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sábado, 1 de março de 2014

Oscar Watch 2014 - A peleja dos diretores

Ao mestre com carinho

Trapaça não é uma cópia do cinema de Martin Scorsese, mas cristaliza um tributo dos mais respeitáveis a esse mestre da sétima arte. Quis o destino que David O. Russell, diretor de recursos e talentos nada desprezíveis, enfrentasse Scorsese neste Oscar.  Excepcional diretor de atores, Russell tem a seu favor a simpatia crescente que amealha nos bastidores de Hollywood. Aos poucos vai se transformando em uma brand tão atraente e charmosa quanto o próprio Scorsese.

Prós:
- É diretor de atores celebrado e são justamente os atores que constituem o maior colegiado da academia
-É a terceira indicação em quatro anos. Russell não está sendo nada discreto na busca pelo Oscar
- Seu filme é entretenimento de altíssima qualidade e é também seu projeto mais ambicioso
- Conseguiu emplacar indicações por duas comédias em dois anos seguidos. Como não premiar esse cara?

Contras:
- Ao concorrer com um filme que lembra Scorsese em um ano que o próprio concorre não é exatamente o ideal
-Não ganhou nenhum prêmio na temporada e é improvável que vença justamente o Oscar
-Existe muita resistência a seu nome ainda em Hollywood

Quinta indicação
Indicações anteriores
Direção por O vencedor em 2011
Roteiro adaptado por O lado bom da vida em 2013
Direção por O lado bom da vida em 2013
Roteiro original por Trapaça em 2014


Sem concessões

Steve McQueen é homônimo de um dos maiores astros de cinema de todos os tempos. Mas o cinema, para ele, é uma extensão das experimentações artísticas que praticava nas artes plásticas. Artista inquieto, McQueen chega ao Oscar com seu terceiro filme, mas já merecia desde o primeiro, mantendo-se fiel à essência das artes plásticas. Seus filmes se respaldam na absoluta busca pela verdade. Não à toa, 12 anos de escravidão já está sendo chamado por aí de “o filme definitivo sobre escravidão”.

Prós:
- Defende o filme que para muitos analistas vencerá o Oscar de melhor filme. Se a Academia optar por ser tradicional e decidir não dividir o prêmio de direção, seu nome ganha força na disputa
- A tentação de fazer história premiando o primeiro negro na categoria
- É um filme de diretor, em que a mão do realizador se acentua no curso da narrativa
- Diretores em primeira indicação costumam superar diretores que já ostentam múltiplas indicações
- Ganhou alguns prêmios da crítica

Contras:
- Seu filme perdeu força na corrida e isso pode pesar contra suas chances
-A pecha de que a indicação já é suficiente
- Não é o melhor trabalho de direção do ano

Primeira indicação

Desafiando a gravidade

Se tudo correr conforme o script que a temporada alinhou, Alfonso Cuarón será o primeiro latino americano premiado com o Oscar de direção. Diretor com atenção ímpar ao aspecto visual de um filme, ele chegou ao Oscar como favorito por uma ficção científica passada no espaço cujos principais méritos são técnicos e passou a perna em figuras queridas pela Academia como Scorsese, Payne e Russell. São indicadores de que Cuarón realmente pode ir ainda muito mais longe.

Prós:
- Ganhou todos os prêmios da temporada
- Seu filme passou a ser cotado como favorito na disputa principal em face de seu domínio entre os diretores em toda e qualquer premiação prévia ao Oscar
-Há muitos hispânicos nos EUA e não pense que a Academia, além de atenta a isso, não reflete esse fenômeno demográfico
- É talentosíssimo e muito querido pelos colegas
- Ganhou o prêmio do sindicato e apenas sete vezes nos últimos 40 anos, o vencedor do sindicato não triunfou no Oscar

Contras:
- O fato da academia ter premiado um diretor por um trabalho em 3D no ano passado pode atiçar a sina conservadora de alguns votantes
- Sua direção se concentra mais nos aspectos técnicos, pouco complexa para o status de um Oscar de melhor direção

Sexta indicação
Melhor roteiro original por E sua mãe também em 2003
Melhor edição por Filhos da esperança em 2007
Melhor roteiro adaptado por Filhos da Esperança em 2007
Melhor edição por Gravidade em 2014
Melhor filme por Gravidade em 2014

O cineasta do banal

Não se engane, não há nada de banal no cinema de Alexander Payne. Angariando sua terceira indicação ao Oscar de diretor em dez anos, justamente pelos três filmes que fez nestes dez anos, Payne concorre por Nebraska. Seu trabalho é menos vistoso na comparação com filmes que ostentam o pulso forte de seus diretores, mas a suavidade com que inflexiona personagens e paisagens justifica sua menção na categoria.

Prós:
- Não concorre pelo roteiro do filme, diferentemente de outras oportunidades, o que concentra suas chances aqui
- É muito querido pela Academia
- Foi a surpresa na lista
- É o representante do cinema independente

Contras:
- Foi a surpresa na lista
- Não ganhou nenhum prêmio na temporada
- A pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- Dirige um filme minimalista em um ano de filmes espetaculosos
- Não é o melhor trabalho de direção do ano

Sétima indicação
Roteiro adaptado por Eleição em 2000
Roteiro adaptado por Sideways-entre umas e outras em 2005
Direção por Sideways-entre umas e outras em 2005
Roteiro adaptado por Os descendentes em 2012
Direção por Os descendentes em 2012
Filme por Os descendentes em 2012
Duas vitórias
Roteiro adaptado por Sideways-entre umas e outras (2005)
Roteiro adaptado por Os descendentes (2012)


What else?

Quando você pensa que Martin Scorsese já encerrou sua contribuição para a antologia do cinema, ele oferta ao mundo o novo clássico O lobo de WallStreet, um trabalho vigoroso e que revela um Scorsese endiabrado e ainda muito eficiente em radiografar o mundo e o homem. É, sem qualquer dúvida, o melhor trabalho de direção do ano e um dos melhores da carreira do cineasta que há muito já é uma legenda viva não só do cinema, mas da arte em geral.

Prós:
- É o melhor trabalho de direção do ano
- Com indicações sucessivas nos últimos anos, Scorsese parece ter caído definitivamente nas graças da Academia
- Todo mundo sabe que Scorsese precisa de mais Oscars para a posteridade
- Ang Lee venceu o Oscar de direção ano passado sete anos depois de tê-lo vencido pela primeira vez. Em 2014, faz sete anos que Scorsese venceu por Os infiltrados. Pode ser uma coisa cabalística...

Contras:
- Não é comum na era moderna um diretor ganhar um segundo Oscar em tão pouco tempo
- Essa é uma categoria em que há a nítida preferência em premiar diretores menos experimentados
- Alfonso Cuarón tem um favoritismo muito dilatado
-A campanha de difamação do qual o filme foi vítima pode encontrar eco em muitos votantes

Décima segunda indicação
Direção por Touro indomável em 1981
Direção por A última tentação de Cristo em 1989
Roteiro adaptado por Os bons companheiros em 1991
Direção por Os bons companheiros em 1991
Roteiro adaptado por A época da inocência em 1994
Direção por Gangues de Nova Iorque em 2003
Direção por O aviador em 2005
Direção por Os infiltrados em 2007
Direção por A invenção de Hugo Cabret em 2012
Filme por A invenção de Hugo Cabret em 2012
Filme por O lobo de Wall Street em 2014
Vitória anterior: 
Direção por Os infiltrados (2007)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Oscar Watch 2014 - Quais as reais chances de Gravidade no Oscar?



Quando o filme de Alfonso Cuarón estreou, parecia que havia sido lançado o melhor filme de todos os tempos. O que o tempo tem de impiedoso, tem de justo também e pouco mais de dois meses depois de seu lançamento, Gravidade é avaliado dentro de uma perspectiva mais adequada. Não é o favorito absoluto na corrida pelo Oscar, mas é certeza entre os indicados a melhor filme (como não poderia ser diferente em uma corrida com possibilidade de até dez filmes indicados). Seu diretor, Alfonso Cuarón, é outro nome certo entre os diretores, mas a vitória na categoria não é aventada por quase nenhum analista na indústria.  Com uma bilheteria superior a U$ 500 milhões, a maior das carreiras de todos os envolvidos (incluindo George Clooney e Sandra Bullock), Gravidade é inegavelmente um feito cinematográfico notável do ponto de vista do estreitamento entre ferramentas tecnológicas e ambição narrativa. Mas isso vale Oscar? O endosso do público ao maravilhamento proporcionado pelo cineasta mexicano comoverá a Academia para além dos prêmios técnicos? Quais, afinal, são as chances do filme na noite de 2 de março?
É histórica a resistência da Academia ao gênero de ficção científica. Houve aqueles que conseguiram superar esse estigma, mas Gravidade não tem a seu favor revolução narrativa ou insuspeito arrojo estético. Nesse contexto, se assemelha mais a produções como Matrix (1999) e Parque dos dinossauros (1993) do que 2001: uma odisseia no espaço (1968) e Blade runner- o caçador de androides (1982).  O mero avanço técnico não caracteriza, nos padrões estabelecidos pela Academia, matéria digna de premiações mais nobres – na vulga definição que damos – no Oscar. Portanto, ainda que haja clima notoriamente favorável às indicações para Gravidade nas categorias de filme, direção, atriz e montagem, é muito pouco provável que o filme prevaleça em qualquer uma dessas categorias. Em montagem ainda há um pouco mais de chances, mas elas se concentram mesmo nas divisões de som, edição de som, efeitos especiais (a maior baba entre todas as babas) e fotografia – categoria em que os votantes tem se deixado mesmerizar pelo alcance da fotografia digital, grande força do filme de Cuarón.
O que não é exatamente má notícia. As últimas corridas pelo Oscar têm sido bastante disputadas e tudo indica que essa tendência deva ser potencializada em 2014. Gravidade, portanto, pode repetir As aventuras de Pi e ganhar mais Oscars do que o vencedor de melhor filme. Não é um cenário provável nessa altura da corrida, mas é mais admissível do que apostar na vitória de Gravidade nas categorias de filme e direção.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Especial Gravidade - Repercutindo o filme

Gravidade está tendo um desempenho comercial superior ao esperado por estúdio e analistas da indústria. A consagração crítica, embora esperada, está sendo bem mais ampla e elogiosa do que muitos criam. Gravidade é um filme que será repercutido com certa insistência nos próximos meses, até porque dificilmente não figurará entre os players do próximo Oscar, e merece a teimosia. “Acredite! Nada me fará mais feliz em ver outro filme que chegue a este nível, técnico e emocional. Mas não temos tanta sorte assim…”, finalizou o jornalista e crítico de cinema Robert Sadovski em seu blog hospedado no portal Uol tentando dimensionar uma sensação que muita gente que respira cinema está tendo com o novo filme de Alfonso Cuarón. “O que eu mais gostei no filme foi exatamente a sua simplicidade. Não tem vilão, inimigo no espaço. Apenas a banalidade da existência”, disse o jornalista e comentarista do programa Manhattan Connection, Pedro Andrade.
Amanda Aouad, mestre em comunicação e cultura contemporânea e responsável pelo blog CinePipocaCult, observa em sua crítica que Gravidade faz por merecer os eufemismos e adjetivos elogiosos por valorizar “essa construção detalhada, que nos deixa juntos, à deriva  com a personagem de Bullock”.

Cuarón lá: dificilmente o mexicano não será um dos cinco diretores indicados ao Oscar no próximo ano

“As imagens do espaço, do planeta Terra e toda a ambientação ali é bem realizada. A fotografia impressiona e ambientação é cuidadosa, desde o detalhe da gravidade em si que coloca até as lágrimas para voarem como bolinhas de água pelo espaço, até construções mais poéticas como o Sol nascendo por trás da Terra, ou o planeta refletido no capacete dos astronautas”, continua Aouad. Para ela, a euforia com Gravidade se justifica pelo fato do filme demonstrar ser fruto de planejamento, algo raro no cinema atual.
Sadovski pontua outros pontos fortes da fita de Cuarón. “É emocionante, é denso, tem muito mais camadas do que aparenta, é um filme de arte sobre solidão e sobrevivência, é um filme de ação sobre solidão e sobrevivência. Vai contra as expectativas. E salta acima delas como uma obra prima do cinema moderno”.
A.O Scott, principal crítico do The New York Times, põe mais lenha na fogueira. “Você tem que ver, para acreditar! A conquista técnica supera os feitos alcançados com filmes como Avatar e A invenção de Hugo Cabret”. O crítico do The New York Times, no entanto, faz ressalvas quanto ao roteiro – com algumas gorduras e clichês – mas admite que eles não ferem de morte o coração do filme. O Boston Globe assinala que “depois de Gravidade parece que não há nada que Cuarón não possa fazer”.
A grande diferença entre Avatar e Gravidade, dois filmes banais na essência e complexos na forma e no desenvolvimento, é que Cuarón soube trabalhar o aspecto imersivo da tecnologia em um grau de detalhamento e aprofundamento que escapou a James Cameron. Estética e narrativa jamais foram tão complementares em um filme desde que David Lynch deu as caras no cinema de arte. A diferença é que Cuarón ainda teve o mérito de fazer dessa arte, dessa ode ao banal, algo de imenso apelo comercial.


sábado, 12 de outubro de 2013

Especial Gravidade - crítica

Fazendo cinema "cinematográfico"

De tira o fôlego! Obra- prima! Revolução cinematográfica! O melhor filme do ano! São todas interjeições conhecidas e válidas depois de se assistir Gravidade (Gravity, EUA 2013), o filme que o mexicano Alfonso Cuarón fez para ser visto e apreciado no cinema.
Com um espetacular plano sequência de aproximadamente 15 minutos, o diretor diz a que veio logo no início. Gravidade pretende ser um daqueles “game changers” que o cinema nem sempre cerimoniosamente recebe de tempos em tempos. O apuro técnico do filme assombra, mas o que assombra mais é como Cuarón não permite que todo esse sobejamento estético se sobreponha à narrativa que desenvolve. A estética se funde à narrativa de maneira inédita no cinema. A experiência de imersão em Gravidade é algo novo e encantador. É o mais perto que 99% de todos nós ficaremos do espaço. Mas não é só! Gravidade valoriza um estudo primoroso sobre solidão. O espaço, nesse aspecto, jamais havia sido tão bem aproveitado no cinema. A agonia de estar à deriva na imensidão sideral é outro aporte desse cinema sensorial emulado por Cuarón em imagens belíssimas, plano arrebatadores e enquadramentos inovadores.

Beleza e agonia: nenhum filme transportou o espectador para fora da sala de cinema em 2013 como Gravidade, em que Clooney e Bullock brilham atuando nos limites da tecnologia sem serem eclipsados por ela

Não há interesse em investigar os personagens Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalski (George Clooney), os astronautas à deriva no espaço depois que destroços de um satélite atingem a Explorer, nave que os levou até lá. Mas há um genuíno interesse da realização em abordar a fé e a vontade de viver e um interesse maior ainda em confrontar esses dois elementos. Nesse sentido, o luto da personagem de Bullock combinada à agonia de estar a esmo no espaço propiciam um sentimento difuso e profundamente alarmante para a audiência, incrementado essa experiência sensorial objetivada por Cuarón com seu filme.
Outro aspecto inerente à estrutura de Gravidade é sua habilidade no trato com símbolos. Da dimensão filosófica que afere à solidão à carga dramática que impõe sobre o renascimento da personagem de Stone, tão sorumbática na Terra (nas palavras da própria personagem) e revigorada no espaço, Gravidade se articula como um filme de incrível objetividade, sem prescindir de um relativo grau de subjetividade – desejável para qualquer filme que ambiciona ser grande.
É preciso fazer um adendo aos atores. George Clooney é o ponto de equilíbrio de Gravidade. Mais do que qualquer coisa, e mais do que ser o alívio cômico do filme de Cuarón, seu personagem é a bússola do personagem de Bullock; desempenhando, portanto, valiosa função narrativa. Clooney empresta seu carisma habitual ao experiente astronauta. Já Bullock atende às demandas físicas e emocionais de uma personagem cheia de nuanças e entrega uma performance ímpar em sua carreira já consolidada. É seguro dizer que a atriz nunca esbanjou tanta confiança como interprete e tanta vulnerabilidade em um personagem.
Por todas essas razões, Gravidade não é apenas um dos grandes momentos do cinema em 2013, mas em toda a sua história. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Especial Gravidade - Quando a simplicidade encontra o complexo


Gravidade tem sido louvado por críticos ao redor do planeta por suas qualidades técnicas para lá de destacáveis. Gente do cinema, gente dos bastidores e gente da mídia têm reagido com perplexidade à beleza visual do filme e à técnica arrojada apresentada por Alfonso Cuarón neste filme que está sendo saudado como um desses divisores de águas que vez ou outra surgem no cinema. Mas Gravidade tem uma peculiaridade que poucos têm dado o devido crédito. São dois atores confinados em um ambiente fechado. No caso, o ambiente fechado é a imensidão do universo.
A ideia de trabalhar um ambiente como um personagem não é nova. Cuarón se exercita nesse terreno pela primeira vez. Roman Polanski já fez isso com um apartamento e com um barco, Michael Haneke recentemente fez o mesmo em Amor. Por sinal, o vencedor da Palma de Ouro apresenta uma lógica narrativa muito parelha a de Gravidade, centrando sua dramaturgia no trabalho de dois atores. Trata-se de um preceito simples do cinema dito tradicional. Em Gravidade, porém, o cineasta mexicano potencializa esses efeitos ao colocar esses atores no espaço. Ainda que seja tudo digital, o que só flexiona ainda mais os parâmetros do cinema do presente.
Cuarón levou quatro anos para fazer Gravidade. Entre pré-produção, gravações e pós-produção. No meio tempo, As aventuras de Pi, fotografado por  Cláudio Miranda, ganhou o Oscar de melhor fotografia e o próprio Ang Lee se tornou o primeiro diretor a ganhar o Oscar de direção por um filme rodado em 3D e majoritariamente composto por efeitos digitais.
O que Cuarón faz em Gravidade é justamente sublinhar o conflito existencial da protagonista vivida por Sandra Bullock no 3D imponente que apresenta a luta pela sobrevivência dela e do astronauta vivido por George Clooney.

A fotografia de Gravidade é de Emmanuel Lubezki, mexicano que é habitual parceiro de Cuarón e que foi indicado ao Oscar recentemente por A árvore da vida. Aqui ele e Cuarón propõem algumas ousadias como o plano de abertura de 13 minutos sem cortes. Um assombro de técnica somente possível com profissionais tão criativos e talentosos. Mas somente possível, também, no atual momento high-tech que vivemos. Difícil imaginar que Stanley Kubrick, outro cineasta de reconhecida e larga criatividade, pudesse tangenciar um take como esse e tantos outros que impressionam em Gravidade. Mas o que mais impressiona no filme, apontam seus entusiastas, é a capacidade do diretor de usar recursos técnicos para levar a plateia à crise existencial da personagem de Sandra Bullock. Como Cuarón funde a imagem do GCI à intimidade física. Esse casamento de um cinema simples com um cinema de grande complexidade, tão rara e tão bem vinda, é o grande precedente de Gravidade, filme que coloca a pulga atrás da orelha de quem faz e consome cinema: para onde vamos agora?

domingo, 13 de setembro de 2009

TOP 10

10 diretores que transitam entre variados gêneros

10- Brett Ratner
O diretor se notabilizou com a trilogia A hora do rush,em que punha o comediante Cris Tucker e o astro chinês Jacke Chan em maus lençóis. A trilogia capitalizou Ratner, que não teve medo de experimentar. O diretor entregou fitas muito bem sucedidas em outros gêneros. Um homem de família, drama estrelado por Nicolas Cage é um bom exemplo. Dragão vermelho, talvez a melhor aparição de Hannibal Lecter depois de O silêncio dos inocentes, também foi cortesia de Ratner. O diretor ainda assumiu a difícil tarefa de substituir Brian Singer a frente do terceiro X-men. O confronto final, dirigido por Ratner, é considerado por muitos o melhor da trilogia. Ratner não é excepcional, mas mantém uma regularidade impressionante. Saí-se bem em qualquer trabalho.

Sou um charme ou não sou?

9- Gus Van Sant
É verdade que Sant não variou tanto assim. Contudo poucos diretores transitam com tamanha habilidade entre o cinema dito comercial e sua vertente independente. Sant vai mais longe. Em suas obras independentes, experimenta como poucos. Filmes como Elefante, Últimos dias e Paranoid Park, pouco têm a ver com filmes como Gênio indomável, Psicose e Garotos perdidos.


Sant: Experimental e sensível

8- Alfonso Cuáron
O mexicano ganhou a pecha, tal qual o dono da posição anterior, de cineasta investigador da adolescência. São seus A princesinha, Harry Potter e o prisioneiro de Askaban e E tua mãe também. Filmes, que a despeito de suas particularidades, retratam essa fase de mudanças e desapegos. Contudo, Cuáron já demonstrou talento ao se enveredar por histórias radicalmente diferentes. Como no romance em tom fabular Grandes esperanças e na ficção apocalíptica Filhos da esperança.
Cuáron no set de Filhos da esperança: Ele é o mexicano mais bem sucedido em Hollywood

7- Mike Newell
O inglês têm seu maior sucesso atribuído a Quatro casamentos e um funeral, até pouco tempo o filme inglês de maior faturamento mundial. Contudo, essa afirmação é fruto de desinformação. Newell, diretor versátil, realizou filmes tão díspares como Harry Potter e o cálice de fogo, Donnie Brasco, O sorriso de Monalisa e Amor nos tempos de Cólera. Sempre com um resultado acima do meramente positivo.




Newell provou-se capaz de dirigir figuras tão diferentes quanto Al Pacino e Daniel Radclife


6- David Fincher
Muitos pensam, erroneamente, que Fincher só sabe realizar filmes sobre serial Killers. Culpa de seu mais retumbante sucesso, Seven. Fincher é muito mais completo do que em um primeiro momento se supõe. Perfeccionista e centralizador, o diretor faz filmes tecnicamente perfeitos. É o caso do recente O curioso caso de Benjamin Button, do polêmico O clube da luta, do incompreendido Zodíaco e do apavorante Aliens 3.

Fincher fazendo pose de sério

5- Mike Nichols
Grande diretor, certamente o dono da carreira mais longeva dentre os listados, Nichols se alterna entre as comédias e os dramas mais robustos. Contudo, nunca se repete. Suas comédias são sempre diferentes. Em estrutura, em narrativa, em ambientação, em discurso. Pegue por exemplo, Uma secretária de futuro e Jogos do poder . Não poderiam ser mais díspares. Ele também já rodou dramas intensos, como Closer e Quem tem medo de Virgínia Wolf?

O diretor ao lado de Tom Hanks no set de Jogos do poder


4- James Mangold
Mangold talvez seja o mais versátil da lista. Já fez comédia romântica de época (Kate & Leopold), westerns ( Os indomáveis), suspenses psicológicos (Identidade) e dramas biográficos (Johnny & June). O diretor sempre realiza um trabalho notável com forte rigor narrativo, mesmo que nunca tenha ingressado no gênero anteriormente.
Mangold tenta explicar sua eficiência

3- Steve Soderbergh
Assim como Gus Van Sant, Soderberg gosta de manter um canal aberto entre o cinema independente e o comercial. Só que Sodebergh é ainda mais arrojado do que Sant nas duas frentes. Por vezes funde os dois gêneros e alcança resultados inesperados. Julia Roberts em um filme independente? Dê uma olhada em Full Frontal. Um filme estreando ao mesmo tempo na TV por assinatura e nos cinemas? Dê uma olhada em Bubble. Elenco estelar em filme divertidíssimo? A trilogia Onze homens e um segredo. Drama oscarizado sobre o mundo das drogas? Traffic – ninguém sai ileso. Sucesso em Cannes? Tem! Conhece Sexo, mentiras e videotape? Filme de gênero? Tem também. Já viu Erin Brockovic? Ah, e têm filme de guerrilha também! As duas partes de Che foram rodadas na marra. Soderbergh é um verdadeiro entusiasta do cinema em toda a sua representatividade.

Te cuida, Spielberg! Quero ser o Steve mais poderoso da cidade!


2- Ridley Scott
O diretor inglês não conhece fracassos. Todas as suas incursões nos variados gêneros cinematográficos foram bem sucedidas. Desde Alien – o oitavo passageiro até Rede de mentiras. Passando por sucessos de público e critica tão diferentes quanto indispensáveis como Gladiador, Blade Runner, Os vigaristas, O gangster, Thelma & Luise e Falcão negro em perigo. Scoot é daqueles diretores que merecem ser estudados em toda a sua plenitude.

Poxa, não fiquei em primeiro...


1- Steven Spielberg
Será que alguém imaginava um número um diferente? O censo comum manda apontar Spielberg como o maior diretor da atualidade. E um dos maiores de todos os tempos. Por que? Certamente não é só pelo seu tino para os negócios. Spielberg é genial em qualquer gênero que se aventure. Eis uma pequena demonstração. Tubarão, E.T, Os caçadores da arca perdida, A lista de Shindler, Parque dos dinossauros, O resgate do Soldado Ryan, A volta do capitão guancho, Munique, Prenda-me se for capaz e Minority Report. Tá bom, ou quer mais?

criador e criatura em momento pop
Fotos: Divulgação

domingo, 16 de agosto de 2009

Top 10

10 diretores internacionais que valem o ingresso

OBS:Clique no título do filme na lista de recomendados para ver o trailer do filme.

10 - Oliver Hirschbiegel (Alemanha)
O diretor alemão chamou a atenção do mundo com o epílogo da vida do mais aterrador e controverso líder da história da Alemanha. A queda -as últimas horas de Hitler concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O diretor, então recrutado por Hollywood enveredou para o cinema de terror, com o remake Os invasores. Os produtores não gostaram de sua abordagem por demais sombria e impuseram uma versão arrematada pelos irmãos Watchoski de Matrix. O filme foi um fracasso e a director´s cut é que salvou o filme em DVD. Agora o diretor finaliza Five minutes from heaven.

Recomendado:
A queda - as últimas horas de Hitler


9- Bernardo Bertolucci (Itália)
Dos poucos diretores a já ter ganho de tudo. Oscar, Veneza, Cannes, Berlim. O diretor já ganhou prêmios de todas as proveniências. E seu cinema se comunica candidamente as mais diferentes platéias. Entre seus principais filmes, o vencedor do Oscar O último imperador (1987), o clássico inconteste O conformista(1970) e aquele que pode ser definido como sua obra prima, o impactante O último tango em Paris (1972).
Avesso a grandiloqüencia, quando cedeu a ela, não obteve grande sucesso como em O pequeno Buda (1993), um arroubo de vaidade, mas quando a evita realiza filmes antológicos e eternos como Assédio(1998) e Prima del rivoluzione (1962) , ainda em inicio de carreira. Seu último trabalho foi o fetichista e auto emulante Os sonhadores (2003), filme envolvente e que rememora o exercício de erotismo que fascinou meio mundo em O último tango em Paris.

Recomendados:
O último tango em Paris
Assédio
Beleza roubada
O conformista


8- Philippe Garrel (França)
Diretor de longo currículo. É notório em seu trabalho a influência tanto do cinema de autor, endeusado pela Nouvelle Vague francesa, quanto do cinema de recursos e congruência de técnicas como montagem, roteiro e atuação. Garrel ultimamente tem se debruçado sobre o ócio das relações cotidianas. Investigado como as bifurcações do amor nos levam a sandices e negações. Seus trabalhos mais relevantes atualmente são aqueles em que colabora com seu filho o ator Louis Garrel.

Recomendados:
Amantes constantes *
Wild innocence *
A fronteira do alvorada *

7 – François Ozon (França)
Ozon é daqueles diretores que não teme em se experimentar. A verve de seu cinema remete a Hitchcock, de quem é admirador confesso. Contudo, seu cinema em parte, supera o de seu mentor artístico. Ozon demonstra a mesma habilidade na elaboração de um suspense( Swimming pool - À beira da piscina) quanto na sustentação de um drama pesado( O tempo que resta).
Sua intenção, obviamente nunca foi rivalizar com Hitch, ao construir uma galeria tão plural de filmes no entanto, ele excede a vã admiração que nutre por Hitch para se posicionar ao seu lado. São obras eloqüentes de Ozon o suspense com retoques cômicos 8 mulheres em que reúne todo o time de grandes atrizes francesas,Amantes criminais(2000) em que ri, embora não seja uma comédia, das formas em que criminosos entendem o amor e sua forma de se manifestar. E ainda o sublime Sitcom- nossa linda família (1998), sobre como a tragédia vista de longe pode ser engraçada.

Recomendados:
Swimming pool - à beira da piscina
8 mulheres
Angel


6- Michael Haneke (Austria)
O diretor naturalizado alemão acaba de ganhar a Palma de ouro pela segunda vez em cannes por seu novo trabalho, A fita branca. Drama em que investiga as raízes do nazismo em uma Alemanha pré – primeira guerra mundial, o filme deve chegar ao país ainda em 2009, e já é um dos fortes candidatos ao Oscar do próximo ano. O trabalho de Haneke divide opiniões. O diretor faz uso da violência em seus filmes como um recurso estilístico. O que é saudado por uns como despreendimento narrativo e discurso pacifista, é tido por outros como sadismo exacerbado. Fato é que seu Violência gratuita(1997) que ano passado ganhou um remake americano dirigido pelo próprio Haneke escancara uma classe média estática e suscetível ao incomodo que seu filme almejava. Caché(2005) filme francês do diretor que polarizou a atenção por onde quer que tenha passado também mira na classe média e nos preconceitos que nela jazem. Contudo, para muitos seu melhor filme é A professora de piano (2001), também violento, mas uma violência mais psicológica do que explicita. Para Haneke é a violência que melhor explica a condição humana.

Recomendados:
A professora de piano
Violência gratuita


5 -Zhang Yimou (China)
Diretor de extrema técnica, capaz de conduzir sets mínimos como em Tempo de viver (1994) ou grandiosos como em herói (2002). Yimou sabe como produzir belas imagens. Sempre buscando ângulos novos, o diretor recentemente se apaixonou pelo cinema de artes marciais. Mas também ali, encontrou beleza e poesia como em seus trabalhos mais notórios. O clã das adagas voadoras(2004), saga sobre guerreiros assassinos é tão belo e dono de tantas sutilezas quanto Nenhum a menos (1999), sobre professora que perdeu uma aluna. Yimou é hoje quem melhor faz o corpo a corpo entre o cinema do ocidente e do oriente.

Recomedados:
Herói
Nenhum a menos *
Lanternas vermelhas *


4- Domingos de Oliveira ( Brasil)
Ele não tem os prêmios que outros cineastas da lista tem. Mas a filmografia do diretor brasileiro é tão sólida quanto a de qualquer um na lista. Longe da ferverção da critica e do público, Oliveira tem a liberdade para criar e seguir suas obsessões. Os relacionamentos, conjugais principalmente, são a pedra filosofal de sua obra. Separações(2005), Deliciosas traições do amor (1973) e Juventude(2008) montam um painel bastante fiel da obra do diretor. Contudo há outros grandes momentos como feminices(2005) e seu mais recente filme todo mundo tem problemas sexuais (2009).

Recomendados:
Juventude
Feminices *
Todo mundo tem problemas sexuais *


3- Costa – Gravas (Grécia)
O diretor, também naturalizado alemão, ficou conhecido como cineasta da esquerda. Seu cinema é politico, mas o diretor admitiu recentemente em entrevista não entender o porque de ser definido como esquerdista. Z(1969) e Estado de Sítio(1973) são tidos como perolas da esquerda no cinema, mas foi o júri presidido por Costa – Gravas quem deu a Tropa de Elite, considerado um filme fascista pela Vanity fair, o urso de ouro em Berlim ano passado. Uma demonstração do quão desajustadas podem ser as convicções em torno de uma obra. Fato é que os melhores filmes de Costa – Gravas são mais recentes. O americano O quarto poder (1997), sobre a força que a imprensa representa, o francês O corte (2005), um curioso olhar sobre os desdobramentos do desemprego e o alemão Amém (2002), em que relativiza a função soberana da igreja.

Recomendados:
O quarto poder
O corte
Amém
Z

2- Alfonso Cuarón ( México)
Diretor de grande esmero visual. Cuarón também é conhecido por ser um competente interlocutor da fase mais alvoroçada de nossas vida. A adolescência. Foi seu trabalho em E sua mãe também(2001), filme mexicano sobre os pormenores de crescer, que lhe valeu o carimbo para dirigir o terceiro filme de Harry Potter, O prisioneiro de Askaban(2004). São dele também o romance com toques de fantasia Grandes esperanças(1998) e o thriller futurista Filhos da esperança (2006).

Recomendados:
Filhos da esperança
E sua mãe também
Grandes esperanças


1- Ang Lee (Taiwan)
Não há cineasta no mundo hoje que consiga imprimir sutilezas em temas tão espinhosos com a habilidade de Ang Lee. O diretor que já arranjou problemas com a censura chinesa e ganhou um Oscar por um filme sobre amor homossexual, construiu uma filmografia robusta e interessante. Com trabalhos nos EUA em que desafia a lógica comercial, o desvalorizado Hulk(2003) e o pouco visto Tempestade de Gelo (1998) e trabalhos em seu país que lhe permitem aprimorar seu ofício como em O Tigre e o dragão (2000) e Banquete de casamento (1993), Lee desenvolveu um repertório abrangente e ao mesmo tempo específico que encontra em O segredo de Brokeback Mountain(2005) seu grande momento.

Recomendados:
O segredo de Brokeback Mountain
Tempestade de gelo
Desejo e perigo

* Não há trailers disponíveis

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Movie Pass

O Movie Pass de hoje destaca E sua mãe também. Um filme mexicano que marcou época. Em parte pela sua atraente proposta, uma viagem definidora para dois jovens que se envolvem com uma mulher casada, em parte por ter sido ele um dos filmes que devolveram à América Latina o prestigio junto a critica internacional, perdido na década de 90 . E sua mãe também reúne Diego Luna e Gael Garcia Bernal, os dois principais atores do cinema mexicano atual, em grandes momentos. A fita fez bela carreira internacional. Sendo indicada a vários prêmios como o Globo de ouro e tendo participações muito positivas em festivais como Sundance.
Alfonso Cuarón realiza um filme solar, apesar de suscitar alguns dilemas e conflitos, E sua mãe também é um filme colorido, sexy, altivo e comunicativo. A fita tem a qualidade de dialogar indiscriminadamente com um público tão diverso quanto reticiente a interferências externas. É aqui que reside a maior virtude da película de Cuarón.

A seguir o trailer do filme e a minha critica:



Crescer é preciso!
Alfonso Cuarón realiza em E sua mãe também( Y Tu Mama También, MEX 2001) talvez o mais eloqüente e fiel retrato daquela fase em que a adolescência teima em partir. No filme dois amigos inseparáveis se aventuram em uma viagem para a praia, simbolo mor da idílica composição adolescente, e também se aventuram com uma mulher casada que vai orientar sexualmente os dois.
E sua mãe também é sexy, colorido e engraçado. Mas antes de ser isso tudo, é um filme delicado que explora com interesse genuíno todo um ritual de descobrimento e consciência. É nessa "simbólica" viagem que ambos serão confrontados com a urgência de crescer.
Road movies( filmes ambientados em viagens e deslocamentos físicos) são, por estrutura narrativa, convidativos a introspecção. Aqui não é diferente. Cuarón esgota todas as temáticas que seu plot sugere. O valor da amizade, o conceito de traição, a necessidade de amadurecer, o prazer de viver, o sexo e como todos esses elementos se combinam.

É com extrema satisfação que se percebe o vigor da história. E como Cuarón evita as soluções fáceis. O fim de seu filme é original, arrojado e plenamente fiel ao espírito dos personagens e da trajetória que eles construíram para si. E sua mãe também valoriza o cinema de autor ao mesmo tempo que se inscreve como um título de apelo popular.