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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Especial O Grande Gatsby - Descobrindo um clássico americano


"O grande Gatsby" é tão expressivo na cena literária americana que seu autor, F. Scott Fitzgerald, teve toda a sua obra relevada a segundo plano em virtude deste romance que se assevera como uma crítica ao sonho americano. Mas o livro não foi um sucesso quando publicado originalmente, em 1925. As resenhas, à época, eram majoritariamente positivas, mas não posicionavam o romance de Fitzgerald como o grande marco americano que viria a ser. O livro só adquiriu esse status depois da crise econômica de 29 e da segunda guerra mundial. Republicado, com Fitzgerald já morto (ele morreu na Califórnia em 1940 por problemas de saúde derivados do alcoolismo), a obra encontrou leitores em profusão e a crítica lhe atribuiu valor histórico e cultural indissociáveis da sociedade americana.
Aos poucos, "O grande Gatsby" foi dominando a pecha de maior clássico da literatura americana.
A trama mostra Jay Gatsby, um milionário conhecido por oferecer festas ostensivas e luxuosas. A origem de sua fortuna gera rumores e aumenta o interesse em sua persona. As festas, na verdade, são subterfúgios para se aproximar de Daisy – mulher com quem se envolvera rapidamente durante a primeira guerra e por quem se apaixonou irremediavelmente. Daisy é casada com Tom Buchanan, um ex-atleta abastado possessivo, mas que trai a mulher. Dessa ciranda de paixões. Fitzgerald tece um conto sombrio, glamoroso e trágico sobre o sonho americano.
A obra ganha três novas traduções no Brasil por força do lançamento do filme de Baz Luhrmann. A abundância de ofertas de "O Grande Gatsby", que sai pelas editoras LeYA, Tordesilhas e Geração Editorial se justifica pelo fato da obra já se encontrar em domínio público.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Questões Cinematográficas - Polanski: Uma vida

“Você pode mostrar o seu herói triunfante e isso deixará sua platéia satisfeita. Mas não há nada mais estéril do que o estado de satisfação”
                                                                     Roman Polanski



Quem gosta de cinema aprecia o talento do franco polonês Roman Polanski. Aqueles que se nomeiam cinéfilos, obviamente, estão familiarizados com a conturbada biografia desse genial e genioso cineasta. Sobrevivente do nazismo, vítima da loucura de Charles Manson e seus fanáticos, predador sexual e pedófilo, cineasta sensível e inventivo, entre tantas outras personas. Roman Polanski já havia assinado sua própria biografia, "Roman by Polanski" em 1984 e motivado tantas outras no curso das duas últimas décadas, mas o volumoso livro de Christopher Sandford se distingue pelo viés examinador aliado ao vasto material cheio de minúcias coletado pelo autor. Sanford já biografou outras figuras controvertidas da cena cultural como Kurt Cobain, Eric Clapton, Mick Jagger, Keith Richards e Bruce Springsteen. Mas é seu trabalho investigativo sobre o “anão maligno”, como alguns se referem a Polanski no decorrer da obra, que Sandford alcança seu melhor registro biográfico. Talvez o mais isento e provocante de todos. O fato de “Uma vida” não ser uma biografia autorizada indica que há muito ali que Polanski não reconheceria como verdadeiro. Sandford não se furta a esse debate. Frequentemente confronta seu biografado com diferentes versões, em sua maioria amparadas na lógica de estatísticas ou depoimentos diversos, desautorizando Polanski em suas próprias memórias. No decorrer do livro, o autor refere-se a esses episódios como “um enaltecimento da lembrança de Polanski” ou “como os fatos que cercam o diretor tendem a ganhar dimensão fantasiosa”.
No entanto, o autor mostra simpatia pela figura. Reconhece que o espírito das memórias de Polanski é preservado e especula que o diretor apreciaria brincar com as expectativas do público em relação a suas vivências. Nesse aspecto, ainda dentro do perfil que Sandford rabisca de seu biografado, surge um Polanski de forte jovialidade, com um ar intransigente e uma curiosidade legítima pelo cinema. Sandford demonstra que, diferentemente de tantos outros diretores, Polanski é um cinéfilo e observa como o cinema ajudou o diretor, quando ainda era conhecido como Romek, a passar pela difícil infância. Polanski, por seu turno, nunca reconheceu que sua infância tivesse tido sobre ele qualquer efeito nocivo ou mesmo traumatizante. O autor evita conjecturar a respeito, mas em uma ou outra passagem, em que aponta o desencontro das informações providas pelo próprio Polanski, se permite teorizar – refugiando-se nos argumentos de pessoas próximas ao diretor – que Polanski na verdade esconde-se sob o muro que ergueu.  

Cena de A faca na água, primeiro longa-metragem de Polanski: execrada na Polônia, a fita virou cult nos EUA e foi indicada ao Oscar de produção estrangeira 


Nessa linha, o diretor surge como detentor de “um incrível talento para arrogância”, “um ator nato”, “um anfitrião adorável”, “um cineasta inspirador artisticamente e problemático financeiramente”, entre outras definições que caminham entre o lisonjeiro e jocoso. Sandford permite-se ser mais especulativo a partir do terceiro episódio definidor da vida de Roman Polanski; quando na casa do amigo Jack Nicholson, ele manteve relações sexuais com a menor de idade Samantha Gailey. Mesmo assim, Sandford busca amparo em documentos e entrevistas da época e em depoimentos de fontes próximas ou relacionadas aos múltiplos episódios aventados pelo livro daí em diante.
“Uma vida” é um trabalho jornalístico e investigativo de fôlego. Uma reconstituição vigorosa dos primórdios da vida de um cineasta que chegou a maturidade cercado de angústias e dúvidas. É, também, um retrato fidedigno de um homem um tanto ilegível, que viveu ao máximo uma vida fragmentada por momentos de tensão e terror.
O Polanski capturado por Sandford é dotado de um instinto de sobrevivência hercúleo, manifestado precocemente ainda na Varsóvia tomada pelos nazistas e aguçado em um nível alarmante em sua queda de braço com a imprensa sensacionalista e após o fatídico julgamento pelo estupro de Samantha Gailey.
Um homem incapaz de manter-se fiel a uma só mulher, com um gosto indubitável pelo sexo e suas liberdades e que exibia pouca tolerância para hipocrisias como os movimentos de esquerda. Essas são algumas das características do homem perturbado radiografado por Sandford que resiste à tentação de colocar esse homem em paralelo com o cineasta que se fez na seara do terror e do erótico nos idos dos anos 60. A maior parte da crítica se divertia às catas de referências da vida pessoal de Polanski em sua obra. Posteriormente (nos filmes O pianista e Oliver Twist) esse paralelo até pôde ser mais facilmente detectado, mas – argumenta Sandford – era um exercício descabido em filmes como O bebê de Rosemary e Repulsa ao sexo. O autor rememora os boatos que se seguiram ao cruel assassinato de Sharon Tate que relacionavam o diretor ao fato e que pressupunham ser Polanski e Tate membros de uma seita satânica.

Cena de Repulsa ao sexo, filme que mostra uma mulher frígida que apresenta surtos psicóticos: psiquiatras ficaram impressionados com a verossimilhança da fita e Polanski respondeu que inventou tudo 

O novo filme de Roman Polanski, que estreou no último festival de Veneza, é uma das apostas para o Oscar 2012. Adaptado da peça O Deus da carnificina, Carnage flerta descaradamente com o humor negro

Justiça ao biografado
O interesse maior de Sandford parece ser iluminar a figura de Roman Polanski. Nesse sentido, para os fãs do diretor, fora uma ou outra curiosidade de bastidor, há pouca coisa nova sobre Roman Polanski. Mas inegavelmente o autor oxigena a obra e vida do franco polonês ao revisitar com requinte e detalhismo os pormenores que ajudaram a definir Polanski como uma das mais controversas celebridades do século XX.
A personalidade de Polanski é tateada em “Uma vida” com a convicção de um historiador ante relatos esparsos e conflitantes de fontes diversas. Não é uma tarefa fácil. Sandford demonstra mais eloquência quando relata os bastidores das filmagens das fitas de Polanski e os ardorosos processos de produção que as cercava. Um diretor intransigente, teimoso, trabalhador e genial é a figura espichada dessa análise.
O maior mérito de “Uma vida”, porém, é estabelecer de uma maneira bem lúcida toda a complexidade de Roman Polanski, essa figura tão apaixonante quanto assustadora que se opõe a simplismos e psicologismos baratos. Christopher Sandford oferece um mergulho, por vezes nauseante, no âmago de um dos maiores artistas que o cinema já concebeu. 

quarta-feira, 24 de março de 2010

TOP 10

10 filmes que são melhores do que os livros que os inspiraram

10 – O iluminado
Duvida? Experimente um alucinado Jack Nicholson sob as ordens do visionário Stanley Kubrick! O próprio Stephen King vaticinou: “É melhor do que meu livro!”

9 – Psicopata americano
O livro é contundente e inteligente, mas o filme vai muito além. O personagem Patrick Bateman (vivido com exatidão por Christian Bale) virou a mais perfeita tradução da sociedade que emergia no século XXI.

8 – A trilogia O senhor dos anéis
Sem preconceitos, mas é preciso ser nerd para ler três livro de ritmo lento e rico em detalhes pouco pertinentes ao mundo real. O que Peter Jackson fez foi juntar em um mesmo cinema, aficcionados por esse material, pessoas que nunca ouviram falar de Senhor dos anéis e pessoas que nunca leram um livro na vida. E aquelas que nunca lerão. Se isso não prova que o trabalho de Jackson resultou em algo muito mais monumental e equilibrado do que a obra original, o que provará então?

7- O poderoso chefão
O livro de Mario Puzzo é um elaborado estudo de como as relações familiares são o centro da tradição mafiosa. Principalmente na máfia italiana, sobre a qual Puzzo se debruçou. Contudo, o filme de Coppola tem um escopo muito mais amplo. Consegue capturar com extrema eficiência outros pontos apenas arranhados na literatura original. Imigração, fortalecimento econômico da América no inicio do século 20, entre outras coisas. Um caso raro de livro que ficou notório e virou clássico por causa do filme que deu origem.

6- Sobre meninos e lobos
O livro de Dennis Lehane é bom. Muito bom. Mas o filme de Clint Eastwood é muito melhor. O diretor consegue captar a “alma” da literatura de Lehane e, em uma manobra Eastwoodiana (podemos chamar assim), intensificá-la em seu filme. O livro fica sem graça depois de se ter assistido ao filme.

5- Tropa de Elite
O livro do ex-capitão do bope carioca é apenas uma espécie de segredos de bastidores. Um passeio curioso pelos corredores da polícia carioca. O filme de José Padilha é muito mais ambicioso. Além de oferecer isso, é um audaz comentário sobre a responsabilidade da sociedade no problema das drogas. Também denuncia a responsabilidade do Estado no mal da corrupção e patenteia um dos maiores mitos do cinema nacional, o capitão Nascimento.

4- As pontes de Madison
Um romance é sempre algo prazeroso e que convida a emoção de seu leitor. Clint Eastwood, novamente, potencializa os efeitos de uma história e desvela camadas que no livro são quase imperceptíveis. Um filme que se tornou uma das maiores histórias de amor de todos os tempos. No livro, é apenas mais uma.

3 – O jardineiro fiel
O ótimo livro de espionagem de John Le Carre virou um ótimo filme de espionagem.Mas não só. O filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles é também uma linda e apaixonante história de amor e um belo epílogo de auto-conhecimento.

2- Cidade de Deus
O livro de Paulo Lins nem de longe apresenta a complexidade mostrada no filme de Meirelles (pois é, ele de novo). Além da concepção visual que acresce muito a narrativa, Meirelles conta uma história de afirmação (a opção de Buscapé por resistir ao crime e esqueirar-se pela honestidade) que escapa ao livro de Lins.

1 – O clube da luta
Um livro cheio de asneiras, cansativo e cheio de problemas de narrativa que virou best seller graças ao filme cult que originou. Chuck Palahniuk, autor do livro, deve muito a David Fincher, verdadeiro autor da obra e de seu significado cultural.