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sexta-feira, 18 de abril de 2014

A seleção da 67ª edição do Festival de Cannes

A correria foi grande, assim como os boatos que cercavam o anúncio dos filmes que integrariam a lista dos concorrentes à 67ª disputa pela Palma de Ouro na croisette. E, como de hábito, o anúncio dos filmes selecionados agradou. Com Cannes é assim, como os filmes ainda não foram vistos, há muita pouca controvérsia. A apreciação se dá no número de vencedores prévios em disputa, de cineastas consagrados, de cinematografias privilegiadas, na presença americana, na presença francesa, na musculatura asiática e afins.
Para 2014, alguns favoritos do festival estão de volta. Jean-Luc Godard, David Cronenberg, Olivier Assayas, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Xavier Dolan, Mike Leigh e Ken Loach capitalizam a disputa pela Palma de Ouro com o assédio de figuras que crescem em prestígio na Riviera como Michel Hazanavicius, Atom Egoyan e Naomi Kawase.
A briga pela Palma de Ouro traz menos americanos do que nos últimos anos. Eles são quatro. Somados a dois ingleses e a filmes de outras nacionalidades falados em inglês preservam a sensação de que Hollywood invadirá a croisette. Ryan Gosling, Nicole Kidman, Robert Pattinson, Kristen Stewart, Meryl Streep e Tommy Lee Jones são presenças esperadas em Cannes.
Robert Pattinson, em plena reengenharia de carreira, estreia dois filmes no festival. Está em Map to the stars, de Cronenberg, que compete à Palma de Ouro, e em The rover, que será exibido fora de competição e é do mesmo diretor do intenso Reino animal.  
A mostra Um certo olhar terá a première de Lost river, estreia na direção de Ryan Gosling, outro habitué de Cannes. La chambre bleue, novo filme de Mathieu Amalric também estará na mostra, assim como O sal da terra, documentário sobre o fotógrafo Sebastião Salgado assinado pelo filho dele em parceria com o cineasta Win Wenders.
Mais dois filmes devem ser anunciados na mostra principal, mas a presença sólida do cinema francês (Assayas, Godard e Hazanavicius), renovada do cinema americano (Tommy Lee Jones e Bennett Miller) são, sem sombra de dúvidas, a grande atratividade da lista neste primeiro momento.

Mostra competitiva principal

ADIEU AU LANGUAGE, de Jean-Luc Godard

CAPTIVES, de Atom Egoyan
FOXCATCHER, de Bennett Miller
GRACE OF MONACO, de Olivier Dahan
JIMMY’S HALL, de Ken Loach
LE MERAVIGLIE, de Alice Rohrwacher
LEVIATHAN, de Andrey Zvyagintsev
MAPS TO THE STARS, de David Cronenberg
MOMMY, de Xavier Dolan
MR. TURNER, de Mike Leigh
RELATOS SALVAJES, de Damian Szifron
SAINT LAURENT, de Bertrand Bonello
SILS MARIA, de Olivier Assayas
STILL WATER, de Naomi Kawase
THE HOMESMAN, de Tommy Lee Jones
THE PAIN OF BIRDS, de Abderrahmane Sissako
THE SEARCH, de Michel Hazanavicius
TWO DAYS, ONE NIGHT, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
WINTER SLEEP, de Nuri Bilge Ceylan



Confira o trailer de Captives, filme de Atom Egoyan que disputará a Palma de Ouro

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Cannes 2012 - Aposta em americanos e em velhos favoritos


Cena de Na estrada, filme do brasileiro Walter Salles que - confirmando expectativas - integra a seleção oficial do festival de Cannes 2012. Outros velhos conhecidos retornam à riviera francesa em uma edição com poucas novidades e muitos nomes cacifados


É notório entre os cinéfilos que o festival de cinema de Cannes, que em 2012 chega a sua 65ª edição, é um clube do bolinha do meio cinematográfico. Principal evento do cinema artístico se promove como plataforma comercial e costuma prestigiar seus entes queridos. Há cineastas que sempre estão em Cannes, seja como membros do júri, na competição oficial ou exibindo filmes em mostras paralelas ou arcos promocionais. O festival desse ano não abrirá mão dessa marca. Tão pouco de outra tendência crescente nos últimos anos. A do predomínio de fitas americanas em competição. Se as premieres mundiais são menos ostentosas do que em outros anos (apenas o terceiro Madagascar, animação da Dreamworks – outra com lugar cativo na riviera francesa), a seleção de produções ou co-produções americanas é de fôlego. São seis filmes americanos na competição oficial que reúne um total de 21. O evento ainda terá como filme de abertura outra fita americana, Moonrise Kingdom, de Wes Anderson.
Um dos destaques da lista é a presença de Na estrada, nova produção internacional de Walter Salles, que entra nessa conta de americanos por ser co-produção daquele país e ter como principal produtor o cineasta Francis Ford Coppola.
Cartaz do segunda longa de
Lee Daniels:
acolhimento  em
Cannes é boa notícia
Outros prestigiados de Cannes voltam à disputa pela Palma de ouro em 2012. David Cronenberg, depois de ficar de fora no ano passado com Um método perigoso, entrou este ano com o antecipado Cosmópolis. O dinamarquês Thomas Vinterberg assume a cota dos egressos do Dogma 95 com The hunt, que marca seu retorno à Cannes, de onde saiu aclamado em 1998 com Festa de família – um dos filmes inaugurais do referido movimento. O veterano cineasta francês Alan Resnais, que costuma figurar nas mostras paralelas de Cannes, volta à disputa principal com Vous n’avez Encore Rien.
O romeno Cristian Mungiu, que triunfou em 2007 com 4 meses, 3 semanas e 2 dias, retorna com Beyond the hills. O russo Sergei Loznitsa, que casou furor em 2010 com o violento Minha felicidade, está na competição com In the fog. O britânico Ken Loach, o iraniano Abbas Kiarostami, o franco alemão Michael Haneke e os sul-coreanos Sangsoo Im e Sangsoo Hong também apresentarão seus novos filmes na disputa pela Palma de ouro. Outro aguardado retorno é o de Jacques Audiard, diretor do intenso e premiado em Cannes O profeta, com De Rouille et D’Os, estrelado pela maior diva francesa da atualidade, Marion Cotillard.
Três americanos causam curiosidade. Lee Daniels, após ir ao Oscar com Preciosa-uma história de esperança, chega a Cannes com seu segundo filme, The paperboy que promove a improvável colaboração entre Nicole Kidman, Zac Efron e Matthew McConaughey. Jeff Nichols, celebrado em 2011 com o independente O abrigo, apresentará The mud seguramente sob fortes expectativas. O neo-zelandês Andrew Dominik apresentará seu terceiro longa-metragem, o segundo em parceria com o ator Brad Pitt. Killing them softly, conhecido anteriormente como Cogan´s trade promete ser para o filme de máfia o que foi O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford para o western.

Michael Haneke, que ganhou a Palma de ouro há três anos pelo excepcional A fita branca, retorna à disputa pela Palma de ouro com Amour. Outros vencedores também estarão na disputa como Ken Loach e Abbas Kiarostami 

Brad Pitt e Richard Jenkins em cena de Killing them softly, do neo-zelandês Andrew Dominik: altas expectativas pela safra americana em Cannes


Outros destaques
A mostra “Um certo olhar” que costuma ostentar cineastas de prestígio destaca alguns projetos interessantes em 2012. O filho de David Cronenberg, Brandon, não acompanhará o pai à Cannes apenas por devoção familiar. Ele exibirá seu primeiro filme Antiviral  e rivalizará com, pelo menos, outros dois prodígios da direção: o canadense Xavier Dolan, cujos últimos dois filmes integraram a principal mostra paralela de Cannes, com Laurence anyways e o mexicano Michel Franco que apresentará seu segundo longa-metragem, Despues de Lucia.
O argentino Pablo Trapero, que em 2010 levou o excelente Abutres à mostra, terá dois filmes em competição. O argentino Elefante Branco e o coletivo Sete dias em havana, o qual assina com outros sete diretores; dentre os quais Benicio Del Toro, Gaspar Noe e Laurent Cantet.
Outros dois vencedores em Cannes terão seus novos trabalhos exibidos fora de competição. Apichatpong Weerasethakul que ganhou a Palma de ouro há dois anos com o tailandês Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, exibirá Mekong hotel e o turco alemão Fatih Akin exibirá Der Mull im Garten Eden. A presença brasileira, além de Walter Salles, fica por conta da exibição de A música segundo Tom Jobim em sessão especial e pela presença de Rodrigo Santoro no filme Hemingway & Gellhorn, dirigido por Philip Kaufman para a HBO.

Clive Owen e Nicole Kidman (ela de novo) em cena de Hemingway & Gellhorn, filme da HBO que terá exibição especial no festival. Não será a primeira vez que um filme feito para a TV terá destaque em Cannes. Há dois anos atrás, Carlos, de Oliver Assayas competiu pela Palma de ouro


Os filmes que compõem a seleção oficial

Moonrise Kingdom, de Wes Anderson (filme de abertura)
De Rouille et D’Os, de Jacques Audiard
Holy Motors, de Leos Carax
Cosmopolis, de David Cronenberg
The Paperboy, de Lee Daniels
Killing Them Softly, de Andrew Dominik
Reality, de Matteo Garrone
Love, de Michael Haneke
Lawless, de John Hillcoat
In Another Country, de Sangsoo Hong
Taste of Money, de Sangsoo Im
Like Someone in Love, de Abba Kiarostami
The Angel’s Share, de Ken Loach
In the Fog, de Sergei Loznitsa
Beyond the Hills, de Christian Mungiu
After the Battle, de Yoursry Nasrallah
Mud, de Jeff Nichols
Vous n’avez Encore Rien Vu, de Alain Resnais
Post Tenebras Lux, de Carlos Reygadas
Na Estrada, de Walter Salles
Paradise: Love, de Ulrich Seidl
The Hunt, de Thomas Vinterberg


sábado, 28 de maio de 2011

Grandes Vencedores da Palma de Ouro - De Michael Haneke, A fita branca

Um filme em preto e branco, sem música, que antecipa o nazismo e que se pretende inflexivo sobre as origens do mal. A fita branca não poderia deixar de ser uma obra com a assinatura de Michael Heneke, um cineasta que sempre se mostrou à vontade em grafar a violência como idiossincrasia humana. Na briga pela Palma de ouro em 2009, Haneke levou a vantagem em uma competição em que os principais candidatos rondavam a violência, mas não com a mesma propriedade narrativa. A fita branca antes de ser um exercício de estilo é um decágono sobre as raízes da maldade.




A competição

O júri presidido pela atriz francesa Isabelle Huppert não tinha uma tarefa fácil. Esse foi o último grande ano do festival até aqui. Além de algumas gratas surpresas como O profeta, de Jacques Audiard, disputavam a Palma de ouro Pedro Almodóvar com Abraços partidos, Quentin Tarantino com Bastardos inglórios, Ken Loach com À procura de Eric, Ang Lee com Aconteceu em Woodstock, Park Chan-Wook com Sede de sangue, Lars Von Trier com Anticristo, Jane Campion com O brilho de uma paixão e Marco Bellocchio com Vincere. Era uma seleção de respeito. Tanto que Huppert foi acusada por setores da crítica de que a premiação de Haneke foi outorgada em favorecimento ao diretor que é seu amigo pessoal. Uma bobagem. A fita branca era digno da distinção que recebeu.


Além da Palma
Indicado a dois Oscars (filme estrangeiro e fotografia), Indicado ao Bafta de filme estrangeiro, indicado ao César de filme estrangeiro e quatro prêmios no European Film Awards (filme, direção, roteiro e fotografia)


Curiosidades
- O ator Ülrich Mühe, de A vida dos outros, era a opção de Haneke para ser o pastor no filme. Mas o ator morrera poucos meses antes do início das filmagens
- Heneke confessou em entrevista após a Palma em Cannes que havia pensado em A fita branca como uma minissérie para a TV, mas logo abandonou a ideia
- As cenas foram filmadas em cor e alteradas para preto e branco na pós-produção. O processo de conversão foi supervisionado pelo diretor de fotografia Christian Berger

terça-feira, 24 de maio de 2011

Cenas de cinema

Almodóvar sem pele

O próprio diretor já havia antecipado em entrevista ao jornal espanhol El País que estava preparado para sair de mãos vazias de Cannes. Não deu outra. Almodóvar saiu sem prêmios da croisette e, mais uma vez, viu a aguardada Palma de ouro seguir para as mãos de outro cineasta festejado, no caso o americano Terrence Malick.
Seu filme, A pele que habito, já começa a subir de cotação entre a crítica internacional. O número de críticas elogiosas já superam as que relativizam os ganhos de Almodóvar em sua incursão pelo thriller. No Brasil, o filme está programado para estrear no dia 25 de novembro.


Onde está Malick?
Não foi a primeira vez que aconteceu. Foi a segunda. Raríssima na história do festival de Cannes, o vencedor da Palma de ouro, o cineasta americano Terrence Malick não compareceu a premiação, nem a entrevista coletiva realizada horas depois em Cannes. Segundo o produtor do filme, Bill Pohlad, “Malick é uma pessoa extremamente tímida, mas posso assegurar que está extremamente feliz por este momento”.


Misoginia que vale Palma
Como diria aquela outra, não é brinquedo não! O cineasta dinamarquês agregou, por conta própria, a pecha de nazista à sua péssima fama. Tido como misógino e com relatos de estrelas do porte de Nicole Kidman e Björk de ser cruel com suas atrizes, Von Trier é quase certeza de prêmio para as moçoilas em Cannes. É a terceira vez que uma atriz sob seus cuidados leva a Palma de melhor atriz para casa.


Invencibilidade garantida
Outra previsibilidade assegurada pela 64ª edição do Festival de Cannes foi o prêmio para os irmãos Dardenne. Os belgas garantiram, dessa maneira, uma improvável hegemonia no festival. Em cinco participações, cinco prêmios. É uma estatística invejável que mereceu a desdenha do diretor turco Nuri Bilge Ceylan que dividiu o Grande Prêmio do Júri com os belgas: “Se me perguntassem o por quê do empate, eu não saberia responder”, afirmou na coletiva de imprensa.



De Niro e seu tradutor
Desde a primeira entrevista coletiva estava claro. Com um lacônico presidente, a voz do júri que melhor se comunicaria com a imprensa seria a do cineasta francês Olivier Assayas. Não foi diferente no ato final do júri em Cannes. De Niro, querendo agradar ao público, tropeçou no francês e foi prontamente acudido por Assayas que havia elaborado muito bem, há quinze dias, a meta do colegiado composto por ele, De Niro e muitos outros: “Estamos aqui para julgar filmes e não cineastas”. Kirsten Dunst diz obrigado.

O cineasta francês Olivier Assayas posa para foto em Cannes: ele ajudou De Niro no francês e no trato com imprensa




Reação à Palma de Ouro
No Brasil, a imprensa recebeu a premiação de A árvore da vida com parcimônia. O portal IG salientou a previsibilidade da premiação, mas entendeu que os prêmios de direção e de interpretação foram zebras. A Folha de São Paulo destacou a divisão de opiniões acerca do grande vencedor da 64ª edição do festival, enquanto que o UOL preferiu sublinhar uma possível influência do presidente do júri Robert De Niro na escolha dos premiados.
O Globo aventou a possibilidade do prêmio para a atriz Kirsten Dunst ser uma espécie de “troféu de consolação” para um dos filmes mais “vistosos” em competição e O Estado de São Paulo destacou as justificativas do júri pela preferência ao trabalho de Malick.



Ninguém reparou em Um certo olhar
A salvo o filme de abertura, Inquietos de Gus Van Sant, a mostra Um certo olhar foi pouco notada pela crítica internacional em 2011. Poucos foram os destaques. No Brasil, ainda houve interesse por conta da participação de um longa brasileiro, o pouco elogiado Trabalhar cansa. Mas na imprensa internacional foram poucas as menções. Também pode ter contribuído para esse fato, o bom nível da competição principal.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Repercutindo Cannes 2011


O presidente do júri Robert De Niro entremeado por Kirsten Dunst e Jean Dujardin, os atores vencedores
da 64ª edição do festival de Cannes


O reinado americano na França continuou. Em dez anos, nenhuma cinematografia prevaleceu tanto na croisette. Com a vitória do épico existencialista de Terrence Malick, A árvore da vida, são quatro vitórias em uma década. É um feito e tanto. Descolada dessa significante insurgência, a edição 2011 do festival agradou muito mais do que a de 2010. Um fato que já era antecipável no momento do anúncio dos filmes selecionados para integrar a competição. Isso não garantiu que a escolha do vencedor da Palma de ouro fosse indubitável. Houve vaias no momento do anúncio e moderadas contestações da crítica internacional (o prêmio da crítica em Cannes foi para o finlandês Le Havre). O próprio De Niro deixou escapar que o filme não era unanimidade entre o júri. “A maior parte de nós achou que o filme era extraordinário e para o qual mais fazia sentido a Palma de ouro”, disse na coletiva pós-premiação.
De Niro, aliás, foi elogiado por seus colegas de júri como um presidente bastante democrático e debatedor. Esses adjetivos foram aventados para rebater percepções da imprensa de que os resultados da 64ª edição de Cannes muito se assemelhavam ao gosto do ator americano. O drama de violência urbana Drive rendeu ao diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn, a Palma de melhor diretor. O prêmio do júri, um dos mais contestados pela crítica, foi para o francês Polisse. O filme, sobre investigações policiais contra pedofilia, se caracteriza por uma estética documental que críticos americanos rotularam como “sub Lei & ordem”, em referência à famosa série de TV daquele país. Mas o cinema francês, como é tradição, não poderia sair sem um prêmio sequer no festival. Além da premiação de Polisse, o francês Jean Dujardin foi escolhido o melhor ator por The artist. Dujardin derrotou os favoritos Sean Penn (This must be the place) e Michel Piccoli (Habemus papam). Presente em quase toda a metragem de The artist, um filme em preto e branco e mudo, o ator se emocionou com surpreendente vitória. A crítica internacional preferia outros desempenhos, mas não contestou a vitória do francês. Maior revolta gerou o triunfo da americana Kirsten Dunst por Melancholia. Embora seu nome fosse ventilado nos corredores de Cannes, ninguém parecia prever que Tilda Swinton (que arrebatou em We need to talk about Kevin) sairia sem esse prêmio. Assim como o próprio filme que agradou bastante. Outras fitas muito badaladas no festival que saíram sem prêmio foram o drama austríaco Michael, outro sobre pedofilia (ainda que com um enfoque diferente de Polisse), o australiano Sleeping beauty e o já citado finlandês Le Havre.
Mesmo com algumas contestações, as escolhas do júri presidido por Robert De Niro agradaram mais do que as que o colegiado comandado por Tim Burton ano passado realizou. As sanções e críticas aos vencedores da edição de 2010 foram agudas, mas a favor de De Niro pesou o melhor nível dos candidatos desse ano. Prova disso, é o empate para o Grande prêmio do júri. O belga The kid with the bike, dos irmãos Dardenne e o turco Era uma vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan, ambos já premiados em Cannes, dividiram a honraria.

Kirsten Dunst era só sorrisos: ela agradeceu a Von Trier pela liberdade que lhe conferiu e ao júri por não ter desistido do filme após as declarações polêmicas do diretor no meio da semana

Os vencedores:


Palma de Ouro
A Árvore da Vida, de Terrence Malick (EUA)
Grande Prêmio do Júri
The kid with the bike, de Luc e Jean-Pierre Dardenne (Bélgica/França)
Era uma vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan (Turquia)
Melhor Diretor
Nicolas Winding Refn, por Drive (EUA)
Melhor Atriz
Kirsten Dunst, por Melancolia (Dinamarca)
Melhor Ator
Jean Dujardin, por The Artist (França)
Melhor Roteiro
Footnote (Israel)
Prêmio do Júri
Polisse, de Maiwenn Le Besco (França)

sábado, 21 de maio de 2011

Grandes Vencedores da Palma de Ouro - De Nanni Moretti, O quarto do filho

O cinema italiano passou um tempo afastado do neo-realismo que tanto o caracterizou. Essa condição não foi de todo ruim. O cineasta italiano Nanni Moretti propôs no vencedor da Palma de ouro de 2001, O quarto do filho, uma imersão ao invés de uma representação do real. A tragédia que muda a vida da família do psicanalista vivido pelo próprio Moretti é abordada com sutileza e cálculo em uma dramatização que devolveu o vigor ao cinema italiano que andava esquecido no circuito de festivais.



A competição

O júri presidido pela norueguesa Liv Ullman tinha uma seleção forte para julgar. Grandes cineastas com grandes filmes disputavam a Palma de ouro. O australiano Baz Luhrmann concorria com Moulin Rouge – amor em vermelho, o bósnio Danis Tanovic com Terra de ninguém, o alemão Michael Haneke com A professora de piano, o francês Jean-Luc Godard com Éloge de L´amour, o americano David Lynch com Cidade dos sonhos, o português Manoel de Oliveira com Porto da minha infância, o americano Sean Penn com A promessa e os também americanos irmãos Coen com O homem que não estava lá. Também na disputa, a animação que viria a revolucionar o formato precipitando sua transformação em gênero, Shrek.
Era uma disputa forte e Moretti, de fato, tinha um dos filmes mais proeminentes da seleção. Talvez não fosse o melhor, mas não dá para dizer que não merecia a palma.

Além da Palma
Indicado ao César de filme estrangeiro e três prêmios (filme, atriz e música) da academia de cinema italiana


Curiosidades
- Foi escolhido o melhor filme de 2001 pela revista Cahiers du cinema
- Nanni Moretti foi o único ator do elenco principal que não recebeu um prêmio sequer pelo filme
- Moretti confessou à época da vitória em Cannes que já pensava que nunca venceria a Palma de ouro no festival. O italiano já havia concorrido quatro vezes

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Momento Claquete # 15

Angelina Jolie e Dustin Hoffman demonstram cumplicidade na premiere de Kung fu Panda 2, realizada na semana passada em Cannes 


Penélope Cruz chega sob grande comoção para a premiere de Piratas do Caribe: navegando em águas misteriosas no sábado (14) na croisette


O elenco do drama austríaco Michael, que já despontou como um dos favoritos do festival, posa para a tradional foto na entrada do cinema 


O cineasta Gus Van Sant, cujo filme Inquietos abriu a mostra Um certo olhar, devolve a gentileza para os fotógrafos presentes na riviera francesa 


Sean Penn e Brad Pitt, que vivem filho e pai em A árvore da vida, comparecem a exibição oficial do longa na noite de segunda-feira (16) no festival de Cannes. O quinto longa da carreira do cineasta Terrence Malick recebeu vaias e aplausos durante a sessão de 2h40min 


A atriz francesa Marina Fois, que teve performance elogiada no drama francês Polisse, em uma festa que agitou o fim de semana em Cannes 


O presidente do júri Robert De Niro parte para mais um dia árduo de trabalho na croisette 


O cineasta dinamarquês Lars Von Trier, entremeado pelas atrizes Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg, se superou em matéria de polêmica na edição de 2011 do festival francês. Indagado sobre suas influências alemãs, afirmou entender Hitler e simpatizar com sua figura. Pediu deculpas, por pressão da direção do evento, menos de duas horas depois 


Mel Gibson e Jodie Foster passearam por Cannes na manhã dessa quarta-feira (18): "Uma performance demolidora de Mel Gibson em Um novo despertar", escreveu a Cahiers du cinema

sábado, 14 de maio de 2011

Grandes Vencedores da Palma de Ouro - De Quentin Tarantino, Pulp fiction-tempos de violência

Foi o ano de Tarantino. A competição em 1994 na riviera francesa era, até certo ponto, fraca. Mas o ano seria de Tarantino de qualquer jeito. Cannes serviu de trampolim para a história, na que talvez tenha sido a última edição do festival a confirmar uma tendência cinematográfica - no caso o boom do cinema independente americano (em um movimento semelhante ao testemunhado nos anos 70).
Pulp Fiction, seis anos depois, seria considerado o melhor filme da década de 90 (e o mais significativo em listas que se recusavam a apontar o melhor) por um punhado de críticos e publicações de prestígio no meio cultural.
A revolução narrativa proposta por Tarantino, regada a diálogos ácidos e violência temperamental, se submetia a um tratamento estético inovador que dialogava com pop no mesmo nível que o afirmava. Tarantino ganhava o status de autor em uma precipitação que só Cannes poderia autenticar. E os tempos de Tarantino na croisette continuariam enquanto outros se dispunham a reconhecer sua veia autoral.



A competição


O júri presidido por Clint Eastwood tinha algumas figuras de boa repercussão para julgar. Como o italiano Nanni Moretti com Caro diário, o egípcio Atom Egoyan com Exótica, o britânico Mike Figgs com Nunca te amei, o chinês Zhang Yimou com Tempo de viver, o italiano Giuseppe Tornatore com Uma simples formalidade e o polonês Krzysztof Kieslowski com a terceira parte de sua trilogia das cores, A fraternidade é vermelha. Havia o cinema independente americano na figura dos irmãos Coen (que já haviam assombrado Cannes alguns anos antes) com Na roda da fortuna e do semi desconhecido Quentin Tarantino (na França, seu Cães de aluguel só pegou depois da consagração de Pulp Fiction).
Ainda hoje Tarantino e os Coen respondem pela produção independente americana que mais reverbera internacionalmente. Em 1994, o júri cedeu a Tarantino.


Além da Palma

Sete indicações ao Oscar com vitória na categoria de roteiro original; nove indicações ao Bafta com vitória nas categorias de roteiro original e ator coadjuvante (Samuel L. Jackson); indicado a melhor filme estrangeiro no César; indicado ao Directors Guild Awards; Seis indicações ao Globo de ouro com vitória na categoria de roteiro; 4 Independent Spirit awards (filme, direção, roteiro e ator para Samuel L. Jackson);



Curiosidades

- O papel de Jules foi escrito especificamente para Samuel L. Jackson que desde então aparece em todos os filmes de Quentin (em Bastardos inglórios ele surge como o narrador e some tão subitamente quanto aparece)
- A participação de Tim Roth e Amanda Plummer como “Pumpkin” e “honey bunny” foi um capricho de Tarantino que só poderia acontecer, segundo o próprio, com esses dois atores
- John Travolta, que teve sua carreira resgatada do ostracismo graças a esse filme, em entrevista no ano 2000 disse acreditar que Tarantino será dos grandes cineastas negligenciados pela academia e que só receberá um Oscar honorário
- Quentin Tarantino ganhou seu único Oscar pelo roteiro desse filme
- Uma Thurman negou o papel. O diretor teve que fazer inúmeras tentativas de convencimento e venceu Uma pelo cansaço. Já para Kill Bill, esse approach não foi necessário.
- Sylvester Stallone foi considerado para o papel de Butch, que acabou com Bruce Willis.


* Durante o mês de maio a seção Cantinho do DVD não será publicada em virtude do especial Grandes Vencedores da Palma de Ouro

terça-feira, 10 de maio de 2011

Momento Claquete # 14

 Um novo despertar, produção da Focus filmes adiada do ano passado para esse ano em virtude dos escândalos protagonizados por Mel Gibson, estreou com baixa bilheteria no último fim de semana nos EUA. A fita, dirigida por Jodie Foster, terá exibição no 64º festival de Cannes que terá ínicio nessa quarta-feira, 11 de maio.


Woody Allen orienta Carla Bruni e Owen Wilson nos sets de Meia noite em Paris, filme de abertura do 64º festival de Cannes. A primeira dama francesa era esperada para a premiere do filme amanhã na croisette, mas cancelou sua presença, aumentando os rumores de uma possível gravidez.

Sean Penn, no centro da foto com essa cabeleira ressecada e roqueira, promete ser uma das sensações dessa edição do festival. Ele atua em This must be the place (foto) e em A árvore da vida

Pedro Almodóvar nos sets de A pele que eu habito, um dos filmes em competição pela Palma de ouro mais aguardados de 2011


 Cannes sem o dinamarquês Lars Von Trier é um festival incompleto. Em 2011, o cineasta apresenta sua visão do fim do mundo em Melancholia. Outra promessa da edição desse ano...


Tilda Swinton é uma favorita antecipada a Palma de melhor atriz por We need to talk about Kevin, outro filme que gera expectativas na crítica internacional 


A HBO divulgou a primeira imagem de Julianne Moore caracterizada como Sarah Palin para o filme Game change, que o canal a cabo americano produz sobre as eleições presidenciais de 2008

domingo, 8 de maio de 2011

TOP 10 - Os dez queridinhos de Cannes

No mês do mais charmoso e importante festival de cinema do mundo, a seção TOP 10 se rende aos dez queridinhos de Cannes. Cinco deles estarão presentes na edição 2011 do festival, os outros também estariam se tivessem filmes programados para 2011. Claquete te convida a descobrir quem são os dez cineastas mais festejados em Cannes.




10 – Abbas Kiarostami


O iraniano é uma das grandes referências do cinema do oriente médio em Cannes. Já venceu a Palma de ouro uma vez, pelo filme Gosto de cereja (1997), e concorreu ao prêmio outras três oportunidades, com os filmes Através das oliveiras (1994), Dez (2002) e Cópia fiel (2010). Desde que surgiu na riviera francesa, em 1994, sempre esteve lá com algum lançamento. Se não estivesse em competição, integrava a mostra Um certo olhar ou a quinzena dos realizadores. O único trabalho não exibido em Cannes foi O vento nos levará (1999) que, selecionado para o festival de Veneza, valeu o leão de ouro a Kiarostami.


9 – David Lynch

E Cannes adora um americano. Não à toa eles são maioria aqui nessa lista e também no acumulado de vitórias no festival. David Lynch mimetiza, em parte, o que o festival aprecia no cinema de autor (teoria cravada pelos franceses a partir da observação do cinema americano). Lynch já venceu a Palma de ouro, em 1988 pelo filme Coração selvagem e voltou outras três vezes a croisette. Em 1992 com Twin Peaks: os últimos dias de Laura Palmer; em 1999 com História real e em 2001 com Cidade dos sonhos, quando ganhou o prêmio de direção.


8 – Emir Kusturica

O sérvio, nascido na antiga Iugoslávia, é outro favorito do festival. Com cinco passagens por Cannes, Kusturica já venceu como diretor, levou o prêmio do júri e a Palma de ouro - essa por duas vezes. A primeira vitória veio logo na estréia em Cannes com Quando papai saiu em viagem de negócios (1985), apenas seu segundo longa metragem. Vida cigana (1988), seu terceiro longa, lhe valeu o prêmio de diretor. Voltou a competir em Cannes com seu quinto filme, após ter sido premiado em Berlim com o quarto filme (Um sonho americano), e voltou a ganhar a Palma de ouro com Mentiras de guerra (1995).
Na última década, o sérvio voltou à disputa pela Palma em duas oportunidades. Em 2004 levou o prêmio do júri por A vida é um milagre e em 2007 saiu milagrosamente sem nenhum prêmio por Zavet.



7 - Irmãos Dardenne

Os belgas são crias do festival. Premiados com a Palma de ouro em seu filme de estréia Rosetta (1999), a exemplo do que ocorre com outros cineastas dessa lista, todo trabalho da dupla debuta em Cannes. Eles voltariam a triunfar na disputa com A criança (2005). Em 2002 levaram o prêmio do júri por Le fils e em 2007 ficaram com a Palma de roteiro por O silêncio de Lorna. Em 2011 voltam à disputa com The kid with the bike. Importante frisar que, até o momento, não saíram da riviera francesa sem algum prêmio.



6 – Michael Haneke

O austríaco, naturalizado alemão, é dos cineastas mais premiados e festejados do mundo. Com cinco participações em Cannes, a exemplo de Kusturica, Lynch, Tarantino e Kiarostami, também já presidiu o júri no festival. A primeira vez que integrou o festival chocou a crítica com Violência gratuita (1997). Quando retornou a croisette faturou o prêmio ecumênico do júri por Código desconhecido (2000). Desde então, além de não deixar de exibir seus filmes no festival, saiu premiado de todas as edições que disputou. A terceira participação lhe valeu o grande prêmio do júri por A professora de piano (2001). Em 2005 estupefou crítica e júri com Cachê e, além do prêmio de melhor diretor, levou pela segunda vez o prêmio ecumênico do júri (até hoje é o único cineasta que detém essa façanha). Em 2009 viria a grande conquista. Haneke conquistou, de forma inquestionável em uma das melhores disputas dos últimos anos, a Palma de ouro por A fita branca.



5 – Nanni Moretti

O italiano participará do festival pela sexta vez em 2011. Dos que integram esse Top 10 é dos mais longevos. Debutou na riviera francesa em 1978 com Ecce bomb (filme inédito no Brasil), mas foi em 1994 – em sua segunda participação – que foi premiado pela primeira vez. Por Caro diário recebeu o prêmio de melhor diretor. Quatro anos mais tarde voltaria a competição pela Palma de ouro com Abril. A conquista do prêmio máximo viria em 2001 pelo arrebatador O quarto do filho. Em 2004 Moretti recebeu um prêmio especial em homenagem a sua carreira, denominado Golden Coach. Mas não era o ponto final. Disputou a Palma em 2006 com O crocodilo, ótima crítica ao governo Silvio Berlusconi, e retorna este ano com Habemus papam.



4 – Pedro Almodóvar

Cannes foi o último dos grandes festivais a descobrir o cinema do diretor espanhol. Mas quando o fez, não quis mais saber de dividi-lo com Veneza e Berlim. Tanto o é, que o organizador do festival, Thierry Fremaux, pôs a lista do evento em suspensão até ter garantias de que Almodóvar terminaria de editar seu filme para exibi-los na croisette.
A pele que eu habito marcará a quarta participação do diretor no festival francês. Apesar de já ter sido premiado em Cannes, é o único da lista que não recebeu uma Palma de ouro. Em 1999, na sua primeira incursão na riviera francesa, faturou os prêmios ecumênico do júri e de direção por Tudo sobre minha mãe. Voltou a ser premiado, em sua segunda passagem, pelo roteiro de Volver. Em 2009 competiu com Abraços partidos.



3- Lars Von Trier

O diretor dinamarquês, auto intitulado o melhor cineasta do mundo, é daquelas figuras que remetem a Cannes. Em 2011 vai para sua nona participação no festival. Sempre apoteótico nas declarações, Von Trier agrada pelo experimentalismo de seu cinema e por uma postura de afronte ante as convenções. Há quem enxergue nele uma falácia, há quem o perceba como um gênio irresoluto. Melancholia, o filme que exibirá no festival desse ano, pode dar sequência ao viés polarizante do diretor na croisette. Desde que foi multipremiado por Europa (prêmio do júri, de contribuição artística e de conquista técnica) em 1991, todos os seus lançamentos ocorrem em Cannes. Antes de Europa ele havia exibido, sem grande repercussão Elemento de um crime (1984). Antes de ganhar a Palma de ouro, em 2000, por Dançando no escuro, o dinamarquês exibiu em Cannes Ondas do destino (1996) e Os idiotas (1998). Depois da Palma foi a vez da interrompida trilogia sobre a América com Dogville (2003) e Manderlay (2005). Em 2009 voltou a causar frisson com Anticristo.



2 – Gus Van Sant

O americano é outro que, embora descoberto tardiamente por Cannes (Berlim o saudava desde os tempos de Drugstore cowboy) caiu no gosto do festival. Ao ponto de protagonizar um ineditismo: Palma de ouro e prêmio de direção em uma mesma edição. Ocorreu em 2003 com o inesperado Elefante, uma dramatização sobre a tragédia da escola ginasial de Columbine. E o olhar aos jovens dispensado por Sant é o seu passe para Cannes. Retornou a disputa em 2005 com Últimos dias, uma “homenagem” ao roqueiro trágico Kurt Cobain e protagonizaria novo marco ao ganhar o prêmio especial da 60ª edição com Paranoid park.


1- Quentin Tarantino

Cria de festivais, seu primeiro filme Cães de aluguel brilhou em Sundance; pode-se dizer se a concepção de Quentin foi em Sundance, o parto foi em Cannes com Pulp Fiction –tempos de violência. A estréia na França alvoroçou o mundo do cinema e a Palma de ouro conquistada colocava aquele maníaco de locadoras como referência na linguagem cinematográfica moderna. Esteve presente em todas as edições do festival dali em diante. Fora de competição com o primeiro Kill Bill e Jackie Brown (que disputou o urso de ouro em Berlim) e em competição com À prova de morte (2007) e Bastardos inglórios (2009).
Tarantino é o mais cinematográfico de todos os diretores da lista. É quem melhor veste o personagem criado para si e faz de suas passagens por Cannes, digamos, um filme de Tarantino.

sábado, 7 de maio de 2011

Grandes Vencedores da Palma de Ouro: De Martin Scorsese, Taxi Driver

Esse talvez seja o filme pelo qual Martin Scorsese será lembrado.Talvez não. Seguramente foi esse filme, e sua consagração em Cannes, que ajudaram a fazer de Scorsese e Taxi Driver referências no cinema moderno.
O filme que coloca um veterano do Vietnã surtando nas ruas de Nova Iorque e autentica uma linguagem mais trepidante e crua de retratar a violência nos cinemas foi um achado artístico que alvoroçou a riviera francesa. O cinema independente americano efervescia e vivia dias de glória com gente como Scorsese, Lumet, De Palma e Coppola. Cannes viu e deu voz a todos eles, mas nenhum marcaria mais do que a saga da loucura perpetrada por Scorsese, De Niro e o roteirista Paul Schrader com Nova Iorque como perímetro.



A competição


O que esperar de um júri presidido pelo famoso dramaturgo americano Tennessee Williams com uma seleção de concorrentes que reunia Alan Parker, Carlos Saura, Eric Rohmer, Wim Wenders e Roman Polanski? A vitória do novato Martin Scorsese seguramente não seria uma opção considerada antes do festival. Com apenas três filmes no currículo, Taxi driver valeu a primeira incursão do cineasta em um festival de cinema estrangeiro. Naquele ano de 1976, fora de competição outros cineastas notórios aportariam em Cannes como Paolo Pasolini (Apartamento para uma Oréstia africana), Ingmar Bergman (Face to face), Alfred Hitchcock (Trama macabra), Bernardo bertolucci (1900) e Gene Kelly (Hollywood... Hollywood). O fato de Scorsese ter eclipsado todos eles diz muito sobre Cannes e sobre esse que é um dos maiores diretores de todos os tempos.


Além da Palma

Indicado a quatro Oscars (filme, trilha sonora, ator para Robert De Niro e atriz coadjuvante para Jodie Foster); Indicado a seis Baftas (filme, direção, montagem, ator, trilha sonora e atriz coadjuvante); Indicado ao Director Guild Awards; Indicado a dois Globos de ouro (Filme drama e ator drama);


Curiosidades


- É considerado pelo AFI um dos 25 filmes americanos mais importantes de todos os tempos
- A revista Time o elegeu como o filme mais injustiçado da história do cinema em eleição realizada em 1999
- A longa história de injustiça da Academia de Hollywood para com Scorsese começara com esse filme. Embora Taxi driver tenha sido indicado para melhor fita do ano, Scorsese foi excluído da lista dos diretores.
- É a estréia de Jodie Foster no cinema. A atriz tinha 12 anos à época
- A famosa fala de Robert De Niro em frente a um espelho (“Are you talking to me?”) é fruto de um improviso do ator
- Dustin Hoffman, Jeff Bridges e Harvey Keitel foram atores considerados para interpretar Travis Bickle (o personagem principal).
- Scorsese, em entrevista nos anos 90, disse rejeitar o rótulo de autor de Taxi driver. Para ele, esse título deveria ser concedido ao roteirista Paul Schrader que desenvolveu o roteiro em cinco dias.



*Durante o mês de maio a seção Cantinho do DVD cederá espaço ao especial Grandes Vencedores da Palma de Ouro

sábado, 16 de abril de 2011

"Saúde do mercado de cinema"

Vai ter Nicolas Sarkozy e sua patroa, a primeira dama Carla Bruni. Vai ter Jack Sparrow e Sean Penn em dose dupla. Penélope Cruz também aparecerá. Assim como os diretores mais importantes de sua carreira: Pedro Almodóvar e Woody Allen. O melhor cineasta do mundo também exibirá seu novo trabalho. O dinamarquês Lars Von Trier, que se autodefiniu o melhor cineasta do planeta, apresentará em Cannes a ficção existencialista Melancholia. Mas não é só. As mulheres vão em peso a croisette. Jodie Foster exibirá o seu Um novo despertar fora de competição. Na briga pela Palma de ouro estará a escocesa Lynne Ransay com We need to talk about Kevin, um filme que acompanha um casal que começa a desconfiar dos instintos de seu filho. John C. Reilly e Tilda Swinton estrelam. Outra diretora em que repousam grandes expectativas é a australiana Julia Leigh. Em sua estréia, ela dirige a também australiana Emily Browning (Suker Punch) em Sleeping beauty. Um filme anunciado como uma mistura de fantasia e realidade. Genérico, mas curioso.

O mundo a seus pés: Com Lars Von Trier na programação, é certo que teremos declarações polêmicas na riviera francesa em 2011



O organizador do Festival de Cannes, Thierry Fremaux ao anunciar os 20 concorrentes a Palma de ouro declarou que a seleção de 2011 é um “testemunho da saúde do mercado cinematográfico”. Segundo Fremaux, a inclusão de cineastas prestigiados como Terence Malick (que exibe o aguardado A árvore da vida, prometido para a edição do ano passado), dos irmãos Dardenne, com The kid with the bike e do italiano Nanni Moretti com Habemus papam, ratificam a posição de pulmão cinematográfico de Cannes.
O evento também abrigará a premiere internacional de Piratas do Caribe: navegando em águas misteriosas, honrando outra tradição recente da riviera francesa: ser palco de grandes lançamentos hollywoodianos. Indiana Jones, Kang Fu Panda, Wall street: o dinheiro nunca dorme e Robin Hood foram alguns dos grandes filmes americanos a terem Cannes como plataforma de lançamento.


Os irmãos Dardenne, duas vezes premiados em Cannes, voltam este ano com The kid with the bike


Idiossincrasias

Carla Bruni talvez desfile sua beleza pela croisette. Já a presença de seu marido, o presidente francês só é certa no documentário de Xavier Durringer (La Conquetê), uma crítica voraz a administração Sarkozy. Sean Penn é outra figura muito querida em Cannes. Em 2010, embora no elenco do concorrente Jogo de poder, Penn não compareceu ao festival por estar envolvido com os esforços humanitários no Haiti. Em 2011, Fremaux, ainda que involuntariamente, conferiu duas razões para o ator americano dar as caras. A primeira é o aguardado A árvore da vida em que Penn protagoniza como um homem que busca sentido para a vida. O segundo é This must be the place, do italiano Paolo Sorrentino (em seu primeiro filme internacional), em que o ex de Madonna aparece de batom, cabelos longos e vive um roqueiro em busca de redenção.
Pedro Almodóvar, segundo relatos de bastidores, não queria exibir seu A pele que eu habito em competição. A edição da fita teria sido apressada e Almodóvar estaria prevendo polêmicas acerca de uma cena indigesta. O thriller de terror que reúne o diretor espanhol a Antônio Banderas, no entanto, é o filme que desperta mais expectativas nesse momento.

Um Almodóvar para incomodar muita gente: A pele que eu habito reúne o diretor e Antônio Banderas duas décadas depois de Ata-me



Outros filmes aguardados e que não entraram no line up de Cannes foram On the road, de Walter Salles, The grand master, de Wong Kar Wai e A dangerous Method, de David Cronenberg. Esses filmes, provavelmente, irão compor a mostra oficial de Veneza em setembro.
Na mostra Um certo olhar, o grande destaque recai sobre o novo drama independente de Gus Vant Sant, Restless. Para o Brasil, o interesse aponta para Trabalhar cansa, longa de Juliana Rojas e Marco Dutra. A dupla já esteve em Cannes antes competindo com curtas metragens.
É inegável que a edição de 2011 parece mais inspirada que a de 2010. Diretores de prestígio, produções comentadas com larga antecedência e uma seleção de personalidades cativante. Cannes pode até não cumprir as expectativas que suscita, mas o júri que será presidido por Robert De Niro terá algumas reticências a preencher.



Competição pela Palma de ouro:

A pele que eu habito, de Pedro Almodóvar
L´Apollonide, de Betrand Bonello
Foot note, de Joseph Cedar
Pater, de Alain Cavalier
The kid with the bike, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
Hearat Shulayin, de Joseph Cedar
La Havre, de Aki Kaurismäki
Hanezu no Tsuki, de Naomi Kawase
Sleeping beauty, de Julie Leigh
Polisse, de Maiwenn
La source des femmes, de Radu Mihaileanu
Ichimei, de Takashi Miike
Habemus papam, de Nani Moretti
We need to talk about Kevin, de Lynne Ramsay
Michael, de Markus Schleinzer
This must be the place, de Paolo Sorrentino
Melancholia, de Lars Von Trier
Drive, de Nicolas Winding Refn
Once upon a time in a Annapolia, de Nuri Bilgen Ceylan
A árvore da vida, de Terence Malick

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Repercutindo Cannes 2010

O triunfo tailandês, além de imprevisto, soou indisgesto na crítica internacional


E nesta segunda-feira a imprensa mundial pôs-se a repercutir o resultado de Cannes 2010. A crítica, mais perplexa, ainda procura se situar e entender o sentido por trás de uma premiação totalmente imprevisível e revestida de critérios discutíveis, uma vez que o filme vencedor não despertou o menor interesse de grande parte da crítica.
Essa afirmação não implica que a fita tailandesa seja ruim, apenas relativiza sua qualidade. Lung Boonmee Raluek chat, diferentemente de longas como Outrage e Poetry, que despertaram reações difusas, mas enfáticas da crítica, não superou a pecha de banal. Teve pouco destaque na imprensa internacional e não provocou o menor otimismo da crítica. Muito pelo contrário, as reações diversas ao filme só surgiram depois da confirmação da vitória. A Folha de São Paulo, que garantiu uma das melhores coberturas do festival na imprensa brasileira, escreveu nesta segunda que Cannes privilegiou um cinema mais autoral em detrimento de uma lógica mais industrializada. De certa forma, comungou com o pensamento do presidente do júri. Burton justificou a Palma de ouro para Lung Boonmee Raluek chat da seguinte maneira: “O mundo está ficando menor, e os filmes estão ficando mais ocidentalizados ou hollywoodizados. Para mim, este foi um filme que eu senti que estava assistindo de outro país, de outra perspectiva”. No entanto, é inescapável a clara conotação política que o prêmio carrega. A Tailândia atravessa grave crise institucional e o país está às vésperas de uma guerra civil, a visibilidade que a Palma de ouro acarreta, portanto, é importantíssima para dar voz aos dramas do país na imprensa internacional.

Amalric recolhe sua Palma pela direção de Tournée, ao lado de integrantes do elenco de seu filme: imprensa francesa foi a mais feroz, apesar de três prêmios entregues a franceses


Contudo, no geral, o prêmio para o filme tailandês não foi bem recebido. Especialmente na Europa. O jornal francês Le Figaro destacou em manchete “Palma do tédio”, para o diário francês, a vitória do filme tailandês no festival reflete uma “esquizofrenia criativa” de Cannes. Já o Le Monde foi mais diplomático. Lembrou que os franceses foram bem contemplados com as vitórias de Juliette Binoche e do diretor Mathieu Amalric, além do grande prêmio do júri para Des hommes et dieux. Contudo, o jornal lembra que a vitória da fita tailandesa deixa clara a inferioridade da seleção desse ano em comparação aos anos anteriores, em especial 2009. A imprensa italiana também destacou a vitória tailandesa de forma negativa. O jornal Corriere della sera vaticinou: “ Imperdoável!” Para o diário, não é compreensível a vitória tailandesa com filmes consideravelmente mais fortes em disputa. “Another year e Biutiful são produções mais encorpadas”, sublinhou o jornal.

Javier Bardem foi uma das poucas certezas da noite: o espanhol (na foto ao lado do Elio Germano com quem dividiu o prêmio) fez declaração de amor a sua namorada, Penelope Cruz

A Variety classificou a vitória de Lung Boonmee Raluek chat como “surpreendente”. Diferentemente da maior parte da crítica americana, preferiu não polemizar. E qualificou a fita tailandesa como boa, embora com a ressalva: “Mas, talvez, não merecesse o principal prêmio.”

domingo, 23 de maio de 2010

Cannes updated # Final Cut

A volta por cima dos asiáticos
Como previsto desde o início, a Palma de ouro foi para um filme asiático. Lung Boonmee Raluek Chat, de Apichatpong Weerasethakul, levou a Palma de ouro neste domingo. Apesar do agito da crítica em torno de filmes como o ucraniano My joy e o inglês Antoher year, a Palma acabou ficando com a produção tailandesa que mostra um homem a beira da morte em contato com os espíritos de pessoas que já morreram.
Outro asiático também levou um prêmio de grande ressonância, o sul coreano Poetry, que foi taxado pela critica como “normal e aborrecido” ficou com o prêmio de roteiro.

A dor mais doída
Aos favoritos que ficaram sem nada, resta o consolo da aclamação crítica em um festival marcado pela obviedade. “Não tiveram grandes filmes”, escreveu a Variety que elegeu os novos de Inãrritu, Loach e alguns destaques da mostra Um certo olhar como os principais filmes da edição. Aos favoritos da crítica, em que figuravam Loach, Iñarritu, Leigh e o ucraniano Loznitsa, resta o consolo de serem os favoritos da crítica, já que saíram de mãos abanando. Com exceção de Inãrritu que viu seu protagonista, Javier Bardem dividir o prêmio de atuação masculina com Elio Germano, de La nostra vitta, considerado um dos piores filmes pela crítica.

Até que Claquete foi bem
Dos sete prêmios em que arriscou palpite, o blog acertou três. Tendo em vista que o favoritismo foi posto de lado e que candidatos que nem mesmo receberam atenção da mídia especializada sagraram-se vencedores, o blog mandou bem.

A primeira impressão é a que fica
Tournée foi o primeiro filme na disputa pela Palma de ouro a ser exibido e não despertou nenhum entusiasmo. O filme de Amalric não era apontado para nenhum prêmio pelos entendidos de Cannes. Mas os entendidos pouco entendem, e o diretor (em seu quarto filme) faturou a Palma de direção. Desbancando algumas figuras que muitos creem mereciam mais.

Um prêmio com a cara de Burton
Todo mundo diz que o presidente do júri exerce uma grande influência, para não dizer que é ele quem decide, na hora de escolher o vencedor da Palma de ouro. Quem não lembra da polêmica vitória do documentarista Michael Moore com Fahrenheit 11 de setembro no júri presidido pelo cineasta Quentin Tarantino em ano de eleição americana? O que dizer de um filme tailandês que aborda um homem que fala com espíritos como forma de abrandar o medo da morte em um júri presidido pelo incomum Tim Burton que já trouxe ao mundo pérolas como Edward mãos de tesoura e Noiva cadáver. É possível dizer que esta teoria é mais provável do que pensa nossa vã filosofia.

O francês obrigatório
E como não podia deixar de ser um filme francês saiu premiado da riviera francesa. O filme Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois, levou o grande prêmio do júri, que é uma espécie de segundo lugar no festival. Diferentemente do grande vencedor, algum prêmio para Beauvois já era antecipado pelos entendedores de Cannes.

A quase zebra
O italiano Elio Germano bem que tentou, mas o máximo de zebra no campo das atuações foi a divisão do troféu de melhor ator entre ele e o espanhol Javier Bardem. Entre as mulheres, a francesa Juliette Binoche ficou com a Palma de ouro de melhor atriz pelo filme Copie conforme.


Sem mais rodeios, os vencedores da 63º festival de Cannes

Palma de Ouro

Lung Boonmee Raluek Chat, de Apichatpong Weerasethakul

Ator

Javier Bardem de Biutiful e Elio Germano de La Nostra Vita

Atriz

Juliette Binoche de Copie Conforme

Direção

Mathieu Amalric por Tournée

Roteiro

Lee Chang-Dong por Poetry

Curta-metragem

Un Chienne d'Histoire, de Serge Avedikian

Camera d'Or

Año Bisiesto

Prêmio do júri

Un Homme qui Crie, de Mahamat-Saleh Haroun

Grande Prêmio do júri

Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois