Mel Gibson em cena de O fim da escuridão
Mel Gibson havia dito há alguns anos que tinha perdido o tesão de atuar e que só voltaria para frente das câmeras quando pusesse as mãos em um roteiro maravilhoso. Pois bem, O fim da escuridão (Edge of darkness, EUA 2010) tem como grande hype, sem dúvida alguma, o retorno de Mel Gibson, afastado como leading man desde Sinais (2002), mas é um thriller policial encorpado, inteligente e muito mais proeminente do que se poderia supor. Essas qualidades mostram que Gibson não estava jogando para a platéia.
No filme, Gibson vive Tomas Craven, um veterano policial de Boston que não cultiva laços estreitos com sua filha. Após ela ser assassinada brutalmente, ele lança-se em uma investigação para tentar elucidar o caso. Posto dessa forma, O fim da escuridão parece ser mais um thriller convencional desses que Hollywood produz aos montes. E é justamente aí que está diferença. O filme, dirigido pelo cada vez melhor Martin Campbell (007 –Cassino Royale) e roteirizado pelo vencedor do Oscar William Monaghan (Os infiltrados e Rede de mentiras), valoriza os diálogos em detrimento da ação, embora esta seja vigorosa. A trama que remonta a mais uma teoria conspiratória, não se pretende denuncista; constrói-se como o mais fino e bem arredado entretenimento.
Ray Winstone brilha na pele de um assassino tão enigmático quanto existencialistaOs atores estão especialmente aprazíveis. Mel Gibson mostra forma invejável e permanece com seu carisma inabalável. É muito bom vê-lo de volta ao seu jogo. Mas o grande destaque nesse departamento recai sobre Ray Winstone. O inglês, que herdou um papel que seria de Robert De Niro, está magnético como um enigmático hitman que segue de perto os passos de Craven. Um assassino frio e calculista que cita grandes pensadores como Fitzgerald e Diógenes e transborda existencialismo. Há uma cena, em espacial, que os personagens de Winstone e Gibson se questionam mutuamente. É um momento cinematográfico poderoso. Daqueles que não surgem em um filme de ação qualquer. O primeiro filme de 2010 a chegar aos cinemas brasileiros é um filmaço. E mostra que Mel Gibson continua o máximo, a despeito das muitas rugas em seu rosto.