Quem acompanha o noticiário cultural brasileiro testemunhou,
em meio à consternação provocada pela expectativa para a 85ª cerimônia do
Oscar, um embate algo fisiológico entre Carlos Eduardo Rodrigues, diretor
executivo da Globo Filmes, e Kleber Mendonça Filho, diretor de O som ao redor,
filme brasileiro mais elogiado internacionalmente desde Cidade de Deus (2002).
A polêmica começou quando Mendonça Filho pôs em xeque em um depoimento à "Folha
de São Paulo" a importância da Globo Filmes para o cinema brasileiro. Via redes
sociais, Rodrigues provocou o cineasta desafiando-o a fazer um filme com a
estrutura da Globo Filmes e ter mais de 200 mil pagantes (O som ao redor em
poucas salas de exibição já conseguiu históricos 70 mil pagantes no Brasil e
contando) e provocou que, se não conseguisse, talvez tivesse que se assumir “um
cineasta que é melhor crítico” – em referência ao fato de Mendonça Filho ter
sido crítico de cinema antes de se experimentar na direção.
O diretor de O som ao redor devolveu a provocação, com
alguma elegância, mas sem baixar a guarda, e disse em uma nota publicada em uma
rede social que a Globo Filmes “atrofia o conceito de diversidade no cinema
brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema
institucional e morto”. Ele devolveu o desafio de Rodrigues instando o diretor
executivo da Globo Filmes a produzir filmes que não tenham como objetivo
primário alcançar sucesso de público.
Depois da troca de rusgas, Rodrigues resolveu mudar o tom e
divulgou nota, dessa vez à imprensa e não via rede social, em que afirma “fico
feliz de estarmos, embora com pontos de vista diferentes, defendendo a mesma
ideia: um cinema brasileiro para todos, sem distinção de público”.
A discussão, que esbarrou em cacoetes promocionais e ranços
históricos do jeito de se produzir cultura no Brasil, esfriou e não deu conta
da raiz do problema. A Globo Filmes realmente atrofia o cinema brasileiro, como
afirmou Mendonça Filho, ou essa é uma interpretação errônea do mercado de
cinema brasileiro?
É preciso, para ter mais clareza nessa discussão, perceber
nela a contaminação de certos atores políticos ligados à esquerda e à direita e
como, invariavelmente, eles se ajustam à manifestação cultural, e à promoção de
cultura em si, no país.
Ingrid Guimarães e Maria Paula em De pernas por ar 2, o mais recente e retumbante sucesso de público com o selo da Globo Filmes: em defesa do cinema de massa
Kleber Mendonça Filho no jeitão on the road em imagem registrada pela Revista Cult: em defesa do cinema para pensar
Mendonça Filho advoga uma visão, até certo ponto
ultrapassada, de que uma empresa forte em algum segmento seja maléfica para o
segmento como um todo. Não cabe à Globo Filmes pensar em um cinema de nicho e
não na sua bem aventurança financeira. Não quer dizer que a empresa não possa,
e deva, diversificar a sua produção cinematográfica. Mas isso é uma questão de
gestão e percepção de mercado. É histórica a relação do brasileiro com a
linguagem televisiva (relação esta que a Globo ajudou a sedimentar) e uma
mudança nessa relação não pode ser por ruptura e sim geracional. A tecnologia
está a serviço de um cinema emergente e pensativo fora do eixo Rio/São Paulo. O
próprio Kleber Mendonça Filho é beneficiário de um programa do governo do
Estado de Pernambuco, o Funcultura, que contempla majoritariamente o
audiovisual. O acesso a esse programa é muito mais dinâmico do que, por
exemplo, à contraparte nacional na figura da Ancine (Agência Nacional do
Cinema).
Isso quer dizer que não compete a Globo Filmes praticar
cinema independente. Ela é uma empresa e, como tal, deve mirar o seu lucro.
Nada impede também que se mire em exemplos como o da universal que criou seu
braço independente, a Focus, que produziu filmes como Brilho eterno de uma mente
sem lembranças (2004), Encontros e desencontros (2004), O jardineiro fiel
(2005), entre outros sucessos de crítica e público.
Não se pode, no entanto, responsabilizar uma empresa por
estar fazendo o que dela se espera: produzindo lucro. Mendonça Filho é
oportunista ao simplificar uma questão que vai muito mais longe. As políticas
de produção de cultura, em geral, e de cinema, em particular, no Brasil são
obtusas, ultrapassadas e inviabilizam a solidificação de uma indústria forte do
cinema brasileiro. Há exceções. José Padilha lançou o segundo Tropa de elite de
maneira independente, mas, de novo, ele tinha um material em que era seguro
apostar. O cinema independente, aquele desprovido do objetivo de fazer
dinheiro, encontra restrições no mundo todo; é injusto responsabilizar a Globo
Filmes por sua incipiência no Brasil. A diferença é que outros países investem
em prol da solidificação de uma indústria cinematográfica que no Brasil
continua refém ou de políticas canhestras ou de um único conglomerado de
comunicação. Não dá para ter cinema independente sem ter indústria.