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sábado, 23 de março de 2013

Crítica - Anna Karenina


Balé da infidelidade

"Anna Karenina" é uma obra clássica que a cada nova versão no cinema aparenta esgotamento. Em parte pelas mudanças profundas pelas quais a sociedade ocidental atravessou e em parte pela falta de frescor das adaptações cada vez mais monocromáticas da obra-prima de Tolstói.
Joe Wright, que arrebatou ao adaptar com brilhantismo para o cinema a "inadaptável" obra de Ian McEwan (Reparação) em Desejo e reparação, se propôs a oxigenar a obra de Tolstoi em Anna Karenina (EUA 2012). Wright tem o pulso certo dos romances de época. Já mostrou isso no referido Desejo e reparação (2007) e em Orgulho e preconceito (2005). Novamente dirigindo Keira Knightley, no entanto, ele aumenta os riscos ao ensejar a lógica teatral no filme. Sua Anna Karenina é montada como em uma peça. A opção estética, por vezes dispersiva, reforça o tom operístico do texto – que observa com lupa a aristocracia russa do século XIX. No entanto, mostra-se um recurso custoso para uma produção que tropeça em outros aspectos.
O principal deles é o elenco. Keira Knightley, confirmando sua ascensão como intérprete, está bem como a protagonista imersa em dilema amoroso-existencial, mas falta-lhe um comedimento que, por exemplo, sobra a Jude Law como Karenin, o marido traído. Law reveste seu personagem com camadas que lhe desobrigam do estereótipo. Jornada esta na qual Keira falha. Mas o grande problema em termos de elenco é mesmo Aaron Taylor-Johnson, que é bom ator, diga-se. Johnson está desconfortável como Vronsky e desconectado de um carisma que deveria nortear o personagem e legitimar o charme o qual aludem os escritos de Tolstoi. Seu poder de sedução, portanto, surge esvaziado; o que, a bem da verdade, é minimizado pelo tom operístico da narrativa. Com o fluxo teatral privilegiado por Wright, a inadequação de Johnson soa como um equívoco menor, mas não imperceptível.

Amor, aristocracia e infidelidade são conceitos que se confundem e se validam no filme de Wright que desglamouriza sua heroína


Efusivamente belo em sua ornamentação técnica, desde os vultosos figurinos, passando pela fotografia esplendorosa e culminando na essencial trilha sonora assinada por Dario Marianelli, Anna Karenina finalmente se diferencia das versões anteriores do clássico russo ao expor a trajetória de sua heroína como uma tragédia em que poesia e infidelidade se enamoram e se distanciam. Está aí a grande força do filme de Wright: perguntar por que ao amor. Por que Anna foi cruel com um homem que lhe era tão bom? A resposta reside no paralelismo estabelecido com as tramas dos personagens coadjuvantes, como Levin (Domhnall Gleeson) e Kitty (Alicia Vikander).
Anna Karenina, de Joe Wright não é o filme que poderia ser, mas é uma produção corajosa sob muitos aspectos. Com erros e acertos que o tornam um filme imperfeito, mas ainda assim admirável.