Quando o sentimento tem vez
O Oscar 2010 acabou por ser um prêmio mais justo do que

se anunciava. Essa constatação, no entanto, não faz dessa edição do Oscar justa, na estrita acepção do termo. Mais do que qualquer outra coisa, o que a academia sinalizou em 2010 foi que apesar de seus esforços para contemplar a indústria cinematográfica em toda a sua representatividade, o Oscar é um prêmio para irradiar o cinema em sua manifestação bruta, arisca, inteligente. E isso pode pender tanto para o comercial (lembram de
Titanic e
O retorno do rei ?) quanto para o artístico. Filmes que emplacam no Oscar, assim o fazem por conquistar o coração dos acadêmicos. Esse ano três filmes pequenos fizeram isso de forma muito clara. Os independentes
Guerra ao ter
ror,
Preciosa-uma história de esperança e
Coração louco foram os

filmes mais aplaudidos da noite. Quando eram anunciados nas categorias em que concorriam, havia gritos e comoção como se estivéssemos em um estádio de futebol. Esse comportamento ajuda a entender o que aconteceu nesse 7 de março. Sempre pesou contra o Oscar a pecha de ser, muitas das vezes, um prêmio injusto. Mas sempre se ressaltou a honestidade do prêmio da academia (que com as escolhas do ano passado foi posta a prova).
O grande campeão do Oscar 2010: Guerra ao terror faturou os Oscars de filme, direção, roteiro original, montagem, som e edição de som
Esse ano vem ratificar essa condição. Ao conceder seis prêmios para um filme pequeno, feito sem o apoio de Hollywood, mas com a contundência de um cinema vaticinante e reflexivo, a academia mostra que esse é o caminho e viabiliza a mea culpa da industria que deixou de apostar em um material que se mostrou tão midiático. Certamente
Guerra ao terror não era merecedor desses seis prêmios, principalmente de alguns técnicos que amealhou devido a todo esse carinho e paternalismo tardio, mas era sem dúvida um filme muito mais merecedor do destaque que esses seis prêmios conferem do que
Avatar. Esse é o grande ponto dessa edição do Oscar.
Avatar foi devolvido a seu tamanho original. O de um filme de imenso apelo popular, entretenimento de primeira classe (o que também caracteriza bom cinema, é bom que se diga) e espetáculo visual. O imerecido prêmio de fotografia mostra que o filme de James Cameron está sendo reconhecido pela indústria pelo que é. Não pelo que quer ser.
Essa sábia decisão foi, sem dúvidas o grande acerto do Oscar. Era necessária essa auto afirmação. Reconhecer a excelência, mas dentro de um contexto bem delineado. Conceder os Oscars de filme e direção (este pela primeira vez para uma mulher) para
Guerra ao terror foi providencial para a afirmação do Oscar como recenseador da arte e da produção cinematográficas.
O roteirista Geoffrey Fletcher que venceu, de forma inesperada, por Preciosa valeu um dos momentos mais emocionantes da noite
O joio do trigoAno passado a academia também premiou um filme independente. O abominável
Quem quer ser um milionário? que impressionou a critica americana momentaneamente, mas não agradou a critica internacional e hoje já é bastante contestado (Walter Salles em artigo assinado na Folha deste domingo classifica o filme de Danny Boyle como sério candidato a pior da década). Esse ano, dois filmes independentes que falam de tragédias bem americanas (
Preciosa e
Guerra ao terror) polarizaram as atenções e dividiram o destaque de “filme independente do ano”. Embora não sejam grandes filmes, são muito superiores ao vencedor do Oscar do ano passado e foram produzidos em condições ainda mais adversas. A mensagem que a academia enviou premiando o
underdog do ano passado não foi muito bem digerida por produtores americanos.
Guerra ao terror só se viabilizou depois da chegada do produtor francês Nicolas Chartier. A academia reforça a mensagem em 2010. Ao iluminar (até demais)
Guerra ao terror e reconhecer com muita boa vontade
Preciosa, o Oscar admite: podemos ter errado no timing, mas a mensagem continua valendo.
Jeff Bridges ergue seu Oscar para os céus, lembra de seu pai e sua mãe e pensa: Finalmente!Como nem tudo são flores...
Os melhores filmes do ano fracassaram no Oscar.
Amor sem escalas e
Distrito 9 saíram sem nada e
Bastardos inglórios saiu apenas com o prêmio de coadjuvante para Christoph Waltz. Um prêmio que é menos do filme e mais dele, pelo estado das coisas.
Nas categorias de atuação aliás, 100% justas somente a premiação para os coadjuvantes (Mo´Nique confirmou o favoritismo por
Preciosa). Jeff Bridges ganhou por
Coração louco pelo legado e Sandra Bullock beneficiada pelo conhecido “empurrãozinho” que a academia dá em suas estrelas. Nessa década venceram nessa categoria, Julia Roberts, Reese Whiterspoon, Nicole Kidman (por atuações contestáveis), Halle Berry e Charlize Theron (por atuações merecedoras, mas eram estrelas).
O Oscar continua a relegar surpresas para a categoria de filme estrangeiro. O estupendo
A fita branca acabou perdendo para o bom
O segredo dos seus olhos. Os roteiros vencedores não eram nem de longe os melhores em disputa, mas eram os roteiros dos filmes apreciados pela academia. Para o Oscar, e não se está insinuando que isso seja algo negativo, honestidade prescinde de justiça.