
Família sulista, branca, cristã, republicana e abastada acolhe de peito aberto um adolescente negro em sua casa. A improvável descrição acima corresponde a verdade. Foi isso que ocorreu com Michael Oher, um jogador de futebol americano que não fosse pela sorte que deu na vida, não teria se profissionalizado. Oher foi acolhido e criado como filho por Leigh Anne Tuohy. Essa história improvável chega aos cinemas em Um sonho possível (The blind side EUA 2009).
O filme do diretor John Lee Hancock é um legítimo filme família. Reúne todos os predicados que avalizam esse rótulo, porém, como cinema é chamuscado de falhas. Sejam elas estruturais ou discursivas. É lógico que a história otimista que se vê na tela consterna, impressiona e cativa. E é bom (para nós seres humanos do bem) que isso ocorra. Contudo, o argumento frágil que pauta o filme e, mais que isso, o desenvolvimento capenga com que a história se desenvolve comprometem o resultado da fita como “obra” cinematográfica.
Momento família: A emocionante trajetória de Oher cativa, mas parece mais inverossímel do que a existência do homem-aranhaNesse contexto, o filme muito se assemelha ao personagem Burt Cotton, treinador de Oher na escola e uma das figuras decisivas em seu destino. Assim como o treinador se vale de um discurso politicamente correto para atender ambições plenamente pessoais (ele defende a matrícula de Oher por razões cristãs embora esteja interessado no potencial atlético do rapaz), o filme faz o mesmo. Defende uma visão de mundo colonialista (de que os negros só têm chances quando ajudados por brancos) e não parece acreditar muito na história que conta. Assim como com Cotton, vê-se um gesto muito bonito, mas não se convence dele. Hancock ainda tenta relativizar essa impressão na figura das amigas dondocas de Leigh Anne e também no processo de adaptação de Oher a sua nova família, mas até aí a fragilidade do argumento é evidente.
Sandra Bullock encara o desafio de assumir um papel dramático com dignidade. A atriz convence como a mãe coragem que descobre um mundo bem pior do que se permitia imaginar. Contudo, não dos deixa esquecer que é Sandra Bullock, algo que ela conseguiu fazer em A proposta, para ficar em um trabalho recente da atriz que também lhe rendeu elogios.
O grande incômodo de Um sonho possível é justamente esse. O de não conseguir convencer sua audiência de que tudo aquilo que se vê é passível de acontecer. Mas isso é mais um problema do mundo que Um sonho possível parece ignorar e menos do filme família que fez sucesso nas bilheterias americanas.