terça-feira, 20 de março de 2012

Questões cinematográficas - Meryl Streep e as atrizes que domam o tempo


Depois da conquista do terceiro Oscar parece pertinente falar de Meryl Streep, atriz que favorece diversificados enfoques sobre a arte da interpretação. Considerada por muitos a melhor atriz da história, Streep, aos  62 anos, evidencia um fato até então tomado como raro no cinema: o poder das atrizes veteranas. Há não muito tempo atrás, Nicole Kidman queixou-se, e outras atrizes de mediano talento aventaram lamentos similares, de que Hollywood era ingrato com atrizes acima dos 40 anos. Halle Berry, que ganhou um Oscar com 35 anos, bradou que à medida que uma atriz se aproxima dos 40 anos, mais raros os papéis ficam. Glenn Close, certa vez, fez um diagnóstico mais encorpado. Disse que são melhores os papéis escritos para os homens e que são raros os papéis pensados para atrizes veteranas. Esse “desabafo” ocorreu à época que a atriz debutou em uma série de TV regular (a elogiada Damages). Para Glenn, a tv nadava na contramão do cinema e estaria sendo muito mais generosa com as atrizes veteranas nesse começo de século XXI.

O que Meryl Streep, e a própria Glenn Close, demonstra é que este raciocínio precisa urgentemente ser relativizado. Sim, Hollywood privilegia os atores e propõe papéis masculinos mais intrigantes, desafiadores e envolventes do que o faz para suas atrizes, mas este é um fenômeno, além de perene, concomitante com a oferta de talentos na faixa etária de atores e não é algo que aconteça apenas no cinema americano. Fernanda Montenegro, por exemplo, em suas últimas incursões no cinema não foi agraciada com papéis relevantes dramaticamente. Catherine Deneuve e Isabelle Adjani, musas francesas de outrora, há muito digladiam por alguma relevância artística descolada da nostalgia de suas aparições passadas.
Veteranos em alta: Streep e Christopher Plummer, ambos
vencedores do Oscar em 2012, se cumprimentam 
Meryl Streep, no entanto, reclama para si a vanguarda. Enquanto gente como Nicole Kidman, Meg Ryan e Sandra Bullock se comiseram pela escassez de bom material para atrizes em sua faixa-etária, Meryl Streep não advoga a causa. É inegável que a atriz vive nessa etapa da carreira, seu melhor momento. Nos últimos dez anos, foram cinco indicações ao Oscar e 18 filmes, nos mais variados gêneros, em que foi protagonista de mais da metade deles. Mais impressionante ainda é o fato de que muitos deles se tornaram sucessos de bilheteria indiscutíveis (casos de Simplesmente complicado, Julie & Julia, Mamma mia e O diabo veste Prada) superando os U$ 100 milhões nas bilheterias americanas.
Meryl Streep já goza de unanimidade crítica há algum tempo, mas se descobriu rainha do box Office depois dos 50 anos. Essa condição se deveria mais ao carisma da atriz ou a oferta de bons papéis no mercado? Excelência rima com excelência e Nancy Meyers, roteirista e diretora de Simplesmente complicado, sabia exatamente o perfil de atriz que queria para viver uma mulher que se reinventa na fase madura da vida. Meyers sempre cria personagens femininas fortes para seus filmes e suas heroínas são defendidas por atrizes de talento indiscutível (Kate Winslet, Diane Keaton e Meryl Streep).
Uma rápida olhada na seleção das atrizes postulantes ao Oscar este ano confirma essa teoria. Glenn Close (65 anos) e Viola Davis (47 anos), que competiram com Streep pelo Oscar, já estão na fase veterana da vida e vivem momentos dourados da carreira. Close, por exemplo, foi indicada duplamente ao prêmio do sindicato dos atores em 2012 – por Damages e pelo filme Albert Nobbs. Outras atrizes veteranas estavam bem cotadas para o Oscar, como, por exemplo, Tilda Swinton (51 anos) que é outra a colecionar papéis vistosos no cinema. Quando falta algo que lhe instigue no cinema americano ela participa de projetos europeus; estratégia recentemente utilizada e que fez com que Um sonho de amor, produção italiana recebesse mais destaque na imprensa internacional. A inglesa Kristin Scott Thomas (52 anos) faz uso do mesmo expediente e bate cartão em produções francesas, italianas e inglesas.

Tilda Swinton, Robin Wright e Kristin Scott Thomas: atrizes que buscam desafios no cinema independente ou europeu e mantêm-se artisticamente relevantes


O cinema independente ou a colaboração com cineastas expressivos são estratégias igualmente certeiras que outras atrizes como Helen Mirren (66 anos), Ellen Burtsyn (79 anos) e Robin Wright (48 anos) lançam mão.
São atrizes que optam por exercer o controle de suas carreiras da maneira mais ativa possível e não se resignam com os rumos de uma indústria voltada para o lucro e para um público cada vez mais jovem.
Meryl Streep, neste contexto, é mais do que um expoente. É uma religião.  

segunda-feira, 19 de março de 2012

Crítica - Shame

Orgasmo infeliz

Shame (Ingl 2011) apresenta dois personagens auto-destrutivos. Brandon (Michael Fassbender) é um executivo nova-iorquino bem sucedido e viciado em sexo. Sua rotina dedicada exclusivamente à luxúria carnal é interrompida pela chegada da irmã Sissy (Carey Mulligan) que apresenta um outro tipo de promiscuidade que está diretamente relacionada à dependência afetiva e emocional que ela sinaliza. O interessante é que esses personagens, ainda que tenham dificuldade em tomar ciência dos próprios demônios, diagnosticam o outro com alguma desenvoltura.
Steve McQueen realiza um filme com tantos predicados que diagnósticos parecem supérfluos em uma fita que busca, primeiro, salientar as possibilidades nauseantes do excesso de liberdade e, segundo, mas inerente a este contexto, tratar o sexo como vício e compulsão com um enfoque que jamais lhe foi dado.
Brandon é um homem bem sucedido, mas incapaz de se conectar. Aparentemente à vontade com essa condição pós-moderna, e a ambientação em Nova Iorque ganha sentido estupendo nesse aspecto, à medida que o filme avança Brandon vai ganhando consciência de que é prisioneiro de sua liberdade.
McQueen é muito feliz no registro que faz do vício de Brandon. O diretor “deserotiza” sua mise-en-scène e busca dar vivacidade à “fome” de Brandon ao flagrar pedaços de corpos e transformar as cenas de sexo em movimentos mecanizados e sem muita graça. A fotografia saturada, por vezes escura, também inibe alguma sensualidade que pudesse erigir.
Engana-se, porém, quem pensa que McQueen cede ao moralismo. Ele desvia-se teimosamente dele. A cena final, inclusive, demonstra isso. Depois de percorrer um doloroso pathos, Brandon é confrontado novamente com a “droga” que tanto lhe consome e somos negados a qualquer indicação de como reagirá após sua recém-adquirida consciência do mal que lhe acomete.

Brandon, vivido soberbamente por Michael Fassbender, em raro momento de vulnerabilidade em Shame


Antes desse final, testemunhamos Brandon ter uma “overdose”. Sua necessidade pelo orgasmo é tanta que ele até mesmo cede à experimentação homossexual em um clube gay, flerta perigosamente com a namorada de um valentão e faz sexo com duas profissionais. O momento em que atinge o gozo é, também, aquele em que se evidencia o suplício de sua existência. A face de Fassbender se transfigura na imagem da tristeza de tal forma que é impossível não se sentir atordoado com tamanha angústia.
Shame é um filme que depende muito de seus atores. Como se constrói sobre aquilo que eles podem sugerir, através de sentimentos retidos, e mostrar, através de corpos expostos, a força do filme reside na capacidade de seus protagonistas em articular personagens tão desarticulados.
Desse ponto de vista, a nudez de Fassbander, ator que se permite ser contemplado até mesmo urinando, é providencial para o sentido que Shame objetiva construir. O mesmo pode se dizer da primeira vez que Carey Mulligan surge em cena, nua. Era necessário para pavimentar a natureza da relação conturbada e de intimidade fragmentada entre Brandon e sua irmã.
McQueen é hábil ao expor seu protagonista, o que para alguns pode ser tomado como fetiche. Desde sua ansiedade inescrupulosa – que pode ser vista no olhar penetrante que dispensa à paqueras em geral - ou na falta de tato com uma mulher que inadvertidamente lhe desperta algum interesse; e como essa inadequação afetará sua virilidade, para que depois ele a recupere em mais um desmando de sexo sem intimidade, pelo orgasmo puro e simples.
É inegável que Michael Fassbender, mais do que o sustentáculo de Shame, é sua alma. Ator incrivelmente charmoso e sensual, ele precisa dar vida a um homem não muito charmoso – ainda que se vista maravilhosamente bem – e que exiba fragilidade e virilidade em sintonia perceptível. Só não é um desafio maior do que dar viço ao caos emocional de Brandon ou despir-se por completo em frente a câmeras curiosas de sua intimidade física.
É, enfim, um trabalho robusto que destaca-se pela ousadia, coragem e capacidade de prospecção.
Shame, em última instância, é um filme que busca provocar no público uma reflexão mais ampla do que a mera discussão em torno de como o sexo é percebido moral e socialmente em nosso tempo. Justamente por isso, o filme se nega a desvendar o passado potencialmente traumático dos dois personagens centrais e teorizar sobre seus efeitos no presente deles. Essa ruptura com o modus operandi vigente na dramaturgia em geral, demonstra que McQueen está plenamente consciente dos efeitos de seu filme. Passa por essa condição, a opção de não oferecer a sua audiência um desfecho convencional.

domingo, 18 de março de 2012

Insight

O jeito Denzel de fazer as coisas

Já há algum tempo Denzel Washington adentrou àquela galeria de atores consagrados que vivem decalques de si mesmos nos filmes. Jack Nicholson, Robert De Niro e Al Pacino constituem a trinca mais reconhecível desses honoráveis intérpretes. Acontece que, diferentemente desses atores, Washington faz questão de deixar tudo muito claro para um público que o segue sem amarras e enxerga no gênero de ação uma plataforma cômoda para exercer essa estratégia. Muitos astros dos anos 80 e 90 decidiram não se reinventar nos anos 00. A opção é reforçada por um viés caricatural inerente às escolhas da maioria deles. Além de Washington, outro vencedor do Oscar cada vez mais frequente no mesmo papel é Nicolas Cage. Mel Gibson, John Travolta e Bruce Willis – em escalas diferentes – seguiram o mesmo raciocínio. O que, porém, diferencia Washington de todos esses é a qualidade que o ator imprime em suas caracterizações.  Não há um filme sequer em que Washington esteja mal. Ainda que interprete variações de sua persona na tela. O diretor Carl Franklin, que já o dirigiu duas vezes, disse que seu Por um triz (2002) – que marcou a segunda colaboração entre ambos - seria um filme convencional não fosse por Washington. “É tudo ele", disse à época, revelando que foi o ator quem dimensionou dramaticamente tanto seu personagem quanto os conflitos propostos na trama. Tony Scott, por sua vez, diz preferir trabalhar com Washington (já foram cinco trabalhos) porque “todo o processo é muito dinâmico e Denzel sabe exatamente como eu penso. Não há ninguém melhor do que ele nesse ramo”.
Washington sempre significou confiabilidade, mesmo quando muito pouco é esperado. Caso de filmes como Incontrolável (2010), O livro de Eli (2010), ou do recente Protegendo o inimigo – desde sexta-feira em cartaz no país.

Denzel em cena de Por um triz, thriller que melhora muito em virtude de sua presença... 

... e no novo Protegendo o inimigo, em que mede forças com Ryan Reynolds em um filme de espionagem


No início da carreira, o ator estava mais interessado no ativismo racial – o discurso dele ainda é pautado por essa agenda – mas suas escolhas como ator já se desvencilharam dela. Filmes como Malcom X (1992) e Um grito de liberdade (1988) não parecem mais pertinentes à fase da carreira que vive o ator. Depois de conquistar dois Oscars – o único negro a ostentar tal façanha – ele tem dito que está interessado em fazer comédias. Seria um desafio. O gênero está mesmo omisso na filmografia de Washington. Denzel parece querer fustigar os teóricos de que ele é bom lendo até mesmo lista telefônica.

Musas Claquete - Natalie Portman



Por que votar em Natalie?
É linda
Venceu um Oscar
Como foi atriz mirim, cresceu em frente aos nossos olhos
É pop e também é cult


Principais filmes:
O profissional (1994)
Todos dizem eu te amo (1996)
Star Wars: episódio I – ameaça fantasma (1999)
Cold Mountain (2003)
Closer-perto demais (2004)
Free zone (2005)
V de vingança (2005)
Um beijo roubado (2007)
A outra (2008)
Cisne negro (2010)
Sexo sem compromisso (2011)

Natalie mexe com Clive na cena mais explosiva de Closer-perto demais

Personagem icônica:
Nina em Cisne negro
Momento mais sexy:
O strip-tease de Closer
Fãs declarados: 
Jude Law, Clive Owen, Julia Roberts, Marion Cottilard, George Clooney, Darren Aronofsky, Scarlett Johansson, Anette Benning, Amos Gitai, Colin Firth, Robert De Niro, Jean Reno, David Letterman, Tobey Maguire, Jake Gynllenhaal e Robert Pattinson.

Ela em uma frase:
“Eu basicamente tenho um corpo de menino”

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A votação está em vigor e segue até o dia 30/03/2012. Não é o BBB, mas vote quantas vezes quiser! Acompanhe atualizações a respeito da votação para Musa do blog na fan page de Claquete no Facebook.

sábado, 17 de março de 2012

Cantinho do DVD

O destaque da seção Cantinho do DVD desta semana é um filme de gangster um tanto anticlimático. O pior dos pecados quer ser, também, filme de arte. Mas o diretor Rowan Joffé não é Martin Scorsese ou Brian De Palma e isso fica bem claro conforme a trama protagonizada pelo ascendente Sam Riley - que em breve será visto em On the road de Walter Salles - avança. Leia a crítica a seguir:




Crítica
Os filmes de gangster, na demasia com que são produzidos, envolvem uma gramática cinematográfica muito particular. São produções que falam sobre inadequação, ambição, impossibilidades e outras questões humanas que se cristalizam em metáforas tão bem acampadas por cineastas como Martin Scorsese, John Huston, Francis Ford Coppola, Sidney Lumet e Brian de Palma. Rowan Joffé, filho do cineasta Roland Joffé não é um desses cineastas. Por mais que O pior dos pecados (Brighton Rock, ING/EUA 2010) tenha fonte fidedigna, o romance de Graham Greene, não consegue se materializar em uma obra pulsante e convicta – ainda que tenha seus momentos. A impressão que fica é que Joffé até é um roteirista talentoso, é dele o texto do primoroso Um homem misterioso, mas ainda se mostra um diretor oscilante. O que não deixa de ser natural, já que O pior dos pecados ainda é seu segundo longa-metragem.
Joffé busca amparar-se na atmosfera setentista do cinema americano. Dos planos às falas dos personagens, a despeito da trama ser ambientada nos anos 60, percebe-se que o diretor constrói seu filme em referências nem sempre bem fundamentadas visualmente ou dramaticamente.  
Pinkie (Sam Riley) é um gangster que tenta subir na vida depois da morte do líder do grupo. Mas a influência de seu grupo na cidade está cada vez menor e Pinkie ainda precisa administrar uma testemunha que o viu matar um homem. Não fica muito bem estipulado o por que Pinkie se envolve com a garçonete Rosie (Andrea Riseborough). Já que matar vai se tornando algo cada vez mais banal para ele. Joffé não consegue convencer seu espectador do thriller que realiza. Ainda que a trama ganhe fôlego com sutilezas impensadas no terceiro ato, O pior dos pecados se mostra um filme bem irregular, com atores pouco convincentes (Sam Riley, em particular, é uma decepção) e com uma proposição mal ajambrada. Não funciona como thriller, como filme de gangster e muito menos como drama. Rosie, no entanto, é uma personagem bem construída. É sua jornada de abnegação que vale ser observada no filme. E qualquer menção positiva a O pior dos pecados (que conta com uma divertida ponta de Andy Serkis) se deve a essa personagem.

Crítica - Motoqueiro fantasma: espírito de vingança

Para o atoleiro e sem freio!

Quando um filme é classificado por seus realizadores como uma espécie de sequência ou refilmagem do original, desconfie! O que Mark Neveldine e Brian Taylor, responsáveis por fitas bacaninhas (desde que temperadas com a boa vontade do espectador) como Adrenalina e Gamer, fazem com essa “continuação de mentirinha” de Motoqueiro fantasma (fracasso homérico de público de 2007) não é uma coisa nem outra. É algo bem menos passível de adjetivação.
A favor do primeiro filme, solenemente ignorado nessa “sequência”, estavam Peter Fonda tirando onda de capeta, Eva Mendes como a “Maria motoca” de Cage e uma expectativa positiva em relação aos prospectos do filme. Depois do fracasso era compreensível que a saga demoníaca de Johnny Blaze fosse aposentada terminantemente nos cinemas. Mas eis que surge esse Espírito de vingança com uma pegada mais dark, segundo Cage revelou em entrevistas promocionais. Fica na bravata. O filme é chato. Não há cenas de ação cativantes, o 3D não diz a que veio (além de amealhar uns trocados a mais nas bilheterias) e Nicolas Cage parece mais “embotoxado” do que nunca.
A trama é bem óbvia. Uma irmandade de monges precisa reaver o filho do Diabo e um desses monges (um beberrão com jeito para armas vivido por Idris Elba) vê na figura de Blaze – ainda em conflito com seu demônio interior – a pessoa certa para o trabalho.
Os efeitos especiais até que não fazem vergonha, mas mereciam um filme com desenvolvimento melhor. Até Christopher Lambert, outro ressuscitado, surge como um monge com cacoetes de ninja. Acreditem: se um terceiro motoqueiro fantasma vier a acontecer, é porque Hollywood terá aceitado seu destino cruel.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Filme em destaque - Shame

Quebrando alguns tabus
 Michael Fassbender vive um homem viciado em sexo no segundo longa-metragem de Steve McQueen e entrega a atuação mais elogiada de sua promissora carreira. Mas Shame, além de oferecer o ator em pêlo, tem outros objetivos e Claquete os apresenta


Rodou Hollywood nos idos de janeiro e fevereiro a ‘pratical joke’ de que Michael Fassbender ficou de fora dos finalistas da disputa pelo Oscar de melhor ator em virtude do tamanho de seu pênis, que aparece em Shame – filme no qual interpreta um executivo viciado em sexo e com sérios problemas de relacionamento. O diretor Steve McQueen, em entrevista a um programa de tv americano, ofereceu uma análise menos brincalhona e mais incendiária: “Michael não foi indicado porque os americanos temem o sexo”. Ele não disse que há hipocrisia. Não falou em moralismo e nem em puritanismo. Falou em medo mesmo.
Shame acompanha um homem que não consegue desenvolver nenhum tipo de relação em sua vida que não tenha como meta sexo. “Mas não é um filme sobre prazer sexual”, acrescentou Michael Fassbender em entrevista à revista Total Film. “É um filme sobre nosso tempo”, defendeu o New York Times à época da premiere do filme no festival de Veneza 2011, de onde saiu com o Leão de ouro de ator para Fassbender.
McQueen, que além de cineasta é artista plástico, disse em Veneza que Shame é um filme tão político quanto seu elogiado drama de estreia (Hunger) – também estrelado por Michael Fassbender. “Aquele era sobre uma prisão na Irlanda do Norte, esse é sobre como a liberdade de alguém pode aprisioná-lo e ele precisa de um vício para atenuar uma dor”.
O crítico de cinema Pablo Villaça desenvolve raciocínio intercambiável com a explanação de McQueen: “se a expressão ‘viciado em sexo’ parece estranha, já que normalmente não pensamos em dependência quando lidamos com algo que soa tão natural e prazeroso, é porque muitas vezes nos esquecemos de que esta é precisamente a natureza do vício: transformar o prazer em obsessão”. Para o principal crítico do portal Cinema em Cena, Shame é um filme muito bem urdido por seu diretor que apresenta um personagem “que parece experimentar um misto de dor e tristeza ao buscar mais um orgasmo”.
McQueen orienta Carey Mulligan e Fassbender: a atriz
disse, em uma conflituosa descrição, que o diretor foi
"cruel" e "generoso" com ela

Shame é um minucioso retrato de nosso tempo”, estipulou o jornal San Francisco Chronicle em sua resenha do filme. A busca por uma conexão real, de fato, parece estar em pauta no cinema. De filmes como Drive até Os descendentes, a questão é colocada em camadas e tonalidades diversas, mas o que Shame propõe é uma reflexão muito mais profunda e interiorizada.
Há muito sexo em Shame, mas McQueen optou por não erotizar as imagens. “Brandon (Fassbender) não é um mulherengo”, argumenta o diretor. “Seria uma forma de distrair o público do foco do filme”. McQueen acrescenta que escolheu a cidade de Nova Iorque como cenário do filme (Shame, vale lembrar, é uma produção britânica) por ser a big apple a capital do mundo. “Além do fato de todo mundo ser um pouco solitário em Nova Iorque”, apontou em entrevista à GQ americana, deixando transparecer que Shame também fala sobre solidão. “São novas compulsões as que a internet estabeleceu”, filosofou em Veneza.
Sexo, vício, política, solidão, internet... Shame reúne muitos tabus sob seu jugo. Quebrá-los todos de uma vez, como teorizou McQueen ao comentar a esnobada de Fassbender pela academia, é um desafio inquebrantável. 

Musas Claquete - Penelope Cruz




Por que votar em Penélope?
É a principal atriz européia da atualidade
É musa de Almodóvar
Ficou ainda mais linda depois da maternidade
Dona de sotaque latino irresistível
Já venceu o Oscar

Principais filmes:
Carne trêmula (1997)
Tudo sobre minha mãe (1999)
Não se mova (2004)
Volver (2006)
Fatal (2008)
Vicky Cristina Barcelona (2008)
Abraços partidos (2009)
Nine (2009)

 Do you have a light? Penelope em seu momento...


Personagem icônica:
María Elena em Vicky Cristina Barcelona
Momento mais sexy:
Cantando toda sensual no musical Nine
Fãs declarados: 
Antonio Banderas, Pedro Almodóvar, Alec Baldwin, Johnny Depp, Woody Allen, Rob Marshall, Scarlett Johansson, Salma Hayek, Matt Damon, Gwyneth Paltow e Jennifer Lopez


Ela em uma frase:

“A coisa mais difícil do mundo é começar uma carreira sendo conhecida por sua aparência e tentar se transformar em uma atriz séria. Ninguém te leva a sério quando você é uma atriz bonita.”


* A votação será iniciada após a apresentação de todas as candidatas

terça-feira, 13 de março de 2012

Causos de cinema - Coisa de fã

O que Joana mais gostava nos filmes eram suas frases de efeito. Mais precisamente aquelas que revelavam algum entusiasmo romântico que só o cinema é capaz de mensurar. De “Nós sempre teremos Paris” (Casablanca) até “Você me faz querer ser um homem melhor” (Melhor é impossível), Joana anotou todas aquelas que considera “frases memoráveis” em um caderninho surrado que serviu de base para o perfil no twitter que criou: frases de cinema.
Mas Joana tem um fraco pelas frases que saem da boca do ator britânico Colin Firth. Tudo começou com O diário de Bridget Jones, aquele filme baseado em um livro que tão bem acampava os dilemas das balzaquianas de todo o planeta. Colin Firth, naquele filme, fazia uma versão moderna e muito bem adornada do ideal de príncipe encantando. O personagem, na verdade, é homônimo de outro que Firth viveu na minissérie adaptada de Jane Austen, Orgulho & Preconceito.
Existe uma cena em O diário de Bridget Jones que faz Joana parar no tempo. É mais ou menos na metade do filme. Bridget, vivida por aquela atriz americana que Joana acha tão insossa, acaba de passar por um dos muitos constrangimentos que a assombram durante a metragem do filme e Mark Darcy (quem poderia ser?) vai até ela e, de maneira muito desarticulada como o próprio sublinha, diz que gosta dela exatamente do jeito que ela é. Se aquilo era música para os ouvidos de Bridget Joana não sabia dizer, mas era um festival de rock para os ouvidos dela.
Desde que viu o filme, Joana passou a sonhar que era ela a beneficiária de tamanha declaração de afeto. O tempo foi passando e aquele sonho com uma ou outra mudança de enredo começou a preocupar Joana. Em alguns sonhos ela perdia Colin Firth para a Meryl Streep e depois descobria que Firth, na verdade, era gay (!). Em outro sonho, Firth era gago e não conseguia fazer a declaração do jeito que uma declaração deve ser feita em um sonho. Em um outro, Firth aprendia a falar português apenas para fazer a tal declaração na língua que se fala de Joana. Firth, Firth, Firth... aquilo já estava ficando opressivo!
Joana, aconselhada por amigas preocupadas com essa estranha obsessão, foi procurar um psiquiatra. Havia de ter algum ansiolítico para abrandar tamanha adoração. Qual a surpresa de Joana quando adentrou ao consultório do Doutor Marcelo e constatou que este era uma versão brasileira do Colin Firth, mais ou menos na mesma proporção que Dan Stulbach é o Tom Hanks do Brasil. Não teve dúvidas! Beijou o doutor ali mesmo. O que se tem notícia é que os sonhos com Colin Firth rarearam.  

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* Causos de cinema é um conto ficcional de periodicidade mensal aqui em Claquete. Gostou? Opine! Dê sugestões na seção de comentários.