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domingo, 25 de março de 2012

Insight

Vamos falar de sexo?


Com Shame em cartaz, parece irresistível falar sobre sexo no cinema. A fita de Steve McQueen demonstra o suplício cotidiano de um homem viciado em sexo, mas vai além: enfoca a solidão contemporânea e a volatilidade das relações interpessoais em tempos como os que vivemos. O tema da fita inglesa premiada no último festival de Veneza, ainda que não seja essencialmente uma novidade, é abordado de maneira corajosa, sem amarras e com forte propulsão sensorial. Mais do que qualquer coisa, McQueen parece interessado em envolver, de maneira provocativa, seu espectador no debate que propõe. Nesse sentido, Shame se diferencia de produções como o francês Para poucos, exibido recentemente nos cinemas paulistanos e que deve chegar em DVD ainda no primeiro semestre. Embora a fita francesa de Antony Cordier apresente uma discussão tão profunda a respeito do sexo e se valha da mesma liberdade praticada por McQueen com seu filme, não há o interesse de colocar o espectador no centro de debate. É, antes de qualquer coisa, uma opção estética e deve ser respeitada. Em Shame, as escolhas de McQueen se provam muito felizes.

Os quatro protagonistas de Para poucos, cuja crítica pode ser lida aqui: dois casais começam a se namorar e, aos poucos, vão descobrindo novos limites para relacionamentos e sexo


Closer-perto demais, por exemplo, recorre a uma lógica teatral para falar de sexo. Há muita verborragia e nenhum sexo em um filme que se permite ser cru, cruel, sensual, excitante, dramático, conflitante e, por vezes, áspero. Mike Nichols confia nos atores e em um texto absolutamente maravilhoso para construir o painel que objetiva. Até mesmo por sua procedência nas artes plásticas, é compreensível que McQueen avance em termos de linguagem na dialética narrativa que almeja com Shame. Sam Mendes, nesse contexto, foi mais conservador na linguagem, mas não no discurso em Beleza americana. O sexo é o principal catalisador para as mudanças que acometem os personagens. As frustrações dos personagens estão ligadas intimamente às respectivas vidas sexuais. O principal motor da radical mudança sofrida pelo protagonista tem a ver com o desejo latente pela amiga de sua filha. A hipocrisia é o alvo de Mendes e, para ele e para o roteirista Alan Ball, não há como falar de hipocrisia sem mirar no sexo.

Natalie Portman e Clive Owen em cena de Closer-perto demais, eleito o melhor filme da década passada pelo blog: um filme que aborda as sombras de toda e qualquer relação amorosa e não se vale de subterfúgios para fazê-lo


Personagens trágicos: Lester (Kevin Spacey), de Beleza americana, e Brandon (Michael Fassbender), de Shame, têm no sexo catalisadores de angústias e insatisfação; ainda que lidem com sexo de maneira totalmente diferente

Os quatro filmes citados constituem um espelho interessante sobre como o sexo é abordado tematicamente no cinema, e, também, sobre as possibilidades estéticas e discursivas disponíveis para tal.
Desde O último tango em Paris, um filme idealizado para falar da nossa relação com o sexo não era tão significativo. São 40 anos entre o filme protagonizado por Marlon Brando e Maria Schneider e Shame. E os 40 anos podem ser sentidos. Confrontando os dois filmes é possível percebê-los candidamente como retratos de suas respectivas eras. Não obstante, compartilham de algumas particularidades. Se o filme de Bertolucci foi proibido em muitos países, inclusive no Brasil, à época de seu lançamento, Shame foi banido nos EUA das salas de cinema da rede Cinemark que o considerou “pornográfico e abaixo do nível de qualidade exigido pela rede”. Coincidentemente, ou não, o filme não integra a programação da rede no Brasil.
O diretor Steve McQueen, que fez campanha assídua para que Michael Fassbender fosse indicado ao Oscar, provocou dizendo que a esnobada se deu em razão dos “americanos temerem o sexo”. Talvez seja verdade. Muito provavelmente é um exagero da parte de McQueen. De qualquer maneira, passa por Shame a mudança desse panorama. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Filmografia comentada: Sam Mendes



O american way of life enquadrado
Beleza americana (1999)

Foi um súbito nocaute. Beleza americana é o expoente máximo de um ano dos mais produtivos em Hollywood. Foram três surpresas no campo da direção naquele ano. Os irmãos Wachowski com Matrix, Spike Jonze com Quero ser John Malkovich e Sam Mendes com este filme. O Oscar ficou com Mendes. Isso porque ele desconstruiu mais do que uma família, o conceito que define a família americana. Pelo menos aquela mais comum. Mais suburbana. Beleza americana apresenta personagens eloquentes em suas idiossincrasias que constituem um painel riquíssimo de culto à hipocrisia. O mais interessante desse painel é como Mendes lhe dá forma. Com préstimo do humor negro na concepção de uma mise-en-scène obtusa, imprevisível e profundamente dramática.
O sonho americano nunca foi tão frívolo no flerte com o imponderável. A narrativa poderosa não deixa espaço para dúvidas: nunca o cinema enquadrou tão bem a falência de uma instituição.



Paternidade mafiosa
Estrada para perdição (2002)

O segundo filme de Sam Mendes, naturalmente, provocou doses cavalares de ansiedade. Quando foi anunciado que Tom Hanks e Paul Newman o estrelariam como mafiosos, esse interesse disparou vorazmente.
Mas Estrada para perdição não é um filme de máfia convencional. Antes de ser uma parábola sobre o mundo do crime, é um drama sobre paternidade e autoconhecimento.
Mendes não descuida da atmosfera criminosa, mas faz de seu filme um poderoso drama sobre um homem em busca de intimidade com seu filho.
Com perfeição técnica e desenvoltura narrativa, Estrada para perdição pode não ser exatamente o material que esperavam do diretor de Beleza americana, mas é um filme com alma que captura um homem em conflito com sua natureza. Um dissídio que reverbera no público com profundo impacto.




Guerra mental
Soldado anônimo (2005)

O fantasma da segunda guerra do Iraque já assombrava mesmo com o conflito ainda em andamento. Sam Mendes revisitou a primeira invasão americana naquele país e enquadrou a “primeira guerra tecnológica” com uma perspectiva inusitada. A partir da visão dos jarheads - soldados comuns. Pior do que a guerra é a expectativa pela guerra. Um conceito que Stanley Kubrick já havia dado forma em Nascido para matar (1987) e sobre o qual Mendes aplica novas cores. Um drama pesado e ruidoso que não pretende investigar as rachaduras de uma guerra no ideário de um país, mas escancarar as feridas irreversíveis de um conflito opaco e mais intuído do que visto nos envolvidos.
Mendes prova aqui ser um diretor de inegável senso crítico e salutar interesse cinematográfico. Sua terceira incursão no cinema americano novamente lhe renderia afagos da crítica e participação em premiações.



Infelicidade em estado bruto
Foi apenas um sonho (2008)

Esta fita não deixa de ser uma revisitação aquele universo que tão bem encaminhou Mendes no cinema. Ambientado na América dos anos 50, Foi apenas um sonho demole as fachadas da classe média americana de uma maneira muito mais brutal do que ocorre em Beleza americana. A infelicidade dos personagens, a inadequação de seus sonhos e a falência de suas vocações não são suavizadas pela ironia da realização. Não há subterfúgios narrativos aqui. Tudo é mais chocante, mais premente na construção pessimista de Sam Mendes. A direção é firme e encantadora no sentido de aprumar desvios morais como tentativas desesperadas de alcançar algum significado para a existência. Um filme soberbo na análise que faz da condição humana.

Sam Mendes orienta Leonardo DiCaprio e Kate Winslet no set de Foi apenas um sonho: seu filme mais cruel e bem resolvido



Uma trip em nós mesmos
Por uma vida melhor (2009)

O humor volta a servir como ferramenta para Mendes encapsular a classe média americana e seus anseios. Por uma vida melhor traz dois comediantes que não se furtam à vulnerabilidade que Mendes exige deles na construção de outra história de sonhos e desejos em colisão. O clima é muito mais leve do que os de Beleza americana e Foi apenas um sonho. Até mesmo a ambientação é mais light, contudo, a solução enraizada no cinema de Mendes – ainda que tocada por algum otimismo – não é muito diferente daquela que o diretor apresentou em 1999. Manter-se saudável emocional e psicologicamente em um mundo como o que vivemos, exorta Mendes, é uma tarefa que exige certa dose de cinismo, humor e muito companheirismo.