Em seus melhores momentos, e são muitos, A garota (The girl,
EUA 2012), produção original da HBO, é um thriller hitchcockiano de profundas
reverberações. Essa constatação é ao mesmo tempo lisonjeira à produção,
esmerada em livro com depoimentos colhidos com pessoas que fizeram parte das produções de
Os pássaros e Marnie e documentos diversos, e lisonjeira à figura de Hitchcock
– aqui adornada pela mais demolidora e perseverante análise.
O filme do diretor Julian Jarrold, escrito com desenvoltura
ímpar por Gwyneth Hughes, se debruça sobre a relação de Alfred Hitchcock com
Tippi Hedren, que por várias ocasiões já declarou em público que Hitchcock
destruiu sua carreira e arruinou sua vida. Hedren era uma modelo de algum
prestígio em Nova Iorque
quando foi acionada pela equipe de Hitchcock para fazer um teste para Os
pássaros, o filme que seguiria o massivo sucesso de público e crítica de
Psicose. Uma vez aprovada, Hedren não só adentra para a galeria de loiras de
Hitch como passa a ocupar certo protagonismo nessa obsessão. É dessa clausura
entre ego, sucesso, cinema, inveja e ganância que A garota extrai sua matéria
prima.
A obsessão de Hitch por Hedren ganha densidade dramática no
suporte imaginativo que a ficção dá a ela. Não há preocupação com
justificativas de ordem psicológica, embora haja espaço para elas, mas uma
investigação calcada em símbolos e sugestões do que movia essa obsessão de como
ela, talvez, fosse fundamental para que Hitch alcançasse suas obras-primas. Era
Hitchcock apenas um sádico derivado de uma vida sexualmente frustrante ou um
cineasta que ia às últimas consequências para extrair o melhor de seu elenco e
equipe?
A garota não apresenta respostas viciadas a respeito. Ao
invés disso opta por iluminar precisamente os caminhos para repostas jamais
definitivas, mas sempre satisfatórias. Nesse sentido, é um filme mais arrojado
e imaginativo do que Hitchcock, produção para o cinema com os mesmos objetivos,
mas com resultado bem distinto.
Toby Jones, como Hitchcock alterna-se entre o assustador e o
patético com naturalidade atroz e faz de seu Hitchcock um acerto que nos faz
pensar se estamos vendo um filme de terror ou um drama psicológico de alta
voltagem. Sienna Miller, no que é seguramente um dos melhores desempenhos de sua
carreira, brilha na contenção de Tippi Hedren. Ciente de que precisa sublinhar
o caos emocional interno vivido por sua personagem, Sienna sabe exatamente o
quê e como exteriorizar e o que apenas sugerir.
A garota é um filme digno do mito de Hitchcock. Talvez
apenas ele fizesse melhor e aí vem o grande elogio deste filme que merece ser
visto por cinéfilos e fãs do diretor: A garota nos priva desta
certeza.