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terça-feira, 26 de março de 2013

Crítica - Depois de Lucia


Vidas prensadas

Depois de Lucia (Después de Lucía, MEX/FRA 2012) pertence àquela verve cinematográfica que não permite ao espectador uma reação distinta do estarrecimento. Grande vencedor da mostra Um certo Olhar no festival de Cannes de 2012, o filme escrito e dirigido por Michel Franco não é exatamente sobre bullying, como muito se professa erroneamente na mídia, nem necessariamente sobre o luto, mas uma obra acima do rótulo que a massificada crítica de cinema precisa lhe outorgar. Depois de Lucia é, na verdade, uma produção que funde brilhantemente o denuncismo de um “filme de bullying” à sensibilidade e ritmo de um filme sobre o luto. Sob essa perspectiva, conjuga com desenvoltura a parcimônia do cinema asiático com a gravidade do cinema europeu, sem prescindir da aspereza do registro do cinema latino.
Com uma câmera assustadoramente passiva, Franco acompanha Roberto (Hérman Mendonza) e sua filha Alejandra (Tessa Ia) que se mudam de Puerto Vallarta para a Cidade do México após a morte de Lucia – esposa de Roberto e mãe de Alejandra. A mudança representa uma tentativa de recomeço. De novos ares. Mas os vestígios da ausência de Lucia se fazem sentir na intolerância cada vez mais ciosa de Roberto ou na passividade com que Alejandra recebe as ações cada vez mais agressivas de seus colegas de escola. E a subjetividade do tempo dos protagonistas, aqui confrontada a todo momento com a objetividade de certas ações, é muito importante no filme de Franco. Tudo começa quando Alejandra se deixa filmar por um de seus colegas enquanto faz sexo com ele. Depois que o vídeo vai parar na internet, ela passa a ser diariamente assediada e agredida verbal e fisicamente por seus colegas.

A excepcional Tessa Ia em cena do impactante Depois de Lucia: a combinação fatal de culpa e dor em um filme capaz de provocar reações extremas

Os longos planos de Franco e sua câmera estática favorecem uma crescente sensação de incômodo e jogam o espectador em um abismo de desconforto conforme a trama avança e Alejandra e Roberto vão se distanciando de quem já foram certa vez.
Outro mérito que precisa ser destacado no filme de Franco é a total falta de sensacionalismo na abordagem do bullying. O diretor não priva sua audiência de testemunhar a crueldade humana e de apontar a banalidade com que é tratada por aqueles que a praticam, mas não faz do bullying, e da percepção majoritária que se tem dele, um espetáculo catártico.
As atrocidades cometidas contra Alejandra vão desde fazê-la comer um bolo com fezes até trancá-la em um banheiro durante todo um fim de semana, passando por outras tantas horrorosas atitudes. O que leva o filme a um último ato poderosíssimo e de reverberação única. Depois de Lucia é um filme que pode ser assistido uma única vez, e exige muito controle emocional e desatenção da humanidade para se voltar a ele, mas que fica na memória. Com o objetivo mais de provocar uma racionalização complexa do que provocar perplexidade, o filme de Franco estabelece um novo patamar para obras que se pretendem transformadoras.
Depois de Lucia é um filme difícil e emocionalmente desgastante, mas também é um impactante relato sobre duas pessoas tentando resgatar suas vidas de uma existência desorientadora. Não poderia haver contribuições mais significativas do que as de Hérman Mendonza, uma força da natureza em cena, e de Tessa Ia, um poço de contenção capaz de sugerir desespero com a mesma fluência com que externa graciosidade. Depois de Lucia é uma obra-prima muito em parte ao excepcional trabalho desses dois ótimos atores.