quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Crítica - O mordomo da Casa Branca

Revisão histórica oxigenada pela emoção

Lee Daniels tem uma agenda e ela naturalmente, por ser ele negro e homossexual, tem concentrações temáticas relacionadas a minorias. No caso de O mordomo da Casa Branca (Lee Daniels´The Butler, EUA 2013) essa agenda surge mais sofisticada pelo espelho que enseja dos bastidores da política americana pelo olhar de um homem, cujos direitos básicos ainda lhe eram negados. O drama, desde já apontado como uma das forças do próximo Oscar, inspirado em uma história real, narra a trajetória do fictício Cecil Gaines (Forest Whitaker em performance impressionante), que foi mordomo na Casa Branca por cerca de 30 anos e serviu a sete presidentes diferentes.
O assassinato de Kennedy, a renúncia de Nixon e a pompa de Nancy Reagan (em ponta bem sacada de Jane Fonda) se diminuem ante aquele que é o maior interesse de Daniels: discutir a evolução da luta pelos direitos civis no país que foi uma das maiores vítimas da segregação racial no ocidente.  E a forma como Daniels trabalha esse olhar não poderia ser mais sedutora. E emocional. Enquanto Cecil se ajusta como um “negro doméstico”, seu filho mais velho Louis (David Oyelowo) se insurge contra esse sistema opressor. Primeiro como discípulo de Martin Luther King, depois como membro do Panteras negras. A divergência de posicionamento político entre pai e filho, e a forma como essa divergência afeta a relação deles, é um dos pontos altos do filme e da direção de Daniels.
Um adendo ao trabalho de Oyelowo precisa ser feito. Integrante de um numeroso e estrelado elenco ele brilha com o papel mais suculento, é verdade, mas também o mais difícil e exigente de todos. Com sutileza preenche de sentido e reflexão um personagem justificadamente agressivo. A diferença entre o tom de sua interpretação e o tom de seu personagem tornam seu trabalho muito mais vistoso e digno de elogios.

Whitaker e Oyelowo em ação: registros distintos, mas igualmente eficientes

O mordomo da Casa Branca, naturalmente, carrega sua dose de panfletarismo inerente aos filmes que cumprem certa agenda social. Mas Daniels consegue abrandar esse viés fiando-se em uma história rica em muitos aspectos. Como demonstra esse subtexto da relação entre o pai e seu filho. Há uma preocupação em posicionar historicamente o debate pelos direitos civis e, nesse sentido, a cena em que Cecil e sua esposa (interpretada com esmero por Oprah Winfrey) recebem Louis e sua namorada, recém-ingressos no grupo Panteras Negras, para jantar, é eloquente. Na cena discutem o significado de Sidney Poitier, o primeiro negro a ganhar um Oscar e para muitos a abrir as portas do cinema para os que vieram depois dele, para a causa. A cena é emblemática de uma polarização que resiste até mesmo nos dias de hoje e que se galvanizou, por exemplo, quando do lançamento de Django livreem que Spike Lee insurgiu-se contra o filme pelo uso caricato do termo “nigger”.
Nesse contexto, O mordomo da Casa Branca adquire inegável valor histórico, potencializado por registrar o fascínio, e a cota de esperança construída durante todo o decorrer do filme, com a eleição de Barack Obama para a presidência dos EUA em 2008.

Em última análise, eis um filme que se beneficia como ninguém do slogan ensejado pela vitoriosa campanha obamista.

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