domingo, 9 de fevereiro de 2014

Insight - Cabra marcado para viver



Qual é o seu filme preferido de Eduardo Coutinho? Só cinéfilos de raiz, comprometidos com o significado de cinefilia, poderão responder essa pergunta com alguma propriedade. Eduardo Coutinho, embora louvado como um dos maiores cineastas brasileiros, era pouco conhecido do público, ainda que fizesse filmes que se dedicassem essencialmente a entender o Brasil e os brasileiros.
A trágica morte no último domingo (2), aos 80 anos, assassinado pelas mãos do filho esquizofrênico interrompeu um ciclo de reinvenção iniciado em Jogo de cena (2007), rigorosamente o melhor documentário de todos os tempos e justamente aquele que desconstrói o mito do documentário como perseguidor, ou fiador, da verdade. Moscou (2009) e As canções (2011) são buscas na arte da essência humana, romântica, atemporal e cheia de significados e significantes.
Eduardo Coutinho morreu no mesmo dia de Philip Seymour Hoffman e isso impôs ao cineasta, no momento de sua morte, o mesmo tratamento que recebeu em vida. Obscurecido por alguém que brilhou mais no cinema, mas que não construiu para o cinema de seu país a representatividade erguida por Coutinho. Não há, que se tenha registro, documentarista mais habilidoso do que Coutinho no mundo. Essa verdade precisa ser dita, mesmo que fora de seu tempo.
Sua compreensão do cinema, o casamento que insinuava com o fazer jornalístico, a ideia de lançar teorias para testá-las na prática e o respeito temperado por curiosidade com que peitava o passado, mesmo o seu próprio tão bem evocado no documentário Cabra marcado para morrer (1984), conferiram a Eduardo Coutinho a alcunha de homem que gostava de ouvir. Ele gostava, de fato, de ouvir. Mas o que precisa ser reconhecido é que sabia muito bem o que fazer com o que ouvia.
Antes de embarcar na viagem do documentário, Coutinho teve experiências como roteirista, jornalista e dirigiu até mesmo ficções (média e longas-metragens).  Tudo isso, no entanto, visto pela ótica da revisão histórica parece convergir para a apoteose de sua carreira como documentarista. O Brasil, nossa memória afetiva, a arte, a política e o próprio cinema foram discutidos por Coutinho em seus filmes que invariavelmente partiam de pontos simples e se complexavam ao ponto de abarcarem o mundo nos conflitos reais que articulavam tão bem.

Assim como já lhe aconteceu no passado, Coutinho será redescoberto e viverá por meio da força de seu cinema. Completo. Absurdo. Poderoso. Afinal de contas, no desatino da vida, tanto nos mostrou Coutinho, o cinema é das poucas coisas capaz de articular algum sentido. 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Semana Philip Seymour Hoffman em Claquete - As dez melhores atuações de Philip Seymour Hoffman

Já vamos deixando claro que muita coisa boa ficou de fora. Afinal de contas, estamos falando de Philip Seymour Hoffman, que como prova essa semana dedicada a ele em Claquete e que se finda com essa postagem, era um ator para lá de especial. Suas performances em filmes como Magnólia, A última noite e Sinédoque Nova Iorque, para citar algumas, ficaram de fora de uma lista acima de qualquer suspeita.



10 - Paul Zara em Tudo pelo poder (2012), de George Clooney
Como um experiente consultor político que se vê enredado em uma conspiração que envolve seu principal escudeiro e a campanha rival, Hoffman brilha com pouco tempo em cena, mas com a intensidade e gravidade que tão bem lhe precedem.

9 – Padre Flynn em Dúvida (2008), de John Patrick Shanley
Como um padre bondoso que subitamente se vê na condição de suspeito de molestar uma criança, Hoffman empreende uma de suas composições mais sutis. Ainda que seja suficientemente enérgico quando divide a cena com Meryl Streep, é pela candura de sua fala e pela força de seu olhar que essa performance indicada ao Oscar se distingue.

8 – Jon Savage em A família Savage (2007), de Tamara Jenkis
Como um professor de teatro frustrado, Hoffman vive o personagem mais parecido com ele, segundo disse o próprio à revista Volture em uma entrevista em 2010. Ele e a irmã precisam enfrentar o passado e algumas de suas máculas quando o pai adoece gravemente.

7 – Allen em Felicidade (1998), de Todd Solondz
Como um homem amargurado, absolutamente introspectivo e com taras sexuais inusitadas, Hoffman humaniza um personagem banhado em complexidade nesse difícil filme de Solondz. É um trabalho esmerado na intuição de um ator cheio de recursos e sem medo algum em desnudar-se dramaticamente.

6 – Andy em Antes que o Diabo saiba que você está morto (2007), de Sidney Lumet
Como um homem viciado em heroína que para sustentar o vício resolve orquestrar um assalto contra a joalheria da mãe e alicia o irmão para isso, Hoffman tem um dos momentos mais geniais de sua carreira fazendo um personagem amoral, extremo e com demônios mais sujos e vis do que qualquer outro que tenha encarnado. A forma como domina a cena, expondo a convivência de fragilidade e perversidade em uma mesma pessoa, até hoje impressiona.

5 – Scotty J. em Boggie nights – prazer sem limites (1997), de Paul Thomas Anderson
O papel que lhe aferiu destaque é uma prova imensa de seu talento. Um legítimo perdedor que Hoffman consegue fazer com que nos importemos. O contra-regra afetado apaixonado por um astro do pornô em ascensão é um dos muitos personagens tacanhos e ligeiramente perturbados, que o ator adensou com humanidade e sensibilidade.

4 – Rusty em Ninguém é perfeito (2000), de Joel Schumacher
Como um travesti que aceita cuidar do vizinho homofóbico, Hoffman dá mais um show de versatilidade criando um tipo apaixonante e incrivelmente forte, ainda que de fragilidade cativante. Faz De Niro desaparecer ante o gigantismo de sua interpretação.

3 – Truman Capote em Capote (2005), de Bennett Miller
O papel que lhe deu o Oscar é também aquele em que Hoffman provou de uma vez por todas que não havia nada que não pudesse fazer no cinema. Do timbre de voz, incrivelmente fino, aos trejeitos mais afetados, passando pelo egocentrismo doído, Hoffman é Capote. Por completo. Uma análise que percorre a ambição do criador do new journalism e encontra em sua alma agudamente aflita respostas que talvez nenhum outro ator fosse capaz de peneirar. Esse talvez tenha sido o último filme que recebeu uma indicação ao Oscar de melhor filme por mérito única e exclusivamente do protagonista.

2 – Lancaster Dodd em O mestre (2012), de Paul Thomas Anderson
Com vibração e potência, Hoffman veste a essência de um homem que se crê um profeta, um visionário e alguém capaz de tornar o mundo melhor. Um homem que também tem luxúria. Em O mestre, Hoffman transcende o campo dos mortais e chega ao patamar dos grandes intérpretes que a humanidade já possuiu.

1 – Gust Avrakotos em Jogos do poder (2007), de Mike Nichols
Talvez este não seja o melhor filme de Hoffman, ainda que seja um excelente filme, mas o ator é a lembrança mais vívida, lúcida e harmoniosa dessa comédia dramática com refinado senso crítico. Como o agente da CIA sem talento nenhum para a política e que precisa usar dela para ajudar um congressista a costurar um acordo improvável entre Israel, Irã e Arábia Saudita, Hoffman é cinema puro, extasiante e clássico, em cena.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Semana Philip Seymour Hoffman em Claquete - Um coadjuvante brilhante

Que Philip Seymour Hoffman era um grande ator, pouca gente duvida. O que parece angariar ainda mais convicção era sua capacidade de roubar cenas em filmes que apostavam em outros atores ou que não dependiam, ou intentavam depender, de seus predicados como intérprete.
Philip Seymour Hoffman teve poucos protagonistas em sua carreira porque era um coadjuvante excepcional. Do tipo que elevava o nível de um filme a despeito de um protagonista oscilante ou de uma trama hermética ou pouca atraente. Filmes como O mestre e Piratas do rock podem ser inseridos, respectivamente, nesses eixos.
Da presença marcante em filmes como Boogie nights – prazer sem limites (1997) e O talentoso Ripley (1999), em que era mais secundário do que coadjuvante, passando pelos papéis icônicos em filmes como Dúvida (2008) e Missão impossível 3 (2006), Hoffman soube sintetizar nuanças e detalhes dos personagens em desenhos sutis, mas intensos, de cada um deles.
Esse talento para a prospecção interpretativa no interior de cada personagem foi saudada pelo diretor Cameron Crowe em recente manifestação para homenagear o ator sobre sua intervenção para melhorar cena capital do filme Quase famosos, que colocou Crowe no mapa de uma Hollywood cool e descolada, atentou para esse detalhe.
Hoffman sabia se destacar em elencos primorosos, como os que integrou nos filmes Tudo pelo poder (2011), Could Mountain (2003), Dragão vermelho (2002) e Jogos do poder (2007).
Esse talento para fazer muito com pouco talvez seja o elemento biográfico de sua vida como ator que mais prospere na memória da cinefilia.


Cinco filmes que Philip Seymour Hoffman roubou...

Dúvida (2008)
Hoffman mede forças com Meryl Streep em um dos filmes mais inteligentes e sagazes dos últimos anos. Na figura complexa e intrigante do padre Flynn, o ator esconde tanto quanto revela e fascina em cada momento que surge em cena.


Jogos do poder (2007)
Se existe um personagem espetacular na carreira de Hoffman é este aqui. O ator se diverte, sem deixar de falar sério, na pele de um agente da CIA que faz os serviços (indelicadamente burocráticos) que ninguém quer fazer. Tom Hanks, a esta altura com dois Oscars na bagagem, parece um novato com Hoffman em cena.


Quero ficar com Polly (2003)
Essa comédia simpática cresce de tamanho, com toda a malícia possível e imaginável, sempre que Hoffman está em cena. O timing cômico é absurdo, assim como o testamento de que ali estava um ator que metade da Hollywood atual jamais conseguirá ser e a outra metade, como Ben Stiller, não se importava em aplaudir.



Missão impossível 3 (2006)
Frio, quase impassível e, de repente, explosivo. Hoffman criou o melhor vilão que um filme de James Bond jamais terá. Essa, Tom Cruise, que desapareceu ante Hoffman, pode até comemorar.


Embriagado de amor (2002)
Esse talvez fosse fácil. Afinal de contas, Adam Sandler era o protagonista. Mas o papel suculento, o chapa Paul Thomas Anderson reservou para Hoffman que cravou no imaginário cinéfilo a melhor “cena de cala a boca” da história do cinema.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Semana Philip Seymour Hoffman em Claquete - o depoimento de um fã



Quando vi Perfume de mulher (1992), estava concentrado em Al Pacino. Ator de credenciais invejáveis e notórias e que, afinal, havia ganhado seu Oscar pelo papel. Tinha alguma noção de quem era Chris O`Donnell e fui hipnotizado pela cena do tango, reconhecidamente um dos grandes momentos sem diálogos da história do cinema.
Mas a figura detestável do antagonista de O´Donnell me chamou a atenção. Apenas alguns anos mais tarde, em uma das muitas vezes que revi Perfume de mulher, liguei o nome de Phillip Seymour Hoffman àquela figura.
Quando o fiz, já admirava muito o ator que, como tantos outros, somente descobri em Boogie Nights – prazer sem limites, um dos filmes justificadamente mais festejados de 1997. Naquele momento, Hoffman já era um ator que tinha minha atenção, mas ainda não havia conquistado minha adoração.
É um tanto como percorrer o alfabeto de A a Z discorrer sobre como Philip Seymour Hoffman fez isso, mas a homenagem deste artigo não se legitimaria se me furtasse a esse pequeno exercício de nostalgia entristecida. Suas performances intuitivas, oxigenadas e sempre significativas no entorno do filme colocavam Hoffman no meu ultra criterioso grupo de atores interessantes. O conjunto de filmes Magnólia (1999), Ninguém é perfeito (2000), um favorito discreto, O talentoso Ripley (1999), Quase famosos (2000) e A última noite (2002) me impactaram, mas ainda assim – no alvorecer do novo milênio – não colocava Philip Seymour Hoffman no panteão dos meus ídolos imortais. A Heath Ledger, para citar outra trágica perda recente do cinema, bastou o desempenho em O segredo de Brokeback Mountain em 2005 para que fosse elevado a esse distinto, gosto de pensar, panteão. Foi mais ou menos na mesma época que Hoffman me seduziu de vez. Se fosse membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood em 2006, e ainda não sou, teria votado em Ledger naquele ano (assim como teria votado em Ledger em 2009 quando novamente se enfrentaram no Oscar), mas tinha consciência do trabalho fenomenal e maior do que adjetivos podem tangenciar de Hoffman em Capote.  Ali, “smoothly” (adjetivo em inglês que une um pouco de "suavemente" e "sutilmente" do nosso português) Hoffman começou a me transformar em tiete. Em 2008, não só o considerava o maior ator americano de sua geração, como melhor ator em atividade no cinema americano. E ouvia das pessoas que “um filme com Hoffman vale a pena mesmo que ruim”. Robert De Niro perdeu esse paradigma há algum tempo. Jack Nicholson talvez tenha abdicado dele, mas Hoffman – por mais febris que fossem seus demônios – lutava por ele com a garra dos intérpretes incansáveis, desalmados no sentido de impiedosos na dominação de seu ofício.
Eu teria o indicado ao Oscar mais vezes. Merecia por Sinédoque Nova Iorque (2008), merecia por A família Savage (2007), merecia por Antes que o Diabo saiba que você está morto (2007), merecia por Tudo pelo poder (2011) e merecia, sim, por Quero ficar com Polly (2003) – seu talento para a comédia talvez comece a ser revisto, e mais apreciado, no futuro próximo. Hoffman merece um busto em toda e qualquer escola de cinema que se preze.
Até Barkhad Abdi (olho nele!) no ano passado em Capitão Phillips, quem havia roubado a cena de Tom Hanks com tanto gosto quanto Hoffman em Jogos de poder (2007)? Hoffman ainda o fez sorrindo, sem perder de vista o tom grave do personagem.
Gigante da atuação, tão camaleônico quanto sensível à verdade de cada personagem, Hoffman sabia ser o que os americanos chamam de “character actor”, assim como sabia ser a bússola de filmes que demandavam um ator maior que a vida (o que ele foi e para sempre será).
Essa versatilidade rendeu a admiração de uma comunidade cética, egocentrada e que geralmente ignora todos aqueles que não são astros.
Philip Seymour Hoffman se foi, mas como o clichê traz conforto o abraço com toda a resignação de um fã brasileiro tão imemorial como tantos outros espalhados pelo mundo ao dizer que, de alguma maneira, ele permanecerá conosco.

Por Reinaldo Matheus Glioche

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Semana Philip Seymour Hoffman em Claquete - Momento Claquete #38

O ator em uma de suas últimas fotos, talvez a última, tirada no último dia do festival de Sundance 2014 

Ao lado do cineasta Anton Corbijn, de Rachel McAdams e Willen Dafoe, de A most wanted man, em Sundance 

 Hoffman em foto dos tempos de escola

Mike Nichols
“Sem palavras para isso. Ele era bom demais e estamos todos devastados”.

Nicole Kidman
“Um dos maiores atores de todos os tempos. He tirava nosso fôlego”.

Robert De Niro
“Não consigo parar de pensar que isso não deveria ter acontecido”



Contracenando com George Clooney no excelente Tudo pelo poder... 

... e promovendo o mesmo filme ao lado de Clooney no festival de Veneza de 2011 


Beau Willimon
“Um titã no teatro e no cinema. Somos todos abençoados dele ter compartilhado o talento dele conosco”.

Gwyneth Paltorw
“Philip era um gênio de verdade”

Aaron Paul
“Sua ausência será sentida para todo o sempre”

Nos bastidores de Jogos do poder com Mike Nichols, Tom Hanks e Julia Roberts

Ao lado de Robert De Niro no pouco visto Ninguém é perfeito

Novamente em Veneza, onde dividiu a Copa Volpi de melhor ator com  Joaquin Phoenix por O mestre

Kevin Spacey
"Uma tragédia perder um ator esplendidamente talentoso como Philip Seymour Hoffman. Uma impronunciável perda para o cinema, teatro e todos que o conheceram”

Anna Kendrick
“Palavras falham em descrever sua vida e nossa perda”

James L. Brooks
“Cada vez que ele aparecia em uma cena o seu cérebro era elevado a um nível mais alto”

Ao lado de Tom Hanks e Amy Adams, atriz com quem contracenou em cinco filmes 

Imagem compartilhada pela atriz Gwyneth Paltrow em seu Instagram. A foto foi tirada durante as filmagens de O talentoso Ripley (1999), em que ambos dividiram a cena

Simplesmente Hoffman... 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Semana Philip Seymour Hoffman em Claquete- Um ator maior que a vida


Obituário de estrela de cinema, ou da música, sempre empurra para nós mortais uma camada extra de fragilidade. É como se fôssemos lembrados com carga extra de escárnio por alguma conspiração divina de que a vida é um suspiro finito.
Philip Seymour Hoffman não era exatamente um astro. Era doce, gentil e amigável, como lembraram muitos dos que o conheceram e, assim como todos no planeta se viram chocados com sua trágica e precoce morte.
A estreia no cinema não foi exatamente em Perfume de mulher (1992), mas foi ali, como antagonista do personagem de Chris O`Donnell, que Hoffman chamou atenção. 
No cinema foram pouco mais de 60 filmes em uma carreira com pouco mais de 20 anos. Se em Perfume de mulher, Hoffman já se fazia notar, sob as ordens de Paul Thomas Anderson atingiu outro patamar.
A primeira colaboração entre eles foi em Jogada de risco (1996), estreia de Anderson no cinema. Ao todo fariam cinco filmes (Boogie Nights – prazer sem limites, Magnólia, Embriagado de amor e O mestre).
Hoffman conquistava a admiração de quem quer que com ele trabalhasse. Mike Nichols, por exemplo, que o dirigiu no excelente Jogos do poder (2007) o chamou para ser Willy Loman na adaptação para a Broadway do clássico A morte do caixeiro viajante. O teatro, aliás, configurava a paixão maior de Hoffman.
No dia 11 de agosto de 2009, Claquete, um blog ainda incipiente, publicou o perfil de um ator fascinante sob o título de “O homem de mil faces”. A capacidade camaleônica de Hoffman não só o precedia como intérprete incomum e virtuoso como o distinguia na seara hollywoodiana. Presença enobrecedora em blockbusters da estirpe de Jogos vorazes ou redentora em filmes independentes como A família Savage, Hoffman é dos poucos que se adequava à expressão de ator maior que a vida.
Era, também, um dos poucos capazes de fazer frente ao recorde que Jack Nicholson ostenta entre os atores em matéria de número de indicações ao Oscar. A precoce morte impede que testemunhemos esse embate entre figuras, cada qual a seu modo, apaixonantes. Hoffman se vai com quatro indicações em um espaço de oito anos. 
Em 2009, no referido perfil, aventou-se: “É prazeroso assistir Hoffman em cena. Ator capaz de hipnotizar uma platéias das mais dispares. Cheio de recursos e extremamente inventivo, Hoffman não parece se intimidar com desafios. Está sempre propenso a conquistar mais e enfileirar conquistas profissionais. Merece ser acompanhado de perto por quem gosta de cinema”.
Quis o destino, a quem credita ao destino arroubos como esse, que esse prazer fosse abreviado. A contribuição de Hoffman para o cinema, no entanto, é perene.

Ao longo desta semana, Philip Seymour Hoffman será homenageado aqui em Claquete. Pelo ator sublime que foi e pelo ser humano digno e amável que será lembrado pelas emoções e satisfação genuínas que proporcionou a quem verdadeiramente ama cinema. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Semana Philip Seymour Hoffman em Claquete


O mundo foi pego de surpresa pela morte de um verdadeiro gênio do cinema. Philip Seymour Hoffman foi encontrado morto em seu apartamento em Nova Iorque no último domingo (02). Ele parte aos 46 anos e deixa, além da viúva, a estilista Mimi O´Donnell, três filhos ainda na infância.
Ator de talento incomensurável, Hoffman vinha lutando contra um vício nefasto em heroína. Em 2006, havia admitido ser viciado “em qualquer coisa” em entrevista ao programa 60 minutes. À época, no entanto, declarava sobriedade. No primeiro semestre do ano passado, internou-se em uma clínica de reabilitação e ao término do programa, declarou novamente estar sóbrio.
Em janeiro deste ano, compareceu ao festival de Sundance onde estreou dois filmes. A most wanted man e God´s pocket. Além da participação nas sequências da franquia Jogos vorazes, Hoffman deixa inconcluída sua participação na série Happyish do canal americano Showtime.
Em homenagem a esse titã do cinema, que se foi de maneira tão trágica quanto precoce, Claquete pausa sua cobertura natural do cotidiano do cinema e antecipa uma novidade do mês de março: ciclos dedicados a artistas que fazem o cinema. Esta é a primeira, e infelizmente triste, postagem da Semana Philip Seymour Hoffman em Claquete.
A carreira e a trajetória do astro ocuparão a agenda do blog nos próximos dias. Além das postagens que se seguirão nos próximos sete dias, Hoffman será para sempre lembrado no blog. Se o cinema tange humanidade, é graças a figuras como Hoffman. Esse cinema, humanizado, verte lágrimas pela partida de um de seus mais talentosos artesãos.

A consagração no Oscar

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Insight: Repercutindo Ninfomaníaca - volume I



Lars Von Trier quer ou não quer falar de sexo? Lá pelas tantas de Ninfomaníaca – volume I, o espectador hesita a respeito das reais pretensões do diretor. Mas não foi apenas o público que ensimesmou-se com este primeiro volume do díptico do dinamarquês. A crítica também se dividiu e o pouco unânime Von Trier, sob o bastião da publicidade recorde amealhada por sua obra, foi mais polarizador ainda. O filósofo Luiz Felipe Pondé apreciou este primeiro volume. Para ele, Von Trier, sem piedade, provoca com um questionamento perturbador: “Há sentido na vida, no universo, no corpo, no desejo? Suas protagonistas sofrem na carne a resposta aparentemente negativa a esta pergunta”. Pondé continua: “sua arte se move em dois níveis: o radicalmente contemporâneo e o absolutamente eterno. Toda grande arte deve ser assim: encarnada na vida cotidiana e aberta ao espírito do infinito. Por isso, a espiritualidade negativa exposta no Anticristo e em Melancolia assume em Ninfomaníaca - Volume 1, a forma da carne feminina que pinga de desejo”.
O crítico Chico Fireman, autor do ótimo blog Filmes do Chico, pensa diferente. Além de não identificar o choque tão propalado pela campanha promocional do filme, Fireman enxerga na narrativa desvelada pelo dinamarquês o mesmo ressentimento do sexo que parece sombrear, na avaliação do crítico, sua obra. “Existe um grande peso sobre a proposta, sobre a ideia do sexo em si, como se tudo o que envolvesse o tema, os desejos da protagonista, fizesse parte de um plano macabro ou de uma conspiração maquiavélica. O sexo é mau, parece bradar Von Trier, como se o cineasta se saciasse em denunciar o sexo e não em se aprofundar sobre as motivações da personagem. Por isso, a figura de Seligman, vivido por Skarsgård, que se aproxima tanto de um padre confessor quanto a de um juiz, carregue tanta opressão em sua fala supostamente mansa”. Fireman observa ainda o que seria uma falta de ética do cineasta na articulação de sua dramaturgia. “Não existe problema algum em expor seus pudores, mas camuflá-los e fingir convertê-los num suposto comportamento liberal apenas porque está se tratando de sexo, sob a égide de se estar realizando um estudo sobre a vida sexual de uma mulher, é – isso, sim – libertinagem e vulgarização. Nada do que Von Trier já não tenha feito, de uma maneira ou de outra, com outros temas, em outros filmes”.

Joe (Charlotte Gainsbourg), um animal enjaulado ou uma figura oprimida em busca de compreensão e perdão?

Já o crítico Mário Abbade enxerga nessa volatilidade dramática, a mais pura – e assumida – manipulação por parte de Von Trier e lembra que o cineasta costuma prometer uma coisa e entregar outra. “O cineasta, irônico, saca um filme de sexo sobre o vazio — e apresenta o pornô como algo broxante. De quebra, ainda demonstra, pós-revolução sexual, como são comuns, nas salas, risos nervosos quando a imagem é a de um pênis, por mais flácido e inofensivo que pareça”. Outro prestigiado crítico brasileiro, Daniel Shenker, ajusta sua opinião a de Fireman e acredita que Von Trier investiu mais no potencial de escândalo do que em uma proposta artística consistente. Ele condena a opção do dinamarquês por uma estrutura que chama de “monótona” e o critica por “inserir referências que não ultrapassam o plano da embalagem erudita” e fazer com que os “atores digam com certa gravidade um texto de qualidade duvidosa”.
Pondé sai-se com uma analogia que, talvez, resuma a frustração que circunda esse primeiro volume. “Entre a idiota crença contemporânea na revolução sexual e a agonia da luxúria como marca do sexo livre, Von Trier opta pela segunda. Joe, a mulher ‘dona de seu corpo’, se vê como um animal numa jaula, andando de um lado para o outro, indo pra lugar nenhum”.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Carta do editor - Não saia do cinema! Mas se sair, leia Claquete!

Chris Pine assume o papel de
Jack Ryan em outro bom lançamento
de fevereiro nos cinemas brasileiros
Fevereiro talvez seja o melhor mês em termos de programação cinematográfica no Brasil em 2014. Além da estreia dos filmes indicados ao Oscar que ainda não estão na programação dos cinemas brasileiros (e eles são maioria), temos boas opções que não figuram entre os nomeados ao maior prêmio do cinema como Caçadores de obras-primas, novo filme de George Clooney, o épico de ação Pompéia, a reimaginação de Robocop capitaneada por José Padilha e o retorno de Ron Burgundy em Tudo por um furo, sequência do impagável O âncora.

O especial Oscar Watch 2014 segue em Claquete e serão muitos posts especiais sobre a maior cerimônia do cinema e, quiçá da humanidade. A série Peleja destaca a corrida nas categorias de atuação, direção e filme. David O. Russell terá sua filmografia pormenorizada, enquanto Jared Leto, na dianteira para o Oscar de ator coadjuvante, terá os melhores momentos de sua carreira resgatados pelo blog. A seção Claquete Repercute chega em dobro neste mês. Com A honra do poderoso Prizzi, filme indicado a oito Oscars e que rendeu uma estatueta à atriz Angelica Huston, e que estava programado para estrelar a seção em janeiro; e com Os bons companheiros, outro filme vencedor de Oscar e que, até a chegada de O lobo de Wall Street, permanecia como o melhor filme de Martin Scorsese desde Touro indomável. Máfia e Oscar, como pode se observar, rimam este mês em Claquete.
Em fevereiro, quando não estiver no cinema, certifique-se de estar em Claquete.