Deletério!
Quando um filme tem um prólogo poderoso e insidioso como o que tem Homens em fúria (Stone, EUA 2010), você sabe que vem coisa boa pela frente. A fita de John Curran é um meticuloso estudo de personagem e, mais que isso, de personalidades. Robert De Niro dá viço a um homem cansado, rústico, retrógrado e infeliz. Esse homem tem a sintomática função de julgar se um prisioneiro está apto ou não a ser reintegrado à sociedade pela via da liberdade condicional. Edward Norton faz o prisioneiro que prefere ser chamado pelo pouco lisonjeiro apelido de Stone (algo como chapado) e demonstra ser um tipo irritadiço. A partir da convivência durante a fase de análise que antecede a soltura (ou não) de Stone é que o filme situa seus personagens para a platéia. A carga emocional destes dois homens que se posicionam cada vez mais em sentidos opostos (e não se trata de usar a lei como parâmetro).
A vida como ela é: personagens presos a suas obsessões são a matéria prima de Homens em fúria
Erra quem pensa que Homens em fúria é um suspense banal como sugerem o nome nacional e todo o marketing da distribuidora. Homens em fúria é um drama de cunho existencial que vai pincelando personagens fortes e oferece leituras que se enraízam firmemente nos conflitos vividos por esses personagens. O fato da mulher de Stone, Milla Jovovich, ser uma ninfomaníaca que se envolve com o personagem de De Niro tem menos a ver com a vontade de ajudar seu marido e mais com esse impulso destrutivo que não consegue controlar. Na mesma medida está a postura controladora e podadora do personagem de De Niro que mantém sua mulher (Frances Conroy) prisioneira em um casamento infértil. Já Stone percebe que contar mentiras e atuar no teatro social que seu papel de prisioneiro exige não lhe trará ganho real e será questão de tempo para que esteja de volta àquela mesma situação. É do intercambiamento dessas percepções – todas alçadas com sutilezas de imagens e silêncios, que Curran tece um poderoso painel sobre a razão, e a necessidade, da fé em dias como os que vivemos. Homens em fúria, no final das contas, mostra homens (no sentido de humanidade) que não sabem ao certo como controlar seus sentimentos.





