“Ao longo da história da humanidade, 116 bilhões de pessoas
já existiram. Nenhuma sobreviveu”. Com essa elaboração filosófica de espiral
pessimista George (Freddie Highmore) se apresenta para os olhos da audiência. A
arte da conquista (The art of getting by, EUA 2011) é um filme sobre a melancolia
da adolescência quando entra naquela fase em que amadurecer já não é mais uma
opção. George é profundamente pessimista. Solitário, com forte veia depressiva,
ele não vê propósito em muitas das banalidades da vida, uma vez que estamos
todos caminhando para o mesmo fim. “Você vive e você morre. Todo o resto é ilusão”,
pensa consigo mesmo ainda antes das primeiras linhas de diálogo surgirem.
Ele, por exemplo, não acredita no propósito de fazer as lições
de casa. Recusa-se a desenvolver o potencial acadêmico que seus professores
enxergam nele e hesita temerariamente em desenvolver sua aptidão artística. A
aproximação com um ex-aluno da escola em que estuda, que é pintor, e, principalmente, de Sally (Emma Roberts), darão uma sacudida nesse universo sem
eixo de gravitação que tanto paralisa George.
Escrito e dirigido por Gavin Wiesen, A arte da conquista
transpira romantismo na maneira muito bem adornada com que investiga como uma
paixão pode ser um elemento catalisador de mudanças providenciais, mas com
força suficiente para serem decisivas em nossas vidas.
Com uma trilha sonora recheada de jóias indies, as quais
Wiesen dá o devido tempo para cativarem, A arte da conquista se subscreve como
um músculo criativo do cinema independente americano. Um dos maiores acertos do
filme de Wiesen é ser pop sem deixar de ser profundo. É trabalhar o romance,
indubitavelmente o principal mote da fita, sem deixar de oxigenar o conflito
existencial de George.
Como o protagonista imerso em uma crise íntima, Freddie
Highmore apresenta uma performance contida e cheia de acertos. Já eficiente
quando criança, em filmes como Em busca da terra do nunca (2004) e A fantástica
fábrica de chocolate (2005), Highmore mostra aqui que à medida que cresce, seu
talento cresce junto. Ele não só dignifica George como o preenche de sentido e emoção. Algo crucial em um personagem que não enxerga sentido na
vida e não sabe como se posicionar no mundo. Emma Roberts é outra que acerta o
tom ao criar Sally, aquela garota que ainda não se decidiu se vai ser a “bitch”
ou a “cool girl”. Ela faz com que a personagem, bem menos polida pelo roteiro, fuja à
unidimensionalidade.
A arte da conquista é um filme talhado para cativar. Ao
argumentar que o amor é aquilo que preenche a existência de sentido, Wiesen
praticamente torna seu filme à prova de críticas.