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segunda-feira, 5 de março de 2012

Crítica - Albert Nobbs

Dissimulação disforme!

Albert Nobbs (ING/IRL 2011) é um filme, adaptado de um conto do romancista George Moore, cheio de potencialidades dramáticas. Muitas delas alcançadas apenas em virtude do empenho crepuscular de Glenn Close, roteirista, produtora, protagonista e alma do filme dirigido por Rodrigo García – cineasta tão afeito a feminices como em Coisas que você pode dizer só de olhar para ela (2002) e Destinos ligados (2009).
Albert Nobbs flagra a personagem título (Glenn Close), mulher travestida de homem para trabalhar como garçom na Irlanda do século XIX, em momento capital de sua existência. Naquele momento em que permite ambicionar algo mais do que a mera sobrevivência. A poesia dessa interjeição é reforçada pelo contexto que García provê. Estamos em um hotel que atende clientes não necessariamente abastados, mas que gostam de experimentar as regalias da aristocracia. A encenação é algo poderoso em Albert Nobbs. Esse predicado habilita algumas das subleituras possíveis ao filme. A homossexualidade e as percepções divergentes que se tem dela poderiam ser mais bem trabalhadas pelo roteiro se esse fosse o objetivo primário. Não é. Interessa mais à realização iluminar personagem tão contraditória e tão rica quanto é Albert Nobbs. Mulher que de tanto dissimular perdeu-se de sua essência. De seus objetivos e quando confrontada novamente com eles, se afunda em uma ansiedade tão angustiante quanto desestabilizadora. Essa condição é favorecida da comparação inevitável entre Nobbs e Hubert Page (Janet McTeer), mulher que se faz homem e que parece muito mais a vontade do que Nobbs em sua composição.

Em frente ao espelho: Nobbs se perdeu de sua essência e não lembra exatamente quando


O que o filme de García ambiciona é construir um painel sobre repressão. Outro personagem, aparentemente pouco importante na trama, o médico beberrão vivido pelo irlandês Brendan Gleeson, corrobora esse argumento. O jogo de aparências é um fardo antiquado e frequentemente desmoralizante. É, de fato, um comentário mais robusto do que se Albert Nobbs se restringisse a esmiuçar o intimo de sua protagonista. Essa competência foi delegada a Glenn Close. Atriz que, em poço de contenção, trabalha a expressividade do olhar como poucas atrizes o fazem atualmente. Ela agrega sutileza a uma personagem sofrida, ingênua e ainda mais simplória do que esses adjetivos entregam. Ironicamente, Glenn Close transforma o filme. A partir de sua atuação, Albert Nobbs torna-se menos um filme sobre dissimulação e mais uma dissimulação em si. É um filme de potencialidades nunca alcançadas, mas beliscadas pela atriz que brilha na companhia da não menos extraordinária Janet McTeer. É um mérito que não parece essencialmente composto. Figura aí a grande qualidade do filme e seu maior defeito.