Distopias emocionais
Não que 360 (360, Aus, Ingl, Can, Bra 2012) não seja sobre o amor, como muito se proliferou
na mídia nessas últimas semanas; indiscutivelmente o tema gravita todas as
subtramas interligadas do novo filme de Fernando Meirelles, mas 360 é, na verdade, um drama
sobre escolhas. E as indesviáveis consequências delas. O que torna o material
do filme ainda mais atraente, sob a perspectiva dramatúrgica, é o desenho do
acaso; jamais subestimado pela narrativa alinhada por Meirelles e pelo roteirista
Peter Morgan, e seu impacto em circunstâncias diversas.
Talvez seja do confronto do acaso e do arbítrio que 360 se erija como um filme de
muitas potencialidades, alguns acertos e um discurso bem azeitado sobre ciclos.
Diferentemente do que se poderia supor, com base no
histórico de filmes com múltiplos personagens, a narrativa não oscila e
Meirelles com o préstimo do montador Daniel Rezende, mantém bem costuradas as
transições entre os plots. A trilha, supervisionada por Ciça Meirelles, é outro
bálsamo que acrescenta ao termostato da narrativa.
Mas 360 não escapa de outro problema crônico de filmes corais. O pouco, por vezes
pobre, desenvolvimento dos personagens. Alguns não excedem o arquétipo como é o
caso do dentista mulçumano que se apaixona por sua assistente casada e padece
de um conflito mais espiritual do que ético. Há núcleos, porém, que não só
recebem mais atenção da caneta de Morgan como contam com atores inspirados.
Maria Flor protagoniza o arco mais bem adornado do filme. Laura (Flor) seguiu
para Londres para tentar a vida ao lado do namorado fotógrafo. Depois de
descobrir a traição dele, ela parte de volta para o Brasil. Em pouco mais de 24
horas, e cruzando com dois outros personagens cativantes, ela precisa externar
toda a fragilidade e erupção emocional a qual a personagem está submetida. Não
é uma tarefa fácil, mas Maria Flor a cumpre com tamanha desenvoltura que se
equipara aos bem mais badalados Ben Foster e Anthony Hopkins, que também
apresentam momentos de brilho.
Maria Flor em cena do filme: uma atriz surpreendente e cativante
Em comum, todas as subtramas de 360 têm a bifurcação nos
caminhos de seus personagens. Em alguns casos, mais de uma escolha. Como é o
caso da prostituta eslovaca Mirka (Lucia Siposová) que, não coincidentemente,
abre e fecha o filme. O amor e a forma como lidamos com ele, obviamente, passa
por essas escolhas e Fernando Meirelles é hábil em sinalizar isso. Seja no
olhar de culpa que o marido reconhece na esposa (em grande momento silencioso
de Jude Law), seja na opção de manter-se alinhado a uma certa visão de mundo em
detrimento de um lampejo de felicidade ou quando se flerta com um agressor
sexual.
