montagem

* Para ler as criticas, publicadas em Claquete, dos filmes indicados ao Oscar de melhor filme é só clicar no nome do filme desejado na lista de marcadores aqui do post.
* Amanhã será publicada a critica dos indicados ao Oscar. Não perca!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

OSCAR WATCH - Contexto

Por que esses dez filmes?

Judeus, guerra, Iraque, alienígenas, ficção científica, crise econômica, relacionamentos amorosos, Tarantino, George Clooney, James Cameron, 3D, mulheres e audiência. Essas são as palavras chaves para definir os filmes selecionados para a disputa de melhor filme. O escopo, esse ano, é maior; uma vez que são 10, os indicados a melhor filme. É inegável que a academia sempre elabora um comentário sobre o estado das coisas na sociedade com o anuncio dos principais filmes concorrentes ao Oscar. Pelo menos a critica em geral, e a americana em particular, enxerga essa disposição todos os anos. Assim como a escolha do vencedor nunca se dá puramente por méritos artísticos. O melhor filme no Oscar é fruto de uma combinação de interjeição política e social, campanha de marketing assídua, baixo índice de rejeição e, sim, qualidade artística.
De ano para ano, varia o grau de influência de um desses fatores. Mas invariavelmente, a escolha do melhor filme do ano se dá em virtude da combinação desses aspectos.


Cena de Amor sem escalas: relacionamentos amorosos e crises financeiras pautam uma história sobre o nosso tempo

Depois de Bush e de Obama...
Os favoritos do ano são Avatar, um mega sucesso de bilheteria que acena com uma tecnologia capaz de fazer os estúdios de cinema faturarem mais, pelo menos no curto prazo, e Guerra ao terror, um filme sobre a guerra do Iraque (algo ainda presente no contexto socioeconômico americano) apolítico, o primeiro filme de guerra com essa característica em anos.
Em 2007 e 2008, os dois últimos anos da era Bush, filmes com visões e perspectivas pessimistas da América (Os infiltrados e Onde os fracos não têm vez) venceram. Em 2009, na euforia da era Obama, um filme com um traço de globalização e com uma mensagem de redenção e esperança (Quem quer ser um milionário?) triunfou. Esse ano, com Obama com um índice de popularidade não mais do que satisfatório, com uma guerra no Afeganistão cada vez maior, e a do Iraque ainda longe de um desfecho, parece oportuno revisitar a guerra sem tomar partidos. Entender a fissura que a mesma causa na nossa humanidade parece oportuno. Tanto Avatar, em um viés mais fantasioso, quanto Guerra ao terror, abraçando a realidade sem pudores, se prestam a esse serviço.

Cena de Guerra ao terror: A guerra do Iraque ainda não acabou, mas o foco do cinema sobre ela mudou


Os dois lados de uma mesma moeda
Mas as semelhanças acabam aí. Os dois filmes se situam diametralmente opostos no que toca o modelo de produção cinematográfica. Também diferem quanto ao público ao qual se destinam. Avatar é o filme mais caro e de maior bilheteria da história do cinema e busca um público predominantemente jovem e entusiasta de tecnologia. Guerra ao terror é um filme barato, que sofreu para conseguir distribuição e que quase ninguém viu. Ambos mimetizam o alcance do cinema e o que o mesmo significa nesse século XXI. Não que premiar um em detrimento do outro seja uma sentença de morte de um modelo de produção (caso Avatar seja o vencedor) ou preconceito com o entretenimento para as massas (caso Guerra ao terror seja o vencedor). Mas inadvertidamente essas questões estão atreladas a decisão da academia. E é bom que estejam. É, afinal de contas, equilibrando-se entre os sucessos comerciais, os dramas independentes, os filmes de atores, os roteiros sensacionais e as inovações tecnológicas que o Oscar ajuda a dimensionar o cinema no passar dos anos.

Anúncio de Avatar na campanha para angariar indicações ao Oscar: o 3D busca o aval da academia

Sempre os judeus
Educação, Um homem sério e mais compulsoriamente Bastardos inglórios, trazem em seu âmago elementos que abordam o judaísmo e seu espaço-tempo de forma bastante elaborada. O Oscar, talvez por que Hollywood e o cinema em uma escala mais ampla sejam um negócio bem judeu, sempre conferiu destaque a filmes que se dedicassem ao jew living status. Esse ano, os três filmes que iluminam o universo judeu são de uma eloquência ímpar. Em Educação há o breve, e subliminar elemento anti-semita, algo que assim como ocorre no filme, ocorre na vida. O anti-semitismo nunca é declarado. Um homem sério foca a comunidade judaica. Suas idiossincrasias e reminiscências. Em Bastardos inglórios, Tarantino oferece uma catarse judaica como nunca se vira antes. E se tirássemos os escalpos dos nazistas? Se espalhássemos o terror entre eles como eles fizeram conosco? Se matássemos Hitler em um cinema?
Os judeus e seus anseios nunca foram tão bem assistidos pela academia.

Cena de Bastardos inglórios: E se?

O amor, a audiência e o gênero maldito
E o Oscar precisa fazer as pazes com a audiência. Nos últimos 20 anos, as cerimônias que mais tiveram audiência foram as de 1998 e 2004. Não por coincidência os anos dos triunfos de dois blockbusters. Titanic e O senhor dos anéis: o retorno do rei respectivamente. Essa é a única razão de filmes como Avatar e Um sonho possível estarem entre os indicados a melhor filme. Atrair a atenção do espectador comum para a cerimônia.
Por outro lado a academia reconheceu a excelência de um gênero sempre preterido, a ficção cientifica. Distrito 9, uma poderosa parábola sobre preconceito, e Avatar. A maturação do amor, o mais nobre e dolorido dos sentimentos, também chama atenção nos selecionados desse ano. Amor sem escalas e Educação tratam do tema com sobriedade e sofisticação.
Cena de Educação: o amor é um dos fragmentos no caminho da maturidade

Os dez filmes do Oscar desse ano significam muita coisa. Indelével, no entanto, é que com cinco fica mais fácil saber o que a academia quer dizer. O discurso não se dilui. Assim como a qualidade dos indicados.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Movies great partnerships - Irmãos Coen e Roger Deakins


Os Coen (de óculos escuros) e Roger Deakins em locações no Novo méxico onde gravaram cenas de Onde os fracos não têm vez


Muita gente gosta do cinema dos irmãos Coen. Os irmãos cineastas criaram uma identidade bastante particular no cinema americano. Com seus personagens caricatos, seus roteiros tão inteligentes quanto intransigentes e com uma moral vaticinante, os irmãos rapidamente se tornaram cronistas contumazes da América e suas consternações. O que pouca gente sabe é que um inglês da pequena Devon, com oito indicações ao Oscar e que ministra cursos de fotografia em algumas escolas de cinema dos EUA tem muito a ver com essa identidade patenteada pelos irmãos Coen. Aos 61 anos, o diretor de fotografia Roger Deakins chega, com Um homem sério (novo filme dos Coen), a oitava colaboração com Joel e Ethan Coen.
Iniciada em 1996, com Fargo, a parceria, além de longeva, tem se mostrado bem sucedida. Deakins foi o fotógrafo de todos os filmes dos Coen desde então, com exceção de Queime depois de ler. Essa exceção deve-se ao fato de que Deakins estava envolvido em 4 filmes quando os irmãos começaram a filmar a comédia estrelada pelos amigos George Clooney e Brad Pitt; o que o impossibilitou de assumir a direção de fotografia do filme.

Deakins em ação: Ele é o diretor de fotografia vivo com mais indicações ao Oscar. Esse ano, porém, ele não concorre

“É tudo mais fácil quando você já sabe o que o diretor quer. Os ângulos que ele gosta de trabalhar e tudo o mais”, disse Deakins a revista American Cinematographer em 2008 quando fora indicado ao Oscar duplamente, pela fotografia de O assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford e por Onde os fracos não têm vez, dos Coen.
Joel Coen, por sua vez, disse a mesma publicação na ocasião que “Deakins é econômico, rápido, ativo e surpreendente. Quem não gostaria de tê-lo em uma equipe?”

Cena de Fargo: O inicio da prolífera parceria dos Coen e Roger Deakins


Eles e o Oscar
Embora ainda não tenha vencido um Oscar, Deakins é o diretor de fotografia vivo, mais indicado ao prêmio da academia. São oito indicações, das quais 4 por trabalhos desenvolvidos com os Coen.
Um homem sério também chegou ao Oscar. Com duas indicações (filme e roteiro original). Apesar de não ter recebido indicação por fotografia, Deakins pode ser considerado tão autor do filme quanto os Coen. O processo colaborativo deles avançou para um processo de criação em conjunto. Os três já trabalham no próximo filme, True Grit, que deve ser lançado ainda em 2010.

Billy Bob Thorton em cena de O homem que não estava lá: Os Coen e Deakins revitalizaram o cinema noir no século XXI


Os filmes da parceria:
Fargo (1996)
O grande Leboswki (1998)
E aí meu irmão, cadê você? (2000)
O homem que não estava lá (2001)
O amor custa caro (2003)
Matadores de velhinha (2004)
Onde os fracos não tem vez (2007)
Um homem sério (2009)

Legenda: Indicado ao Oscar

Movie Pass - Um homem sério

A seção Movie Pass desse mês destaca um filme que acabou de estrear nos cinemas brasileiros. O novo filme dos irmãos Coen, Um homem sério (A serious man, EUA 2009), porém, já é cult por natureza. Como o é toda e qualquer obra dos cineastas que miram a América com sua verve criativa e subversiva.
Com duas indicações ao Oscar 2010 (filme e roteiro original), o filme mostra a história de um homem, membro diligente de uma comunidade judaica, que sem mais nem menos tem sua vida virada do avesso. É vitima de suborno e sabotagem no trabalho, sua mulher exige o divórcio porque se apaixonou por outro (e ela age em relação a isso como se fosse a coisa mais natural do mundo), um irmão invejoso e encostado não lhe dá trégua, tão pouco os filhos...
A vida de Larry (vivido pelo bom e comedido Michael Stuhlbarg) é tomada literalmente por um tsunami. Aliás, um terremoto funciona como uma metáfora eloquente em uma das cenas do filme, cuja critica pode ser conferida no post abaixo.
O novo filme dos Coen não é fácil. Exige familiaridade com a linguagem do cinema dos irmãos e, mais que isso, disposição para rir da desgraça junto com eles.


Critica - Um homem sério

A desgraça do homem comum


Em seu novo filme, os Coen mais uma vez riem da tragédia. Só que agora, o motivo de riso é a nossa tragédia

O novo filme dos irmãos Coen, Um homem sério (A serious man EUA 2009), é uma comédia de humor negro bem ao gosto dos irmãos cineastas e de seu público cativo. Um filme hermético, com uma veia satírica em ebulição e uma visão pessimista da América.
No novo filme, os Coen adentram a comunidade judaica (de onde eles e também grande parte da comunidade hollywoodiana advém) para satirizar o homem comum em tempos que demandam cinismo e relativismo. No calidoscópio dos Coen, ser bom, integro, justo e agregador pode ser tão perigoso quanto ser passivo, apreensivo, ingênuo e conservador. É uma questão de percepção, pondera Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg) certa vez, ao tentar entender o porque de em certo momento sua vida ter sido virada do avesso sem que ele tivesse feito nada que pudesse ser considerado errado. Ou que pudesse ter precipitado uma ação divina contra sua pessoa.
A provação a qual esse homem sério, tal qual Jó na bíblia, é submetido, o faz questionar os propósitos de se seguir códigos morais, religiosos e sociais. A busca incessante de Larry pela guia dos rabinos e as respostas evasivas que ele recebe destes remetem ao que os Coen dizem desde Fargo (1996). Em um mundo como esse, ser sério é não querer ser levado a sério.
O fato do filme se passar em uma época não bem especificada, embora a direção de arte e fotografia nos façam crer que aquele é um subúrbio dos EUA dos anos 60 ou 70, e da história se desenvolver no âmago de uma comunidade judaica só acrescentam ao comentário que o filme se comina. O mundo está perdido não é de hoje. A cena final do filme, anticlimática - como nos últimos filmes dos Coen, mostra isso de forma riquíssima e contundente. A paciência é uma virtude mais dos incautos do que dos corretos. E isso pode ser decisivo.