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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Filme em destaque - Robocop

Missão cumprida

                                                                       foto: Agnews
José Padilha, Joel Kinnaman e Michael Keaton no Rio de Janeiro para divulgar Robocop: não é o filme que os fãs queriam ver, mas é o filme pelo qual nosso tempo urge

“Eu vou fazer o primeiro filme do cinemão a abordar o uso de drones”. A frase de José Padilha é de 2012, proferida pouco depois de ele ter começado a pré-produção da refilmagem de Robocob. O conceito voltou a ser aventado por Padilha na maratona promocional a que ele e os atores Michael Keaton e Joel Kinnaman se lançaram no Rio de Janeiro nesta semana.
Robocop estreou de maneira sólida, mas não entusiasmante nos EUA e a crítica internacional se mostrou dividida em relação à reimaginação bancada por Padilha de um dos filmes mais cultuados dos anos 80.
No Brasil, o filme encontra mais boa vontade. Recebeu matéria de capa, vasta e elogiosa, da revista Veja e foi bem acolhido pelos principais veículos do país.
À Veja, Padilha disse que fez “ o primeiro filme brasileiro em Hollywood” e corou o tom da reportagem assinada pela excelente jornalista Isabela Boscov que expõe como o diretor brasileiro conseguiu impor sua visão e sua dinâmica operacional à sanha controladora dos executivos de estúdio, no caso a MGM.

Calibrando expectativas
“Já vi alguma coisa e posso dizer que é um filme com a cara do Padilha”, disse Wagner Moura em meados de 2013 quando no Brasil divulgava a sua estreia em Hollywood, no filme Elysium. Na acepção do ator que viveu duas vezes o capitão Nascimento para José Padilha, pode-se vislumbrar onde o blockbuster que discute o uso de drones e o “primeiro filme brasileiro feito em Hollywood” se encontram.
“Se ouvir os fãs, eu fico paralisado”, observou o cineasta ao justificar a distância de seu filme para o original e é justamente a memória do original o principal ponto de desequilíbrio nas críticas sobre o filme. Para Luísa Pécora, que escreveu a crítica para o portal IG, “Robocop de José Padilha tem mais política e emoção do que o original” e, na avaliação dela, isso é algo muito positivo. Já para o New York Times, apesar desse esforço de Padilha em trazer uma assinatura própria e um pensamento mais moderno, as opções estéticas e narrativas do original ainda são mais fortes.

Criador e criatura: o inferno está cheio de boas intenções e o cinema de José Padilha é implacável com nossa condescendência

Se falta humor e violência, o novo Robocop busca um espectro político que reflete a obra de Padilha. O fato de o diretor ter tido controle sobre o corte final demonstra que essa visão estrangeira (uma característica celebrada no primeiro Robocop, feito pelo holandês Paul Verhoeven) é algo prezado pelo estúdio. O que não quer dizer que Robocop não seja um filme de ação e não congregue clichês e outras idiossincrasias do gênero.
“Quando você automatiza a violência, você abre as portas para o fascismo”, observa Padilha na coletiva realizada no Rio de Janeiro.  Não é um terceiro Tropa de elite, mas as nuanças observadas nos outros dois filmes foram conscientemente resgatadas pelo diretor ao abordar o universo de uma tropa de elite de um homem, no caso máquina, só.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Filme em destaque - Trapaça

Golpe à americana
David O. Russell reúne um punhado de seus atores favoritos para uma história divertida, ligeiramente real e que apresenta personagens fascinantes


“David justifica suas personagens femininas. Sabe? Elas não estão lá apenas por estar. Elas tem uma razão dramática para pertencerem àquele universo”, relata Amy Adams que em sua segunda colaboração com o diretor David O. Russell conquistou sua segunda indicação ao Oscar. Ao todo Amy detém cinco indicações ao prêmio da Acadêmia.
Essa preocupação com os personagens é reiterada por Russell na mesma entrevista de divulgação. “Gosto de pensar que meus personagens conduzem a trama. Eu sou todo a favor dos personagens”, explica o diretor que com Trapaça finaliza sua informal trilogia da reinvenção. O primeiro O vencedor, indicado a sete Oscars, incluindo melhor filme, mostrava como o boxeador Mick Ward precisava se afastar da família para vencer na carreira. Em O lado bom da vida, indicado a oito Oscars, também incluindo melhor filme, uma moça bipolar e um rapaz com transtorno obsessivo compulsivo representam a tábua de salvação um do outro. Em Trapaça, que concorre a dez Oscars, assim como os outros, também a melhor filme, dois vigaristas, vividos por Christian Bale e Amy Adams, são forçados a colaborar com o agente do FBI vivido por Bradley Cooper para desbaratar um esquema que envolve máfia, políticos e toda sorte de tipos corruptos.
Trapaça é o filme mais ambicioso de Russell desde Três reis (1999), uma sátira venenosa à guerra do golfo. Trapaça se passa nos anos 70 e perpassa gêneros tão diferentes como a comédia de erros e o suspense, abarcando o drama, o thriller policial e a farsa.
Há quem chame Trapaça, lhe aferindo aspecto pejorativo, de um “Scorsese light” ou “sub-Scorsese”. Para o jornalista e crítico de cinema Roberto Sadovski essa é uma tremenda bobagem. “Apesar de Trapaça habitar um universo familiar ao diretor de Os Bons Companheiros, a pegada é diferente, menos nervosa, mais cômica. Para Sadovski, “o tom leve é uma opção narrativa inteligente” até mesmo para adensar melhor as mudanças de gênero impetradas por Russell.
Trapaça apresenta uma reconstituição de época acachapante. Tanto pela direção de arte como pelos figurinos e penteados. Esse esmero ajuda a entender a ambição de Russell. “Eu posso explicar a minha relação com os anos 70 através de cada um desses personagens. Das músicas que gostam, de seus sonhos...”, diz Russell à reportagem do jornal O Globo.
Esse carinho pelos personagens é mais perceptível em Trapaça do que em qualquer outro trabalho do cineasta, talvez por essa nostalgia incontida, talvez porque a proposta de voltar aos anos 70 pedisse esse carinho, talvez porque o tributo a Scorsese seja apenas uma das muitas nuanças desse filme que consegue ser drama, comédia, suspense, policial e, antes de tudo isso, um filme de David O. Russell, uma das grifes mais reconhecíveis da nova Hollywood.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Insight: Repercutindo Ninfomaníaca - volume I



Lars Von Trier quer ou não quer falar de sexo? Lá pelas tantas de Ninfomaníaca – volume I, o espectador hesita a respeito das reais pretensões do diretor. Mas não foi apenas o público que ensimesmou-se com este primeiro volume do díptico do dinamarquês. A crítica também se dividiu e o pouco unânime Von Trier, sob o bastião da publicidade recorde amealhada por sua obra, foi mais polarizador ainda. O filósofo Luiz Felipe Pondé apreciou este primeiro volume. Para ele, Von Trier, sem piedade, provoca com um questionamento perturbador: “Há sentido na vida, no universo, no corpo, no desejo? Suas protagonistas sofrem na carne a resposta aparentemente negativa a esta pergunta”. Pondé continua: “sua arte se move em dois níveis: o radicalmente contemporâneo e o absolutamente eterno. Toda grande arte deve ser assim: encarnada na vida cotidiana e aberta ao espírito do infinito. Por isso, a espiritualidade negativa exposta no Anticristo e em Melancolia assume em Ninfomaníaca - Volume 1, a forma da carne feminina que pinga de desejo”.
O crítico Chico Fireman, autor do ótimo blog Filmes do Chico, pensa diferente. Além de não identificar o choque tão propalado pela campanha promocional do filme, Fireman enxerga na narrativa desvelada pelo dinamarquês o mesmo ressentimento do sexo que parece sombrear, na avaliação do crítico, sua obra. “Existe um grande peso sobre a proposta, sobre a ideia do sexo em si, como se tudo o que envolvesse o tema, os desejos da protagonista, fizesse parte de um plano macabro ou de uma conspiração maquiavélica. O sexo é mau, parece bradar Von Trier, como se o cineasta se saciasse em denunciar o sexo e não em se aprofundar sobre as motivações da personagem. Por isso, a figura de Seligman, vivido por Skarsgård, que se aproxima tanto de um padre confessor quanto a de um juiz, carregue tanta opressão em sua fala supostamente mansa”. Fireman observa ainda o que seria uma falta de ética do cineasta na articulação de sua dramaturgia. “Não existe problema algum em expor seus pudores, mas camuflá-los e fingir convertê-los num suposto comportamento liberal apenas porque está se tratando de sexo, sob a égide de se estar realizando um estudo sobre a vida sexual de uma mulher, é – isso, sim – libertinagem e vulgarização. Nada do que Von Trier já não tenha feito, de uma maneira ou de outra, com outros temas, em outros filmes”.

Joe (Charlotte Gainsbourg), um animal enjaulado ou uma figura oprimida em busca de compreensão e perdão?

Já o crítico Mário Abbade enxerga nessa volatilidade dramática, a mais pura – e assumida – manipulação por parte de Von Trier e lembra que o cineasta costuma prometer uma coisa e entregar outra. “O cineasta, irônico, saca um filme de sexo sobre o vazio — e apresenta o pornô como algo broxante. De quebra, ainda demonstra, pós-revolução sexual, como são comuns, nas salas, risos nervosos quando a imagem é a de um pênis, por mais flácido e inofensivo que pareça”. Outro prestigiado crítico brasileiro, Daniel Shenker, ajusta sua opinião a de Fireman e acredita que Von Trier investiu mais no potencial de escândalo do que em uma proposta artística consistente. Ele condena a opção do dinamarquês por uma estrutura que chama de “monótona” e o critica por “inserir referências que não ultrapassam o plano da embalagem erudita” e fazer com que os “atores digam com certa gravidade um texto de qualidade duvidosa”.
Pondé sai-se com uma analogia que, talvez, resuma a frustração que circunda esse primeiro volume. “Entre a idiota crença contemporânea na revolução sexual e a agonia da luxúria como marca do sexo livre, Von Trier opta pela segunda. Joe, a mulher ‘dona de seu corpo’, se vê como um animal numa jaula, andando de um lado para o outro, indo pra lugar nenhum”.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Filme em destaque - Ninfomaníaca: volume 1




Precedido por uma campanha de marketing intensa e avassaladora, sem precedentes na esfera de lançamentos de arte, o primeiro volume de Ninfomaníaca, a nova travessura do dinamarquês Lars Von Trier, estreia nesta sexta-feira na ressaca de críticas divididas e do silêncio desafiador do realizador que, de maneira inédita, consentiu que os produtores montassem uma versão censurada, e a dividisse em duas partes, para lançamento comercial.
A versão de Von Trier, sem cortes e, segundo dizem, mais apimentada, esteve para ser lançada em Cannes, mas para que o momentum não passasse, será exibida em evento de gala no festival de Berlim no próximo mês.
Como vivemos uma era capitalista, depois do lançamento do segundo volume, algumas distribuidoras do filme, inclusive a Califórnia no Brasil, aventam a possibilidade de lançar a versão de Von Trier, que totaliza quase seis horas, nos cinemas.
“Digressionismo”, limitou-se a dizer Von Trier quando questionado por uma revista cultural alemã sobre a qual gênero pertenceria Ninfomaníaca. À época, o filme não estava pronto e o diretor acrescentou que não falaria mais sobre a fita, já que havia se comprometido a “deixar seus filmes falarem por ele”. Stellan Skarsgaard, um dos atores mais frequentes na filmografia do diretor, fala e diz que “assistir Ninfomaníaca é tão excitante quanto comer uma tigela de cereal”. O ator faz menção ao erotismo frustrado, a mecanicidade da compulsão sexual da ninfomaníaca vivida por Stacy Martin e Charlote Gainsbourg em momentos distintos da vida da personagem principal, Joe, a ninfomaníaca em questão.
Mas por que digressionismo? Porque Ninfomaníaca basicamente é um filme falado. Uma depressiva egocêntrica que encontra ouvidos curiosos e os explora em busca de condenação ou absolvição e que, pelo menos no que concerne este primeiro volume, não encontra.
Como de hábito em se tratando de Von Trier, Ninfomaníaca é dividido em tomos. São oito no total e cinco neste primeiro volume. O filme, em si, é o desfecho da trilogia da depressão filmada por Von Trier a partir de AntiCristo (2009) e continuada em Melancolia (2011). Trata-se da quarta trilogia informal da carreira do cineasta, resta incompleta a trilogia sobre a América, iniciada com Dogville (2003), acrescida por Manderlay (2005), mas a terceira parte, Washington, permanece não filmada. A primeira trilogia, intitulada Europa, é constituída pelos filmes Elemento de um crime (1984), Epidemia (1987) e Europa (1991). A segunda trilogia, denominada “coração de ouro”, é formada pelos títulos Ondas do destino (1996), Os idiotas (1998) e Dançando no escuro (2000).
A estética do choque parece servir os propósitos de Von Trier que aqui acolhe o público para digredir com ele a respeito do ponto G das angústias humanas: o sexo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Fases e relacionamentos


James Gandolfini encara o papel mais frágil de sua carreira em um filme que discute a busca pelo amor na maturidade. Os relacionamentos amorosos são destaque nas principais estreias nos cinemas brasileiros nesta semana

Entre as muitas e boas estreias programadas para esta sexta-feira (6) nos cinemas brasileiros, três produções merecem atenção. Em parte pela qualidade que ostentam individualmente e em parte pelo recorte que, combinadas, favorecem aos relacionamentos amorosos.
Como não perder essa mulher, Azul é a cor mais quente e À procura do amor, em um primeiro olhar, guardam pouco em comum. Mais boa vontade na análise, no entanto, revela que são filmes, cada qual a sua maneira, que falam do amor e da complexa e desorientadora busca por ele.
No filme vencedor da Palma de Ouro em 2013, o francês Azul é a cor mais quente, a ideia é mostrar o oxigênio da juventude na especulação do amor. Na descoberta da sexualidade e as divergências que se impõem nesse universo tão rico e incompreendido.
Sexo também ronda, de uma maneira aparentemente mais lasciva, mas menos gráfica, Como não perder essa mulher. No filme, que marca a estreia de Joseph Gordon-Levitt na direção (o roteiro também é dele), Jon (Levitt) é uma espécie de Don Juan contemporâneo. O culto à imagem é seu sobrenome. Corpo malhado, carro brilhoso, emprego como bartender, uma mulher por noite e um vício em pornô. Mesmo fazendo sexo com frequência incomum, Jon se masturba em um compasso ainda mais incomum para a frequência com que faz sexo. Tudo parece inclinado à mudança quando ele conhece Barbara (Scarlett Johansson), mas a relação tem problemas na decolagem. Um paralelo interessante no filme é que Barbara modela suas relações amorosas nas comédias românticas hollywoodianas, um vício tão nefasto quanto o de Jon, mas menos patrulhado.

Programa a dois: comédia romântica une ou desune? 

Já em À procura de amor, da diretora Nicole Holofcener (uma das poucas diretoras a arejar o olhar sobre o feminino no cinema americano), o mote é ainda mais complexo. Eva (Julia Louis-Dreyfous, em surpreendente papel dramático) é uma mulher ressentida com a possibilidade cada vez mais palpável de ficar sozinha. De morrer sozinha. Em uma festa, ela conhece Albert (James Gandolfini em um de seus últimos papéis no cinema) e eles começam a se relacionar. Mais adiante, ela descobre que Albert é o ex-marido de uma nova amiga (Catherine Keener), que desenha um monstro da convivência para Eva.
O drama da personagem, deixar-se contaminar pela experiência da amiga ou manter um olhar neutro, se é que isso é possível, pautará o filme agridoce de Holofcener.
As três produções têm o mérito de radiografar diferentes gerações envoltas em pequenos dramas românticos característicos das diferentes fases da vida em que os protagonistas dos filmes (adolescentes, adultos na faixa dos 30 anos e cinquentões) se encontram. São espelhos, também, das fases que o amor, como objetivo de vida, introjetam na existência humana.

Cena de Azul é a cor mais quente, cujo diretor, o franco-tunisiano Abdellatif Kechiche concedeu entrevista exclusiva ao AdoroCinema em visita promocional ao Rio de Janeiro. Confira a entrevista em vídeo!


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Filme em destaque - O mordomo da Casa Branca

O novo filme de Lee Daniels, a exemplo de outras produções já lançadas em 2013 (Sem dor, sem ganho e Bling ring – a gangue de Hollywood) tem uma reportagem de jornal como fonte primária.
Em 2008, durante as semanas que precederam a eleição de Barack Obama, o repórter e ex-correspondente do Washington Post Wil Haygood se impôs uma missão: encontrar o afro-americano que trabalhou na Casa Branca e testemunhou o movimento pelos direitos civis dos bastidores. Depois de inúmeros telefonemas, Haygood descobriu esta pessoa em Washington. Seu nome era Eugene Allen, tinha 89 anos e havia servido oito presidentes, dos anos 1950 aos 1980. Depois de se encontrar com Allen e sua mulher, Helene, por algumas horas, o jornalista conseguiu fazer um perfil do homem que teve acesso em primeira mão a alguns dos eventos mais críticos da nação – e aos homens poderosos por trás deles – de uma forma sem precedentes e bastante cinematográfica.
A vice-presidente da Sony Pictures Entertainment, Amy Paschal, foi a primeira a ler a entrevista com Allen no Washington Post e mostrou o material para a produtora Laura Ziskin. O Post publicou a história na sexta-feira seguinte à vitória de Obama. Apesar do empenho da produtora, responsável pelo sucesso da trilogia original Homem aranha, a Sony acabou desistindo do projeto. Laura, no entanto, apaixonada pelo projeto buscou financiadores independentes para produzir o filme e convidou Lee Daniels, que era sua opção do coração, para dirigir o filme. Com Daniels a bordo, o elenco começou a se formar. Oprah Winfrey, Mariah Carey, Lenny Kravitz e David Oyelowo, todos amigos pessoais do diretor, assinaram contrato. O elenco grandioso foi ganhando ainda outros nomes estrelados como Robin Williams, John Cusack, Jane Fonda, James Marsden, Cuba Gooding Jr., Alan Rickman, Terrence Howard e Liev Schreiber. “Minha ideia era fazer o filme com o elenco mais repleto de estrelas possível”, disse o diretor à GQ quando veio divulgar o filme no último Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. A colocação demonstra a consciência de Daniels de que um bom elenco pode ser um chamariz para ir ao cinema.
“Estava empolgado naquele momento pós-Preciosa e adorei trabalhar com Laura. Estavam entre mim e outro cineasta (Steven Spielberg que declinou do projeto), bastante famoso, para dirigir o filme, e ela queria que fosse eu. Laura me entendia – poucas pessoas conseguem entender minha energia e ela conseguia. Me apaixonei de verdade por ela”, disse o diretor no material promocional divulgado à imprensa pela distribuidora do filme no Brasil em relação a produtora que acabou falecendo .

Todos os presidentes de Daniels: no estrelado elenco, Robin Williams, James Marsden, John Cusack, Liev Scheriber e Alan Rickman vivem alguns dos presidentes servidos pelo protagonista do filme

A opção por Forest Whitaker veio com a definição de que o filme seria independente, posteriormente abraçado pela The Weinstein Company (expert em campanhas para o Oscar). Denzel Washington, que declinou do papel, e Will Smith foram considerados enquanto o projeto orbitava o estúdio Sony. “Forest, em particular, é provavelmente o ator mais humilde com quem já trabalhei na vida. Quantos ganhadores do Oscar topariam fazer um teste de elenco? Muitos atores não percebem que precisam se doar a um diretor. É um dom raro”.

Razões do coração
“A história era importante para mim porque eu nunca tinha visto um filme que retratasse o movimento de direitos civis do começo até a administração Obama, pelos olhos de um pai e um filho. Este filme coloca as coisas que as pessoas viveram em perspectiva, mesmo nos dias de hoje, em que podemos fazer coisas como votar. Ele vai além do negro e do branco, o que era importante para mim, porque é uma história de pai-e-filho além de ser uma história de direitos civis. Transcende raça, transcende os Estados Unidos – é universal. Não é uma lição de História, é a história de uma família”, explica o cineasta.
Para Daniels, O mordomo da Casa Branca é o filme mais difícil que já dirigiu. “Não existe conteúdo sexual, há pouco palavrão e a violência é mínima, embora estejamos lidando com um período muito violento. Então, como realizador, tive que me conter e tenho muito orgulho disso”.
Daniels no set: paixão pelo projeto

Forest Whitaker resume com bastante assertividade os méritos de seu diretor neste filme que revela uma ambição muito grande para um filme independente. “Acho que o que Lee Daniels fez neste filme é bastante poderoso porque ele tratou do movimento dos direitos civis por meio do meu personagem (Cecil) e do meu filho. Meu filho é um ativista, primeiro na faculdade e depois trabalhando ao lado de Martin Luther King e depois de Malcolm X. É um espectro amplo de pessoas em um movimento em particular. Ao mesmo tempo, você me vê na Casa Branca durante períodos em que as decisões estavam sendo tomadas nos bastidores pelos presidentes Kennedy, Johnson, Nixon, Reagan e outros. Eles estavam dando forma aos direitos civis e humanos no país – e, no fim das contas, no mundo".

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Filme em destaque - O conselheiro do crime

Michael Fassbender lidera elenco estrelado de filme dirigido por Ridley Scott e que carrega o hype de ser o primeiro roteiro original de Cormac McCarthy. Sensualidade, tensão, traição e violência embalam um dos filmes mais aguardados da temporada


“Era estranho beijar Penelope sob o pesado olhar de Javier Bardem. Tinha a sensação de que ele avançaria sobre mim a qualquer momento”, disse Michael Fassbender em entrevista à revista Entertainment Weekly sobre as gravações de O conselheiro do crime, filme que tem estreia mundial nessa sexta-feira (25). Michael Fassbender faz um advogado envolvido com o tráfico de drogas e faz, também, o namorado de Penelope Cruz. Javier Bardem faz um tipo misterioso que pode ser mais perigoso do que sua cabeleira estilosa sugere. O elenco do novo filme de Ridley Scott, no entanto, vai mais além. Além dessa trinca estrelada, Brad Pitt, Cameron Diaz, Bruno Ganz e Goran Visnjic completam o elenco.
Apesar da nata de atores, o maior atrativo dessa crônica de violência moderna (já descrito em alguns círculos como o entretenimento adulto de maior qualidade nos cinemas nessas semanas) está no roteiro. Trata-se do primeiro roteiro original de Cormac McCarthy, autor de obras consagradas adaptadas para o cinema como Onde os fracos não tem vez, para o cinema.
Violência, sensualidade e um elenco masculino com três dos atores mais festejados dos últimos tempos ampliam o leque de interesses despertado por O conselheiro do crime. A expectativa da Fox com o filme é tão grande, inclusive para o Oscar, que a janela de lançamento internacional foi harmonizada para que o boom do filme seja um só e sempre ascendente. A Fox, que não tem grandes filmes entre os comentados para a corrida pelo Oscar 2014, acredita que o pedigree de O conselheiro do crime pode falar mais alto – além de seu apelo comercial. Não seria a primeira vez que esse tipo de coisa aconteceria. Em 2006, a Warner não apostava suas fichas em Os infiltrados, de Martin Scorsese, que venceria o Oscar de melhor filme em 2007, e o lançou em outubro sem grandes destaques de marketing. Sete anos depois, outubro é alvo de grandes lançamentos com olho no Oscar (como Capitão Phillips, Gravidade, entre outros), fruto do estreitamento do calendário. A diferença entre Os infiltrados e O conselheiro do crime, é que a Fox – ainda que discretamente – acredita que seu filme pode ir mais longe.

Ridley Scott, na foto orientando Michael Fassbender e Javier Bardem, perdeu o irmão Tony Scott - que se suicidou - durante as filmagens de O conselheiro do crime. O filme é dedicado a sua memória 


Michael Fassbender foi a primeira e inegociável opção de Scott para o protagonismo de seu filme. Ambos estavam envolvidos nas filmagens de Prometheus (2012), quando Scott fez o convite. Com Fassbender tem sido assim. Ele trabalha com um diretor e esse diretor quer logo trabalhar com ele novamente. Ridley Scott e Steven McQueen são os exemplos mais notórios nesse momento.

Notório, aliás, seria se O conselheiro do crime consagrasse a primeira colaboração entre Brad Pitt e Angelina Jolie nas telas de cinema desde que juntaram os trapinhos. A ideia original era essa. Mas Angelina interpretaria a personagem que no filme é defendida por Cameron Diaz. Ela chegou a participar da pré-produção do filme, mas abandonou o projeto sem justificativas oficiais. Além de todo o hype inerente ao projeto, ainda seria o filme “brangelina”. Talvez tenha sido melhor assim.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Filme em destaque - Os suspeitos

A teoria na prática é outra...
Com estrelado e afiado elenco, Os suspeitos é um drama cheio de tensão e sem respostas fáceis que recupera o vigor do cinema adulto comercial hollywoodiano em 2013

E se fosse com você? Essa é uma pergunta que todo mundo já ouviu na vida. A resposta a ela, às vezes é sincera, às vezes é diversionista e, em alguns casos, jamais extrapola o campo da hipótese, em virtude da improbabilidade da pessoa questionada se encontrar nas circunstâncias que ensejam o exercício de imaginação. A ideia de Os suspeitos, lançamento nos cinemas brasileiros desta sexta-feira (18), não é exatamente nova. Em 1996, Ron Howard fez um filme muito bom em que Mel Gibson vivia um magnata e subvertia a lógica inerente ao sequestro ao disponibilizar uma vultosa recompensa por informações que levassem à captura dos criminosos. A discussão proposta por O preço de um resgate ainda é quente e perigosa. O que o filme dirigido por Denis Villeneuve propõe é menos espetaculoso, mas igualmente subversivo e o sequestro de uma criança, no caso duas, também é o elemento a mover seu raciocínio narrativo.
Hugh Jackman faz Keller Dover, pai de família suburbano, filho de um policial que se suicidou, pai de dois filhos e, para todos os efeitos, um cidadão exemplar. Quando sua filha e uma coleguinha são sequestradas na rua em que moram, ele decide, quando julga que a polícia não está fazendo o suficiente para resgatar sua filha, tomar medidas cabíveis em seu entendimento.
Não há pedidos de resgate aqui e Dover entende que seu único suspeito é seu único suspeito e que os fins justificam os meios. À medida que o tempo passa, mais Dover se vê entregue à obsessão de tirar a verdade de seu suspeito, mesmo quando surgem indícios bastante significativos de que Dover pode estar com a intuição descalibrada.
A partir desse momento, surge o outro trunfo do filme de Villeneuve, que o aparta ainda mais do drama dirigido por Ron Howard. A atenção à jornada obsessiva em que Dover, mas também o detetive destacado para o caso vivido por Jake Gyllenhaal mergulham. Gyllenhaal já havia feito um filme em que vive um tipo obsessivo por um caso policial. O filme em questão é Zodíaco (2007), de David Fincher. Na trama ele vivia o cartunista editorial do San Francisco Chronicle envolvido nas provocações do assassino do zodíaco, que assolou àquela região da Califórnia na fronteira dos anos 60 e 70.

Jackman, Gyllenhaal e Villeneuve batem aquele papo no set de Os suspeitos

Hugh Jackman já havia estrelado outro belo filme sobre obsessão. O grande truque (2006), de Christopher Nolan. Na fita, ele vivia um mágico que nutria grande rivalidade com o personagem de Christian Bale. A necessidade de prevalecer ante o outro, movia a trama. Com Os suspeitos, ambos oferecem um avanço nesse interessante recorte biográfico de suas carreiras. Na contrapartida, ao confeccionar esse pulsante suspense americano moderno, o canadense Denis Villeneuve dá sequência a uma questão nevrálgica em sua filmografia. Assim como no indicado ao Oscar de filme estrangeiro Incêndios, há a desestruturação familiar caótica a partir de um evento em particular.

Esses são elementos construtivos, mas não definidores, que tornam Os suspeitos, no contexto em que foi concebido, um filme muito mais significativo e eloquente do que aparenta ser.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Especial Gravidade - Obstinação ou predestinação?


Sandra Bullock não era a primeira opção para estrelar Gravidade. A Warner Brothers, estúdio por trás do filme, suficientemente receosa com a proposta ousada do filme de focar quase que inteiramente em uma personagem feminina ao relento no espaço, queria uma atriz jovem para o papel – reiterando aquela máxima de que atrizes acima dos quarenta anos são logo escanteadas em Hollywood. Natalie Portman, então na crista da onda com Cisne negro, era a opção do estúdio. Mas a atriz, grávida, declinou da proposta. Jessica Chastain, outro nome da moda, foi testada antes do papel parar no colo de Sandra Bullock – que hesitou em aceitá-lo por ser este física e psicologicamente desafiante para ela que havia acabado de adotar um bebê.
Ser mãe, no final das contas, acabou ajudando na concepção de sua personagem – enlutada justamente pela perda de uma filha.
Sandra sentiu-se adornada pela coragem do diretor Alfonso Cuarón em bater o pé e exigir o protagonismo para o papel feminino – o estúdio já exercia pressão para que o papel fosse reescrito para um homem. “É um elefante na sala, mas se os estúdios perceberem que as mulheres podem trazer audiência para os cinemas, o que é uma tendência momentânea pode virar norma”, comentou Sandra Bullock no painel sobre o filme na última edição da ComiCon em San Diego, na Califórnia.
A ficção científica tem, pelo menos, uma grande personagem feminina que originalmente seria interpretada por um homem: a tenente Ellen Ripley da franquia Alien. A personagem de Sigourney Weaver não foi uma sombra para Sandra compor Ryan Stone, nome até certo ponto unissex de sua personagem em Gravidade, segundo a atriz.
Rotina exaustiva: Sandra em um tanque de água filmando
cenas que seriam tratadas digitalmente depois
Cotada para o Oscar, Sandra Bullock quebra uma escrita que acomete atrizes vencedoras do Oscar. Elas não conseguem mais obter sucesso de crítica após o triunfo no Oscar. Gwyneth Paltrow, Halle Berry, Julia Roberts, Reese Whiterspoon e Nicole Kidman são alguns dos exemplos. Depois da questionável vitória em 2010 por Um sonho possível, Sandra Bullock retorna ao cinema em 2013 com o sucesso comercial de As bem armadas – atualmente nos cinemas – e o êxito crítico de Gravidade. Voltar à disputa pelo Oscar talvez fosse algo que a pequena participação em Tão forte e tão perto (2011) insinuasse, mas que não parecia ao alcance.
A vontade de trabalhar com Cuarón e o desejo de provar para o estúdio, com o qual mais fez filmes, que uma mulher pode e deve ser a protagonista de uma ficção científica criativa e exigente como Gravidade podem levar Bullock novamente ao Oscar. Dessa vez, sem margem para dúvidas.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Projeto "Latitudes" renova linguagem e lógica narrativas

O diretor Felipe Braga (no primeiro plano), Alice Braga e Daniel de Oliveira: ousadia, comprometimento e novos horizontes estéticos em um filme que é, antes de qualquer coisa, um projeto

Filme? Série? Projeto? Latitudes é de tudo um pouco e, também, algo novo, cheio de oxigênio e liberdade que avoca o direito de nomear-se como projeto pela amplitude que o termo admite. É um “projeto transmídia”, nas palavras do diretor e principal idealizador Felipe Braga. Funciona assim: é, modo vulgar, um filme que mostra os encontros e desencontros do fotógrafo José (Daniel de Oliveira) e da editora de moda Olivia (Alice Braga) em diversas cidades do mundo. “É uma história de amor não romântica”, oficializa o diretor. Mas Latitudes não foi concebido para ser visto no cinema, da maneira convencional. Toda quarta-feira estreia no YouTube um novo episódio, serão 13 ao todo, mostrando o encontro desses personagens em uma cidade. Paris (França), Londres (Inglaterra), Veneza (Itália), José Inácio (Uruguai) e São Paulo (Brasil) foram as cidades dos cinco primeiros episódios. Os episódios duram cerca de 13 minutos.  Na segunda-feira seguinte, o mesmo episódio é exibido na TNT, canal do grupo Turner disponível nos pacotes mais básicos de qualquer programadora de TV por assinatura, com um valioso adendo: o episódio exibe cenas de bastidores em que o diretor orienta seus atores e em que Alice e Daniel fazem leituras dos textos, compartilham impressões gerais e discutem sobre os rumos dos personagens.
Além do voyeurístico e cinéfilo olhar sobre o processo de produção de um filme calcado na intimidade e investigação de dois personagens, esse expediente se revela intrínseco à narrativa multiplataforma que o diretor objetiva. Decerto, há uma ideia de liberdade nesses bastidores diferenciada daquela que se assume para uma produção de filme, mas o convite a essa espiada por detrás da cortina é legítimo. Braga brinca com sua narrativa de maneira salutar. Ora sobrepõe os diálogos ensaiados aos da ficção oficial, ora sublinha a perspicácia e desenvoltura dos atores na promoção de adaptações dos diálogos e interpretações dos desejos e impulsos dos personagens. É um fôlego novo na investigação, no estudo de personagens, em que ele apresenta os atores como parceiros do público.
Daniel e Alice: ensaio que também faz parte da narrativa...
Toda a dinâmica do casal é muito sensual. O primeiro episódio, passado no confinamento de uma suíte de hotel em Paris, é de uma sensualidade atroz. Daniel e Alice disparam diálogos com efervescência, mas Braga quebra essa rotina com inserções dos ensaios. Em um momento de tensão de uma cena em que os personagens disputam o controle sobre o outro, uma característica da dinâmica deles nos três primeiros episódios, Braga quebra a tensão demonstrando o erro de Daniel de Oliveira na cena. Esse recurso é usado em outras cenas de tensão; como no quarto episódio, em que os personagens buscam controle, mas agora sobre seus próprios sentimentos.
Latitudes, no contexto da distribuição, é vanguardista. Steven Soderbergh lançou Bubble simultaneamente no cinema, na internet e na TV em 2005, mas a inovação competia apenas à distribuição. Aqui a distribuição não só se renova em termos de gradação, o filme ganha estrutura episódica e serializada, como influencia na narrativa. Quem acompanha o projeto pela internet tem uma experiência, quem acompanha pela tv tem outra e quem acompanha pela internet e depois pela tv tem outra ainda mais distinta.
Se na distribuição, que afeta a narrativa, Latitudes se coloca na vanguarda, na narrativa é um projeto ainda mais inventivo e inquieto. Os episódios sempre terminam em picos de tensão, com os chamados ganchos, mas também com uma trama mais coesa, mais completa, mais redonda – algo que não necessariamente se verifica nas séries a granel. Ademais, a intercalação das cenas de ensaio, com cenas do filme, com o off vazado do diretor lendo o roteiro ou comentando os efeitos de particular cena mais a frente no episódio, proporcionam uma interação jamais experimentada em termos de narrativa no cinema. Não que seja o melhor modelo a se seguir, o cinema paralisaria se seguisse um único e dito melhor modelo, mas é um modelo muito eficiente para os propósitos dramatúrgicos perseguidos por Latitudes. Essa compreensão de tempo, espaço, ritmo e esse azeitamento, que surge na versão televisiva de Latitudes, fazem do projeto algo ímpar – conceitual e ontologicamente - no cenário do audiovisual brasileiro ou mesmo internacional.

Alice e Daniel em cena do primeiro episódio "Destino Paris": é possível acompanhar os novos episódios no canal do projeto no YouTube

Confira o primeiro episódio de Latitudes

sábado, 21 de setembro de 2013

Especial Elysium - Cinema do mundo


Não é de hoje que se sabe que as bilheterias internacionais são a menina dos olhos dos grandes estúdios hollywoodianos. Um dos sintomas é a maratona promocional, a que os astros de cinema se submetem, ainda mais excruciante com destinos exóticos como Brasil, Rússia e Coréia do Sul cada vez mais inseridos no cronograma de divulgação de produções tão díspares como Oblivion, Se beber, não case e outras maçarocas hollywoodianas. 2013 só não bateu o recorde de astros e estrelas em terras brasileiras porque os protestos iniciados em junho afugentaram os Brads Pitts da vida.
A chinesa Bingbing como estratégia de
consolidação de marketing 
Outro sintoma da importância do mercado internacional para uma típica produção americana é a presença cada vez mais consolidada e ansiada por executivos de atores a atrizes de toda parte do globo. Em Homem de ferro 3, a atriz chinesa Fan Bingbing entrou apenas para agradar o mercado chinês. Sua participação, inclusive, foi dilatada na versão do filme que chegou aos cinemas daquele país. O filme também teve imagens gravadas na China como forma de despertar o interesse local pela produção.
Para Elysium, Neill Blomkamp queria um elenco internacional, prioritariamente oriundo de países subdesenvolvidos, por razões pertinentes à narrativa – que trata do eterno conflito entre ricos e pobres, mas coincidiu com o interesse do estúdio de internacionalizar o elenco do filme que, para todos os fins, se passa em Los Angeles e no satélite denominado Elysium. Blomkamp foi buscar Wagner Moura, ator que é expoente no Brasil, para viver um dos principais personagens do filme. O mexicano Diego Luna, a também brasileira Alice Braga e o sul-africano Sharlto Copley completam o elenco multicultural.

A tendência de elencos globalizados é acompanhada pela disposição de ir filmar fora dos EUA. Nunca antes tantas produções de verão foram filmar fora dos EUA ou do Canadá (já que Vancouver e Toronto são historicamente locações acessíveis - em termos financeiros e de logística – para os estúdios). Da trilogia Os mercenários, passando por Star Trek, 300: a Ascensão de um império e Wolverine: imortal (outro que sobeja em atores não americanos – a começar pelo próprio Hugh Jackman), Hollywood nunca foi menos Hollywoodiana.

Wagner Moura e Alice Braga, com a estampa de Matt Damon ao fundo: foco na internacionalização dos blockbusters americanos....

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Especial Elysium - O gênio (e a genialidade) de Matt Damon


É difícil não gostar dele! Matt Damon, quarentão com jeito de menino, é ator de notável senso de humor e ainda mais notável cálculo na gestão de sua carreira. Anunciou recentemente que fará sua estreia na direção e que permanecerá vinculado ao universo da ficção científica, já que integrará o próximo filme de Christopher Nolan, Interstellar. Seu debute no gênero foi em uma adaptação de Philip K. Dick, uma espécie de batismo de fogo no gênero, com Os agentes do destino (2011). No mesmo ano protagonizou Contágio do amigo Steven Soderbergh, com quem já rodou cinco filmes.
Eis aí outra característica proeminente em Damon. Ele valoriza suas parcerias. Depois de estar no epicentro da revolução do cinema de ação moderno com a trilogia Bourne, disse que só voltaria a viver o personagem se Paul Greengrass retornasse como diretor. Isso pode acontecer ou não, mas Damon – que ficou de fora do quarto filme – é um homem de palavra. De fé também. Fechou sua participação em The monuments men, novo filme do amigo George Clooney sem ler o roteiro, mas ciente de que o amigo não lhe decepcionaria.
Raciocínio semelhante aplicou na reedição da parceria com o cineasta Terry Gilliam que o dirigiu no subestimado Os irmãos Grimm (2005). Para The Zero Theorem, exibido no festival de Veneza deste ano, Damon tinha apenas quatro dias na agenda. Fez acontecer porque admira o trabalho e o cinema de Gilliam.
Durante sua trajetória para o estrelato, Damon surgiu como ele mesmo (de maneira pouco simpática) em séries como House of Lies e Entourage, demonstrando que sabe rir de si mesmo. Mas sabe falar sério também em filmes como Syriana – a indústria do petróleo (2005), Terra prometida (2012), Zona verde (2010) e O bom pastor (2006).
É de conhecimento público que tão logo ganhou notoriedade com o Oscar conquistado por Gênio indomável (1997), o ator passou a perseguir projetos que lhe permitissem construir uma personalidade midiática compatível com suas aspirações artísticas. A estratégia deu muito certo. Discreto na vida pessoal, Damon é reconhecido como um astro do cinema e, também, louvado por seus pares e pela crítica como um ator confiável.

Too Matt for your taste? Em Elysium, Damon aparece careca e tatuado. O ator não se incomodou de atuar em um lixão, onde rodou a maioria das cenas de seu personagem passadas no planeta Terra 

BFF: As carreiras seguiram rumos opostos, mas Matt Damon e Ben Affleck - em foto de 1998 - são para sempre...


A ficção científica, um dos últimos bastiões a ser explorado pelo ator no cinema, agora é um ponto estratégico para que o ele exerça seu poder de atração descolado do cinema de ação ou de seu personagem mais célebre (Jason Bourne). Elysium registrou boa bilheteria e ancorado na celebridade de Damon foi a melhor bilheteria da Sony nos EUA no verão de 2013. Ter se vinculado a Neill Blomkamp e não a M. Night Shyamalan como fez Will Smith, também para o estúdio Sony com Depois da Terra, é outro sinal do cálculo certeiro de Damon em seu traçado para ser aquele tipo de ator de quem é impossível não gostar.

domingo, 15 de setembro de 2013

Insight - Passando a régua no verão americano de 2013


O verão americano, em suma, repetiu uma tendência verificada nesses últimos anos: teve mais arrecadação e menos público. O recorde de ingressos vendidos, no entanto, não se deve tanto aos encarecidos tickets do 3D, ainda que eles tenham contribuído para o montante de U$ 4,75 bilhões – recorde absoluto. O recorde anterior, de U$ 4,4 bilhões, pertencia à temporada de 2011. É importante ter em mente que essas cifras se resumem apenas ao mercado norte-americano (que também computa o Canadá).
Se não foi o 3D e filmes de grande orçamento fracassaram em sua maioria, o que, afinal, fez valer esse recorde?
O comportamento do público frequentador de cinema estaria mudando? Essas são as principais reminiscências da temporada que consagrou sucessos improváveis como Invocação do mal, Truque de mestre (ambos com mais de U$ 200 milhões em caixa), The purge, O mordomo, Família do bagulho, As bem armadas, entre outros.
Mas o verão americano de 2013 teve mais. Muito mais. Robert Downey Jr. provou que é à prova de balas (e de desgaste de carisma) com Homem de ferro 3, filme que passou do bilhão de dólares (o único da temporada), e Will Smith não foi capaz de fazer o mesmo. Seu carisma foi testado e levado à beira do precipício com o pavoroso e fracassado Depois da terra. O bando de lobos voltou ao cinema e fechou por cima a trilogia acidental, mas não arrecadou o que a Warner esperava. Os estúdios, aliás, sofreram nessa temporada. A Disney anunciou que cortaria na carne, de novo, depois do fracasso de O cavaleiro solitário. Uma bomba lançada no dia da independência americana que valeu um prejuízo ao estúdio de U$ 200 milhões. A Warner, por sua vez, sem uma bilheteria vultosa, apesar da performance digna de O grande Gatsby, programa adulto em uma época em que reinam os adolescentes, se viu na contingência de antecipar a expectativa por um filme que só chegará aos cinemas em 2015. O confronto entre Batman e Superman foi anunciado com pompa na esteira do sucesso minguado de O homem de aço, que falhou em chegar ao bilhão de dólares, meta traçada pelo estúdio.
Brad Pitt, com uma intensa campanha de divulgação, conseguiu resgatar do que todos criam ser um fracasso certo, o caríssimo Guerra mundial Z, de longe o filme mais cool e bem azeitado da temporada.
Outro aspecto dessa temporada foi que os filmes de terror ocuparam o papel geralmente designado às comédias. Ainda que As bem armadas e Até o fim tenham feito algum barulho, foram os independentes de terror The purge e Você é o próximo que causaram alvoroço nas bilheterias. Os filmes que contemplam um público mais adulto também se deram bem em um período em que os estúdios se programam para agradar um público mais jovem. Além de O grande Gatsby, o novo Woody Allen, Blue Jasmine, foi um vencedor de alto pedigree. Entrou no top 10 americano mesmo sendo exibido em apenas 50 salas no país. E lá permanece! Filmes como Frances Ha, Muito barulho por nada e Fruitvale Station também capitalizaram, sugerindo que há uma demanda reprimida por filmes “mais sérios” nessa época do ano.

Brad Pitt tanto fez que salvou o seu Guerra mundial Z da zica que rondou os filmes de grande orçamento em 2013, mas ajudou o fato da produção dirigida por Marc Forster ser boa 

Cadê o sucesso que estava aqui? Johnny Depp e Armie Hammer culparam a crítica pelo fracasso de O cavaleiro solitário

Os estagiários foi concebido para ser uma potencial surpresa na temporada, tal como ocorrera em 2005 com Penetras bons de bico, mas em 2013 as surpresas foram do terror 

Traduzindo...
Star Trek – além da escuridão poderia ser apontado como o grande filme do verão americano de 2013 em termos de qualidade, rivalizando apenas com Guerra mundial Z. Os coadjuvantes dessa festa são muitos. As animações, que vêm decaindo em qualidade, mostraram vigor comercial com Meu malvado favorito 2, Universidade monstro, entre outros.
O poder de atração das estrelas em detrimento da marca valiosa de certas franquias também se altivou. Impossível pensar que Homem de ferro 3 alcançaria a marca que alcançou sem Robert Downey Jr. Basta olhar para os outros filmes da Marvel. Brad Pitt provou poder de fogo e Leonardo DiCaprio competiu contra franquias milionárias  e conseguiu ótima bilheteria para seu O grande Gatsby.
Se houve um grande perdedor na temporada, este foi Johnny Depp. Se muitos se provaram ainda fiadores de um grande público, Depp errou feio em apostar em uma fórmula já desgastada em O cavaleiro solitário.
Outro erro foi apostar em sequências de filmes razoavelmente bem sucedidos. Red 2, Percy Jackson e o mar de monstros e Kick Ass 2 foram desastres apenas comedidos por não terem sido caros como foi, por exemplo, Círculo de fogo, que mostrou que até mesmo gênios como Guillermo Del Toro erram.
A Warner, que tomou outro petardo com o fracasso de Círculo de fogo (que só fez dinheiro na China), removeu a estreia da sequência de 300 para março de 2014, época com menos concorrência de grandes lançamentos no cinema.
Antes de fechar a conta, a temporada ainda apresentou o agosto mais lucrativo da história, surpreendendo analistas que sempre apostaram na desaceleração das bilheterias no referido mês que conta com poucos (ou nenhum) lançamento de expressão. O verão de 2013 pode ser a primeira pista de que o inverno está chegando...

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Especial Elysium - A ficção científica como espelho do real


Elysium é um filme sobre os ricos ficando mais ricos, os pobres ficando mais pobres e a distância entre eles ficando mais extrema”. Assim define seu segundo e elogiado longa-metragem, o cineasta sul-africano Neill Blomkamp em entrevista à revista Total Film. Não é, porém, exclusividade de Elysium essa obstinação de usar a ficção científica como espelho de um mundo em frequente e preocupante transformação social. Nos anos 80, Ridley Scott e Terry Gilliam já faziam isso e Blomkamp, um garotão de 33 anos, sabe disso. “O legal é você pegar as suas ideias é colocar lá. Não reciclar o que já está aí”, disse à Entertainmet Weekly o diretor que em 2009 impressionou o mundo com seu debute no cinema: Distrito 9.
A ficção científica costuma ser palco para críticas sociais de intensidade e densidade diversas. Do influente Blade runner - o caçador de androides (1982) ao diversionista O livro de Eli (2010), o gênero costuma fornecer alguns dos mais valorosos e ultrajantes insights sobre nossa contemporaneidade.
J.J Abrams lançou em 2013 o segundo filme Star Trek sobre sua autoria com uma invejável construção política que rendeu comparações com atuação dos EUA no Oriente Médio e no desenrolar da guerra fria no final dos anos 80 e como isso repercutiu no cenário geopolítico atual. As comparações procedem especificamente no tangente às motivações do ótimo vilão interpretado por Benedict Cumberbatch.

 Cumberbatch capturado em cena de Star trek: além da escuridão: a ficção como espelho do real

Blomkamp levando aquele lero com Matt Damon no set de Elysium: "sempre quis fazer ficção científica", disse à Total Film

X-men –primeira classe (2011) é outro exemplo recente de produção calcada na ficção científica que favorece um espelho do real em suas intermitências políticas e sociais. A ruptura de Xavier e Magneto, tão bem engendrada no filme, é signo das diferenças de pensamento que caracterizam, por exemplo, o imbróglio na Síria e toda a guerra ao terror - para extravasarmos a metáfora com o racismo .
Há, ainda, filmes menos ambiciosos no encapsulamento do real. Alguns exemplos que podem ser citados são Repo men – o resgate de órgãos, sobre o mercado negro de órgãos oficializado no futuro, e Contágio, sobre a fragilidade humana em face de pandemias biológicas ou químicas.
Os exemplos da potência da ficção científica em traduzir e refletir a realidade são vastos, ricos e por vezes tão complexos quanto seu objeto de inspiração.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Os protagonistas de "50 tons de cinza" e como eles afetam o filme que chega aos cinemas em 01/08/2014



Charlie Hunnam, de filmes como Filhos da esperança, Círculo de fogo e da série de tv Sons of anarchy, e Dakota Johnson, atriz de pequenas aparições em filmes como A rede social e Anjos da lei, mas filha de Don Johnson e Melanie Griffith, são os rostos e corpos de Christian Grey e Anastasia Steele, os famosos personagens criados por E.L. James no best seller internacional “50 tons de cinza”. Conforme amplamente repercutido aqui em Claquete, a busca pelos dois protagonistas ascendeu a fogueira de vaidades em Hollywood que se consumiu em mais de um ano de boatos, desmentidos e alguns avanços. Assim como se deu com o anúncio de que Ben Affleck seria o novo Batman, a internet não encarou muito bem as escolhas para os protagonistas do romance erótico. Enquetes de opinião vaticinam: os produtores mandaram mal na escolha. Será? Conforme já apontado em seção Insight do blog, a preferência majoritária dos fãs, americanos ao menos, era por Matt Bomer (da série White Collar) e Alexis Bledel (da série Gilmore Girls). Mas a escolha da Universal e da diretora Sam Taylor-Johnson tem o potencial de ser muito boa. Hunnam é um astro à espera de ser descoberto. Círculo de fogo marcou o início dessa jornada, mas 50 tons de cinza será um senhor atalho nesse sentido. Além de pinta de galã, o ator tem estofo dramático. Quem já teve a oportunidade de vê-lo em ação em uma das séries mais elogiadas da atualidade pela crítica americana sabe disso. Uma das maiores reclamações das fãs diz respeito ao fato de que ele seria velho demais para encarnar o galante Christian. Bobagem. Com 33 anos, o ator convence tranquilamente como alguém com cinco, seis anos a menos. Dakota Johnson é uma incógnita. Mas uma aposta necessária. Desde que surgiram os primeiros boatos de candidatas ao posto de Anastasia, percebia-se a intenção do estúdio em contar com uma atriz desconhecida. Emma Watson, por exemplo, sempre relacionada ao projeto, nunca foi um nome realmente considerado. Diferentemente de Robert Pattinson, que era o Christian Grey de E.L James. Para quem não sabe, "50 tons de cinza" começou como fan fiction de Crepúsculo.
Matt e Alexis em cartaz feito por fãs
A opção por uma atriz desconhecida tem algumas razões de ser. A primeira é de lançar uma nova estrela que imediatamente irá gerar buzz para o filme em qualquer circunstância. Vale lembrar que estamos diante de uma trilogia e não apenas de um filme isolado. Em um segundo momento, existia o interesse em ter-se Anastasia e não necessariamente uma atriz como Anastasia. Era preciso, ainda, que essa atriz compactuasse com cenas de nudez e sensualidade. Algo que, apesar de vivermos na era em que vivemos, nem todas as jovens atrizes compactuam.
Esse conjunto de elementos faz com que a escolha mereça um voto de confiança. Afinal, o casting de 50 tons de cinza foi um dos mais demorados, comentados e ansiados da história recente de Hollywood. A produtora Dana Brunetti disse ao site IndieWire que já esperava essa “recepção alarmada” por parte dos fãs.  “Você nunca suprirá as expectativas de tantas pessoas que já visualizaram tão diferentemente os personagens que conheceram nos livros”. Ela disse também que já houve testes e pode garantir que a química entre Charlie e Dakota é excelente. Há quem acredite que um namoro nos moldes do de Robert Pattinson e Kristen Stewart também esteja à espreita.
A autora E.L James, que teve que abrir mão do sonho de ter Pattinson como Grey para que a adaptação cinematográfica de sua obra encontrasse a própria identidade, tuitou botando panos quentes: “obrigado a todos aqueles que apoiaram, amaram e odiaram. Muito obrigado pela paixão que vocês têm por esse projeto. Vocês são rock and roll".

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Afundando na garganta - tudo o que você precisa saber sobre o filme Lovelace


A estreia estava prometida para o dia 30 de agosto, mas foi remanejada para 13 de setembro Trata-se de um dos filmes independentes americanos mais aguardados em muito tempo. Em parte pela curiosidade sobre a carreira da mais famosa atriz pornô de todos os tempos e de como Linda Lovelace, no terceiro ato de sua vida, se transformou em uma ferrenha ativista contra a indústria pornô. A produção da The Weinstein Company, desde que foi anunciada, alimenta expectativas de público e crítica. Nessa reportagem especial, Claquete esmiúça os detalhes da produção e de todo mundo que está por trás dela...


Entre o hard e o soft...

Repare na carinha de anjo. No jeito de menina travessa. Amanda Seyfried dá corpo a fantasias e justamente por isso foi uma das primeiras opções para viver a personagem, a primeira mesma foi a não menos instigante Olivia Wilde. Mas Seyfried tem mais currículo, quiçá mais sex appeal, para encarnar uma personagem que precisa trafegar entre a inocência e a depravação.
Com uma carreira ainda em ascendência, mas já consolidada, a atriz de 27 anos enfileira projetos tão distintos quanto midiáticos como Os miseráveis, Lovelace, O preço do amanhã e A garota da capa vermelha. Desde Mamma mia (2008) é uma realidade hollywoodiana, mas se experimenta em projetos ousados como O preço da traição, tira um sarro em participações especiais em programas como American dad, enquanto se prepara para o primeiro papel de sua vida como uma lenda do cinema pornô.
Do filme teen Meninas malvadas (2004) a ousada série da HBO Big love, Amanda Seyfried transita com graça, desenvoltura e talento por uma indústria que tem no sexo àquela esquina super conhecida.

O hype
Garganta profunda arrecadou mais de U$ 600 milhões, é reconhecidamente o filme erótico mais visto da história e foi capaz de provocar uma revolução nos costumes dos anos 70, capitalizando em uma época de revolução sexual. O filme gerou, até mesmo, um documentário (Por dentro da garganta profunda) lançado em 2004. Por tudo isso, Lovelace, filme que se predispõe a dar a versão dos fatos da protagonista de Garganta profunda, ganha destaque. O hype do filme é mergulhar nessa época que o cinema pornô estava se construindo, se descobrindo e sendo descoberto e o processo de imersão de uma “garota da  porta ao lado” que a levou à fama e às drogas.
Linda Lovelace depois de ser um dos principais rostos do pornô se tornou uma das principais vozes contra essa indústria. O hype está todo aí!

Mr. Sex drive

É uma ponta. Talvez um pouco mais do que uma ponta. Mas é seguramente uma das sensações de Lovelace a presença de James Franco como Hugh Hefner, o criador da Playboy e que estava envolvido com o cinema (o pornô e o convencional) nos idos dos anos 60 e 70 que marcaram a contracultura. Hefner, um tipo legitimamente interessado em sexo, ganhou em James Franco que recentemente declarou que “faria sexo real em um filme pelo papel certo” um intérprete a altura do mito.

Nossos loucos anos
Não é segredo para ninguém, mesmo quem pouco se importa com a vitalidade do cinema pornô, que a internet mudou as regras do jogo. O cinema pornô vive seu crepúsculo no sentido de indústria. Havia uma época que faturava tanto quanto Hollywood. Os cinemas eróticos eram frequentados por celebridades e personalidades nos anos 70 na esteira do sucesso de obras como Garganta profunda. A moda pegou no Brasil, ainda que com perfil mais marginalizado. Ainda assim, os cinemas eróticos lotavam nos centros do Rio de Janeiro e São Paulo. Emanuelle viraria frisson nas sessões Privê das madrugadas da tv aberta. Se há um filme contemporâneo que registra essa nostalgia ensimesmada de uma era mais ingênua e devassa é Boogie Nights – prazer sem limites (1997), escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson.
O filme acompanha justamente o apogeu do cinema pornô e como ele, por um certo período, deu viço ao sonho americano.

Too sexy for your love: os boys do filme de Paul Thomas Anderson

Com vocês, os garanhões...



Ah, esses títulos...

Filmografia parcial de Linda Lovelace
As minhas loucas aventuras na selva (1969)
Dog fucker (1969)
Garganta profunda (1972)
Exóticas fantasias francesas (1974)
Confissões de Linda Lovelace (1974)
Linda Lovelace para presidente (1976)

Documentário ou ficção?
A versão dos fatos por Linda Lovelace. Essa é, sob coação, a justificativa da equipe por trás de Lovelace para o filme. Mas por que não um documentário? Rob Epstein, um dos diretores do filme é um documentarista de longa data e prestigio. São seus os oscarizado The times of Harvey Milk (1984) e o vanguardista The Aids show, rodado em 1986 com a Aids então uma novidade. O interesse por aquela época e pelas reminiscências da contracultura acompanham Epstein que junto com Jeffrey Friedman, seu codiretor em Lovelace, lançou Uivo, sobre a geração beat em 2010. Foi no curso desse filme que resolveram abraçar a história de Lovelace. A ideia era fazer uma ficção tão bem fundamentada como a do filme estrelado por James Franco e que valeu a dupla alguns prêmios ao redor do mundo.

Sete curiosidades sobre o filme

Amanda Seyfried achou Garganta profunda “um pouco chato”. Ela fez a confissão durante o último festival de Berlim

O orçamento do filme foi de U$ 10 milhões

Olivia Wilde, de Tron – o legado e Eu queria ter a sua vida, era a primeira opção para viver Linda Lovelace

A personagem de Sarah Jessica Parker, Gloria Steinem, foi cortada da versão final do filme

Os produtores de Garganta profunda tentaram vetar o lançamento do filme na Justiça de Nova Iorque sob argumentação de violação das leis de direitos autorais

Chloë Sevigny, que no filme faz uma jornalista feminista, é a campeã entre o elenco feminino de aparições nuas em filmes. A atriz, no entanto, já declarou que não tirará mais a roupa em frente às câmeras

Wes Bentley e Amanda Seyfried contracenaram em 12 horas, de Heitor Dhalia

Amanda Seyfried pediu para não rodar cenas em que surgisse completamente nua