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quinta-feira, 30 de maio de 2013

Tira-teima - O segredo da cabana X A morte do demônio

A seção Tira-teima está de volta e nesse retorno promove um tira-teima entre duas produções pretensiosas dentro do gênero do terror, mas que se perdem lá pelas horas tantas. Com premissas semelhantes, e propostas distintas, os filmes acabam se abraçando no inferno das boas intenções. O segredo da cabana (The cabin in the woods, EUA 2011) e  A morte do demônio (Evil deade, EUA 2013) devassados com o devido “spoiler alert”.



O mote
O segredo da cabana: Grupo de jovens se desloca para uma cabana isolada nas montanhas. Lá se deparam com forças sinistras após mexerem em um objeto obscuro no porão da cabana.

A morte do demônio: Grupo de jovens se desloca para uma cabana isolada na floresta. Lá se deparam com forças sinistras após mexerem em um objeto obscuro no porão da cabana.

Status quo
 O segredo da cabana: Produzido por Joss Whedon, um dos pilares da onda geek atual, a produção tem como objetivo primário ser uma sátira das produções de terror voltadas para o público jovem que colocam jovens em cabanas sinistras. A ordem é “desmoralizar” os clichês do gênero.

A morte do demônio: Remake do filme cult que lançou Sam Raimi. O filme, produzido por Raimi, não economiza no gore e tem como objetivo atualizar a trama para a geração atual. O texto foi revisado por Diablo Cody, de Juno e A garota infernal.

Entretanto...
O segredo da cabana: O filme se perde no sarro que tira do gênero e deixa uma proposta aguçada e original se fragilizar em um banho de sangue cenográfico que não é nem engraçado nem assustador.

A morte do demônio: O ritmo é um problema. A morte do demônio, a princípio, evita o tom trash empregado pelo original e investe no horror sem concessões, mas invariavelmente rende no final ao trash e compromete o “espírito” do filme.

O diretor
O segredo da cabana: Drew Goddard é da geração dos novos talentos. Com 38 anos é apadrinhado por J.J Abrams e Whedon. Antes do roteiro e direção de O segredo da cabana, ajudou a polir o texto do também decepcionante Cloverfield – o monstro.

A morte do demônio: O uruguaio Fede Alvarez foi descoberto por Raimi depois de ter feito um curta sobre uma invasão alienígena em Montevidéu e ter postado no YouTube. Já trabalha na sequência de A morte do demônio.

A protagonista
O segredo da cabana: Aos 32 anos, Kristen Connolly não é exatamente uma figura reconhecível no cinema, mas já participou – sempre como coadjuvante – de produções badaladas como Foi apenas um sonho (2008), Fim dos tempos (2008) e Os delírios de consumo de Becky Bloom.

Kristen Connolly: ok, ela é mais bonita... 

A morte do demônio: Aos 23 anos, Jane Levy ainda está pavimentando seu caminho no cinema. Com relativo sucesso na tv americana, estrela o seriado Suburgatory, debuta no cinema já protagonista em A morte do demônio. Está em outro filme de terror para estrear ainda 2013.

Jane Levy: ok, mas o futuro dela é mais promissor...

O hype da droga
 Como em todo filme de terror para jovens e com jovens, a droga ocupa papel central na trama.

O segredo da cabana: Marty, vivido pelo ator Franz Kranz, é um maconheiro inveterado. Ele faz questão de estar chapado a todo o tempo. Conforme o filme vai avançando, se percebe que mesmo chapado, Marty é o mais lúcido da turma e o único não disposto a fazer as escolhas ruins que os jovens sempre fazem nesses filmes. Mais adiante descobre-se que a maconha inibia um agente químico que, por falta de um termo melhor, “emburrecia” os jovens em questão.

A morte do demônio: Mia, vivida por Jane Levy, é uma dependente de drogas em intervenção. É essa justamente a razão que a leva, junto com dois casais, para a cabana isolada. A abstinência da droga, em certo nível, é pretexto para as alucinações e loucuras que caracterizam a personagem no segundo ato do filme.

O momento WTF
O segredo da cabana: Quando se descobre que tudo não passa de um ritual milenar para evitar a extinção da vida como conhecemos. Ou da humanidade se preferir...

A morte do demônio: Quando Mia arranca o braço das fuselagens de um carro facinho, facinho. Será que ela não viu 127 horas?

Marty, de O segredo da cabana: 'agora me diz que eu não sou o personagem mais bacana desse Tira-teima'?

A morte mais bacana
O segredo da cabana: Acaba sendo a de Chris Hemsworth que envenena uma moto e literalmente se mata.

A morte do demônio: A morte “devagar e sempre” de Eric (Lou Taylor Pucci) que, afinal, foi quem invocou o demônio. 

sábado, 4 de maio de 2013

Crítica - A morte do demônio


Ode ao gore!

O remake de A morte do demônio (Evil dead, EUA 2013) não é um filme para quem tem “nojinho”. Dito isso, a produção dirigida por Fede Alvarez deve agradar ao público que vê no terror hardcore a grande manifestação do gênero. Se essa versão perde no humor, na comparação com o filme original, ganha na tensão crescente injetada por Alvarez na trama. O roteiro, que teve supervisão de Diablo Cody, apresenta preocupações incomuns para o gênero como justificar a presença de um grupo de jovens em uma cabana isolada no meio da floresta. O roteiro, no entanto,  falha na pretensão nítida de relacionar a possessão demoníaca ao ônus de uma intervenção em viciados em drogas. Não se trata de uma comparação efetiva, mas de uma insinuação mal dosada que acaba empobrecendo o que poderia ser apenas um destacado mérito.

Sem búúú: o buraco em A morte do demônio é mais embaixo

Se há esse “porém”, A morte do demônio não economiza no sangue e nas mutilações, constituindo-se como uma ode ao gore. O aspecto trash, essência da trilogia original, parecia não fazer parte do pacote até a meia hora final, quando a tensão é tamanha que a realização, com a audiência já fisgada, manda ver no absurdo. No entanto, Alvarez não faz essa transição de maneira sofisticada – o que também compromete o final do filme. Uma vez que o público que desconhece o material original e vinha acompanhando um terror sem concessões ao risível – à parte a bem sacada (que vem do original) cena do estupro de uma das mulheres por uma árvore – pode não reagir bem à mudança de tom que caracteriza o desfecho do filme.
Esse ruído não depõe contra o talento de Alvarez, que merece um impulso em Hollywood, mas diminui sensivelmente a qualidade do entretenimento que A morte do demônio objetiva ser.
Como remake funciona tanto por preservar o espírito do original como por ser reverente a ele, mas como produto de seu espaço tempo se apequena ante produções que tem o original como referência. Um paradoxo que somente por existir tira o brilho do filme.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Filme em destaque - A morte do demônio

(Antes da) Meia-noite levarei sua alma

Nova versão de um dos maiores clássicos do terror promete muita carnificina no cinema para um público já acostumado ao torture porn de filmes como Jogos mortais e O Albergue

Sam Raimi procurou Fede Alvarez depois deste último ter feito sucesso na internet com um curta em que robôs gigantes invadem e destroem Montevidéu (Ataque de pânico). A razão do contato era a possibilidade de fazer um longa a partir daquele filme. Nem Alvarez nem Raimi souberam precisar exatamente como o papo que bateram sobre cinema, e o gênero de horror em particular, levou-os ao remake de A morte do demônio. O filme, bem mais hardcore do que a versão original, na avaliação que Alvarez fez ao New York Times, é uma reimaginação do filme de 1981 que pôs Sam Raimi no mapa e iniciou uma das séries mais cults da história do cinema, no Brasil conhecida sob a alcunha Uma noite alucinante. Raimi decidiu patrocinar a estreia do uruguaio tanto no cinema americano como na direção de longas. Sucesso absoluto de público – o filme custou cerca de U$ 17 milhões e já rendeu somente nos EUA mais de U$ 45 milhões – uma sequência de A morte do demônio já está em pré-produção. “Terá uma pegada mais humorística”, entrega Alvarez à Total Film.
Alvarez orienta uma de suas vítimas: sem poupar
o elenco
Uma das grandes diferenças entre essa reimaginação e o original é justamente a pouca atenção ao humor. A outra é a ausência do personagem Ash Williams, vivido por Bruce Campbell – de volta como produtor executivo na nova versão. A razão para essas mudanças estruturais, segundo Alvarez, é forjar uma identidade própria para a nova versão. “Ash é um personagem muito icônico. Não acho que seria de bom tom atualizá-lo”. Alvarez conta que Raimi lhe deu total liberdade e concordou com essa percepção. Outra ideia do diretor foi usar o mínimo possível de recursos do CGI (os famigerados efeitos especiais). “Era de bom tom manter a aura de terror do original”, brinca Alvarez com seus tons sobre tons. Para ele, uma produção que abusa do CGI afasta o espectador. “Não foi fácil para o elenco”, disse à revista brasileira Preview.
Esse elenco é composto majoritariamente por jovens. Shiloh Fernandez, que já esteve em A garota da capa vermelha, e Jessica Lucas, que já esteve em filmes como O pacto e Cloverfield – o monstro, são os menos desconhecidos. A trama é a mesma do original. Cinco amigos vão para uma cabana remota onde encontram um livro dos mortos que desperta demônios que moram na floresta. Entre possessões e o grotesco nonsense como um estupro realizado por uma árvore, A morte do demônio promete uma experiência que os filmes de horror de hoje não conseguem oferecer: imersão total.

Confira Sam Raimi e Fede Alvarez falando sobre A morte do demônio 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Crítica - Mama

Terror interno

Em mais de uma oportunidade, o produtor Guillermo Del Toro disse, em entrevistas promocionais, que o que o atraiu em Mama (EUA/ESP/CAN 2013) foi a "ideia de uma mulher lutando literalmente contra ser mãe. Fisicamente rejeitando essa possibilidade". Além de ser uma leitura saborosa do conflito da personagem de Jessica Chastain no filme, reside nesta abordagem de fundo psicológico e emocional a força de Mama enquanto cinema. Ao abraçar esse subtexto do filme de Andrés Muschietti, em uma estreia robusta no cinema, o espectador irá se deparar com um tipo de terror muito mais genuíno e prolixo. O poder de uma emoção, seja um trauma violento ou o desejo de pertencer a uma família, é o motor do desenvolvimento do roteiro e a chave do, até certo ponto, anticlimático desfecho.
Mama começa com um prelúdio devastador. Um homem mata seu sócio, a esposa e sequestra as duas filhas pequenas para matá-las e depois se suicidar. Um acidente os leva a uma cabana retirada onde ele decide levar seu plano a cabo. No entanto, uma criatura o mata impedindo que ele faça mal às duas meninas, Lilly (Isabelle Nélisse) e Vitória (Megan Charpentier).

Jessica Chastain está perfeita no papel de uma mulher que resiste à condição de ser mãe: um filme que investiga sob a ótica do terror traumas e angústias 

Passam-se cinco anos e sabemos que o irmão desse homem, o desenhista Lucas (Nikolaj Coster-Waldau) jamais desistiu de procurar por suas sobrinhas e financia um grupo independente para tanto. Certo dia eles a acham e elas estão completamente animalizadas. Resgatadas, inicia-se um intenso tratamento psicológico para tentar recuperar a humanidade nas meninas que sobreviveram por cinco anos se alimentando basicamente de cerejas e, algo que vai se desvendando aos poucos, sob a proteção de Mama – a tal da criatura vista pela primeira vez na cabana e assim nomeada pelas meninas.
Muschietti não faz um filme de terror enclausurado em si. Ainda que apresente recursos sonoplastas aqui e acolá e pregue sustos circunstanciais, Mama é um filme sobre o terror interno. De uma mulher que não quer ser mãe, e o desenho da personagem Annabel, uma roqueira cheia de atitude e com certa descompostura, é muito bem delineado por Chastain; e sobre a proeminência de um trauma tão profundo e remissivo como o abandono que aflige essas duas crianças. A figura catalisadora de Mama, também ela com uma história traumática, torna tudo mais catártico. Um personagem, em um dado momento do filme, define: “um fantasma é uma emoção deformada”. É de emoções deformadas que trata Mama. Tudo pela ótica inusitada do terror. O que faz do filme de Muschietti uma das melhores surpresas do ano no cinema. 

domingo, 7 de abril de 2013

Insight - O gênero de terror está esgotado?


A hesitação da The Weinstein Company em confirmar o quinto filme da série Pânico e a discussão sobre a possibilidade de reiniciar a série no cinema lançam a pergunta: o gênero está esgotado? A franquia assinada por Wes Craven, ele próprio um papa do gênero, foi o último grande sopro de originalidade no cinema de horror. O quarto filme, lançado em 2011, no entanto, não rendeu o esperado pelos produtores nas bilheterias. Nos últimos anos, salvo uma ou outra pequena exceção, o gênero tem sido engolido por refilmagens pouco imaginativas e derivados do último grande filme original do gênero: Jogos mortais.
Dois cineastas, no entanto, compõem a resistência. O americano Sam Raimi e o mexicano Guillermo Del Toro, ambos com um histórico de sucesso no gênero, patrocinam o que pode ser uma nova virada para o gênero. Del Toro tem produzido novos nomes, majoritariamente latinos, em filmes como O orfanato (2007), Não tenha medo do escuro (2010) e Mama, em cartaz nos cinemas. Sam Raimi faz o mesmo. Ele esteve por trás de filmes como Possessão (2012) e 30 dias e noite (2007) e agora produz o remake do filme que lhe deu fama, A morte do demônio.
A predileção por diretores latinos, o argentino Andrés Muschietti é o responsável por Mama e o uruguaio Fede Alvarez o diretor de A morte do demônio, está relacionada à gramática visual do cinema latino, mais inventiva e porosa do que a de diretores emergentes de outros cantos do mundo.

Cena de Mama, filme de terror que mexe com as emoções: sobrevida no gênero

Vem do Uruguai, também, uma das últimas propostas ousadas no gênero. Lançado em 2011, o uruguaio A casa foi rodado de maneira a parecer ser um único plano-sequência de 80 minutos em uma câmera digital. O filme tem remake americano garantido com supervisão do diretor do original, Gustavo Hernández.
Esse movimento que parece buscar uma nova postura estética para o cinema de horror tem a ver com a saturação do terror gore materializado em filmes como O albergue e as sequências de Jogos mortais.
Muschietti foi selecionado por Del Toro depois que este viu um curta dirigido pelo argentino na internet. Daí, o mexicano decidiu produzir um longa a partir daquele curta. Assim surgia Mama, um dos primeiros sucessos de público e crítica do ano. A trajetória de Mama para chegar aos cinemas é sintomática tanto das possibilidades ensejadas pela internet como da carência que aflige o cinema de horror no tangente a talentos e ideias. Mas também é um sinal claro de que não há, neste momento, sinais de esgotamento. Sam Raimi, que rodou em 2009 o último grande filme do gênero (Arrasta-me para o inferno) acredita que a nova versão de A morte do demônio pode ser ainda mais hypada do que a original. Seria um alento para um gênero que anda precisando... 

"O filme mais aterrorizante que você verá": a promessa do slogan de A morte do demônio se cumprirá?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Crítica - A hora da escuridão

Escuro total!
Existem filmes que representam verdadeiros desafios à arte de se elaborar uma crítica minimamente inteligível. É o caso de A hora da escuridão (The darkest hour, EUA 2011). Esse abacaxi com jeitão de parque de diversões em 3D torna inglória a tarefa de elencar seus vícios e desacertos. A fita de Chris Gorak mostra um grupo de americanos testemunhando o fim do mundo em Moscou na Rússia. Dois deles, os promissores Emile Hirsch e Max Minghella, são geeks de computador que vão à capital russa com a ideia de fechar um negócio milionário e são passados para trás. Rachel Taylor e Olívia Thirlby são as turistas que fazem uso do “revolucionário” aplicativo desenvolvido pelos meninos e, obviamente, acabam cruzando com eles antes do mundo começar a dar tchau.
O tchau da vez surge na presença de alienígenas invisíveis que se alimentam de eletricidade e dizimam rapidamente a humanidade. Pelos menos é o que pensávamos. À medida que vamos descobrindo que mais gente sobreviveu ao “aterrador” ataque alien, mais tedioso A hora da escuridão fica.

Turma reunida: a ação vai começar... e o tédio também


Anti-climático, o filme aposta em aliens que jogam contra o princípio de entretenimento escapista justamente por serem invisíveis. Os protagonistas são mais chatos do que sogra de porre e o fiapo de história é estendido a limites imponderáveis. Não há nada que se salve em A hora da escuridão. Nem o patriotismo americano, que muitos adoram avacalhar, está lá. Cabe aos russos o amor à bandeira da vez. E eles não têm o mesmo carisma.
Não há humor. Não há cinismo. Não há sarcasmo. Não há nem mesmo nudez. Tudo que este filme pode lhe oferecer são 85 minutos de puro e inabalável tédio.  

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Em off

Nesta edição de Em off, as próximas biografias polêmicas a ganharem os cinemas, alguns takes de Ryan Gosling, uma seleção especial para o final de semana do Halloween, a constatação de que os heróis já não são mais os mesmos e o começo dos festejos em Hollywood.


Ryan Gosling em cinco takes

Na última semana, Claquete publicou um perfil de Ryan Gosling, no qual estipulou que o ator, que já demonstra grande talento, caminha para se tornar um dos principais expoentes de Hollywood. Uma rápida olhada em sua filmografia sugere que o otimismo é justificado. Claquete selecionou alguns destaques:

Perturbado

Em Cálculo mortal (2002), Gosling vive um jovem assassino de forte inclinação homossexual. Com uma atuação clean, o ator demonstra consciência exata do que deve mostrar, sugerir e ocultar. Um personagem charmoso que apresentaria o talento de Gosling para tipos soturnos.


O homem ideal

Em Diário de uma paixão (2004), o ator dá vida a Noah, um arquétipo romântico muito bem idealizado nas páginas de Nicolas Sparks e materializado em uma performance viril e sensível do ator que se mostrava capaz de assumir um papel romântico e pincelá-lo com nuances dramáticas adornadas por carisma e energia.


Perturbado novamente   

Mais um personagem cheio de nuanças e cujos limites dependem muito da intuição do ator. Na pele de um paciente de uma instituição psiquiátrica com fortes impulsos suicidas, Gosling atrai os olhares da audiência em A passagem (2005) com uma caracterização ritmada, fluída e imprevisível.


Perturbado redimido
A indicação ao Oscar veio por essa demolidora composição de um professor viciado que enxerga na relação com uma aluna que descobre suas aflições, o caminho de volta do ostracismo emocional e psicológico em que está. Sua atuação em Half Nelson é das coisas mais liberadas de vaidade que se tem notícia no cinema recente.


The cocky

Quem entende inglês sabe que a palavra aí de cima reúne múltiplos significados. De algum jeito, todos eles sintetizam bem o personagem que Gosling vive em  Um crime de mestre. O promotor assistente que está prestes a mudar para um grande escritório de advocacia e que, portanto, assume uma postura negligente em um caso de assassinato é uma demonstração de subordinação a outro grande ator, no caso Anthony Hopkins. Gosling, porém, sabe aproveitar os respiros que tem para brilhar.


Depois de Mark Zuckerberg...
Quem pode negar que A rede social é cool? Além de inteligente, dinâmico e profundamente reverberante do status atual da sociedade, o filme de David Fincher é responsável por desencadear uma nova leva de biografias dos precursores digitais desse novo século. Depois de Mark Zuckerberg vem aí as histórias de Julian Assange, o fundador do Wikileaks, que ameaça encerrar as operações do site por falta de verbas,  e Steve Jobs, o “visionário” da Apple que faleceu no início do mês.
Assange, que teve duas biografias publicadas em 2011, terá dois filmes com propostas bem diferentes. A primeira lhe será mais lisonjeira e os direitos foram adquiridos por Steven Spielberg. A segunda, adquirida pela Sony que lançou A rede social, deve ser mais inflamável e polêmica. A mesma Sony já estuda levar a bio recém-lançada de Steve Jobs para os cinemas e quer Aaron Sorkin, roteirista de A rede social, para “amaciar a carne”. Potenciais vencedores do Oscar? Sucessos de bilheteria? Análises sobre o homem e o meio? Bem vindo a nova corrida espacial hollywoodiana.

Steve Jobs é o próximo da fila de um tipo muito particular de biografia cinematográfica... 


O 15º Hollywood Film Awards
Não é por acaso que alguns dos mais respeitados críticos de cinema dos Estados Unidos apontam o francês The artist, o independente The descendants e o high profile Moneyball como os principais concorrentes da temporada de premiações que se anuncia. As três produções, e os principais responsáveis por elas, foram homenageadas no 15º Hollywood Film Awards. George Clooney, que pode se consagrar mais uma vez como artista completo que é nesta temporada, recebeu um troféu especial em homenagem à carreira. O diretor e roteirista Alexander Payne também foi homenageado, assim como o foram Bennett Miller (diretor de Moneyball), Michel Hazanavicius e Jean Dujardin (diretor e ator de The artist). Tudo bem que a bela inglesa Rosie Huntington-Whiteley, a nova Trasformers girl, também foi homenageada; mas aí já outra história...
 George Clooney comparecer ao evento acompanhado da nova paixão Stacy Keibler


Barba, cabelo, bigode... e cueca
Há não muito tempo atrás, os heróis estavam circunscritos as alegorias que seus filmes eram. Em um movimento repentino, em que Christopher Nolan tem grande responsabilidade, mas que também passa pela trilogia Bourne, a realidade e a tragédia investiram de vez nesse subgênero hollywoodiano. Dois célebres heróis que povoam o imaginário cinematográfico chegarão aos cinemas nos próximos anos um pouco mudados.
O primeiro é o filho de Krypton. O Superman de Zack Snyder, que será vivido pelo britânico Henry Cavill, não usará a cueca vermelha por fora do uniforme e passará a maior parte do tempo sujo e barbado como atestam fotos do set de filmagens divulgadas recentemente. Pode-se argumentar que essas “mudanças visuais” pouco tem a ver com a ideia de explorar a fragilidade do homem de aço. Fragilidade emocional, diga-se.
Outro brucutu frágil é James Bond. A ideia dos produtores de sensibilizar o mulherengo a serviço do MI 6 culminou na contratação de Sam Mendes, o premiado diretor de Beleza americana e Foi apenas um sonho, para mitigar o sofrimento de 007. Com Javier Bardem confirmado como vilão e boatos de que a ideia é “rodar um filme mais sério com aspirações ao Oscar”, ficou resolvido que Bond surgirá com um visual mais relaxado (tipo barba por fazer e aparência depressiva), para dar forma ao sofrimento.
Realidade é outra coisa!

Henry Cavill nos sets de Superman - o homem de aço: o filho de Krypton com um visu a la Tarzan 




Dia das bruxas


Com o fim de semana do halloween à espreita, vale a pena fazer uma listinha para assistir no fim de semana. Claquete elaborou uma lista de filmes para deixar seu fim de semana macabro na medida certa. Estão presentes perolas do terrir, representantes de um terror mais visual, outros de uma vertente mais sugestiva e filmes especializados em pregar sustos. Uma salada de respeito!

1- a bruxa nojenta de Arrasta-me para o inferno; 2- o pé putrefato de Jogos mortais; 3- o momento da verdade em O bebê de Rosemary


 Jogos mortais (Saw, EUA 2004), de James Wan
É bem verdade que a série se desvirtuou e virou um pornô gráfico e absurdo de violência e sangue, mas esse primeiro filme –elogiado em sundance – é uma produção independente com alma de filme B e uma história arrepiante e enervante na medida certa.   


 Brinquedo assassino (Child´s play, EUA 1988), de Tom Holland
A definição de terror gore nos anos 80 era bem diferente da atual e esse filme dirigido com desenvoltura e audácia por Tom Holland ilustra bem isso.  Um serial killer, antes de ser morto, transfere sua alma para um brinquedo, e dá sequência à contagem de vítimas. Aterrorizou toda uma geração. Hoje pode soar ingênuo, mas ainda tem seu impacto.


 O bebê de Rosemary (Rosemary´s baby, EUA 1968), de Roman Polanski
Esse terror psicológico, algo expressionista, do diretor franco polonês é um marco do cinema sugestivo. Bruxas, seitas, Diabo, estupro e alucinações são a matéria prima do cineasta nesse filme assustadoramente impressionante que conta com um desempenho memorável de Mia Farrow.


Os espíritos – a morte está ao seu lado (Shutter, Tailândia, 2006), de Banjong Pisanthanakun
Tudo começa com um atropelamento. Daí, espectros suspeitos começam a aparecer nas fotografias do casal envolvido no atropelamento. Esse filme tailandês, que já ganhou uma refilmagem americana razoável estrelada por Joshua Jackson, sabe como poucos pregar sustos e conta com uma história realmente arrepiante. Sua percepção para aquela dor na coluna será totalmente modificada por esse filme.


Os espíritos (The frighteners, EUA 1996), de Peter Jackson
Antes de sagrar-se um realizador de ponta, Peter Jackson teve seu passado negro e essa fita que mescla humor e terror estrelada por Michael J. Fox é o testamento disso. Fox vive um detetive algo charlatão que se diz capaz de se comunicar com os mortos. O problema é quando ele, de fato, começa a se comunicar com os mortos.


Arrasta-me para o inferno (Drag me to hell, EUA 2009), de Sam Raimi
Sam Raimi é um cara legal. E um cara com profundo conhecimento cinematográfico em termos de ritmo e narrativa. Basta conferir esse filme para concordar. Na trama, que tira sarro da crise financeira, a jovem Christine nega a renovação de um empréstimo a uma velha cigana maltrapilha. Só para esta lhe rogar uma praga daquelas. Com jeitão de lenda urbana, o filme vai longe. É a cereja do bolo no final de semana comemorativo de Halloween.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Outubro dos horrores

O que seria de um mês de outubro sem lançamentos de horror no cinema? Seria muito frustrante para fãs do gênero e um desperdício em termos econômicos e marqueteiros para os estúdios. Em 2011, dois lançamentos se destacam. O primeiro deles, que já está em cartaz nas salas brasileiras, é A hora do espanto (Fright night, EUA 2011), refilmagem do homônimo de 1985. O outro, que estréia mundialmente em 21 de outubro, é a terceira parte da mais recente franquia de terror do cinema (Atividade paranormal).


Muito mais do que uma homenagem...

A hora do espanto é um filme seminal. A fita de Tom Holland, lançada em 1985, deu vez a uma nova horda no cinema de horror com o “terrir”, um híbrido de terror e comédia que atingiu o ápice com séries como A morte do demônio, de Sam Raimi e A hora do pesadelo, de Wes Craven. O próprio Sam Raimi revisitou o “terrir” há dois anos com o excelente Arrasta-me para o inferno. E Craven ostenta a série Pânico. O “terrir” é um conceito estranho para platéias acostumadas com o graphic porn de filmes como Jogos mortais e O albergue. Mas é aí que essa refilmagem capitaneada por Craig Gillespie pode fazer a diferença. Gillespie não tem um currículo que o habilite no gênero, mas além de produzir uma série que aborda esquizofrenia de um jeito leve (United States of Tara), ele já dirigiu duas comédias de tons completamente diferentes: Em pé de guerra, em que Sean William Scott sofre bullying do namorado da mãe vivido por Billy Bob Thorton  e A garota ideal, em que Ryan Gosling apaixona-se por uma boneca inflável. Gillespie demonstra respeito pela obra inaugural do “terrir’, mas demonstra também ousadia em atualizar a trama com elementos da cultura pop.

 O cartaz do A hora do espanto original aposta mais no humor do que no terror...

Colin Farrell é o destaque de um dos cartazes promocionais do novo A hora do espanto: sangue, risos e sustos...


O novo A hora do espanto, apesar da aprovação da crítica, não empolgou nas bilheterias. O fato corroborou para o fracasso das refilmagens oitentistas nesse 2011. Além de A hora do espanto, Conan- o bárbaro foi outro filme que fez água nas bilheterias. Esse detalhe só reforça a inadequação do público ante a proposta. Outro ponto de divergência diz respeito à forma como os vampiros são mostrados aqui. Em A hora do espanto, diferentemente da moda atual, os vampiros são criaturas demoníacas, sedentas por sangue e impiedosas. Essa diferença é sublinhada em um ótimo diálogo entre Charley Brewster (Anton Yelchin) e seu amigo Ed (Christopher Mintz-Plasse). Quando o segundo tenta convencer o primeiro de que o novo vizinho é um vampiro. “Você está lendo muito Crepúsculo”, devolve Charley. Colin Farrell dá vida ao vampiro Jerry, o vizinho tipão de Charley. Farrell reveste Jerry de charme, mas de um jeito assustador e cínico. De longe a melhor retratação de um vampiro no cinema em anos. Uma curiosidade é que o ator australiano Heath Ledger foi considerado para o papel nos estágios iniciais da produção, mas a prematura morte de Ledger, em janeiro de 2008, colocou Colin Farrell na mira dos produtores. 
“Aceitei fazer porque sou fã do original e acho que a ideia não era fazer uma refilmagem pura e simples, havia como expandir esse universo e honrar o original”, ressalta Colin Farrell em entrevista promocional. O fato de contar com os ótimos Anton Yelchin e Christopher Mintz-Plasse, como os nerds da vez, ajuda a dar corpo a essa ideia.
É no mínimo inusitado, dentro da configuração cinematográfica atual, um filme de terror que faça rir e que tenha um vampiro enigmático e cruel. São dois aspectos que o novo A hora do espanto mantém em evidência calculada. Não à toa, os elogios se multiplicam.

 Medo: Charley, sua mãe e sua namorada lutam pela sobrevivência 


Nada paranormal 

Em 2009 uma fita independente tomou conta das redes sociais e teve no boca a boca digital o seu melhor marketing. Tratava-se de Atividade paranormal (2009). A fita do americano Oren Peli destronou A paixão de Cristo, de Mel Gibson do posto de filme independente de maior rentabilidade da história. Rodado com apenas U$ 15 mil, o filme faturou quase U$ 250 milhões nas bilheterias mundiais. Um feito e tanto.
Steven Spielberg havia intercedido junto a Paramount pela fita e possibilitou que Peli lançasse a produção nos cinemas. O curioso é que a cada semana que se passava, o circuito de Atividade paranormal era ampliado, em virtude do frisson nas redes sociais – especialmente no twitter. O filme foi o mais citado dentro do grupo cinema em 2009 e os leitores de Claquete o elegeram para receber o especial do mês de dezembro daquele ano no blog. O filme chegou ao país e a maior parte de seu público foi constituída por adolescentes que berravam nos cinemas quando uma porta se mexia ou um barulho surgia na tela. O hype já era grande demais.
A trama de Atividade paranormal era simples. Um casal, atordoado com suspeitas de alguma atividade durante a noite em sua casa, instala câmeras para se certificar do que estaria acontecendo. Apesar do estrondoso sucesso, e da relativa aceitação da crítica americana, Atividade paranormal não foi bem recebido pela crítica brasileira. “A opção narrativa, cuja razão é puramente orçamentária, de mostrar pouca coisa e confiar no poder da sugestão é valiosa e muito mais eficaz do que os litros de sangue da série Jogos mortais. Contudo, falta a Peli a capacidade de admoestar sua platéia.”, destacou Claquete na crítica do filme em dezembro de 2009. A crítica completa, o leitor pode conferir aqui.

Katie, Micah e a câmera: o jeitão de reality show de Atividade paranormal é um dos atrativos do filme


O sucesso, no entanto, garantiu ao filme a transmutação em franquia cinematográfica. Além de ter gerado uma refilmagem japonesa – algo inusitado principalmente na seara do terror, aonde os americanos vinham se apropriando do terror asiático - Atividade paranormal ganhou um segundo capítulo dirigido por Tod Williams, de dramas como Provocação (2004).
O segundo filme acompanhava eventos paralelos aos acontecimentos retratados no primeiro exemplar. Os dois primeiros filmes e a refilmagem japonesa podem ser encontrados nas melhores locadoras e megastores do país. O segundo filme é uma das estréias do mês no canal pago Telecine Premium.
Em 2011, chega o terceiro Atividade paranormal. Oren Peli, novamente atuando como produtor, confiou aos novatos Henry Joost e Ariel Schulman a direção da fita. É o terceiro ano consecutivo de Atividade paranormal nos cinemas. Terá mais? “Em termos de um quarto filme, eu não tenho a menor ideia”, afirmou Peli. “Eu nunca pensei que teria uma parte 2, quanto mais um terceiro”.  Mas o diretor e produtor sabe rezar a cartilha: “Mas se esse aqui for um sucesso, o estúdio provavelmente irá querer um quarto filme. Mas nós temos muito respeito pela base de fãs; nunca faremos um filme só por fazer”, argumenta o diretor e produtor que atualmente está dirigindo Área 51, um filme de terror que envolve alienígenas. Peli que também é produtor da nova fita de terror de Rob Zombie, The lords of Salem, disse que acha o terceiro filme o mais assustador: “Nós o achamos extremamente assustador! Nós estamos indo mais além para mostrar as origens das maldições que perseguem Katie e Kristi. A história acontece no final dos anos 80 quando nossos personagens são crianças e nós poderemos ver como toda aquela doidera começou”.
Talvez seja justamente isso que os fãs queiram e não é necessária nenhuma paranormalidade para perceber isso.
O poster do terceiro filme: tudo o que os fãs queriam...

sábado, 23 de julho de 2011

Cantinho do DVD

Passou despercebido nas salas de cinema brasileiras no inicio de 2011, esse que, até o momento, é o melhor filme de terror do ano. Doce vingança, é bem verdade, foi lançado na cova dos leões: em plena temporada do Oscar. Mas o bad timing da distribuidora não é desculpa para não alugar esse ótimo filme de horror que desenvolvido de maneira simples e eficiente garante boa hora e meia de diversão. A crítica a seguir.





Crítica
Eis que o cinema de terror conseguiu um bom respiro com Doce vingança (I spit in your grave, EUA 2010). A fita, repleta de desconhecidos e dirigido por Steven R. Monroe (que debuta na direção de cinema), é daqueles filmes que alimentam uma premissa com cara de lenda urbana com bastante sangue, mas sem descuidar da tensão.
A história é tão simples quanto banal nos círculos do terror. Escritora se retira em cabana deserta em cidadezinha mais deserta ainda para escrever; e vira vítima de uma quadrilha de sádicos que a estupra com requintes de crueldade. Após conseguir fugir, ela resolve voltar e vingar-se, com mais crueldade ainda, de cada um de seus algozes.
A trama se divide claramente em dois atos. O primeiro, e bastante pesado, engloba o momento em que Jennifer (Sarah Butler) é violentada. O desgaste emocional é algo que Monroe opta por frisar para valorizar seu segundo ato. O diretor não economiza no clima de iminência que se sobrepõe e convida o público a indignar-se com a hediondez dos caipiras, entre eles um homem da lei, que demonstram total falta de humanidade.
Na sequência, Monroe, sempre dentro de uma considerável e pertinente lógica interna, apresenta uma transformada Jennifer em busca dessa vingança que o título brasileiro chama de doce, mas que faz mais sentido com o ótimo e bem sacado título original (eu cuspo na sua cova). Jennifer cerca um a um, os responsáveis por sua tragédia e os submete a um destino cruel e definitivo. As cenas, embora mais curtas e menos tensas do que aquelas do longo primeiro ato, são suficientemente fortes para incomodar. Decepações, mutilação de órgão genitais e outras formas mais primais de tortura marcam uma catarse que de tão pretendida chega comemorada, embora Jennifer permaneça impassível frente aos olhos da platéia antes da subida dos créditos finais.
Doce vingança é extremamente previsível, mas ainda mais eficaz. Sem invencionices, Monroe faz valer a censura 18 anos com uma ininterrupta crescente de tensão e um genuíno apreço pelos filmes seminais de horror. Em um mundo habitado por Jigsaw e remakes conservadores, Doce vingança não se ressente de ser cruel durante os 108 minutos de sua metragem. Nem poupa sua platéia daquilo que pagou para ver.

domingo, 8 de maio de 2011

Insight

O cinema de horror entre os filmes da série Pânico

Pouco antes do lançamento de Pânico 4, o diretor dos quatro filmes da série, Wes Craven, disse que Pânico está para o cinema de terror como Star Wars está para a ficção científica. A comparação, a princípio despropositada e pretensiosa, ostenta forte ressonância. Pânico, de fato, realinhou a produção do gênero nos anos 90 gerando cópias descaradas e restabelecendo o status quo dos filmes de horror, agregando-lhe mais charme e senso de humor. Características que andavam perdidas do gênero até o retorno do Ghostface e de Sidney Prescott a Woodsboro.

Gente como George Romero (foto) seguiu
rodando seus filmes clássicos

Com o desgaste da série (além dos três filmes rodados quase que a toque de caixa, a profusão de cópias e filmes que “homenageavam” Pânico contribuíram para esse processo), o cinema de terror americano se viu na contingência de buscar um novo hype. Além de Craven (que era a última palavra no gênero), não havia outro expoente americano que pudesse revitalizar o gênero levando-o para outra direção. Foi no terror nipônico, e numa duvidosa leva de refilmagens, que o cinema de terror americano se abrigou. Enquanto gente como Dario Argento e George Romero mantinha uma produção menor e mais circunscrita, gente como Robie Zombie e Zack Snyder os reverenciavam em refilmagens bacanas. Mas foi a onda desencadeada por O chamado e O grito, com seus espectros soturnos e fantasminhas nada camaradas, que ditou o cinema de terror no começo da década passada. Até que em 2004, um filme independente premiado em Sundance chamou a atenção. Rodado com pouco mais de U$ 1 milhão, Jogos mortais, do novato James Wang, agradou público e crítica. O assassino Jigsaw se provaria uma figura tão carismática e sedutora quanto o Ghostface e a série (com uma queda de qualidade abismal) se tornaria a mais longeva de um saga de terror moderna. Jogos mortais surpreendia pelo inusitado grafismo com que expunha a violência. Esse grafismo foi ficando desmedido e ganhando contornos pornográficos nas sequências absolutamente gratuitas. Faltava aos realizadores de Jogos mortais a exuberância narrativa que Wes Craven pauta a série Pânico. Apesar de embutir o senso de humor na série, Jogos mortais nunca excedeu a obviedade do filme de gênero e tornou-se refém de clichês. Essa chaga foi devidamente contornada por Pânico com o advento do quarto filme. Craven se incumbe de sublinhar as diferenças entre a série e os filhotes de Jogos mortais logo na cena de abertura.

Igual, mas diferente: Eli Roth está movimentando a produção de terror nos EUA


Paralelamente a isso, desponta na cena de terror, o nome de Eli Roth. Apadrinhado pelo cineasta Quentin Tarantino, o realizador dos interessantes Cabana do inferno e O albergue, mostra-se um produtor ativo e revela o anseio de arejar o gênero. Seus filmes, é bem verdade, se ajustam mais a Jogos mortais do que a Pânico. Mas Roth demonstra estofo criativo para superar imposições mercadológicas e, mais que isso, uma linguagem própria que pode levá-lo além.
Pânico 4 estréia para mostrar que Roth pode até fazer o seu O senhor dos anéis. Mas que para os fãs, Star Wars sempre terá a primazia.

sábado, 23 de abril de 2011

Cantinho do DVD

Semana passada Cantinho do DVD destacou O albergue. A continuação do filme de Eli Roth ganha vez na seção desta semana. O diretor reproduz o que deu certo no primeiro filme e atende à curiosidade de quem ficou fascinado com o ponto de partida da trama original. Depois deste filme, Roth apareceu como ator em Bastardos inglórios (e dirigiu o segmento "O orgulho da nação" dentro daquele filme) e tem produzido algumas fitas de terror indies como O último exorcismo. A crítica a seguir:





Crítica

Continuações de filmes de terror tendem a engrossar o caldo do original. Para o bem e para o mal, Eli Roth sabe que esse é um caminho a ser evitado em O albergue: parte II (Hostel: part 2 EUA 2007). O diretor pegou a mesma ideia que pautou o filme original e, ao invés de reciclá-la, sofisticou-a. Novamente mochileiros, no caso mochileiras, são o alvo do clube sádico que atende ao mercado de luxo para milionários entediados na Eslováquia. O diretor e roteirista busca desenvolver a história do primeiro filme; oferecendo para sua audiência algum bastidor. Surgem mais detalhes daquela misteriosa organização que descobrimos no primeiro filme. Roth modifica também a construção dramática do filme. Além de acompanharmos as jovens fadadas a se tornarem vítimas, somos apresentados a dois tipos recém ingressos no clube e que deverão fazer sua estréia nos próximos dias. Enquanto um mal se contém de ansiedade para torturar uma garota, o outro parece sempre hesitante. O mérito de Roth, mais uma vez, está em trabalhar os clichês de maneira climática e constante. Nem por isso, O albergue: parte II se torna um filme superior ao original. O primeiro ainda desponta pela originalidade e pelo desapego nas cenas gráficas (da nudez ao sangue), mas esse aqui é um entretenimento tão bom quanto.
Roth, inegavelmente, se diverte fazendo o que faz. Esse filme parece mais irônico e cínico do que o primeiro. Talvez por isso, menos tenso. O que não chega a ser ruim, mas prova que Roth mais do que ser diretor gosta é de se esbaldar no terror.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Crítica - Pânico 4

“Não preciso de amigos, preciso de fãs!”


A frase que dá título a essa crítica foi proferida por um importante personagem em um momento crucial de Pânico 4 (Scream 4, EUA 2011). Ela diz mais sobre esse novo filme de Wes Craven, que revigora a franquia que marcou época nos anos 90, do que qualquer título espertinho. A frase sintetiza uma das preocupações da realização na concepção desse novo filme que retoma a história de Sidney (Neve Campbell), Gale (Courteney Cox) e Dewey (David Arquette) e da fictícia Woodsboro – cidade em que ocorreram os crimes no filme original.
Antes de ser um filme de terror divertido (uma especialidade dessa franquia assinada por Craven e pelo roteirista Kevin Williamson), Pânico 4 é uma obra referencial. Dentro do gênero terror e também no olhar que dispensa para o fenômeno das redes sociais. O escopo aqui, é bom que se diga, é diferente do vislumbrado em A rede social. Dentro dessa proposta bípede, a cena de abertura da fita beira a genialidade. A metalinguagem cinematográfica, que sempre pautou a série, adquire novos contornos nesse quarto capítulo. As referências a outros filmes de terror vêm temperados por um despudor em diminuir produções como Jogos mortais e O chamado. Craven se diverte ao rir do gênero em que se consagrou. Logo no início uma personagem se queixa dos filmes de terror atuais: “Não há desenvolvimento de personagens!”. Em Pânico 4, Sidney Prescott reaparece como uma espécie de tenente Ripley (célebre personagem de Sigourney Weaver na série Aliens) e vira alvo de um novo massacre em Woodsboro. De volta à cidade para a divulgação de um livro, com jeito de auto-ajuda, que escreveu, Sidney se vê no epicentro de mais uma dupla de imitadores dos assassinos originais.
Não seria exagero dizer que Neve Campbell está em seu melhor momento como atriz aqui. Capaz de revelar fragilidade e força com um mesmo olhar, em um mesmo movimento, a atriz sentiu positivamente os anos afastada da série.

Sidney (Neve Campbell) e sua prima Jill (Emma Roberts): a voz do Ghostface agora vem em aplicativo da Apple...


O que mais instiga em Pânico 4 é sua vocação para a autoparódia. A marca da série surge apimentada aqui. Seja na dupla de policiais que evoca Bruce Willis como um clichê ou no final alternativo que Craven embute no próprio filme. Pânico 4 não se leva a sério mesmo quando busca a reflexão. Os limites da fama foram flexionados com o advento da internet? Se a nova década traz novas regras e o clichê é ser imprevisível, dá para dizer que dentro de sua previsibilidade, Pânico 4 deu seu jeito de ser imprevisível. A série exibe novo fôlego, mais conteúdo, mais humor e um senso crítico (para consigo mesma e para com o público que busca se comunicar) que inexistia antes.
A resposta para o sucesso, o próprio Craven – que teve o seu A hora do pesadelo pifiamente refilmado – entrega em uma fala do filme (em mais uma das deliciosas figuras de linguagem de seu cinema): “A regra principal é não fuder com o original!”

sábado, 16 de abril de 2011

Cantinho do DVD

Eli Roth surgiu com um filme de nome impactante e ação não menos chocante. Cabana do inferno (2003) é o legítimo BBB. Bom, bonito e barato. Quentin Tarantino, que adorou o filme, resolveu bancar o garoto na sua próxima brincadeira. Surgia O albergue, que elevou o tom de sadismo encontrado em filmes como Jogos mortais. A brincadeira deu caldo e Roth rodou uma sequência dois anos depois. O primeiro filme é o destaque desta semana de Cantinho do DVD. Em tempo, Roth – que já atuou como um dos bastardos de Tarantino em Bastardos inglórios – produz simultaneamente dez filmes de terror de novos diretores. É Tarantino fazendo escola ou o Roth é apenas um sádico desenfreado? A crítica a seguir:




Crítica *
Sangue é o que mais tem em O albergue (Hostel, EUA 2005), novo filme de Eli Roth, realizador apadrinhado por Quentin Tarantino que ajudou na distribuição do filme. Além do sangue, há bastante nudez também nesse filme que segue os cânones do cinema de terror, mas radicaliza a experiência com doses cavalares de sadismo. Tudo é gráfico em O albergue. Desde a proposta, até as cenas de tortura e mutilação explícitas. Roth vem engrossar, com acuidade visual, uma nova tendência no gênero. A da pornografia gore, aventada com o sucesso da cinesérie Jogos mortais. É uma fase. Uma fase mais sanguinolenta e visual do que a dos terrores nipônicos, febre anterior do gênero nos EUA.
Grupo de jovens mochileiros vai a Eslováquia em busca de sexo e acaba virando presa de uma organização que oferece um peculiar serviço ao mercado de luxo dos ricos e poderosos: a possibilidade de sodomizar, torturar e matar pessoas. Turistas jovens e maloqueiros, por razões óbvias, são a matéria prima dessa organização que opera nas sombras. Não espere verossimilhança de Eli Roth, mas espere tensão elevada, requinte visual e muito deboche, de um diretor que se esmera em Tarantino na concepção visual e nos diálogos de seus personagens. Se prepare para ver carótidas jorrando ketchup...


*Crítica escrita à época do lançamento do filme

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Crítica - O ritual

Terror diferente

A razão para explicar a reticência com que O ritual (The rite, EUA 2011) vem sendo tratado por público e crítica é mais simples do que parece. A fita dirigida pelo sueco Mikael Hafström é melhor do que a resposta de um fã do gênero terror praticado por fitas da estirpe de Jogos mortais irá apontar. O ritual também, é bom que se diga, não se sustenta ante comparação com obras primogênitas como O exorcista e O bebê de Rosemary. Ainda é um filme de indisfarçável orientação comercial. Contudo, O ritual rejeita o terror fácil. A sonoplastia exagerada, a visceralidade de imagens de impacto e o odor da reciclagem temática não fazem parte do pulso do filme.

O ritual é um bom terror, mas é um drama psicológico melhor
ainda

Baseado em um roteiro de Michael Petroni, levemente inspirado em eventos reais, Hafström se interessa mais no conflito psicológico de seu protagonista do que em pregar peças em seu público. Passa por esse interesse a percepção do quão boa ou do quão ruim a experiência de assistir O ritual pode ser para o espectador.
Um jovem padre (Colin O´ Donoghue), que não apresenta convicção em sua fé, é destacado por seu superior – em uma ultima tentativa de assegurá-lo no ministério – para um curso de exorcista no Vaticano. Lá, é orientado a acompanhar as atividades do Padre Lucas (Anthony Hopkins), um exorcista pouco ortodoxo, mas muito eficiente.
O conflito de O ritual se estabelece, então, entre essas duas figuras - na superfície - e no litígio emocional do jovem padre com sua fé. Hafström não menospreza os cânones dos filmes de terror que abordam possessões demoníacas. Apenas opta por não se deixar fazer refém deles. Essa opção ajuda a entender porque filmes de terror que não se ensejam como filmes de consumo falham nas bilheterias e fracassam junto a crítica mais superficial. Um exemplo recente é a incursão do brasileiro Walter Salles em Hollywood, Água negra.
O ritual, ao dialogar com inteligência e humor dentro de um nicho em que essas são características omissas, provoca estranheza em um espectador que, a bem da verdade, não está pedindo por isso. Então, certifique-se de que é isso que você procura antes de conferir esse filme que traz um convincente Anthony Hopkins, como padre e como possuído.

sábado, 5 de junho de 2010

De olho no futuro...

Destino: ficção científica
Ele anda meio em baixa. Adrien Brody até fez bons filmes e defendeu bons papéis depois da consagração, inusitada, com o Oscar de melhor ator por O pianista em 2003. Menos de 10 anos se passaram e Brody já ensaia uma reinvenção. O mundo foi pego de surpresa quando o ator foi escalado para fazer o protagonista da aventura Predadores (reboot do filme de 1987 estrelado por Arnold Schwarzenegger). O filme, que chega as telas de cinema do planeta em julho, é o carro chefe dessa nova persona de Brody no cinema. Um filme de menor expressão, mas que colabora para reforçar a impressão de que o ator está redimensionando sua carreira é Splice. A ficção científica com toques de terror estreou ontem nos EUA. Claquete apresenta o trailer para você.




Um cartaz que promete
Jack Black não chama a atenção em um filme já há algum tempo. Pode-se dizer que seu último papel notável no cinema foi em Escola do Rock (que lhe valeu uma indicação ao globo de ouro de melhor ator em comédia/musical). Pois a julgar pelo cartaz de As viagens de Gulliver (com lançamento previsto para novembro nos EUA), Black volta com tudo em 2010.



O melhor de Lost no melhor da Marvel
Surgiram boatos na internet esta semana, e até agora são só boatos mesmo, de que Josh Holloway (o Sawyer de Lost) estaria em negociações com a Marvel para fazer um papel no filme dos Vingadores. Embora os boateiros acreditem que ele viveria Henry Pym, o homem formiga, é mais provável que ele faça um agente da SHIELD, agência de inteligência militar comandada por Nick Fury (Samuel L. Jackson). Já que a Marvel tem planos de fazer um filme da SHIELD também.
Vale lembrar que Holloway já fora sondado para viver Gambit na época que o terceiro X-men estava em produção. Como é notório, aquela negociação não evoluiu.

Holloway: da ilha para o universo Marvel


Só para fãs
Esta semana foi divulgado o vídeo do making of da gravação da canção "Never say never", música tema do remake de Karatê Kid. Interpretada pelo fenômeno pop Justin Bieber e pelo protagonista da aventura, Jaden Smith (que não tem o talento do pai, Will Smith, para cantar). A música é tão .......... quanto as demais faixas do primeiro trabalho de Bieber. Fica a cargo do leitor completar a linha pontilhada.

One time, baby: Bieber e Jaden fazem trocadilhos e penteados

Foi namorar, perdeu o lugar...
Todo mundo sabe, até mesmo porque o próprio David Fincher já declarou repetidas vezes, que Brad Pitt é o ator preferido do diretor de Seven. Fincher já o dirigiu em três oportunidades. Coincidências a parte, seus melhores trabalhos. Pitt é a escolha natural do diretor para viver o protagonista do remake americano do filme Os homens que não amavam as mulheres. A fita sueca, que atualmente está em cartaz no Brasil, é a primeira de uma trilogia. O problema é que Pitt não quer assinar contrato enquanto a primeira versão do roteiro, escrito por Steven Zaillian (A grande ilusão e A lista de Schindler) não ficar pronta. Os produtores não gostaram da atitude de Pitt e iniciaram conversas com Daniel Craig que manifestou interesse em participar do projeto. O filme, que se chamará The girl with the dragon tattoo, ainda não tem um estúdio assegurado, daí a importância de um protagonista de peso. Em Hollywood, o tempo também urge.