Mostrando postagens com marcador Azul é a cor mais quente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Azul é a cor mais quente. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de abril de 2014

O beijo no cinema

O beijo entre Burt Lancaster e Deborah Kerr em A um passo da eternidade (1953) é considerado um dos melhores da história do cinema

Neste domingo, 13 de abril, é comemorado o dia do beijo e beijo de cinema é aquele que merece ser comemorado. O beijo de tesão, o beijo de arrependimento, o beijo de saudade, o beijo de felicidade, o beijo apaixonado e o beijo desastrado, entre outros, figuram entres tantos beijos históricos imortalizados nas telas de cinema. Mas é justamente o beijo de cinema o que perseguimos do lado de cá das telas.
Essa aura em cima do beijo no cinema tem muito a ver com um ideal romântico que Hollywood vende como ninguém. Nas comédias românticas, o embotamento das relações amorosas cristaliza-se naquele beijo ansiado entre o mocinho e a mocinha. Mas há beijos de tirar o fôlego fora do gênero, como atesta a seleção feita por Claquete com filmes de diferentes gêneros e épocas.
O beijo no cinema é, ainda, expressão de um contentamento que palavras não conseguem tangir. Como o beijo de despedida em Ghost – do outro lado da vida (1990). É, também, mimetização de mudanças intrínsecas a personagens ou prerrogativas de um sedutor.
O beijo no cinema é frequentemente catártico, principalmente em dramas como O segredo de Brokeback Mountain (2005). É instrumento de erotização tenra, como em Azul é a cor mais quente (2013), ou manifestação de máxima intimidade, como em Uma linda mulher (1990).

O beijo no cinema pode ser espetacular, como em O Diário de uma paixão (2004), sob chuva com trilha comovente, ou pueril e genuinamente comovente como em Meu primeiro amor (1991).

Um beijo transcendental e muito comemorado no cinema entre Demi Moore e Patrick Swayze que encerra Ghost - do outro lado da vida  

A cena mais famosa da trilogia original de Homem-aranha é uma cena de beijo muito bem planejada e que, na medida do possível, foi muito repetida por casais mundo afora...

Em Encontro marcado, Brad Pitt é a morte e descobre que o sabor de um beijo apaixonado é infinitamente melhor do que pasta de amendoim...  

Ryan Gosling e Rachel McAdams alvoroçam multidões com o beijo mais cinematográfico entre os beijos cinematográficos no meloso O diário de uma paixão  

 Em Meu primeiro amor, o beijo como expressão de algo ainda não muito bem elaborado...

Harry também beija: Em Harry Potter e a ordem da fênix, Harry Potter deixa dos tempos de BV para trás e se aparta da fase menino...



O evitado, mas catártico beijo em O segredo de brokeback Mountain
 O primeiro beijo, ansiado e tateado, em Azul é a cor mais quente
 E a melhor cena de beijo da história do cinema no crivo do editor de Claquete

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013 - Os dez melhores filmes do ano

Claquete se despede de 2013, e deseja aos leitores um feliz ano novo de muitas realizações, conquistas e cinema, com a lista das listas: os dez melhores filmes lançados comercialmente em 2013 no Brasil. Foi um ano com algumas surpresas, outras tantas decepções e algumas certezas. Como reflexo disso, a presente lista não apresenta nenhum blockbuster, ainda que preserve maioria de títulos americanos. Há, sim, cineastas da mais fina estirpe. Paul Thomas Anderson, Woody Allen, François Ozon e William Friedkin marcam presença na lista. Diretores irregulares como Abdellatif Kechiche, Thomas Vinterberg e Ron Howard também. 
O cinema argentino perde sua cota informal na lista, mas o cinema latino-americano não. O mexicano Depois de Lúcia se impõe na lista com autoridade ímpar. Ímpar também é o cinema francês que viveu um ano próspero em nossas telas de cinema e como reflexo disso registra duas inclusões na lista de Claquete dos dez melhores filmes do ano. O pungente A caça, da Dinamarca, é outro europeu a figurar no ranking. 
Um aspecto que revela que 2013 não foi a maravilha em matéria de cinema que todos cremos é que apenas quatro filmes produzidos no ano conseguiram entrar na lista. Há cinco de 2012 e um de 2011. O que poderia ser preocupante, na verdade não é, como demonstra a lista dos dez filmes que quase entraram no TOP 10 do ano e que consta da postagem anterior. Lá há maioria de produções de 2013. De qualquer jeito, é um detalhe que não poderia passar despercebido. Assim como a ausência brasileira da lista. No ano passado, O palhaço representou o país no ranking do blog. 
Sem mais delongas, um feliz 2014, de muito cinema e que Claquete continue sendo o repouso cinéfilo de sua preferência. 

10 - Azul é a cor mais quente (La vie d´Adèle, 1 & 2, França 2013), de Abdellatif Kechiche

O premiado e comentado filme francês é daquelas experiências que o cinema vez ou outra oferta. Um filme que é um elaborado estudo de personagem, delicada história de amor e, ainda, narrativa cinematográfica absoluta em sua inteireza estética e compromisso narrativo. Não é um filme à prova de erros, mas é do tipo que oxigena o típico cinema de arte sem a opulência dos tiques autorais, mas privilegiando a simplicidade do relato. Kechiche filma com convicção até mesmo a insegurança de Adèle, a protagonista mais deslumbrante de 2013, diante do mundo. Azul é a cor mais quente é significativo, ainda, por perseguir uma verdade desconhecida, ainda que cercada por conjecturas a todo o momento. Quem somos nós, o que nos define, no final do dia?

9 – Capitão Phillips (Captain Phillips, EUA 2013), de Paul Greengrass

Paul Greengrass assume nesse filme de tensão ininterrupta algo que já sabemos, mas que sempre nos impressionamos quando essa verdade é esfregada em nossa cara. A realidade sempre supera a ficção; e Capitão Phillips é um esforço bem azeitado da ficção de equiparar-se com a realidade. A recriação do sequestro do Capitão Phillips e de sua embarquação por piratas somalis em 2009 é um ás da realização. Do ponto de vista do roteiro, de Billy Ray, da atuação, de Tom Hanks e dos outros atores menos famosos, mas igualmente certeiros, e de direção, do assumido Paul Greengrass.

8 – Rush – no limite da emoção (Rush, EUA 2013), de Ron Howard

O melhor filme de esporte já feito. Ok, a afirmação pode ser precipitada, mas Rush – no limite da emoção captura como poucos o que move a paixão em torno dos mais variados e diversificados esportes: a rivalidade. O sentimento de competição que brota no coração dos homens e se perpetua no jogo midiático e na ganância irrefreável que surge com a boa vida. O feito de Ron Howard é supremo porque o filme é completo em tudo que precisa ser completo, da narrativa muito bem aparada às atuações irreparáveis. As cenas de corrida, muito bem editadas e fotografadas, são um deleite à parte. Até mesmo para quem não gosta de Fórmula 1.

7- Depois de Lúcia (Después de Lucía, MEX/FRA 2012), de Michel Franco

Nenhum filme desta lista fará você se sentir pior como ser humano, ou mesmo mais confuso, do que este belo drama mexicano premiado no festival de Cannes em 2012.
Depois de Lúcia une dois temas delicados e bastante explorados pelo cinema, o bullying e o luto, e os funde com aspereza, sensibilidade e total falta de parcimônia no retrato agonizante que faz de uma menina e seu pai tentando readaptarem-se à vida após a morte da mãe e esposa. Um soco no estômago. Com soco inglês.

6- A caça (The Hunt, DIN 2012), de Thomas Vinterberg

O bullying volta, de certa forma, a se manifestar no filme que ocupa distintamente a sexta posição da lista. A mentira, a imaginação fértil de uma criança, o balé das circunstâncias e a intolerância são medidas nesta nauseante crônica fílmica de Thomas Vinterberg. A caça é, inegavelmente, o melhor filme de sua carreira e é daqueles que nos deixa de queixo caído. Da perplexidade à reflexão, são poucos os filmes que nos instigam esse maremoto interno.

5 – Blue Jasmine  (EUA 2013), de Woody Allen

Woody Allen nos presenteia com um filme dolorosamente engraçado, desavergonhadamente dramático e profundamente triste na radiografia certeira que faz do choque entre duas visões de mundo encampadas em uma mesma personagem. A tragédia de Jasmine, grega, mas também americana, é um comentário sagaz e sofisticado do cineasta de grife mais regular que o cinema dispõe hoje sobre os EUA, mas também sobre um tipo muito particular da grã-finagem.

4- Killer Joe – matador de aluguel (Killer Joe, EUA 2011), de William Friedkin

Quando a insanidade encontra o banal, Killer Joe tem seu ápice climático e o espectador, a certeza de que está diante de um filme único, ousado e chocante como nem Tarantino consegue ser.
Nessa história de violência orquestrada com maestria por William Friedkin, uma família se organiza, desorganizadamente, para matar a mãe e Matthew McConaughey, surpreendente a cada take, é o homem escolhido para fazê-lo. Killer Joe é uma epopeia de loucura delirantemente engraçada, avidamente dramática e irremediavelmente boa de ver.

3- O lado bom da vida (Silver linings playbook, EUA 2012), de David O. Russell

Se a capacidade de um filme de fazer você se sentir bem consigo mesmo fosse o principal critério para a eleição do melhor filme do ano, O lado bom da vida teria liquidado a disputa lá em fevereiro. Afinidade conta, mas não pode reinar sozinha. O que coloca O lado bom da vida no pódio dos melhores filmes lançados no Brasil em 2013 é sua incrível capacidade de emocionar, divertir e sensibilizar falando muito sério. Além da perfeição com que é dirigido, pela acuidade do texto e, principalmente, pela entrega absoluta dos atores em cena. Um filme cativante, solar e muito inteligente; tanto internamente, como na comunicação com o público.

2- Dentro da casa (Dans La mansion, FRA 2012), de François Ozon

Um brinde ao poder de uma história bem contada. Esse drama sofisticado, inventivo e sempre tão surpreendente quanto cativante de François Ozon faz reverência à arte de narrar dando espaço a sentimentos humanos tão díspares como carência, inveja, desejo, manipulação, raiva, rejeição. A trama que coloca um professor intrigado pela narrativa sofisticada de um aluno insuspeito e fazendo descobertas sempre desestabilizadoras é uma realização soberana do cinema francês de 2012 que abrilhantou o 2013 dos cinéfilos brasileiros.

1-O mestre (The master, EUA 2012), de Paul Thomas Anderson

Um estudo sobre a condição humana em toda a sua complexidade, prevaricação, fascínio e senso de oportunidade. Paul Thomas Anderson não economiza na ambição ou nos sofismas que circulam a arrebatadora história sobre como o homem modifica o meio e por ele se deixa modificar. Política, religião, amor e família são construções arquetípicas falimentares no olhar apurado, clínico, mas nem um pouco taxativo de Anderson. 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013 - Dez sensações cinematográficas do ano

O cinema mobiliza emoções das mais diversas estirpes. E o ano de 2013 foi bastante ilustrativo disso em matéria de sensações proporcionadas pelo cinema. Dos instintos mais primitivos, como o medo, à nostalgia cinematográfica, passando por desorientação, raiva, desejo e outras tantas insurgências que só o cinema é capaz de fomentar com tamanha desenvoltura.


10 - O alívio do perdão
A ambição de Derek Cianfrance de fazer um épico familiar que atravessa duas gerações de duas famílias ligadas por uma tragédia encontra seu final uma insuspeita e anticlimática reviravolta. A crônica da América se completa com a perspectiva de perdão. Só assim a espiral de violência pode ser rompida, advoga Cianfrance com o tocante desfecho de se O lugar onde tudo termina.

9- A derradeira demonstração de amor de Georges por Anne
Michael Heneke fez um filme de amor duro, cruel, lento, doído e incrivelmente sensível e amoroso. Como é possível? A polêmica e derradeira demonstração de amor de Georges por Anne em Amor é daquelas coisas que só um coração altruísta e legitimamente enamorado é capaz de fazer. Um gesto incompreendido que torna os efeitos do filme de Haneke muito mais incisivos.

8 - O fim sem perdão
Foi um ano em que as músicas deram o tom do cinema nacional, mas Faroeste caboclo foi um caso à parte. Adaptado da famosa música da Legião Urbana, o filme de René Sampaio se viabiliza como um western à brasileira com inimaginável fôlego narrativo e vida própria. O desfecho trágico de João de Santo Cristo ganha contornos ainda mais memoráveis no cinema. O perdão é um luxo que o coração machucado por uma vida desgraçada não pode usufruir. Faroeste caboclo vive e transgride no cinema.

7- Frio na barriga com Pitt

Nenhum blockbuster foi tão divertido de se ver no cinema, especialmente em IMAX, em 2013 como Guerra mundial Z. Tensão, efeitos especiais arrebatadores, um formigueiro de zumbis impressionante e medão em um laboratório, em um avião ou em qualquer outro ponto de um dos longas mais bem sucedidos do ano.

6- Houston, nós não temos um problema
A pecha de melhor filme já feito sobre o espaço cai bem sobre Gravidade, um dos maiores sucessos comerciais e de crítica do ano. O filme de Alfonso Cuarón estreita as possibilidades narrativas do cinema e representa mais um avanço notável em matéria de tecnologia a serviço da sétima arte. Isso, claro, além de nos transportar para a imensidão do espaço.

5- WE  Scorsese
Martin Scorsese é uma instituição do cinema. Luc Besson sabe disso e neste seu singelo retorno à direção, cravou uma homenagem cheia de nostalgia e reverência ao cineasta ítalo-americano em A família. Além do filme ser, em si, um decalque do gênero cinematográfico que Scorsese ajudou a lapidar, tem uma cena – em que De Niro discorre sobre Os bons companheiros em um cineclube, que merece passaporte para os anais do cinema.

4- Bullying da alma e das convicções
Depois de Lúcia é o filme mais forte do ano. No sentido de provocar no espectador repulsa, desamparo, desesperança e, também, uma compreensão visceral da frivolidade da humanidade, mas também de suas complexidades. Não houve experiência tão contraditória impulsionada por opções estéticas tão acertadas quanto embrutecidas no cinema como em Depois de Lúcia. De cenas gráficas e demoradas de bullying ao devastador final em que a vingança (um tema central nesta lista) se prova a tragédia humana definitiva.

3- Tá todo mundo louco
Respirar. É isso o que você lembra de fazer depois de assistir a intensa, insana, surreal e incrivelmente perturbadora derradeira cena do mais novo petardo do diretor de O exorcista. Em Killer Joe – o matador de aluguel, toda a loucura do mundo parece concentrada em um punhado de personagens que se confrontam à espreita de um único desfecho possível. A violência vive seu ápice no filme mais bizzaramente engraçado e trágico do ano, em que uma coxinha de galinha é usada como genitália masculina na mais bizarra cena de sexo oral de todo o sempre.

2- Cú para dá e vender
É uma das cenas antológicas do ano e um dos melhores discursos sobre liberdade individual e verdadeiro valor da democracia a ter ganhado o cinema em todo o sempre. Em um dado momento de Tatuagem, o diretor da trupe teatral vivido por Irandhir Santos alinha no palco um novo número. "Ode ao cú", em que defende que o cú é a expressão máxima da democracia. O traço político do comentário se regenera no tom farsesco e no humor sem vergonha do número. Impagável!

1-O tesão é azul
De certa maneira, Azul é a cor mais quente foi o filme mais comentado do ano. Tudo por causa de uma cena de sexo lésbico, que é sim bastante explícita, ainda que não em sua totalidade. A grande sensação do filme de Kechiche, no entanto, é tornar quase palpável o desejo, o tesão, o amor que une Adèle a Emma. Isso não é mérito apenas da bem realizada, e francamente erótica, cena de sexo entre as duas.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Crítica - Azul é a cor mais quente

Em busca do arrebatamento


Há muitas histórias de amor no cinema, mas são raros os filmes que fazem dessas histórias verdadeiros desbravamentos de personagens. Esse é o principal mérito de Azul é a cor mais quente (La vie d´Adèle, 1 & 2, FRA 2013), premiado filme de Abdellatif Kechiche que causa comoção por apresentar cenas de sexo lésbico que beiram o pornográfico.
O filme é maior do que as referidas cenas, mas a opção por elas merece uma análise à parte dos objetivos do cinema autoral em tempos modernos. O que Kechiche deseja com seu filme é exteriorizar a busca por sentido próprio de Adèle (Adèle Exarchopoulos). Em suas três horas de duração, o filme acompanha de muito perto a jornada de Adèle na busca por si mesma e essa busca, obviamente, resvala na descoberta de sua sexualidade. Descoberta esta estremecida pela insurreição de um desejo fora dos padrões familiares e sociais e temperada por uma paixão avassaladora que desestabiliza Adèle tão logo ela a percebe. A energia que flui de Emma (Léa Seydoux) e tanto mexe com Adéle é muito bem capturada por Kechiche.
Essa busca por identidade é a principal linha motriz de Azul é a cor mais quente e ela promove bifurcações interessantes como a necessidade humana de controlar a vida dos outros. Esse arco ganha força tanto no desejo explícito de Emma em controlar as aspirações profissionais de Adèle como no interesse invasivo das colegas de escola de Adèle por sua vida sexual.
Outro ponto interessante deflagrado a partir da evolução da narrativa é como as relações pessoais exercem função fundamental na formação do indivíduo. Adèle se busca em Emma e quando esta  lhe falta, se desorienta e precisa aprender a sentir e a viver por si mesma. É um processo de redescoberta; do tipo que somente aqueles que vivenciam grandes histórias de amor são submetidos.
É essa busca pelo arrebatamento, no foro íntimo, mas também na cumplicidade da cama e da vida conjugal, que justifica as cenas de sexo altamente erotizadas e ousadas, concebidas para caracterizar essa sinergia carnal, premente, idílica e tesuda que afeta e une essas duas mulheres.  Sob essa perspectiva, a opção de Kechiche surte efeitos pontuais. Como recorte meramente erótico, como a extensa cobertura midiática que o filme recebe, os efeitos são mais perenes e inconclusivos.
Kechiche é um cineasta agressivo, mas que filma sua protagonista com admiração e carinho. Isso não quer dizer que a poupe de um pathos doloroso. Nesse sentido, o trabalho da atriz Adèle Exarchopoulos ganha dimensão. A despeito das diretrizes do cineasta franco-tunisiano, Exarchopoulos revela as entranhas de sua personagem com gestos delicados e olhares obtusos. A exposição física de sua personagem se confunde com a exposição sem concessões da intérprete e confirmam a noção de que sem uma entrega deste nível de Exarchopoulos, mas também de Seydoux, seria impossível Azul é a cor mais quente atingir o pico de passionalidade que ostenta em sua atmosfera.
O final é um pouco arrastado pela opção de Kechiche em reafirmar a abertura para o amadurecimento de Adèle, algo que já havia sido ensejado quando do reencontro das personagens. Não é algo, porém, a depor contra o filme que se não faz jus integralmente à Palma de Ouro recebida em Cannes, tampouco a desmerece.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Fases e relacionamentos


James Gandolfini encara o papel mais frágil de sua carreira em um filme que discute a busca pelo amor na maturidade. Os relacionamentos amorosos são destaque nas principais estreias nos cinemas brasileiros nesta semana

Entre as muitas e boas estreias programadas para esta sexta-feira (6) nos cinemas brasileiros, três produções merecem atenção. Em parte pela qualidade que ostentam individualmente e em parte pelo recorte que, combinadas, favorecem aos relacionamentos amorosos.
Como não perder essa mulher, Azul é a cor mais quente e À procura do amor, em um primeiro olhar, guardam pouco em comum. Mais boa vontade na análise, no entanto, revela que são filmes, cada qual a sua maneira, que falam do amor e da complexa e desorientadora busca por ele.
No filme vencedor da Palma de Ouro em 2013, o francês Azul é a cor mais quente, a ideia é mostrar o oxigênio da juventude na especulação do amor. Na descoberta da sexualidade e as divergências que se impõem nesse universo tão rico e incompreendido.
Sexo também ronda, de uma maneira aparentemente mais lasciva, mas menos gráfica, Como não perder essa mulher. No filme, que marca a estreia de Joseph Gordon-Levitt na direção (o roteiro também é dele), Jon (Levitt) é uma espécie de Don Juan contemporâneo. O culto à imagem é seu sobrenome. Corpo malhado, carro brilhoso, emprego como bartender, uma mulher por noite e um vício em pornô. Mesmo fazendo sexo com frequência incomum, Jon se masturba em um compasso ainda mais incomum para a frequência com que faz sexo. Tudo parece inclinado à mudança quando ele conhece Barbara (Scarlett Johansson), mas a relação tem problemas na decolagem. Um paralelo interessante no filme é que Barbara modela suas relações amorosas nas comédias românticas hollywoodianas, um vício tão nefasto quanto o de Jon, mas menos patrulhado.

Programa a dois: comédia romântica une ou desune? 

Já em À procura de amor, da diretora Nicole Holofcener (uma das poucas diretoras a arejar o olhar sobre o feminino no cinema americano), o mote é ainda mais complexo. Eva (Julia Louis-Dreyfous, em surpreendente papel dramático) é uma mulher ressentida com a possibilidade cada vez mais palpável de ficar sozinha. De morrer sozinha. Em uma festa, ela conhece Albert (James Gandolfini em um de seus últimos papéis no cinema) e eles começam a se relacionar. Mais adiante, ela descobre que Albert é o ex-marido de uma nova amiga (Catherine Keener), que desenha um monstro da convivência para Eva.
O drama da personagem, deixar-se contaminar pela experiência da amiga ou manter um olhar neutro, se é que isso é possível, pautará o filme agridoce de Holofcener.
As três produções têm o mérito de radiografar diferentes gerações envoltas em pequenos dramas românticos característicos das diferentes fases da vida em que os protagonistas dos filmes (adolescentes, adultos na faixa dos 30 anos e cinquentões) se encontram. São espelhos, também, das fases que o amor, como objetivo de vida, introjetam na existência humana.

Cena de Azul é a cor mais quente, cujo diretor, o franco-tunisiano Abdellatif Kechiche concedeu entrevista exclusiva ao AdoroCinema em visita promocional ao Rio de Janeiro. Confira a entrevista em vídeo!


domingo, 1 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013 - Os dez cartazes mais cool do ano

10 – Azul é a cor mais quente

O filme artístico mais hypado e mais polêmico do ano, não necessariamente nessa ordem, recebeu um cartaz à altura de seu barulho. Beleza e sensualidade se fundem ao azul para tornar uma imagem fria surpreendentemente quente.

9 - Spring breakers – garotas perigosas

Tem quem ache um dos melhores filmes do ano e tem quem ache a maior bobeira da década. Os pôsteres, pelo menos, arranham alguma unanimidade. Tirando a porção de artes promocionais com garotas de biquínis, esse cartaz que entrou para o TOP 10 do ano limpa a barra do filme com sutileza e minimalismo impensáveis.

8- Ajuste de contas

Jake La Motta versus Rock Balboa. Ou melhor, um confronto entre os dois intérpretes desses mitos do cinema e da cultura pop. A ideia que move o filme é ótima. Tinha como o cartaz não ser?

7- Closed circuit

Em um ano em que a espionagem do governo americano causou frisson midiático, esse belo filme ocultou-se na sombra do fracasso da cinebiografia de Julian Assange, o criador do Wikileaks. Seria fácil, e os pôsteres são cool, destacar um cartaz de O quinto poder, mas como pode se reparar, Closed circuit investe na sutileza e se referencia no cinema americano setentista em matéria de promoção.


6 - Blue Jasmine

A exuberância da beleza de Cate Blanchett se destaca no pôster do filme que rima azul (a cor do ano pelo menos nos cartazes) com tristeza. A flor triste emerge magnânima a nosso olhar a partir do momento em que o azul dos olhos da atriz nos hipnotiza.

5- Guerra mundial Z

Há definitivamente algo nos filmes de Brad Pitt. No ano passado, O homem da máfia valeu o primeiro lugar nessa lista com um cartaz excepcional. Mas excepcional eram todos os cartazes do filme. Algo semelhante ocorre com Guerra mundial Z, o grande filme da carreira de Brad Pitt, no âmbito comercial. De todos, o mais impressionante certamente é o que zumbis se empilham como um formigueiro para derrubar um helicóptero.

4 - Invocação do mal

Um cartaz que dá arrepios. Se Invocação do mal é o filme de terror do ano, seu principal pôster promocional é o equivalente em matéria de cartazes.

3- Somente Deus perdoa

Se houve um filme a rivalizar com Guerra mundial Z na quantidade de cartazes cool, este filme foi Somente Deus perdoa, ainda inédito nos cinemas nacionais. Há muito Ryan Gosling no material, mas esse cartaz envolto em neon e destacando uma voraz Kristin Scott Thomas é qualquer coisa de fazer babar. O pôster em si já revela que se trata de um filme de estilo ímpar.

2- Dom Hemingway

Divertido, visualmente atraente e bem sacado, o primeiro pôster de Dom Hemingway antecipa um filme picante, sarcástico e politicamente incorreto.

1- Ninfomaníaca

O filme já é um acontecimento e nenhum outro teve seus cartazes divulgados, analisados e referenciados com tanta ansiedade. Von Trier sobeja na arte de fazer marketing e destacou seu elenco em momentos de orgasmo para garantir sem margem de erro o topo desta lista em Claquete. Para fazer justiça ao talento e despudor do elenco, o pôster que reúne grande parte do casting é o que ocupa o topo deste TOP 10.

domingo, 24 de novembro de 2013

Insight - A sexualidade feminina pelo olhar masculino

Há Pedro Almodóvar e há os outros. Ao longo dos anos, crítica e cinéfilos exaltaram o olhar exercitado pelo cineasta espanhol para as coisas do feminino. A alma da mulher é compreendida em toda a sua paradoxalidade  e complexidade pelo cinema de Almodóvar, diz o senso comum produzido na roda cinéfila. Há quem credite esse atributo invejável à homossexualidade do diretor. É uma tese discutível, mas amplamente aceita. O próprio Almodóvar em diferentes entrevistas, para veículos de diferentes países, estabeleceu uma lógica de morde e assopra. Ora dando vazão à teoria, ora rejeitando-a veementemente.
Mas Almodóvar é, ainda que com esses paroxismos, um consenso. O ano de 2013, no entanto, inseriu um novo componente nesse debate. Como já é notório, o vencedor da Palma de Ouro em Cannes Azul é a cor mais quente (nome nacional da fita escolhido por leitores do AdoroCinema em promoção realizada em parceria com a distribuidora do filme no Brasil), apresenta um romance lésbico com cenas bastante gráficas.
O filme do franco tunisiano Abdellatif Kechiche foi desautorizado pela autora da HQ na qual o filme se baseia. Para a francesa Julie Maroh, Azul é a cor mais quente só atrai interesse para si pelas comentadas cenas de sexo. “Tirem o sexo e ninguém irá querer ver o filme”, bradou. A autora criticou Kechiche que, segundo ela, a teria deixado de fora do processo criativo do longa-metragem. Maroh diz, ainda, que Kechiche filma o romance lésbico com fetichismo, como um voyeur, com pegada heterossexual e não mimetiza em celuloide o sentimento e a visão que ela tangencia, ou quis tangenciar, na obra original. Depois do pronunciamento de Maroh, as atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos se manifestaram na mídia insinuando que teriam sido manipuladas por Kechiche na feitura do filme. O cineasta, então, rompeu o silêncio e disse que o filme então não deveria ser visto. Depois voltou atrás.

Almodóvar e uma de suas musas, Penélope Cruz, em fotografia da Vanity fair... 

... e Kechiche com suas atrizes exibindo o certificado e Palma de ouro conquistados neste ano

A polêmica em torno de Azul é a cor mais quente faz mais do que por em lados opostos feministas e diretores homens. Stanley Kubrick realizou um bom ensaio sobre sexualidade, e por consequência sobre sexualidade feminina, em De olhos bem fechados. Stephen Daldry, que também gay, fez o excelente As horas, que aborda o universo feminino, e aí obviamente inclusa a sexualidade, com destreza até hoje inigualável. Woody Allen também construiu personagens femininas muito fortes, muito tridimensionais, a Jasmine – do novo Blue Jasmine – honra essa tradição. E feminista que se preze tem ojeriza a Woody Allen.
O novo filme de François Ozon, que também é gay, Jovem e bela, também exibido em Cannes, provocou ira nas feministas. No filme, uma jovem endinheirada resolve se prostituir para viver essa experiência. As feministas acusam Ozon de fetichista, no que o autor se exime por bradar “sou gay” e estar interessado na descoberta da sexualidade pela mulher em tempos muito mais cínicos e permissivos. Há mais de 40 anos, o espanhol Luis Buñuel apresentou proposta similar em A bela da tarde (1967), em que a infeliz esposa, jovem e rica, vivida por Catherine Deneuve resolve se prostituir às tardes enquanto o marido médico trabalha.
Entre fetiche, curiosidade e sensibilidade, a sexualidade feminina parece interessar mais aos cineastas homens do que às mulheres. Salvo Jane Campion, Sarah Polley e circunstancialmente uma ou outra diretora, o cinema carece desse olhar que muito acrescentaria a muito mais plural, complexa e apaixonante sexualidade feminina.

As atrizes de As horas, filme que investiga a fundo o feminino... 

... e Marine Vacth em cena de Jovem e bela, o filme de Ozon que provocou a ira das feministas