Seguir uma franquia sem seu principal astro é um problema
que muitos estúdios já tiveram que encarar. Tiveram, entre aspas porque essa é
uma opção puramente mercadológica. No caso da franquia Bourne, a dependência de
Matt Damon é ainda maior. O legado Bourne (The Bourne Legacy, EUA 2013), sem
Damon e com Jason Bourne apenas como uma sombra, consegue se desvencilhar desse
problema com relativo sucesso. O que não implica constatar que seja um bom
filme de ação ou mesmo um eficiente thriller de espionagem.
Dirigido por Tony Gilroy, responsável pelo roteiro da trilogia original, o filme amplia o escopo da franquia e mostra outros agentes
como Bourne de programas patrocinados pelo governo americano que passam a ser
eliminados quando as coisas começam a dar errado e Bourne expõe alguns segredos
sujos das agências de inteligência americana e seus contratos obscuros com
empresas de segurança privada. A ação se desenvolve paralelamente
aos eventos de O ultimato Bourne.
Se Gilroy é hábil em adequar seu filme ao novo contexto da
série, ainda que não definitivo, é pouco eficiente em tornar a trama de O
legado Bourne cativante. O filme é perigosamente previsível, com poucas,
esparsas e enjoadas cenas de ação e um protagonista pouco carismático. Jeremy
Renner, frequentemente um poço de carisma, sofre para dar viço e carga
dramática a Aaron Cross, que não é desmemoriado, mas pouco sabe sobre o
programa do qual faz parte.
A luta pela sobrevivência é o motriz da série que continua a
investir em intérpretes sofisticados (Edward Norton e Rachel Weisz são as novas
adições) e no clima de teoria conspiratória. No entanto, Gilroy não tem como
diretor o mesmo senso de espetáculo de Paul Greengrass e não conta com o
elemento surpresa que favoreceu Doug Liman no debute da série. Se por vezes, O
legado Bourne soa um filme mais sério do que de fato é, é mérito seu. O
problema é que na maioria das vezes o filme soa mais banal do que realmente é.
