Qual é o seu filme preferido de Eduardo Coutinho? Só
cinéfilos de raiz, comprometidos com o significado de cinefilia, poderão
responder essa pergunta com alguma propriedade. Eduardo Coutinho, embora
louvado como um dos maiores cineastas brasileiros, era pouco conhecido do
público, ainda que fizesse filmes que se dedicassem essencialmente a entender o
Brasil e os brasileiros.
A trágica morte no último domingo (2), aos 80 anos,
assassinado pelas mãos do filho esquizofrênico interrompeu um ciclo de
reinvenção iniciado em Jogo de cena (2007), rigorosamente o melhor documentário
de todos os tempos e justamente aquele que desconstrói o mito do documentário
como perseguidor, ou fiador, da verdade. Moscou (2009) e As canções (2011) são
buscas na arte da essência humana, romântica, atemporal e cheia de significados
e significantes.
Eduardo Coutinho morreu no mesmo dia de Philip Seymour
Hoffman e isso impôs ao cineasta, no momento de sua morte, o mesmo tratamento
que recebeu em vida.
Obscurecido por alguém que brilhou mais no cinema, mas que
não construiu para o cinema de seu país a representatividade erguida por
Coutinho. Não há, que se tenha registro, documentarista mais habilidoso do que
Coutinho no mundo. Essa verdade precisa ser dita, mesmo que fora de seu tempo.
Sua compreensão do cinema, o casamento que insinuava com o
fazer jornalístico, a ideia de lançar teorias para testá-las na prática e o
respeito temperado por curiosidade com que peitava o passado, mesmo o seu
próprio tão bem evocado no documentário Cabra marcado para morrer (1984),
conferiram a Eduardo Coutinho a alcunha de homem que gostava de ouvir. Ele
gostava, de fato, de ouvir. Mas o que precisa ser reconhecido é que sabia muito
bem o que fazer com o que ouvia.
Antes de embarcar na viagem do documentário, Coutinho teve
experiências como roteirista, jornalista e dirigiu até mesmo ficções (média e
longas-metragens). Tudo isso, no
entanto, visto pela ótica da revisão histórica parece convergir para a apoteose
de sua carreira como documentarista. O Brasil, nossa memória afetiva, a arte, a
política e o próprio cinema foram discutidos por Coutinho em seus filmes que
invariavelmente partiam de pontos simples e se complexavam ao ponto de
abarcarem o mundo nos conflitos reais que articulavam tão bem.
Assim como já lhe aconteceu no passado, Coutinho será
redescoberto e viverá por meio da força de seu cinema. Completo. Absurdo.
Poderoso. Afinal de contas, no desatino da vida, tanto nos mostrou Coutinho, o
cinema é das poucas coisas capaz de articular algum sentido.








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