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quinta-feira, 14 de março de 2013

Espaço Claquete - A garota


Em seus melhores momentos, e são muitos, A garota (The girl, EUA 2012), produção original da HBO, é um thriller hitchcockiano de profundas reverberações. Essa constatação é ao mesmo tempo lisonjeira à produção, esmerada em livro com depoimentos colhidos com pessoas que fizeram parte das produções de Os pássaros e Marnie e documentos diversos, e lisonjeira à figura de Hitchcock – aqui adornada pela mais demolidora e perseverante análise.
O filme do diretor Julian Jarrold, escrito com desenvoltura ímpar por Gwyneth Hughes, se debruça sobre a relação de Alfred Hitchcock com Tippi Hedren, que por várias ocasiões já declarou em público que Hitchcock destruiu sua carreira e arruinou sua vida. Hedren era uma modelo de algum prestígio em Nova Iorque quando foi acionada pela equipe de Hitchcock para fazer um teste para Os pássaros, o filme que seguiria o massivo sucesso de público e crítica de Psicose. Uma vez aprovada, Hedren não só adentra para a galeria de loiras de Hitch como passa a ocupar certo protagonismo nessa obsessão. É dessa clausura entre ego, sucesso, cinema, inveja e ganância que A garota extrai sua matéria prima.
A obsessão de Hitch por Hedren ganha densidade dramática no suporte imaginativo que a ficção dá a ela. Não há preocupação com justificativas de ordem psicológica, embora haja espaço para elas, mas uma investigação calcada em símbolos e sugestões do que movia essa obsessão de como ela, talvez, fosse fundamental para que Hitch alcançasse suas obras-primas. Era Hitchcock apenas um sádico derivado de uma vida sexualmente frustrante ou um cineasta que ia às últimas consequências para extrair o melhor de seu elenco e equipe? 
A garota não apresenta respostas viciadas a respeito. Ao invés disso opta por iluminar precisamente os caminhos para repostas jamais definitivas, mas sempre satisfatórias. Nesse sentido, é um filme mais arrojado e imaginativo do que Hitchcock, produção para o cinema com os mesmos objetivos, mas com resultado bem distinto.
Toby Jones, como Hitchcock alterna-se entre o assustador e o patético com naturalidade atroz e faz de seu Hitchcock um acerto que nos faz pensar se estamos vendo um filme de terror ou um drama psicológico de alta voltagem. Sienna Miller, no que é seguramente um dos melhores desempenhos de sua carreira, brilha na contenção de Tippi Hedren. Ciente de que precisa sublinhar o caos emocional interno vivido por sua personagem, Sienna sabe exatamente o quê e como exteriorizar e o que apenas sugerir.
A garota é um filme digno do mito de Hitchcock. Talvez apenas ele fizesse melhor e aí vem o grande elogio deste filme que merece ser visto por cinéfilos e fãs do diretor: A garota nos priva desta certeza.