sábado, 24 de março de 2012

Claquete documenta - Anderson Silva: como água

A aparição de Bruce Lee, logo no início do documentário assinado por Pablo Croce, dá a impressão de que Anderson Silva: como água tem objetivos mais nobres e artísticos do que aqueles que se revelarão ao longo da metragem da fita. Em uma fala muito famosa, Lee dá a sua receita para triunfar nas artes marciais. Anderson Silva é o brasileiro mais bem sucedido do UFC, principal liga das artes marciais mistas – esporte que cresce internacionalmente a passos largos.
É justamente servir como vitrine para o UFC, e para uma antecipadíssima luta que se espraia, que o documentário se apresenta. Pura e simplesmente. É muito pouco. Faltou desvendar a técnica impressionante de Anderson – a qual é aludida pelo título emprestado da fala de Lee - ou, ao menos, tatear o homem por trás do mito – objetivo supostamente primário da fita. Anderson Silva: como água se presta, ainda que desajeitadamente, a incrementar um mito pouco conhecido no Brasil. E aí se percebe outro problema do filme. Ao invés de se esforçar em apresentar o MMA a um público leigo, Anderson Silva: como água opta por se dirigir apenas aos fãs do esporte. Ainda que faça da figura de Chael Sonnen, maior oponente de Anderson Silva em um octógono, um vilão algo canastrão, o filme aliena quem não compartilha com aqueles que estão na tela, da adoração pelo MMA.
Esses são problemas estruturais da fita de Pablo Croce que, como se não bastasse, apresenta problemas narrativos também. Há personagens mal aproveitados, como a tia de Anderson que só surge nos créditos finais - e o espectador só fica sabendo que o criou se recorrer a outros meios alheios ao filme, o pupilo do lutador cuja relação é mal dimensionada, entre outros.
O filme se vale de uma abordagem tradicional, desenha Anderson como um herói incompreendido como se não tivesse outra opção na vida que não lutar no UFC, e tenta alcançar uma comunhão com o público que não existe: a cena final em que o lutador sai em uma ambulância para exames é prejudicada por um off em que Anderson exorta sobre como é importante saber apanhar da vida. Não parece ser ele, um bem sucedido lutador profissional que pouco apanha, o melhor parâmetro nesse departamento.
Como veículo publicitário para o UFC e para seu protagonista, Anderson silva: como água funciona relativamente bem - descontadas todas aquelas incorreções já citadas - mas como documentário é pobre em termos dramatúrgicos e míope narrativamente. 

Cantinho do DVD

É comum que filhos de cineastas de prestígio se experimentem no cinema. Jason Reitman, filho do grande Ivan Reitman, é um prodígio mais encantador do que seu pai jamais foi. Sofia Coppola conseguiu criar uma marca totalmente distinta da de seu pai, Francis. Há outros por aí que tentam a sorte como a filha de Michael Mann ou do diretor Ridley Scott, cujo primeiro filme, Sedução, é destaque do Cantinho do DVD desta semana. Ainda que este primeiro trabalho não seja tão animador, deixa transparecer que Jordan Scott é alguém com talento. A conferir.




O primeiro longa metragem da filha do cineasta Ridley Scott, Sedução (Cracks, EUA /ING 2009) sinaliza uma artista pensativa, criativa e disposta a seguir um caminho mais minimalista do que os traçados pelo pai e tio (o também diretor de cinema Tony Scott). Mas o grande problema do primeiro filme de Jordan Scott é a inconsistência da trama adaptada do romance de Sheila Kohler. Scott parece indecisa se faz um filme sobre a descoberta da sexualidade, sobre a repressão característica dos anos 60, ou sobre uma mulher impelida pelas próprias angústias e como, a partir desta condição, ela desenvolveu uma veia tão manipuladora quanto nefasta.
Essa mulher é vivida por Eva Green, que não consegue se desvencilhar da caricatura. A senhora G é uma professora progressista em uma escola para meninas no interior da Inglaterra. O mote é banal, mas o olhar dispensado a ele, não. A senhora G é aquela quem mais cativa e mais provoca admiração em suas alunas, em parte pelas aventuras vividas que vive a contar. Esse equilíbrio fajuto é esmorecido com a chegada de Fiamma (a bela Maria Valverde), uma espanhola de origem aristocrata, cujas razões para ter sido deslocada para aquele lugar pressupõem um infindável conjuntos de boatos maldosos. Culta, de personalidade difícil e bem mais apaixonante do que as triviais alunas dali, Fiamma logo desperta a obsessão da senhora G. É natural supor que essa história não acabará bem. Scott até consegue criar momentos de genuína tensão que permitem comentários mais profundos sobre o drama que desvela. Mas esses momentos são raros, e em geral, não sustentam o filme.
De qualquer maneira, Jordan Scott demonstra talento e futuro. Sedução não chega a entregar o que promete, mas permite um vislumbre de uma diretora que, com as escolhas certas, pode ser grande.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Repercutindo Shame

Claquete, na expectativa de aprofundar a experiência cinematográfica que é Shame, propõe um debate acerca do filme em si e daquilo que ele oferece em matéria de cinema e reflexão



O título de Shame, filme que vem colecionando prêmios e polêmicas mundo afora, é resultado de uma pesquisa feita pelo diretor, roteirista e artista plástico Steve McQueen com viciados em sexo como parte da preparação para seu filme – cuja ideia havia sido apresentada a Michael Fassbender durante as filmagens de Hunger (2008).
Shame, como se poderia supor de um filme que se propõe a falar de sexo e a mostrá-lo despudoradamente no cinema, não é unanimidade. “Shame trafega entre a pornografia e a melancolia com requinte visual”, escreveu Luciano Ramos na crítica que fez do filme para o site Pipoca Moderna. “O filme não procura fazer julgamentos morais e nem fornecer explicações psicanalíticas. Apenas descreve o modo como isso (o vício em sexo) impede que o personagem seja minimamente feliz”, argumenta Ramos em seu texto. O crítico identificou referências a Michelangelo Antonioni na obra e a clássicos do cinema como O último tango em Paris e Noite vazia. Para Ramos, Shame é, antes de tudo, um exercício de estilo: “(McQueen) constrói determinadas cenas de sexo com extremo requinte de iluminação, câmara e montagem. Ou seja, aquilo que para o viciado é desonra e degradação, ao diretor serve de pretexto para exibir o seu virtuosismo audiovisual.”
O Crítico do Estado de São Paulo, Luiz Zanin não vê por essa óptica. O crítico opta por emoldurar o viés político de Shame. “Pela possibilidade de ter tudo, de adquirir tudo, do último gadget ao corpo de quem bem entende, tudo e todos, no fundo, perdem seu valor. Nessa relação histérica com a vida, quanto mais o personagem se satisfaz mais insatisfeito fica. É o grande paradoxo da sociedade desenvolvida, o seu grande vazio, afinal de contas. Shame é filme político, sim senhor”.
Percepção semelhante ostenta a versão nacional da revista Rolling Stone que, na crítica assinada por Érico Fuks, avaliza o olhar de Zanin: “Ao abrir mão do erotismo e intensificar o aspecto psicológico depressivo dos personagens, o diretor traz à luz outra questão. Enquanto o discurso das potências vende uma sociedade cada vez mais conectada, o filme destrói esse paradigma e traz um cenário de pessoas isoladas em sua apatia e suas obsessões. A retratação deste universo pós-moderno, em que o toca-discos de vinil convive ao lado de um notebook, reitera que, diante de uma sobrecarga de informações que incentivam o hedonismo, nunca o mundo passou por tanta falta de identidade”.

"O filme traz um cenário de pessoas isoladas em suas apatias e obsessões", escreveu a revista Rolling Stone brasileira


Mas há quem perceba em Shame um exercício desprovido de maior fundamentação crítica. A prestigiada crítica de cinema Isabela Boscov, da revista Veja, enxerga uma ode fetichista do cineasta a seu ator principal o que, segundo ela, daria nova dimensão até mesmo ao primeiro filme da dupla. A crítica do Jornal do Brasil não chega a ser tão reticente ao filme, mas o percebe sob os mesmo signos. “A montagem de Shame  usa os truques disponíveis no mercado para deixar o espectador microscópico diante das peripécias sexuais de seu protagonista. Estamos ali, parados à porta do quarto, enquanto ele faz sexo selvagem diante da janela, ou sentados à cabeceira da cama, vendo uma prostituta cara se despir ao seu comando. Estamos também nos cantos escuros de uma boate gay e nos balcões dos bares de Nova Iorque, mexendo com a mulher alheia e apanhando junto com o personagem.
O final exasperante deixa o protagonista de joelhos, só e perdido. É uma espécie de vingança do roteiro de Steve McQueen e Abi Morgan. Todo aquele gozo e toda aquela luxúria inevitavelmente cobrariam seu preço, um alto e impagável”.
Esse moralismo aludido pela crítica do Jornal do Brasil não é verificado pelo crítico Cássio Starling Carlos que refuta o argumento aventado pelo texto do Jornal do Brasil: “O tema da compulsão poderia gerar um enésimo tratado moralista sobre o consumismo, a perda do sentimento amoroso, a superficialidade dos vínculos ou a liberdade forçada como último efeito de uma revolução sexual que deu numa plenitude de experiências não raro associadas à sensação de vazio. São questões sugeridas desde o título (vergonha, em português) até o desenho da culpa e do sofrimento seguido pelo roteiro de McQueen e da dramaturga Abi Morgan. Porém, tal como em Hunger, o aprisionamento emerge como uma camada mais profunda do que a ideologia puritana, refletida nas interpretações psicológicas que Shame pode gerar”. O crítico da Folha continua: “Em vez de justificar ou condenar moralmente seu personagem, as escolhas plásticas de McQueen trazem à tona o sentimento de estar preso”.

A estética do sexo: as corajosas opções estéticas de McQueen para seu filme são justamente reconhecidas pela crítica em sua maioria


O crítico do O Globo, Rodrigo Fonseca, endossa a atenção de Cássio Starling Carlos à estética de Shame: “Cada flerte é fotografado por Sean Bobbitt com o máximo de detalhismo, para que o espectador capte cada gesto de tensão de Brandon em sua tentativa de não deixar que o instinto atropele seu autocontrole. Na escolha das cores, sempre esmaecidas, e na direção de arte que valoriza lençóis amassados e suados, McQueen traduz as contradições de seu Werther antirromântico”. Fonseca finaliza: “ a estetização do corpo parece ter alcançado a lapidação plena em Shame”.
Shame é capaz de provocar reações tão adversas e polarizantes quanto a matéria prima da qual se apropria. É, independentemente do juízo que se faça dele, um filme que torna impossível lhe ser indiferente.

terça-feira, 20 de março de 2012

Questões cinematográficas - Meryl Streep e as atrizes que domam o tempo


Depois da conquista do terceiro Oscar parece pertinente falar de Meryl Streep, atriz que favorece diversificados enfoques sobre a arte da interpretação. Considerada por muitos a melhor atriz da história, Streep, aos  62 anos, evidencia um fato até então tomado como raro no cinema: o poder das atrizes veteranas. Há não muito tempo atrás, Nicole Kidman queixou-se, e outras atrizes de mediano talento aventaram lamentos similares, de que Hollywood era ingrato com atrizes acima dos 40 anos. Halle Berry, que ganhou um Oscar com 35 anos, bradou que à medida que uma atriz se aproxima dos 40 anos, mais raros os papéis ficam. Glenn Close, certa vez, fez um diagnóstico mais encorpado. Disse que são melhores os papéis escritos para os homens e que são raros os papéis pensados para atrizes veteranas. Esse “desabafo” ocorreu à época que a atriz debutou em uma série de TV regular (a elogiada Damages). Para Glenn, a tv nadava na contramão do cinema e estaria sendo muito mais generosa com as atrizes veteranas nesse começo de século XXI.

O que Meryl Streep, e a própria Glenn Close, demonstra é que este raciocínio precisa urgentemente ser relativizado. Sim, Hollywood privilegia os atores e propõe papéis masculinos mais intrigantes, desafiadores e envolventes do que o faz para suas atrizes, mas este é um fenômeno, além de perene, concomitante com a oferta de talentos na faixa etária de atores e não é algo que aconteça apenas no cinema americano. Fernanda Montenegro, por exemplo, em suas últimas incursões no cinema não foi agraciada com papéis relevantes dramaticamente. Catherine Deneuve e Isabelle Adjani, musas francesas de outrora, há muito digladiam por alguma relevância artística descolada da nostalgia de suas aparições passadas.
Veteranos em alta: Streep e Christopher Plummer, ambos
vencedores do Oscar em 2012, se cumprimentam 
Meryl Streep, no entanto, reclama para si a vanguarda. Enquanto gente como Nicole Kidman, Meg Ryan e Sandra Bullock se comiseram pela escassez de bom material para atrizes em sua faixa-etária, Meryl Streep não advoga a causa. É inegável que a atriz vive nessa etapa da carreira, seu melhor momento. Nos últimos dez anos, foram cinco indicações ao Oscar e 18 filmes, nos mais variados gêneros, em que foi protagonista de mais da metade deles. Mais impressionante ainda é o fato de que muitos deles se tornaram sucessos de bilheteria indiscutíveis (casos de Simplesmente complicado, Julie & Julia, Mamma mia e O diabo veste Prada) superando os U$ 100 milhões nas bilheterias americanas.
Meryl Streep já goza de unanimidade crítica há algum tempo, mas se descobriu rainha do box Office depois dos 50 anos. Essa condição se deveria mais ao carisma da atriz ou a oferta de bons papéis no mercado? Excelência rima com excelência e Nancy Meyers, roteirista e diretora de Simplesmente complicado, sabia exatamente o perfil de atriz que queria para viver uma mulher que se reinventa na fase madura da vida. Meyers sempre cria personagens femininas fortes para seus filmes e suas heroínas são defendidas por atrizes de talento indiscutível (Kate Winslet, Diane Keaton e Meryl Streep).
Uma rápida olhada na seleção das atrizes postulantes ao Oscar este ano confirma essa teoria. Glenn Close (65 anos) e Viola Davis (47 anos), que competiram com Streep pelo Oscar, já estão na fase veterana da vida e vivem momentos dourados da carreira. Close, por exemplo, foi indicada duplamente ao prêmio do sindicato dos atores em 2012 – por Damages e pelo filme Albert Nobbs. Outras atrizes veteranas estavam bem cotadas para o Oscar, como, por exemplo, Tilda Swinton (51 anos) que é outra a colecionar papéis vistosos no cinema. Quando falta algo que lhe instigue no cinema americano ela participa de projetos europeus; estratégia recentemente utilizada e que fez com que Um sonho de amor, produção italiana recebesse mais destaque na imprensa internacional. A inglesa Kristin Scott Thomas (52 anos) faz uso do mesmo expediente e bate cartão em produções francesas, italianas e inglesas.

Tilda Swinton, Robin Wright e Kristin Scott Thomas: atrizes que buscam desafios no cinema independente ou europeu e mantêm-se artisticamente relevantes


O cinema independente ou a colaboração com cineastas expressivos são estratégias igualmente certeiras que outras atrizes como Helen Mirren (66 anos), Ellen Burstyn (79 anos) e Robin Wright (48 anos) lançam mão.
São atrizes que optam por exercer o controle de suas carreiras da maneira mais ativa possível e não se resignam com os rumos de uma indústria voltada para o lucro e para um público cada vez mais jovem.
Meryl Streep, neste contexto, é mais do que um expoente. É uma religião.  

segunda-feira, 19 de março de 2012

Crítica - Shame

Orgasmo infeliz

Shame (Ingl 2011) apresenta dois personagens auto-destrutivos. Brandon (Michael Fassbender) é um executivo nova-iorquino bem sucedido e viciado em sexo. Sua rotina dedicada exclusivamente à luxúria carnal é interrompida pela chegada da irmã Sissy (Carey Mulligan) que apresenta um outro tipo de promiscuidade que está diretamente relacionada à dependência afetiva e emocional que ela sinaliza. O interessante é que esses personagens, ainda que tenham dificuldade em tomar ciência dos próprios demônios, diagnosticam o outro com alguma desenvoltura.
Steve McQueen realiza um filme com tantos predicados que diagnósticos parecem supérfluos em uma fita que busca, primeiro, salientar as possibilidades nauseantes do excesso de liberdade e, segundo, mas inerente a este contexto, tratar o sexo como vício e compulsão com um enfoque que jamais lhe foi dado.
Brandon é um homem bem sucedido, mas incapaz de se conectar. Aparentemente à vontade com essa condição pós-moderna, e a ambientação em Nova Iorque ganha sentido estupendo nesse aspecto, à medida que o filme avança Brandon vai ganhando consciência de que é prisioneiro de sua liberdade.
McQueen é muito feliz no registro que faz do vício de Brandon. O diretor “deserotiza” sua mise-en-scène e busca dar vivacidade à “fome” de Brandon ao flagrar pedaços de corpos e transformar as cenas de sexo em movimentos mecanizados e sem muita graça. A fotografia saturada, por vezes escura, também inibe alguma sensualidade que pudesse erigir.
Engana-se, porém, quem pensa que McQueen cede ao moralismo. Ele desvia-se teimosamente dele. A cena final, inclusive, demonstra isso. Depois de percorrer um doloroso pathos, Brandon é confrontado novamente com a “droga” que tanto lhe consome e somos negados a qualquer indicação de como reagirá após sua recém-adquirida consciência do mal que lhe acomete.

Brandon, vivido soberbamente por Michael Fassbender, em raro momento de vulnerabilidade em Shame


Antes desse final, testemunhamos Brandon ter uma “overdose”. Sua necessidade pelo orgasmo é tanta que ele até mesmo cede à experimentação homossexual em um clube gay, flerta perigosamente com a namorada de um valentão e faz sexo com duas profissionais. O momento em que atinge o gozo é, também, aquele em que se evidencia o suplício de sua existência. A face de Fassbender se transfigura na imagem da tristeza de tal forma que é impossível não se sentir atordoado com tamanha angústia.
Shame é um filme que depende muito de seus atores. Como se constrói sobre aquilo que eles podem sugerir, através de sentimentos retidos, e mostrar, através de corpos expostos, a força do filme reside na capacidade de seus protagonistas em articular personagens tão desarticulados.
Desse ponto de vista, a nudez de Fassbander, ator que se permite ser contemplado até mesmo urinando, é providencial para o sentido que Shame objetiva construir. O mesmo pode se dizer da primeira vez que Carey Mulligan surge em cena, nua. Era necessário para pavimentar a natureza da relação conturbada e de intimidade fragmentada entre Brandon e sua irmã.
McQueen é hábil ao expor seu protagonista, o que para alguns pode ser tomado como fetiche. Desde sua ansiedade inescrupulosa – que pode ser vista no olhar penetrante que dispensa à paqueras em geral - ou na falta de tato com uma mulher que inadvertidamente lhe desperta algum interesse; e como essa inadequação afetará sua virilidade, para que depois ele a recupere em mais um desmando de sexo sem intimidade, pelo orgasmo puro e simples.
É inegável que Michael Fassbender, mais do que o sustentáculo de Shame, é sua alma. Ator incrivelmente charmoso e sensual, ele precisa dar vida a um homem não muito charmoso – ainda que se vista maravilhosamente bem – e que exiba fragilidade e virilidade em sintonia perceptível. Só não é um desafio maior do que dar viço ao caos emocional de Brandon ou despir-se por completo em frente a câmeras curiosas de sua intimidade física.
É, enfim, um trabalho robusto que destaca-se pela ousadia, coragem e capacidade de prospecção.
Shame, em última instância, é um filme que busca provocar no público uma reflexão mais ampla do que a mera discussão em torno de como o sexo é percebido moral e socialmente em nosso tempo. Justamente por isso, o filme se nega a desvendar o passado potencialmente traumático dos dois personagens centrais e teorizar sobre seus efeitos no presente deles. Essa ruptura com o modus operandi vigente na dramaturgia em geral, demonstra que McQueen está plenamente consciente dos efeitos de seu filme. Passa por essa condição, a opção de não oferecer a sua audiência um desfecho convencional.

domingo, 18 de março de 2012

Insight

O jeito Denzel de fazer as coisas

Já há algum tempo Denzel Washington adentrou àquela galeria de atores consagrados que vivem decalques de si mesmos nos filmes. Jack Nicholson, Robert De Niro e Al Pacino constituem a trinca mais reconhecível desses honoráveis intérpretes. Acontece que, diferentemente desses atores, Washington faz questão de deixar tudo muito claro para um público que o segue sem amarras e enxerga no gênero de ação uma plataforma cômoda para exercer essa estratégia. Muitos astros dos anos 80 e 90 decidiram não se reinventar nos anos 00. A opção é reforçada por um viés caricatural inerente às escolhas da maioria deles. Além de Washington, outro vencedor do Oscar cada vez mais frequente no mesmo papel é Nicolas Cage. Mel Gibson, John Travolta e Bruce Willis – em escalas diferentes – seguiram o mesmo raciocínio. O que, porém, diferencia Washington de todos esses é a qualidade que o ator imprime em suas caracterizações.  Não há um filme sequer em que Washington esteja mal. Ainda que interprete variações de sua persona na tela. O diretor Carl Franklin, que já o dirigiu duas vezes, disse que seu Por um triz (2002) – que marcou a segunda colaboração entre ambos - seria um filme convencional não fosse por Washington. “É tudo ele", disse à época, revelando que foi o ator quem dimensionou dramaticamente tanto seu personagem quanto os conflitos propostos na trama. Tony Scott, por sua vez, diz preferir trabalhar com Washington (já foram cinco trabalhos) porque “todo o processo é muito dinâmico e Denzel sabe exatamente como eu penso. Não há ninguém melhor do que ele nesse ramo”.
Washington sempre significou confiabilidade, mesmo quando muito pouco é esperado. Caso de filmes como Incontrolável (2010), O livro de Eli (2010), ou do recente Protegendo o inimigo – desde sexta-feira em cartaz no país.

Denzel em cena de Por um triz, thriller que melhora muito em virtude de sua presença... 

... e no novo Protegendo o inimigo, em que mede forças com Ryan Reynolds em um filme de espionagem


No início da carreira, o ator estava mais interessado no ativismo racial – o discurso dele ainda é pautado por essa agenda – mas suas escolhas como ator já se desvencilharam dela. Filmes como Malcom X (1992) e Um grito de liberdade (1988) não parecem mais pertinentes à fase da carreira que vive o ator. Depois de conquistar dois Oscars – o único negro a ostentar tal façanha – ele tem dito que está interessado em fazer comédias. Seria um desafio. O gênero está mesmo omisso na filmografia de Washington. Denzel parece querer fustigar os teóricos de que ele é bom lendo até mesmo lista telefônica.

Musas Claquete - Natalie Portman



Por que votar em Natalie?
É linda
Venceu um Oscar
Como foi atriz mirim, cresceu em frente aos nossos olhos
É pop e também é cult


Principais filmes:
O profissional (1994)
Todos dizem eu te amo (1996)
Star Wars: episódio I – ameaça fantasma (1999)
Cold Mountain (2003)
Closer-perto demais (2004)
Free zone (2005)
V de vingança (2005)
Um beijo roubado (2007)
A outra (2008)
Cisne negro (2010)
Sexo sem compromisso (2011)

Natalie mexe com Clive na cena mais explosiva de Closer-perto demais

Personagem icônica:
Nina em Cisne negro
Momento mais sexy:
O strip-tease de Closer
Fãs declarados: 
Jude Law, Clive Owen, Julia Roberts, Marion Cottilard, George Clooney, Darren Aronofsky, Scarlett Johansson, Anette Benning, Amos Gitai, Colin Firth, Robert De Niro, Jean Reno, David Letterman, Tobey Maguire, Jake Gynllenhaal e Robert Pattinson.

Ela em uma frase:
“Eu basicamente tenho um corpo de menino”

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A votação está em vigor e segue até o dia 30/03/2012. Não é o BBB, mas vote quantas vezes quiser! Acompanhe atualizações a respeito da votação para Musa do blog na fan page de Claquete no Facebook.

sábado, 17 de março de 2012

Cantinho do DVD

O destaque da seção Cantinho do DVD desta semana é um filme de gangster um tanto anticlimático. O pior dos pecados quer ser, também, filme de arte. Mas o diretor Rowan Joffé não é Martin Scorsese ou Brian De Palma e isso fica bem claro conforme a trama protagonizada pelo ascendente Sam Riley - que em breve será visto em On the road de Walter Salles - avança. Leia a crítica a seguir:




Crítica
Os filmes de gangster, na demasia com que são produzidos, envolvem uma gramática cinematográfica muito particular. São produções que falam sobre inadequação, ambição, impossibilidades e outras questões humanas que se cristalizam em metáforas tão bem acampadas por cineastas como Martin Scorsese, John Huston, Francis Ford Coppola, Sidney Lumet e Brian de Palma. Rowan Joffé, filho do cineasta Roland Joffé não é um desses cineastas. Por mais que O pior dos pecados (Brighton Rock, ING/EUA 2010) tenha fonte fidedigna, o romance de Graham Greene, não consegue se materializar em uma obra pulsante e convicta – ainda que tenha seus momentos. A impressão que fica é que Joffé até é um roteirista talentoso, é dele o texto do primoroso Um homem misterioso, mas ainda se mostra um diretor oscilante. O que não deixa de ser natural, já que O pior dos pecados ainda é seu segundo longa-metragem.
Joffé busca amparar-se na atmosfera setentista do cinema americano. Dos planos às falas dos personagens, a despeito da trama ser ambientada nos anos 60, percebe-se que o diretor constrói seu filme em referências nem sempre bem fundamentadas visualmente ou dramaticamente.  
Pinkie (Sam Riley) é um gangster que tenta subir na vida depois da morte do líder do grupo. Mas a influência de seu grupo na cidade está cada vez menor e Pinkie ainda precisa administrar uma testemunha que o viu matar um homem. Não fica muito bem estipulado o por que Pinkie se envolve com a garçonete Rosie (Andrea Riseborough). Já que matar vai se tornando algo cada vez mais banal para ele. Joffé não consegue convencer seu espectador do thriller que realiza. Ainda que a trama ganhe fôlego com sutilezas impensadas no terceiro ato, O pior dos pecados se mostra um filme bem irregular, com atores pouco convincentes (Sam Riley, em particular, é uma decepção) e com uma proposição mal ajambrada. Não funciona como thriller, como filme de gangster e muito menos como drama. Rosie, no entanto, é uma personagem bem construída. É sua jornada de abnegação que vale ser observada no filme. E qualquer menção positiva a O pior dos pecados (que conta com uma divertida ponta de Andy Serkis) se deve a essa personagem.

Crítica - Motoqueiro fantasma: espírito de vingança

Para o atoleiro e sem freio!

Quando um filme é classificado por seus realizadores como uma espécie de sequência ou refilmagem do original, desconfie! O que Mark Neveldine e Brian Taylor, responsáveis por fitas bacaninhas (desde que temperadas com a boa vontade do espectador) como Adrenalina e Gamer, fazem com essa “continuação de mentirinha” de Motoqueiro fantasma (fracasso homérico de público de 2007) não é uma coisa nem outra. É algo bem menos passível de adjetivação.
A favor do primeiro filme, solenemente ignorado nessa “sequência”, estavam Peter Fonda tirando onda de capeta, Eva Mendes como a “Maria motoca” de Cage e uma expectativa positiva em relação aos prospectos do filme. Depois do fracasso era compreensível que a saga demoníaca de Johnny Blaze fosse aposentada terminantemente nos cinemas. Mas eis que surge esse Espírito de vingança com uma pegada mais dark, segundo Cage revelou em entrevistas promocionais. Fica na bravata. O filme é chato. Não há cenas de ação cativantes, o 3D não diz a que veio (além de amealhar uns trocados a mais nas bilheterias) e Nicolas Cage parece mais “embotoxado” do que nunca.
A trama é bem óbvia. Uma irmandade de monges precisa reaver o filho do Diabo e um desses monges (um beberrão com jeito para armas vivido por Idris Elba) vê na figura de Blaze – ainda em conflito com seu demônio interior – a pessoa certa para o trabalho.
Os efeitos especiais até que não fazem vergonha, mas mereciam um filme com desenvolvimento melhor. Até Christopher Lambert, outro ressuscitado, surge como um monge com cacoetes de ninja. Acreditem: se um terceiro motoqueiro fantasma vier a acontecer, é porque Hollywood terá aceitado seu destino cruel.