Mostrando postagens com marcador Steve McQueen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Steve McQueen. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de março de 2014

Oscar Watch 2014 - A peleja dos diretores

Ao mestre com carinho

Trapaça não é uma cópia do cinema de Martin Scorsese, mas cristaliza um tributo dos mais respeitáveis a esse mestre da sétima arte. Quis o destino que David O. Russell, diretor de recursos e talentos nada desprezíveis, enfrentasse Scorsese neste Oscar.  Excepcional diretor de atores, Russell tem a seu favor a simpatia crescente que amealha nos bastidores de Hollywood. Aos poucos vai se transformando em uma brand tão atraente e charmosa quanto o próprio Scorsese.

Prós:
- É diretor de atores celebrado e são justamente os atores que constituem o maior colegiado da academia
-É a terceira indicação em quatro anos. Russell não está sendo nada discreto na busca pelo Oscar
- Seu filme é entretenimento de altíssima qualidade e é também seu projeto mais ambicioso
- Conseguiu emplacar indicações por duas comédias em dois anos seguidos. Como não premiar esse cara?

Contras:
- Ao concorrer com um filme que lembra Scorsese em um ano que o próprio concorre não é exatamente o ideal
-Não ganhou nenhum prêmio na temporada e é improvável que vença justamente o Oscar
-Existe muita resistência a seu nome ainda em Hollywood

Quinta indicação
Indicações anteriores
Direção por O vencedor em 2011
Roteiro adaptado por O lado bom da vida em 2013
Direção por O lado bom da vida em 2013
Roteiro original por Trapaça em 2014


Sem concessões

Steve McQueen é homônimo de um dos maiores astros de cinema de todos os tempos. Mas o cinema, para ele, é uma extensão das experimentações artísticas que praticava nas artes plásticas. Artista inquieto, McQueen chega ao Oscar com seu terceiro filme, mas já merecia desde o primeiro, mantendo-se fiel à essência das artes plásticas. Seus filmes se respaldam na absoluta busca pela verdade. Não à toa, 12 anos de escravidão já está sendo chamado por aí de “o filme definitivo sobre escravidão”.

Prós:
- Defende o filme que para muitos analistas vencerá o Oscar de melhor filme. Se a Academia optar por ser tradicional e decidir não dividir o prêmio de direção, seu nome ganha força na disputa
- A tentação de fazer história premiando o primeiro negro na categoria
- É um filme de diretor, em que a mão do realizador se acentua no curso da narrativa
- Diretores em primeira indicação costumam superar diretores que já ostentam múltiplas indicações
- Ganhou alguns prêmios da crítica

Contras:
- Seu filme perdeu força na corrida e isso pode pesar contra suas chances
-A pecha de que a indicação já é suficiente
- Não é o melhor trabalho de direção do ano

Primeira indicação

Desafiando a gravidade

Se tudo correr conforme o script que a temporada alinhou, Alfonso Cuarón será o primeiro latino americano premiado com o Oscar de direção. Diretor com atenção ímpar ao aspecto visual de um filme, ele chegou ao Oscar como favorito por uma ficção científica passada no espaço cujos principais méritos são técnicos e passou a perna em figuras queridas pela Academia como Scorsese, Payne e Russell. São indicadores de que Cuarón realmente pode ir ainda muito mais longe.

Prós:
- Ganhou todos os prêmios da temporada
- Seu filme passou a ser cotado como favorito na disputa principal em face de seu domínio entre os diretores em toda e qualquer premiação prévia ao Oscar
-Há muitos hispânicos nos EUA e não pense que a Academia, além de atenta a isso, não reflete esse fenômeno demográfico
- É talentosíssimo e muito querido pelos colegas
- Ganhou o prêmio do sindicato e apenas sete vezes nos últimos 40 anos, o vencedor do sindicato não triunfou no Oscar

Contras:
- O fato da academia ter premiado um diretor por um trabalho em 3D no ano passado pode atiçar a sina conservadora de alguns votantes
- Sua direção se concentra mais nos aspectos técnicos, pouco complexa para o status de um Oscar de melhor direção

Sexta indicação
Melhor roteiro original por E sua mãe também em 2003
Melhor edição por Filhos da esperança em 2007
Melhor roteiro adaptado por Filhos da Esperança em 2007
Melhor edição por Gravidade em 2014
Melhor filme por Gravidade em 2014

O cineasta do banal

Não se engane, não há nada de banal no cinema de Alexander Payne. Angariando sua terceira indicação ao Oscar de diretor em dez anos, justamente pelos três filmes que fez nestes dez anos, Payne concorre por Nebraska. Seu trabalho é menos vistoso na comparação com filmes que ostentam o pulso forte de seus diretores, mas a suavidade com que inflexiona personagens e paisagens justifica sua menção na categoria.

Prós:
- Não concorre pelo roteiro do filme, diferentemente de outras oportunidades, o que concentra suas chances aqui
- É muito querido pela Academia
- Foi a surpresa na lista
- É o representante do cinema independente

Contras:
- Foi a surpresa na lista
- Não ganhou nenhum prêmio na temporada
- A pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- Dirige um filme minimalista em um ano de filmes espetaculosos
- Não é o melhor trabalho de direção do ano

Sétima indicação
Roteiro adaptado por Eleição em 2000
Roteiro adaptado por Sideways-entre umas e outras em 2005
Direção por Sideways-entre umas e outras em 2005
Roteiro adaptado por Os descendentes em 2012
Direção por Os descendentes em 2012
Filme por Os descendentes em 2012
Duas vitórias
Roteiro adaptado por Sideways-entre umas e outras (2005)
Roteiro adaptado por Os descendentes (2012)


What else?

Quando você pensa que Martin Scorsese já encerrou sua contribuição para a antologia do cinema, ele oferta ao mundo o novo clássico O lobo de WallStreet, um trabalho vigoroso e que revela um Scorsese endiabrado e ainda muito eficiente em radiografar o mundo e o homem. É, sem qualquer dúvida, o melhor trabalho de direção do ano e um dos melhores da carreira do cineasta que há muito já é uma legenda viva não só do cinema, mas da arte em geral.

Prós:
- É o melhor trabalho de direção do ano
- Com indicações sucessivas nos últimos anos, Scorsese parece ter caído definitivamente nas graças da Academia
- Todo mundo sabe que Scorsese precisa de mais Oscars para a posteridade
- Ang Lee venceu o Oscar de direção ano passado sete anos depois de tê-lo vencido pela primeira vez. Em 2014, faz sete anos que Scorsese venceu por Os infiltrados. Pode ser uma coisa cabalística...

Contras:
- Não é comum na era moderna um diretor ganhar um segundo Oscar em tão pouco tempo
- Essa é uma categoria em que há a nítida preferência em premiar diretores menos experimentados
- Alfonso Cuarón tem um favoritismo muito dilatado
-A campanha de difamação do qual o filme foi vítima pode encontrar eco em muitos votantes

Décima segunda indicação
Direção por Touro indomável em 1981
Direção por A última tentação de Cristo em 1989
Roteiro adaptado por Os bons companheiros em 1991
Direção por Os bons companheiros em 1991
Roteiro adaptado por A época da inocência em 1994
Direção por Gangues de Nova Iorque em 2003
Direção por O aviador em 2005
Direção por Os infiltrados em 2007
Direção por A invenção de Hugo Cabret em 2012
Filme por A invenção de Hugo Cabret em 2012
Filme por O lobo de Wall Street em 2014
Vitória anterior: 
Direção por Os infiltrados (2007)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Momento Claquete #37

Reminiscências do Globo de ouro 2014

Kevin Spacey e Julia Roberts no after-party: o seu sorriso é maior do que o meu... 

Michael Douglas no melhor estilo que rei sou eu... 

Christoph Waltz e Bruce Dern: vamos acabar logo com isso? 

O diretor de 12 anos de escravidão, Steve McQueen ergue um caloroso "é nosso" para delírio contido de Michael Fassbender 

Robin Wright se esforçando para conquistar o melhor WTF moment da internet...

 ... mas antes das festas, antes de tudo, Jennifer Lawrence já tinha garantido esse prêmio também.

Todas amam Harvey: falta bochechas ao megaprodutor para ser beijada por Heidi Klum e suas amigas

Bradley Cooper e Liev Schreiber não ligam para as câmeras enquanto fazem aquilo que os homens mais gostam de fazer: fofocar

Julia Louis-Dreyfus em momento "fã pegajosa" com Martin Scorsese

O melhor diretor Alfonso Cuarón: olha a gravidade, ó...

domingo, 22 de setembro de 2013

Insight - O Oscar dos negros

O diretor Steve McQueen, o segundo da direita para a esquerda, e o elenco de um dos pré-candidatos ao Oscar, 12 years a slave

O Oscar de 2002, que consagrou Denzel Washington e Halle Berry como os melhores atores do ano (no caso de Berry, ela foi a primeira atriz negra a triunfar na categoria principal), além de conceder prêmio honorário a Sidney Poitier – o primeiro ator negro a ganhar um Oscar – é conhecido como o Oscar negro. O próximo Oscar, ensaiam os primeiros prognósticos da temporada de ouro do cinema americano, pode reclamar esse estigma para si.
12 years a slave, um filme que versa sobre a escravidão, mas a partir de um prima completamente renovado – um homem negro livre sequestrado e vendido como escravo, está na dianteira nas casas de apostas. Seu diretor, Steve McQueen, que já merecia indicação por Shame, figura entre as certezas na categoria de direção. O protagonista, Chiwetel Ejiofor é outro dado como carta marcada na disputa por melhor ator. Categoria esta que pode registrar recorde de atores negros em disputa, se confirmadas as boas expectativas em relação a Forest Whitaker, protagonista do dramalhão de Lee Daniels (que foi apenas o segundo diretor negro indicado ao Oscar – em 2010 por Preciosa – uma história de esperança), em O mordomo da Casa Branca. Whitaker ganhou o Oscar de melhor ator em 2007 por O último rei da Escócia tornando-se apenas o quarto negro a triunfar na categoria principal, mas o terceiro em um espaço de cinco anos. O inglês Idris Elba, que vive Nelson Mandela em Mandela: long walk to freedom, é outro nome bem cotado. Assim como Michael B. Jordan que faz o jovem assassinado por policiais em Fruitvale Station, sensação indie da temporada. Se três desses conseguirem emplacar indicações, o recorde já estará consolidado.

Denzel Washington e Halle Berry com seus Oscars conquistados há 11 anos: novo recorde a caminho? 

Oprah Winfrey, que é uma das mais poderosas personalidades americanas, é outra aposta certeira entre as atrizes coadjuvantes pelo filme O mordomo da Casa Branca. Ela já foi indicada na categoria pelo filme A cor púrpura na década de 80

Além de Lee Daniels e Steve McQueen, Spike Lee é outro que pode figurar na lista com seu remake do clássico sul-coreano Oldboy. Mas é uma possibilidade distante. Fato é que até hoje apenas dois negros foram indicados a melhor diretor e neste ano três aparecem com filmes conceituados na praça.  
David Oyelowo (O mordomo da Casa Branca) e Barkhad Abdi, que faz um pirata somali em Captain Phillips, estão entre os nomes aventados para a categoria de ator coadjuvante.
Na equivalente categoria feminina, muitas pretendentes negras também. Oprah Winfrey, por O mordomo da Casa Branca, é o maior destaque. Mas há, ainda, Lupita Nyongo (12 years a slave), Naomie Harris (Mandela: long walk to freedom) e a previamente vencedora na categoria Octavia Spencer por Fruitvale Station.
É muito improvável que todos esses pleiteantes garantam vaga entre os finalistas, mas o número de concorrentes bem direcionados é um convite à academia a demolir, de uma vez por todas, a injusta máxima de que é segregacionista.  

Idris Elba caracterizado como Nelson Mandela: depois de render indicação a Morgan Freeman em 2010, personagem pode valer primeira indicação ao Oscar para o ator britânico 

domingo, 25 de março de 2012

Insight

Vamos falar de sexo?


Com Shame em cartaz, parece irresistível falar sobre sexo no cinema. A fita de Steve McQueen demonstra o suplício cotidiano de um homem viciado em sexo, mas vai além: enfoca a solidão contemporânea e a volatilidade das relações interpessoais em tempos como os que vivemos. O tema da fita inglesa premiada no último festival de Veneza, ainda que não seja essencialmente uma novidade, é abordado de maneira corajosa, sem amarras e com forte propulsão sensorial. Mais do que qualquer coisa, McQueen parece interessado em envolver, de maneira provocativa, seu espectador no debate que propõe. Nesse sentido, Shame se diferencia de produções como o francês Para poucos, exibido recentemente nos cinemas paulistanos e que deve chegar em DVD ainda no primeiro semestre. Embora a fita francesa de Antony Cordier apresente uma discussão tão profunda a respeito do sexo e se valha da mesma liberdade praticada por McQueen com seu filme, não há o interesse de colocar o espectador no centro de debate. É, antes de qualquer coisa, uma opção estética e deve ser respeitada. Em Shame, as escolhas de McQueen se provam muito felizes.

Os quatro protagonistas de Para poucos, cuja crítica pode ser lida aqui: dois casais começam a se namorar e, aos poucos, vão descobrindo novos limites para relacionamentos e sexo


Closer-perto demais, por exemplo, recorre a uma lógica teatral para falar de sexo. Há muita verborragia e nenhum sexo em um filme que se permite ser cru, cruel, sensual, excitante, dramático, conflitante e, por vezes, áspero. Mike Nichols confia nos atores e em um texto absolutamente maravilhoso para construir o painel que objetiva. Até mesmo por sua procedência nas artes plásticas, é compreensível que McQueen avance em termos de linguagem na dialética narrativa que almeja com Shame. Sam Mendes, nesse contexto, foi mais conservador na linguagem, mas não no discurso em Beleza americana. O sexo é o principal catalisador para as mudanças que acometem os personagens. As frustrações dos personagens estão ligadas intimamente às respectivas vidas sexuais. O principal motor da radical mudança sofrida pelo protagonista tem a ver com o desejo latente pela amiga de sua filha. A hipocrisia é o alvo de Mendes e, para ele e para o roteirista Alan Ball, não há como falar de hipocrisia sem mirar no sexo.

Natalie Portman e Clive Owen em cena de Closer-perto demais, eleito o melhor filme da década passada pelo blog: um filme que aborda as sombras de toda e qualquer relação amorosa e não se vale de subterfúgios para fazê-lo


Personagens trágicos: Lester (Kevin Spacey), de Beleza americana, e Brandon (Michael Fassbender), de Shame, têm no sexo catalisadores de angústias e insatisfação; ainda que lidem com sexo de maneira totalmente diferente

Os quatro filmes citados constituem um espelho interessante sobre como o sexo é abordado tematicamente no cinema, e, também, sobre as possibilidades estéticas e discursivas disponíveis para tal.
Desde O último tango em Paris, um filme idealizado para falar da nossa relação com o sexo não era tão significativo. São 40 anos entre o filme protagonizado por Marlon Brando e Maria Schneider e Shame. E os 40 anos podem ser sentidos. Confrontando os dois filmes é possível percebê-los candidamente como retratos de suas respectivas eras. Não obstante, compartilham de algumas particularidades. Se o filme de Bertolucci foi proibido em muitos países, inclusive no Brasil, à época de seu lançamento, Shame foi banido nos EUA das salas de cinema da rede Cinemark que o considerou “pornográfico e abaixo do nível de qualidade exigido pela rede”. Coincidentemente, ou não, o filme não integra a programação da rede no Brasil.
O diretor Steve McQueen, que fez campanha assídua para que Michael Fassbender fosse indicado ao Oscar, provocou dizendo que a esnobada se deu em razão dos “americanos temerem o sexo”. Talvez seja verdade. Muito provavelmente é um exagero da parte de McQueen. De qualquer maneira, passa por Shame a mudança desse panorama. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Repercutindo Shame

Claquete, na expectativa de aprofundar a experiência cinematográfica que é Shame, propõe um debate acerca do filme em si e daquilo que ele oferece em matéria de cinema e reflexão



O título de Shame, filme que vem colecionando prêmios e polêmicas mundo afora, é resultado de uma pesquisa feita pelo diretor, roteirista e artista plástico Steve McQueen com viciados em sexo como parte da preparação para seu filme – cuja ideia havia sido apresentada a Michael Fassbender durante as filmagens de Hunger (2008).
Shame, como se poderia supor de um filme que se propõe a falar de sexo e a mostrá-lo despudoradamente no cinema, não é unanimidade. “Shame trafega entre a pornografia e a melancolia com requinte visual”, escreveu Luciano Ramos na crítica que fez do filme para o site Pipoca Moderna. “O filme não procura fazer julgamentos morais e nem fornecer explicações psicanalíticas. Apenas descreve o modo como isso (o vício em sexo) impede que o personagem seja minimamente feliz”, argumenta Ramos em seu texto. O crítico identificou referências a Michelangelo Antonioni na obra e a clássicos do cinema como O último tango em Paris e Noite vazia. Para Ramos, Shame é, antes de tudo, um exercício de estilo: “(McQueen) constrói determinadas cenas de sexo com extremo requinte de iluminação, câmara e montagem. Ou seja, aquilo que para o viciado é desonra e degradação, ao diretor serve de pretexto para exibir o seu virtuosismo audiovisual.”
O Crítico do Estado de São Paulo, Luiz Zanin não vê por essa óptica. O crítico opta por emoldurar o viés político de Shame. “Pela possibilidade de ter tudo, de adquirir tudo, do último gadget ao corpo de quem bem entende, tudo e todos, no fundo, perdem seu valor. Nessa relação histérica com a vida, quanto mais o personagem se satisfaz mais insatisfeito fica. É o grande paradoxo da sociedade desenvolvida, o seu grande vazio, afinal de contas. Shame é filme político, sim senhor”.
Percepção semelhante ostenta a versão nacional da revista Rolling Stone que, na crítica assinada por Érico Fuks, avaliza o olhar de Zanin: “Ao abrir mão do erotismo e intensificar o aspecto psicológico depressivo dos personagens, o diretor traz à luz outra questão. Enquanto o discurso das potências vende uma sociedade cada vez mais conectada, o filme destrói esse paradigma e traz um cenário de pessoas isoladas em sua apatia e suas obsessões. A retratação deste universo pós-moderno, em que o toca-discos de vinil convive ao lado de um notebook, reitera que, diante de uma sobrecarga de informações que incentivam o hedonismo, nunca o mundo passou por tanta falta de identidade”.

"O filme traz um cenário de pessoas isoladas em suas apatias e obsessões", escreveu a revista Rolling Stone brasileira


Mas há quem perceba em Shame um exercício desprovido de maior fundamentação crítica. A prestigiada crítica de cinema Isabela Boscov, da revista Veja, enxerga uma ode fetichista do cineasta a seu ator principal o que, segundo ela, daria nova dimensão até mesmo ao primeiro filme da dupla. A crítica do Jornal do Brasil não chega a ser tão reticente ao filme, mas o percebe sob os mesmo signos. “A montagem de Shame  usa os truques disponíveis no mercado para deixar o espectador microscópico diante das peripécias sexuais de seu protagonista. Estamos ali, parados à porta do quarto, enquanto ele faz sexo selvagem diante da janela, ou sentados à cabeceira da cama, vendo uma prostituta cara se despir ao seu comando. Estamos também nos cantos escuros de uma boate gay e nos balcões dos bares de Nova Iorque, mexendo com a mulher alheia e apanhando junto com o personagem.
O final exasperante deixa o protagonista de joelhos, só e perdido. É uma espécie de vingança do roteiro de Steve McQueen e Abi Morgan. Todo aquele gozo e toda aquela luxúria inevitavelmente cobrariam seu preço, um alto e impagável”.
Esse moralismo aludido pela crítica do Jornal do Brasil não é verificado pelo crítico Cássio Starling Carlos que refuta o argumento aventado pelo texto do Jornal do Brasil: “O tema da compulsão poderia gerar um enésimo tratado moralista sobre o consumismo, a perda do sentimento amoroso, a superficialidade dos vínculos ou a liberdade forçada como último efeito de uma revolução sexual que deu numa plenitude de experiências não raro associadas à sensação de vazio. São questões sugeridas desde o título (vergonha, em português) até o desenho da culpa e do sofrimento seguido pelo roteiro de McQueen e da dramaturga Abi Morgan. Porém, tal como em Hunger, o aprisionamento emerge como uma camada mais profunda do que a ideologia puritana, refletida nas interpretações psicológicas que Shame pode gerar”. O crítico da Folha continua: “Em vez de justificar ou condenar moralmente seu personagem, as escolhas plásticas de McQueen trazem à tona o sentimento de estar preso”.

A estética do sexo: as corajosas opções estéticas de McQueen para seu filme são justamente reconhecidas pela crítica em sua maioria


O crítico do O Globo, Rodrigo Fonseca, endossa a atenção de Cássio Starling Carlos à estética de Shame: “Cada flerte é fotografado por Sean Bobbitt com o máximo de detalhismo, para que o espectador capte cada gesto de tensão de Brandon em sua tentativa de não deixar que o instinto atropele seu autocontrole. Na escolha das cores, sempre esmaecidas, e na direção de arte que valoriza lençóis amassados e suados, McQueen traduz as contradições de seu Werther antirromântico”. Fonseca finaliza: “ a estetização do corpo parece ter alcançado a lapidação plena em Shame”.
Shame é capaz de provocar reações tão adversas e polarizantes quanto a matéria prima da qual se apropria. É, independentemente do juízo que se faça dele, um filme que torna impossível lhe ser indiferente.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Crítica - Shame

Orgasmo infeliz

Shame (Ingl 2011) apresenta dois personagens auto-destrutivos. Brandon (Michael Fassbender) é um executivo nova-iorquino bem sucedido e viciado em sexo. Sua rotina dedicada exclusivamente à luxúria carnal é interrompida pela chegada da irmã Sissy (Carey Mulligan) que apresenta um outro tipo de promiscuidade que está diretamente relacionada à dependência afetiva e emocional que ela sinaliza. O interessante é que esses personagens, ainda que tenham dificuldade em tomar ciência dos próprios demônios, diagnosticam o outro com alguma desenvoltura.
Steve McQueen realiza um filme com tantos predicados que diagnósticos parecem supérfluos em uma fita que busca, primeiro, salientar as possibilidades nauseantes do excesso de liberdade e, segundo, mas inerente a este contexto, tratar o sexo como vício e compulsão com um enfoque que jamais lhe foi dado.
Brandon é um homem bem sucedido, mas incapaz de se conectar. Aparentemente à vontade com essa condição pós-moderna, e a ambientação em Nova Iorque ganha sentido estupendo nesse aspecto, à medida que o filme avança Brandon vai ganhando consciência de que é prisioneiro de sua liberdade.
McQueen é muito feliz no registro que faz do vício de Brandon. O diretor “deserotiza” sua mise-en-scène e busca dar vivacidade à “fome” de Brandon ao flagrar pedaços de corpos e transformar as cenas de sexo em movimentos mecanizados e sem muita graça. A fotografia saturada, por vezes escura, também inibe alguma sensualidade que pudesse erigir.
Engana-se, porém, quem pensa que McQueen cede ao moralismo. Ele desvia-se teimosamente dele. A cena final, inclusive, demonstra isso. Depois de percorrer um doloroso pathos, Brandon é confrontado novamente com a “droga” que tanto lhe consome e somos negados a qualquer indicação de como reagirá após sua recém-adquirida consciência do mal que lhe acomete.

Brandon, vivido soberbamente por Michael Fassbender, em raro momento de vulnerabilidade em Shame


Antes desse final, testemunhamos Brandon ter uma “overdose”. Sua necessidade pelo orgasmo é tanta que ele até mesmo cede à experimentação homossexual em um clube gay, flerta perigosamente com a namorada de um valentão e faz sexo com duas profissionais. O momento em que atinge o gozo é, também, aquele em que se evidencia o suplício de sua existência. A face de Fassbender se transfigura na imagem da tristeza de tal forma que é impossível não se sentir atordoado com tamanha angústia.
Shame é um filme que depende muito de seus atores. Como se constrói sobre aquilo que eles podem sugerir, através de sentimentos retidos, e mostrar, através de corpos expostos, a força do filme reside na capacidade de seus protagonistas em articular personagens tão desarticulados.
Desse ponto de vista, a nudez de Fassbander, ator que se permite ser contemplado até mesmo urinando, é providencial para o sentido que Shame objetiva construir. O mesmo pode se dizer da primeira vez que Carey Mulligan surge em cena, nua. Era necessário para pavimentar a natureza da relação conturbada e de intimidade fragmentada entre Brandon e sua irmã.
McQueen é hábil ao expor seu protagonista, o que para alguns pode ser tomado como fetiche. Desde sua ansiedade inescrupulosa – que pode ser vista no olhar penetrante que dispensa à paqueras em geral - ou na falta de tato com uma mulher que inadvertidamente lhe desperta algum interesse; e como essa inadequação afetará sua virilidade, para que depois ele a recupere em mais um desmando de sexo sem intimidade, pelo orgasmo puro e simples.
É inegável que Michael Fassbender, mais do que o sustentáculo de Shame, é sua alma. Ator incrivelmente charmoso e sensual, ele precisa dar vida a um homem não muito charmoso – ainda que se vista maravilhosamente bem – e que exiba fragilidade e virilidade em sintonia perceptível. Só não é um desafio maior do que dar viço ao caos emocional de Brandon ou despir-se por completo em frente a câmeras curiosas de sua intimidade física.
É, enfim, um trabalho robusto que destaca-se pela ousadia, coragem e capacidade de prospecção.
Shame, em última instância, é um filme que busca provocar no público uma reflexão mais ampla do que a mera discussão em torno de como o sexo é percebido moral e socialmente em nosso tempo. Justamente por isso, o filme se nega a desvendar o passado potencialmente traumático dos dois personagens centrais e teorizar sobre seus efeitos no presente deles. Essa ruptura com o modus operandi vigente na dramaturgia em geral, demonstra que McQueen está plenamente consciente dos efeitos de seu filme. Passa por essa condição, a opção de não oferecer a sua audiência um desfecho convencional.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Filme em destaque - Shame

Quebrando alguns tabus
 Michael Fassbender vive um homem viciado em sexo no segundo longa-metragem de Steve McQueen e entrega a atuação mais elogiada de sua promissora carreira. Mas Shame, além de oferecer o ator em pêlo, tem outros objetivos e Claquete os apresenta


Rodou Hollywood nos idos de janeiro e fevereiro a ‘pratical joke’ de que Michael Fassbender ficou de fora dos finalistas da disputa pelo Oscar de melhor ator em virtude do tamanho de seu pênis, que aparece em Shame – filme no qual interpreta um executivo viciado em sexo e com sérios problemas de relacionamento. O diretor Steve McQueen, em entrevista a um programa de tv americano, ofereceu uma análise menos brincalhona e mais incendiária: “Michael não foi indicado porque os americanos temem o sexo”. Ele não disse que há hipocrisia. Não falou em moralismo e nem em puritanismo. Falou em medo mesmo.
Shame acompanha um homem que não consegue desenvolver nenhum tipo de relação em sua vida que não tenha como meta sexo. “Mas não é um filme sobre prazer sexual”, acrescentou Michael Fassbender em entrevista à revista Total Film. “É um filme sobre nosso tempo”, defendeu o New York Times à época da premiere do filme no festival de Veneza 2011, de onde saiu com o Leão de ouro de ator para Fassbender.
McQueen, que além de cineasta é artista plástico, disse em Veneza que Shame é um filme tão político quanto seu elogiado drama de estreia (Hunger) – também estrelado por Michael Fassbender. “Aquele era sobre uma prisão na Irlanda do Norte, esse é sobre como a liberdade de alguém pode aprisioná-lo e ele precisa de um vício para atenuar uma dor”.
O crítico de cinema Pablo Villaça desenvolve raciocínio intercambiável com a explanação de McQueen: “se a expressão ‘viciado em sexo’ parece estranha, já que normalmente não pensamos em dependência quando lidamos com algo que soa tão natural e prazeroso, é porque muitas vezes nos esquecemos de que esta é precisamente a natureza do vício: transformar o prazer em obsessão”. Para o principal crítico do portal Cinema em Cena, Shame é um filme muito bem urdido por seu diretor que apresenta um personagem “que parece experimentar um misto de dor e tristeza ao buscar mais um orgasmo”.
McQueen orienta Carey Mulligan e Fassbender: a atriz
disse, em uma conflituosa descrição, que o diretor foi
"cruel" e "generoso" com ela

Shame é um minucioso retrato de nosso tempo”, estipulou o jornal San Francisco Chronicle em sua resenha do filme. A busca por uma conexão real, de fato, parece estar em pauta no cinema. De filmes como Drive até Os descendentes, a questão é colocada em camadas e tonalidades diversas, mas o que Shame propõe é uma reflexão muito mais profunda e interiorizada.
Há muito sexo em Shame, mas McQueen optou por não erotizar as imagens. “Brandon (Fassbender) não é um mulherengo”, argumenta o diretor. “Seria uma forma de distrair o público do foco do filme”. McQueen acrescenta que escolheu a cidade de Nova Iorque como cenário do filme (Shame, vale lembrar, é uma produção britânica) por ser a big apple a capital do mundo. “Além do fato de todo mundo ser um pouco solitário em Nova Iorque”, apontou em entrevista à GQ americana, deixando transparecer que Shame também fala sobre solidão. “São novas compulsões as que a internet estabeleceu”, filosofou em Veneza.
Sexo, vício, política, solidão, internet... Shame reúne muitos tabus sob seu jugo. Quebrá-los todos de uma vez, como teorizou McQueen ao comentar a esnobada de Fassbender pela academia, é um desafio inquebrantável.