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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Crítica - O mordomo da Casa Branca

Revisão histórica oxigenada pela emoção

Lee Daniels tem uma agenda e ela naturalmente, por ser ele negro e homossexual, tem concentrações temáticas relacionadas a minorias. No caso de O mordomo da Casa Branca (Lee Daniels´The Butler, EUA 2013) essa agenda surge mais sofisticada pelo espelho que enseja dos bastidores da política americana pelo olhar de um homem, cujos direitos básicos ainda lhe eram negados. O drama, desde já apontado como uma das forças do próximo Oscar, inspirado em uma história real, narra a trajetória do fictício Cecil Gaines (Forest Whitaker em performance impressionante), que foi mordomo na Casa Branca por cerca de 30 anos e serviu a sete presidentes diferentes.
O assassinato de Kennedy, a renúncia de Nixon e a pompa de Nancy Reagan (em ponta bem sacada de Jane Fonda) se diminuem ante aquele que é o maior interesse de Daniels: discutir a evolução da luta pelos direitos civis no país que foi uma das maiores vítimas da segregação racial no ocidente.  E a forma como Daniels trabalha esse olhar não poderia ser mais sedutora. E emocional. Enquanto Cecil se ajusta como um “negro doméstico”, seu filho mais velho Louis (David Oyelowo) se insurge contra esse sistema opressor. Primeiro como discípulo de Martin Luther King, depois como membro do Panteras negras. A divergência de posicionamento político entre pai e filho, e a forma como essa divergência afeta a relação deles, é um dos pontos altos do filme e da direção de Daniels.
Um adendo ao trabalho de Oyelowo precisa ser feito. Integrante de um numeroso e estrelado elenco ele brilha com o papel mais suculento, é verdade, mas também o mais difícil e exigente de todos. Com sutileza preenche de sentido e reflexão um personagem justificadamente agressivo. A diferença entre o tom de sua interpretação e o tom de seu personagem tornam seu trabalho muito mais vistoso e digno de elogios.

Whitaker e Oyelowo em ação: registros distintos, mas igualmente eficientes

O mordomo da Casa Branca, naturalmente, carrega sua dose de panfletarismo inerente aos filmes que cumprem certa agenda social. Mas Daniels consegue abrandar esse viés fiando-se em uma história rica em muitos aspectos. Como demonstra esse subtexto da relação entre o pai e seu filho. Há uma preocupação em posicionar historicamente o debate pelos direitos civis e, nesse sentido, a cena em que Cecil e sua esposa (interpretada com esmero por Oprah Winfrey) recebem Louis e sua namorada, recém-ingressos no grupo Panteras Negras, para jantar, é eloquente. Na cena discutem o significado de Sidney Poitier, o primeiro negro a ganhar um Oscar e para muitos a abrir as portas do cinema para os que vieram depois dele, para a causa. A cena é emblemática de uma polarização que resiste até mesmo nos dias de hoje e que se galvanizou, por exemplo, quando do lançamento de Django livreem que Spike Lee insurgiu-se contra o filme pelo uso caricato do termo “nigger”.
Nesse contexto, O mordomo da Casa Branca adquire inegável valor histórico, potencializado por registrar o fascínio, e a cota de esperança construída durante todo o decorrer do filme, com a eleição de Barack Obama para a presidência dos EUA em 2008.

Em última análise, eis um filme que se beneficia como ninguém do slogan ensejado pela vitoriosa campanha obamista.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Filme em destaque - O mordomo da Casa Branca

O novo filme de Lee Daniels, a exemplo de outras produções já lançadas em 2013 (Sem dor, sem ganho e Bling ring – a gangue de Hollywood) tem uma reportagem de jornal como fonte primária.
Em 2008, durante as semanas que precederam a eleição de Barack Obama, o repórter e ex-correspondente do Washington Post Wil Haygood se impôs uma missão: encontrar o afro-americano que trabalhou na Casa Branca e testemunhou o movimento pelos direitos civis dos bastidores. Depois de inúmeros telefonemas, Haygood descobriu esta pessoa em Washington. Seu nome era Eugene Allen, tinha 89 anos e havia servido oito presidentes, dos anos 1950 aos 1980. Depois de se encontrar com Allen e sua mulher, Helene, por algumas horas, o jornalista conseguiu fazer um perfil do homem que teve acesso em primeira mão a alguns dos eventos mais críticos da nação – e aos homens poderosos por trás deles – de uma forma sem precedentes e bastante cinematográfica.
A vice-presidente da Sony Pictures Entertainment, Amy Paschal, foi a primeira a ler a entrevista com Allen no Washington Post e mostrou o material para a produtora Laura Ziskin. O Post publicou a história na sexta-feira seguinte à vitória de Obama. Apesar do empenho da produtora, responsável pelo sucesso da trilogia original Homem aranha, a Sony acabou desistindo do projeto. Laura, no entanto, apaixonada pelo projeto buscou financiadores independentes para produzir o filme e convidou Lee Daniels, que era sua opção do coração, para dirigir o filme. Com Daniels a bordo, o elenco começou a se formar. Oprah Winfrey, Mariah Carey, Lenny Kravitz e David Oyelowo, todos amigos pessoais do diretor, assinaram contrato. O elenco grandioso foi ganhando ainda outros nomes estrelados como Robin Williams, John Cusack, Jane Fonda, James Marsden, Cuba Gooding Jr., Alan Rickman, Terrence Howard e Liev Schreiber. “Minha ideia era fazer o filme com o elenco mais repleto de estrelas possível”, disse o diretor à GQ quando veio divulgar o filme no último Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. A colocação demonstra a consciência de Daniels de que um bom elenco pode ser um chamariz para ir ao cinema.
“Estava empolgado naquele momento pós-Preciosa e adorei trabalhar com Laura. Estavam entre mim e outro cineasta (Steven Spielberg que declinou do projeto), bastante famoso, para dirigir o filme, e ela queria que fosse eu. Laura me entendia – poucas pessoas conseguem entender minha energia e ela conseguia. Me apaixonei de verdade por ela”, disse o diretor no material promocional divulgado à imprensa pela distribuidora do filme no Brasil em relação a produtora que acabou falecendo .

Todos os presidentes de Daniels: no estrelado elenco, Robin Williams, James Marsden, John Cusack, Liev Scheriber e Alan Rickman vivem alguns dos presidentes servidos pelo protagonista do filme

A opção por Forest Whitaker veio com a definição de que o filme seria independente, posteriormente abraçado pela The Weinstein Company (expert em campanhas para o Oscar). Denzel Washington, que declinou do papel, e Will Smith foram considerados enquanto o projeto orbitava o estúdio Sony. “Forest, em particular, é provavelmente o ator mais humilde com quem já trabalhei na vida. Quantos ganhadores do Oscar topariam fazer um teste de elenco? Muitos atores não percebem que precisam se doar a um diretor. É um dom raro”.

Razões do coração
“A história era importante para mim porque eu nunca tinha visto um filme que retratasse o movimento de direitos civis do começo até a administração Obama, pelos olhos de um pai e um filho. Este filme coloca as coisas que as pessoas viveram em perspectiva, mesmo nos dias de hoje, em que podemos fazer coisas como votar. Ele vai além do negro e do branco, o que era importante para mim, porque é uma história de pai-e-filho além de ser uma história de direitos civis. Transcende raça, transcende os Estados Unidos – é universal. Não é uma lição de História, é a história de uma família”, explica o cineasta.
Para Daniels, O mordomo da Casa Branca é o filme mais difícil que já dirigiu. “Não existe conteúdo sexual, há pouco palavrão e a violência é mínima, embora estejamos lidando com um período muito violento. Então, como realizador, tive que me conter e tenho muito orgulho disso”.
Daniels no set: paixão pelo projeto

Forest Whitaker resume com bastante assertividade os méritos de seu diretor neste filme que revela uma ambição muito grande para um filme independente. “Acho que o que Lee Daniels fez neste filme é bastante poderoso porque ele tratou do movimento dos direitos civis por meio do meu personagem (Cecil) e do meu filho. Meu filho é um ativista, primeiro na faculdade e depois trabalhando ao lado de Martin Luther King e depois de Malcolm X. É um espectro amplo de pessoas em um movimento em particular. Ao mesmo tempo, você me vê na Casa Branca durante períodos em que as decisões estavam sendo tomadas nos bastidores pelos presidentes Kennedy, Johnson, Nixon, Reagan e outros. Eles estavam dando forma aos direitos civis e humanos no país – e, no fim das contas, no mundo".

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Crítica - Obsessão

Ambição e umidade

Lee Daniels fez história não só por ser o segundo diretor negro indicado ao Oscar de direção, mas por levar o pequeno Preciosa – uma história de esperança (2009) à consagração no Oscar e junto a crítica. O filme, com mais virtudes do que defeitos, e a recepção calorosa a ele, ensejaram uma expectativa alarmante para a sequência da carreira de Daniels, até então produtor, como cineasta. Sob muitos aspectos, Obsessão (The paperboy, EUA 2012) é uma escolha ousada. Primeiro porque cristaliza a ambição de Daniels como cineasta ao enfileirar uma série de temas, segundo por ser essencialmente um drama de cores fortes, mas que vai além da retórica racial – contingenciamento algo voluntário no primeiro trabalho de Daniels como diretor. Há também a disposição de dar dois personagens essencialmente dramáticos a dois atores de pouca expressão nesse departamento: Zac Efron e Matthew McCounaughey – que quando gravou este filme ainda não colhia os louros da mudança de ares no cinemão ianque.
Esses aspectos já revelam o quão interessante Obsessão é enquanto experiência cinematográfica. Mas há outros predicados. Nicole Kidman como uma periguete quarentona com uma tara por prisioneiros tem uma personagem cheia de potencialidade, ainda que eventualmente subaproveitada pelo roteiro – escrito por Daniels em parceria com Peter Dexter. Há, ainda, como força motriz da história a paixão voraz de Jack (Efron), por essa mulher de fortes tendências manipuladoras e a espirituosa relação implícita nesse contexto à ausência materna. Há, também, a sombra dos conflitos raciais e um breve adendo da intolerância ao homossexualismo nos idos dos anos 60. Há uma trama policial, mal costurada, a conferir fluxo a toda essa postulação narrativa. O jornalista Ward (McCounaughey) volta a sua cidade natal para investigar a suspeita de que um homem no corredor da morte não teve um julgamento justo. Junto com seu irmão Jack, um jornalista de moral duvidosa (David Oyelowo) e a periguete vivida por Kidman constituem a última fronteira entre Hillary (John Cusack) e a cadeira elétrica. Esse caso interessa menos a Daniels do que a atmosfera daquela cidade e como ela influencia os personagens.

Nicole kidman, gemendo em cena (e tomando conta) de Obsessão: elenco em alto nível

Obsessão é feito para chocar. Fortuitamente e no acumulado. Essa disposição de falar em um tom mais grave se mostra um tanto diversionista. Daniels tem muitos objetivos com seu filme e não chega a atingi-los de maneira satisfatória em sua integralidade. Mas há mais pontos positivos do que negativos. Além da coragem de colocar personagens negros como moralmente desviados ou personificações da intolerância (um salto se comparado ao discurso de Preciosa), o diretor convence ao fazer um registro quente da sarjeta. Seus personagens são pobres de alma em busca de amor e redenção e vítimas de um calor inconsequente. Há muita umidade em Obsessão e o fato de você poder senti-la, a despeito dos pingos que escorrem do torso de Zac Efron (surpreendente no personagem), é um mérito de uma direção segura e ciente de seus propósitos.

Se a ambição desmedida afeta o resultado final de Obsessão, também coloca o filme como peça-chave na construção de uma carreira mais sólida, interessante e íngreme do que se imaginava em um primeiro momento.

domingo, 22 de setembro de 2013

Insight - O Oscar dos negros

O diretor Steve McQueen, o segundo da direita para a esquerda, e o elenco de um dos pré-candidatos ao Oscar, 12 years a slave

O Oscar de 2002, que consagrou Denzel Washington e Halle Berry como os melhores atores do ano (no caso de Berry, ela foi a primeira atriz negra a triunfar na categoria principal), além de conceder prêmio honorário a Sidney Poitier – o primeiro ator negro a ganhar um Oscar – é conhecido como o Oscar negro. O próximo Oscar, ensaiam os primeiros prognósticos da temporada de ouro do cinema americano, pode reclamar esse estigma para si.
12 years a slave, um filme que versa sobre a escravidão, mas a partir de um prima completamente renovado – um homem negro livre sequestrado e vendido como escravo, está na dianteira nas casas de apostas. Seu diretor, Steve McQueen, que já merecia indicação por Shame, figura entre as certezas na categoria de direção. O protagonista, Chiwetel Ejiofor é outro dado como carta marcada na disputa por melhor ator. Categoria esta que pode registrar recorde de atores negros em disputa, se confirmadas as boas expectativas em relação a Forest Whitaker, protagonista do dramalhão de Lee Daniels (que foi apenas o segundo diretor negro indicado ao Oscar – em 2010 por Preciosa – uma história de esperança), em O mordomo da Casa Branca. Whitaker ganhou o Oscar de melhor ator em 2007 por O último rei da Escócia tornando-se apenas o quarto negro a triunfar na categoria principal, mas o terceiro em um espaço de cinco anos. O inglês Idris Elba, que vive Nelson Mandela em Mandela: long walk to freedom, é outro nome bem cotado. Assim como Michael B. Jordan que faz o jovem assassinado por policiais em Fruitvale Station, sensação indie da temporada. Se três desses conseguirem emplacar indicações, o recorde já estará consolidado.

Denzel Washington e Halle Berry com seus Oscars conquistados há 11 anos: novo recorde a caminho? 

Oprah Winfrey, que é uma das mais poderosas personalidades americanas, é outra aposta certeira entre as atrizes coadjuvantes pelo filme O mordomo da Casa Branca. Ela já foi indicada na categoria pelo filme A cor púrpura na década de 80

Além de Lee Daniels e Steve McQueen, Spike Lee é outro que pode figurar na lista com seu remake do clássico sul-coreano Oldboy. Mas é uma possibilidade distante. Fato é que até hoje apenas dois negros foram indicados a melhor diretor e neste ano três aparecem com filmes conceituados na praça.  
David Oyelowo (O mordomo da Casa Branca) e Barkhad Abdi, que faz um pirata somali em Captain Phillips, estão entre os nomes aventados para a categoria de ator coadjuvante.
Na equivalente categoria feminina, muitas pretendentes negras também. Oprah Winfrey, por O mordomo da Casa Branca, é o maior destaque. Mas há, ainda, Lupita Nyongo (12 years a slave), Naomie Harris (Mandela: long walk to freedom) e a previamente vencedora na categoria Octavia Spencer por Fruitvale Station.
É muito improvável que todos esses pleiteantes garantam vaga entre os finalistas, mas o número de concorrentes bem direcionados é um convite à academia a demolir, de uma vez por todas, a injusta máxima de que é segregacionista.  

Idris Elba caracterizado como Nelson Mandela: depois de render indicação a Morgan Freeman em 2010, personagem pode valer primeira indicação ao Oscar para o ator britânico 

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Insight

Sentimental ou sentimentalistaa dicotomia de duas escolas de cinema

Um ensaio sobre a honestidade de uma história; sobre a opção de um cineasta de preservar a integridade do registro ou não, mediante suas expectativas comerciais

Qual a diferença entre sentimental e sentimentalista? Atendo-se a definição semântica da palavra, extraída do dicionário, sentimental é quando se marca por sentimento, sensibilidade, ideário emocional; o que resulta do sentimento e não do pensamento ou da razão. Enquanto que sentimentalismo é a tendência a mostra-se sentimental; exagero de reações ou comportamentos sentimentais.
A partir dessas definições, é possível identificar no cinema em geral, no americano em particular – ainda mais em tempos de Oscar- filmes que se ajustam a uma e outra definição. Antes de eleger os filmes que darão escopo a essa análise e que a caracterizarão, é preciso reconhecer que faz parte de qualquer narrativa, principalmente a fílmica, iludir, deslumbrar, manipular. Mas é igualmente necessário lembrar, que existem limites e padrões desejáveis a serem preservados; e que eles serão decisivos para lograr aos filmes a acunha de sentimentais ou sentimentalistas. Uma percepção necessária na hora de se apreciar uma obra cinematográfica.

Clint Eastwood e Hillary Swank em cena de Menina de ouro: Os personagens, e seus dramas, falam por si...


Para materializar essa análise, elegem-se três dramas recentes que venceram o Oscar e um forte candidato da safra atual. Menina de ouro (2004), Crash (2005), Quem quer ser um milionário? (2008) e Preciosa (2009). Em comum, todos esses filmes têm sua origem independente e também a opção por contar dramas pessoais representativos de minorias. O preconceito e as mazelas sociais são elementos fortes e proeminentes nos quatro filmes, no entanto, a forma como esses elementos são trabalhados difere em todos os projetos. A narrativa e os discursos defendidos também são diferentes.

Cena de Quem quer ser um milionário?: Tal qual Preciosa, fala-se de esperança, mas com a falsa promessa de redenção; todo o sofrimento será compensado.


Enquanto Menina de ouro é dosado, comedido e não força a empatia do espectador com seus personagens, o drama de Danny Boyle, Quem quer ser um milionário?, procura a empatia do público com seu protagonista a todo tempo, lançando mão de subterfúgios narrativos a todo momento para cativar sua platéia, em uma “espetacularização da miséria”. Crash por sua vez cede ao moralismo. Todos os núcleos apresentados no filme têm uma função social e permitem um comentário de seu autor. A improbabilidade de certos desfechos não incomoda em virtude da força das histórias. Todas calculadas para produzir o efeito que produzem. Em Preciosa não há esse maniqueísmo. Sabe-se de antemão que a tragédia da protagonista é muito particular, embora também seja comum, e que ela não encontrará redenção no cinema, nem a platéia. Testemunha-se a força interior gestada na personagem que advém do mundo a sua volta. A honestidade de Preciosa se contrapõe vitoriosamente a veia manipulativa de Crash, embora o filme de Paul Haggis seja dramaticamente mais eficiente.

Em Crash, Paul Haggis exorta: Aqui se faz, aqui se paga. Uma parábola moralista que não deixa de se configurar em um poderoso drama

A partir desses fatos inescapáveis pode-se medir o interesse dos diretores para com sua obra e seus efeitos. Enquanto Eastwood e Daniels queriam contar boas histórias, reais, dolorosas e sem soluções fáceis, Danny Boyle e Paul Haggis (que como curiosidade é roteirista de Menina de ouro) queriam cativar, e exortar, sua platéia irrevogavelmente. Para isso, lançaram mão de artifícios narrativos mesquinhos para potencializar determinadas percepções. Cederam ao sentimentalismo, portanto. Esse fato não torna seus filmes ruins, mas os deixa um degrau abaixo dos outros dois em matéria de cinema. Eastwood e Daniels conseguiram permear seus filmes de sentimento por méritos próprios, sem pesar a mão. Sem desonestidade no relato. Rever os filmes em questão pode ser muito útil para a correta e completa assimilação desse artigo e para que a diferença entre ser sentimental e sentimentalista fique bem clara para cinéfilos e frequentadores de cinema habituais.

Gabourey Sidibe é a protagonista de Preciosa: com seis indicações ao Oscar, o filme fala de esperança sem maniqueísmos

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

OSCAR WATCH - Critica: Preciosa

A desgraça que afunda e a esperança que levanta!

O cinema americano tem grande interesse por personagens que vivem as margens da sociedade. Ou que gravitam em torno do conceito de sociedade como projetos em suspensão. Preciosa – uma história de esperança (Precious –based on novel “Push” by Sapphire EUA 2009) ajusta-se a esse cinema muito praticado na cena independente americana.
O filme de Lee Daniels mostra a dura vida de Clareece Precious Jones (Gabourey Sidibe), uma adolescente negra, obesa, semi-analfabeta, abusada sexualmente pelo pai, abusada moralmente e fisicamente pela mãe e sonhadora. Precious não renuncia a seus sonhos. Nem mesmo diante das mais cruas adversidades. Preciosa se ocupa de enfileirar os dramas dessa personagem que mora no Harlem dos anos 80, de maneira a elaborar uma moral muito clara. A de que por mais dura e insolúvel que a vida possa parecer, ela ainda vale a pena ser vivida. Não é uma mensagem fácil de vender. Especialmente quando se leva uma vida como a da protagonista. O diretor Lee Daniels, no entanto, mostra-se um narrador habilidoso. Sempre que Precious é acometida pelas desgraças que a vitimizam rotineiramente, ele põe na tela as fantasias da adolescente sonhadora. Esse recurso não só demonstra a honestidade do relato (e Preciosa é um filme muito honesto), como desarma uma platéia que pré-julga seu filme. Ele não quer mostrar as atrocidades de que Precious é vítima. Daniels sabe que não lhe interessa, muito menos a sua platéia (majoritariamente de um mundo diferente do de Precious), ceder ao voyeurismo da desgraça alheia. A desgraça é tão proeminente que pode ser sentida. Flagrada nos gestos. Nos olhares. Nas inflexões dos personagens. E é aí que o elenco brilha.



Mariah Carey, que dá vida a uma assistente social, ao lado da poderosa Gabourey Sidibe: Um filme com agenda social sim, mas também com ótimos predicados cinematográficos

O maior trunfo do filme são suas duas atrizes principais. A estreante Gabourey Sidibe, no papel da protagonista, brilha intensamente. Dona de uma presença poderosa, ela irradia força de vontade e cativa com uma atuação tão minimalista quanto robusta. Já Mo´Nique, na pela da odiosa mãe de Precious, está um colosso. A atriz mantém sua figura entre a perversidade e a estupidez. Humaniza uma mulher desequilibrada, fruto de uma conjuntura social deturpada, mas que não tem a coragem de sua filha para seguir adiante.
Com seis indicações ao Oscar (filme, direção, roteiro adaptado, atriz, atriz coadjuvante e montagem), Preciosa é a prova definitiva de que há luz no fim do túnel. Mas é a prova definitiva também, de como a vida é injusta. Das duas constatações emerge a certeza de que a perseverança é a chave. A esperança, no final das contas, é o bem mais precioso que se tem em tempos de adversidade. A vida de Precious não iria mudar radicalmente, como a de muitas outras garotas na mesma situação não vai. Mas a combinação de esperança e perseverança pode deflagrar algo de muito positivo. Essa verdade cristalina é tudo que Daniels, através do impacto da história contada, quer ressaltar com seu filme.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

OSCAR WATCH - A peleja dos diretores

Na montagem: James Cameron (Avatar), Lee Daniels (Preciosa), Kathryn Bigelow (Guerra ao terror), Quentin Tarantino (Bastardos inglórios) e Jason Reitman (Amor sem escalas)


O rei do mundo

James Cameron é egocêntrico e prepotente. Uma característica, na verdade, muito comum em Hollywood. A diferença é que ele não faz muita questão de esconder. Só que seus filmes rendem fábulas e o Oscar precisa de gente como ele. Portanto, doze anos depois de se auto declarar o rei do mundo, James Cameron volta ao centro do mundo do cinema.

Prós:
- Existem avanços técnicos inegáveis em seu filme, como um prêmio de conquista científico-tecnológica está fora de cogitação, um troféu por direção viria a calhar
- Seu filme é o maior sucesso de bilheteria da história
- Seria um momento antológico vê-lo declarar “Doze anos depois, continuo sendo o Rei do mundo”
- Hollywood gosta e vive de super produções. Avatar e todo o seu gigantismo consumiram seis anos e deixaram a cabeleira de Cameron toda branca. Isso pode ser preponderante.

Contras:
- É o único dos cinco que já venceu um Oscar por direção
- Apesar do esmero técnico e do perfeccionismo de Cameron nesse sentido, Avatar é um filme com alguns problemas narrativos e cujo trabalho de direção não se equilibra bem em todos os preceitos básicos do ofício. Não seria um prêmio justo, portanto. E todo mundo sabe disso.
- É vitima de muita inveja em Hollywood
- Se a academia quiser dividir os dois prêmios principais da noite entre o cinema comercial (Avatar) e o independente (Guerra ao terror), é mais provável (em virtude da razão acima citada) que Cameron perca aqui

Indicações anteriores: Melhor filme, melhor montagem e melhor diretor por Titanic em 1998
Vitórias anteriores: Melhor filme, melhor montagem e melhor diretor por Titanic em 1998

A dama de ferro


Kathryn Bigelow pode se tornar a primeira mulher a ganhar um Oscar de direção. O feito, obviamente, será eternizado e celebrado como mais uma conquista do pós-feminismo. Contudo, a diretora que já é uma veterana (tem 58 anos e já dirige há 25), não faz filmes de apelo feminino. Muito menos de apelo universal. Seu negócio é testosterona mesmo. São dela filmes como Caçadores de emoção (aquele que revelou Keanu Reeves e tinha Patrick Swayze como bad Guy) e K19 –the widowmaker.

Prós:
+ Com tantas boas diretoras circulando no cinema americano, já passou da hora de premiar uma. E todo mundo sabe disso.
+ É um dos melhores trabalhos de direção do ano, junto ao de Quentin Tarantino. E todo mundo sabe disso.
+ Ganhou o DGA no final de Janeiro. De todos os sindicatos, o DGA é o que tem melhor aproveitamento no Oscar
+ Existe um lobby forte para premiá-la
+ Se a academia quiser dividir os dois prêmios principais da noite entre o cinema comercial (Avatar) e o independente (Guerra ao terror), ela é a opção mais viável aqui. Pois o que conta para o povão é Avatar levar de melhor filme do ano

Contras:
- A academia pode se sentir obrigada a reconhecer em “grandes termos” Avatar. Tal como fizera, exageradamente, com Quem quer ser um milionário? ano passado
- Têm dois concorrentes muito fortes por filmes queridos pela classe artística, Lee Daniels (que também vêm de uma minoria, pode-se dizer) por Preciosa e Quentin Tarantino (que também tá recebendo um lobby danado, especialmente dos atores) por Bastardos inglórios. Mais do que ameaçá-la, eles podem lhe tirar votos, favorecendo o ex-marido de Bigelow

Primeira indicação

O underdog


Ele fez carreira como produtor de filmes independentes. Contudo, após ler o romance no qual Preciosa-uma história de esperança se baseia, resolveu, ele mesmo, dirigir a adaptação. O trabalho de Daniels debutou em Sundance e, desde então, só colheu bons frutos.

Prós:
+ Hollywood adora uma história de superação. Principalmente se envolve um filme que extrapola os limites da metalinguagem, como é o caso de Preciosa e como era o caso do vencedor do ano passado Quem quer ser um milionário?
+ Pode-se beneficiar do amor que a classe artística vem declarando ao filme
+ Lee Daniels é apenas o terceiro diretor negro indicado ao Oscar. Na disputa entre a mulher e o negro pela presidência dos EUA, o negro venceu. Yes we can?

Contras:
- É relativamente inexperiente e o filme, muito independente, ostenta seis indicações. Sua inclusão entre os diretores, tendo batido gente como Clint Eastwood, Rob Mashall, e Joel e Ethan Coen, em si, já constitui uma vitória
- É o único dos cinco que ainda não ganhou nada
- Seu filme não é o independente da vez. Esse posto pertence a Guerra ao terror. Então ele é duas vezes underdog nessa disputa

Primeira indicação

O hypado


Jason Reitman têm um futuro brilhante como cineasta. Seus Três filmes e toda a atenção que receberam da critica, do público e do Oscar mostram isso. O filho do diretor e ator Ivan Reitman superou papai no oficio. E já engatou, na casa dos 30 anos, sua segunda indicação ao Oscar. Ele pode não ter dirigido Avatar, mas seu futuro é azul.

Prós:
+ Seu filme é muito badalado pela critica
+ Sua forma de dirigir é clássica e facilita a identificação. Diretores com esse perfil tendem a ser reconhecidos pela academia. Exemplos recentes foram Clint Eastwood e Ron Howard.
+ É cria de Hollywood e isso significa muito em termos de empatia

Contras:
- Justamente pelo fato de que tem um futuro promissor deve prevalecer a percepção de que é melhor esperar para premiá-lo.
- Não ganhou nenhum prêmio por direção na temporada
- Como essa é sua segunda indicação ao Oscar em três anos, e ainda é bastante novo, a velha guarda da academia pode entender que isso já é reconhecimento demais
- Como também concorre por roteiro, e seu roteiro é ótimo, suas chances aqui diminuem. Na onda da pulverização de prêmios, pode-se preferir premiar aqui um diretor e não um diretor/roteirista
- Não é o melhor trabalho de direção do ano e todo mundo sabe disso

Indicações anteriores: Melhor diretor por Juno em 2008



O boa praça


Quem não gosta de Tarantino? Muita gente. Mas aqueles que gostam do excêntrico diretor estão em maior número. E em Bastardos inglórios ele realiza seu melhor trabalho como diretor. Equilibra as arestas de seu roteiro (genial, mas um tanto pernóstico), dirige os atores com sobriedade e desenvoltura e capricha nas referências. O diretor finalmente conteve o cinéfilo.

Prós:
+ Existe um lobby imenso pela vitória de Tarantino nessa categoria (ele já venceu por roteiro antes com Pulp Fiction)
+ É o melhor trabalho de direção dentre os cinco indicados e isso deve contar para alguma coisa
+ Pode-se beneficiar de uma divisão de votos entre James Cameron e Kathryn Bigelow

Contras:
- Costumava execrar o Oscar em premiações distintas desde Cannes até o Scream awards, isso não é facilmente deixado para trás
- O lobby por ele é grande, mas o pela vitória de Kathryn é maior
- O favoritismo na disputa por roteiro pode, mais uma vez, privar Tarantino de levar o Oscar de direção
Indicações anteriores: Melhor direção e melhor roteiro original por Pulp Fiction - tempos de violência em 1995
Vitórias anteriores: Melhor roteiro original por Pulp Fiction - tempos de violência em 1995