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domingo, 27 de outubro de 2013

Especial O quinto poder - Interesse público e público pouco interessado

O quinto poder, depois de ter dividido a crítica, registrou uma estreia pífia nos cinemas americanos. Mas muito mais pífia do que previam os mais pessimistas analistas da indústria. Mesmo com uma distribuição larga, o filme fez pouco mais de U$ 1 milhão de bilheteria no primeiro fim de semana. Analistas já ponderam se esse flop pesará contra a ascensão de Benedict Cumberbatch em Hollywood. Alarmismo à parte, o fracasso de O quinto poder nas premiações já era previsível depois da recepção mista em Toronto, mas há realmente condições de surpreender-se com o desempenho comercial risível do filme?
Já há algum tempo foi observado neste blog que O quinto poder era um filme difícil de ser vendido para plateias americanas. Em parte porque a personalidade de Julian Assange é bastante contestada na grande mídia de lá e em parte porque o momento do WikiLeaks, aquele momento de apoteose, já passou. Além do mais, o espectador médio não costuma ser tão politizado ao ponto de compartilhar de uma investigação ficcional como a que se propõe O quinto poder. Como não se produz nada em Hollywood hoje que não esteja adequado ao mercado internacional, as chances do filme em países com gostos cinematográficos mais afinados à agenda política tem maiores chances de abraçar o filme. De qualquer maneira, não é o tipo de filme para se aspirar grandes ganhos comerciais.

Cena de O quinto poder, o tipo de filme cujo sucesso é mais do que relativo...

A Disney emitiu nota declarando grande frustração com o desempenho do filme neste primeiro fim de semana. Analistas sugerem que as próximas cinebiografias de Assange (duas já estão no forno) poderiam ser prejudicadas. Esse transe coletivo oculta um dado muito mais alarmante. Os filmes feitos para adultos inteligentes não estão recebendo o apoio merecido e a leitura pertinente a seus propósitos.
Woody Allen, por exemplo, percebeu que é bom negócio lançar seus filmes nas férias de verão (época voltada para os blockbusters) e vem colecionando as melhores bilheterias de sua carreira. Mesmo lançamentos de grandes estúdios, quando de temáticas mais complexas, costumam ter um lançamento restrito a principio e depois ir expandindo. No caso de O quinto poder, com suas críticas divididas, o estúdio resolveu jogar logo todas as suas fichas. Lincoln, um filme basicamente falado e sobre tramoias políticas, dado como certo no Oscar e com direção de Steven Spielberg, teve um lançamento restrito em Nova Iorque e Los Angeles e depois foi expandindo. E se tratava de um filme de estúdio, não uma produção independente – afeita a esse tipo de lançamento. Lincoln acabou amealhando uma bela bilheteria, apesar de não ser, também, nenhuma unanimidade.
A hora mais escura, outro filme integrante da lista do Oscar 2013, também teve um lançamento restrito e contou com apoio fervoroso da crítica – americana em especial – mas não conseguiu atrair interesse do público. É justamente aí que se estabelece a relação com O quinto poder. Ambos os filmes apresentam temas polêmicos e que passam ao largo da escala de interesses do americano médio. Se A hora mais escura mostrava a caçada sem catarse por Osama Bin Laden e colocava a tortura no centro de um questionamento ético (mal elaborado), O quinto poder revela as origens do site Wikileaks e a ideologia defendida por seu mentor. Ao que relatam os maiores articulistas de jornais americanos e europeus, o maior problema de O quinto poder é justamente sua hesitação em tomar partidos. Crítica que poderia ser feita, mas não foi, pelo menos pela maioria da crítica americana, ao filme de Kathryn Bigelow.  

Cena de Argo, o último vencedor do Oscar, filme adulto com pegada pop e jeito de sátira, mas que quer falar sério. A bilheteria do filme surpreendeu analistas que até hoje não conseguem entender exatamente porque Argo fez tanto dinheiro, cerca de U$ 150 milhões somente nos EUA  

Jessica Chastain em ação em A hora mais escura, um dos filmes mais discutidos entre o fim de 2012 e o início de 2013, mas que não fez dinheiro. Se não fosse o Oscar, mal chegaria aos U$ 90 milhões que arrecadou. Argo, para ficar na comparação, completou sua carreira comercial antes das indicações ao Oscar

Meryl Streep e Steve Martin em cena de Simplesmente complicado, exemplo de comédia romântica inteligente feita para um público mais maduro e sofisticado: elas ainda são raridade em Hollywood

Aí se revela a paixão. Filmes adultos por natureza agregam esse aspecto à avaliação. Vira e mexe algum artista fala, e encontra eco na mídia, de que não se faz tantos filmes pensantes para adultos verem como antigamente. Até se faz. Ocorre que não se pode exigir deles o mesmo desempenho dos filmes que atingem faixas etárias mais contumazes no cinema. Outro aspecto é a falta de fé de estúdios, distribuidores e exibidores nesse produto. Conexão perigosa, que até pode não ser a melhor fita de espionagem da história e que estreou há duas semanas no Brasil, carrega a pecha de pior bilheteria da carreira de Harrison Ford. É um filme com uma ótima premissa e um desenvolvimento pobre, mas ainda assim um filme para um público mais sofisticado. Sofisticação narrativa, argumentativa e temática também pode ser vista em um filme como O capital, do grego Costa-Gravas que teve lançamento escondido nas salas de cinema paulistanas e não sobreviveu à agenda de lançamentos inflada pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Javier Bardem e Cameron Diaz em O conselheiro do crime: apesar do elenco estrelado, o filme para lá de hermético é um potencial fracasso de bilheteria

Há filmes bons e filmes ruins para adultos, assim como há filmes bons e ruins de super-heróis. Falta é uma referência mais sólida e adequada para se medir o interesse despertado por essas produções que não os números que servem como base para medir o sucesso da última comédia romântica ou o mais recente 007. Tanto A hora mais escura como O quinto poder, para ficarmos nos exemplos cabais desse artigo, renderam pautas e mais pautas na mídia internacional e ensejaram um debate de vida muito mais longa do que duas horas dentro do cinema.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Oscar Watch 2013 - A peleja dos filmes

1- As aventuras de Pi; 2- Amor; 3- Indomável sonhadora; 4- Argo; 5- Django livre; 6 - O lado bom da vida; 7 - Os miseráveis; 8 - Lincoln; 9 - A hora mais escura



Quando perder é ganhar

Argo é sobre Hollywood e sobre como as aparências são cruciais em jogo de manipulação e dissimulação que aproximam CIA e Hollywood. A melhor pior ideia que Hollywood teve, por sinal, foi deixar Ben Affleck de fora da lista dos diretores indicados. A solidariedade com o filme o impulsionou a um favoritismo na corrida que parecia impensável há alguns meses. Ótimo storytelling, Argo é um filme fácil de se gostar ainda que não seja especialmente notável. Sua vitória seria um legítimo “argo fuck yourself” para alguns cânones hollywoodianos.

Prós:
- Ganhou absolutamente todos os prêmios majors da temporada
- É a maior unanimidade em uma temporada de premiações desde Quem quer ser um milionário? em 2009
- Ganhou os prêmios de direção e filme no Critic´s Choice Awards, no Globo de Ouro e no Bafta, uma demonstração de que sua candidatura a melhor filme está bem consolidada
- Ganhou os prêmios dos sindicatos dos atores, diretores e produtores. Nos últimos dez anos, apenas três filmes (O discurso do rei, Quem Quer ser um milionário? e Chicago) contaram com o apoio dos três sindicatos e eles ganharam o Oscar de melhor filme.
- A percepção de que há muito voto solidário em favor de Argo pelo fato da Academia ter esnobado Ben Affleck entre os diretores. Vale lembrar que apenas o brunch de diretores da Academia elege os indicados a melhor diretor, mas todos os membros da academia escolhem os vencedores. Tanto na categoria de filme, como na de diretor.
- Ser um filme basicamente sobre Hollywood. Isso tem contado pontos nos últimos anos.
- Ter uma veia patriótica, ainda que moderada
- O vencedor do ano passado, O artista, também era sobre Hollywood

Contras:
- O vencedor do ano passado, O artista, também era sobre Hollywood
- Apenas três vezes na história do Oscar um filme venceu como melhor filme sem ter o diretor indicado e apenas uma vez nos últimos 60 anos
- O fato de ter relativamente poucas indicações em que pode ser considerado favorito depõe contra suas chances
- Muitos acadêmicos podem optar por um filme que tenha o diretor indicado por questões de coerência


Bom, mas nem tanto

Os miseráveis até conseguiu uma presença robusta no Oscar com suas oito indicações. Mas se tem um filme que parece fadado a não conquistar nenhuma das estatuetas a qual concorre é o musical de Tom Hooper. Prova disso é que é o único dos concorrentes a melhor filme que não tem uma indicação por roteiro. O desalento só não é maior porque Anne Hathaway é favorita na categoria de atriz coadjuvante e deve lavar a alma do musical de Tom Hooper. De qualquer jeito, a coragem do cineasta de fazer um musical do clássico de fundo social de Victor Hugo recebeu valiosa distinção da academia.

Prós:
- Prevaleceu nas categorias técnicas em premiações como o Bafta e o Critic´s Choice Awards
- É um sucesso de bilheteria até certo ponto improvável para um musical
- Ganhou o Globo de ouro de melhor comédia/musical
- Tem sua força em suas interpretações e isso pode cativar o maior colegiado da academia que é o dos atores
- Deve agradar o voto mais conservador
- É uma história essencialmente francesa e os franceses estão em voga no Oscar nos últimos anos

Contras:
- Não ter sido indicado em montagem, direção e roteiro praticamente liquida qualquer chance de vitória
- O fato de Tom Hooper ter ganhado em grande escala no Oscar recentemente com O discurso do rei
- É um musical até certo ponto vanguardista e as liberdades tomadas por Hooper podem incomodar o voto mais conservador


Blockbuster de coração

As aventuras de Pi é o filme mais família dos indicados. É também o de narrativa mais complexa já que boa parte do tempo se passa em um bote salva vidas em que um adolescente tem um tigre digital como companhia. Ang Lee realiza um filme com forte conotação espiritual sem ser presunçoso. É um filme digno das 11 indicações que recebeu. Pode ser uma opção mais convencional a filmes sisudos ou modernos demais para o Oscar.

Prós:
- É um épico de alma intimista. Hollywood costuma apreciar filmes assim
- Foi indicado a todos os prêmios major da temporada
- Tem uma das maiores bilheterias internacionais entre os indicados a melhor filme. Como o Oscar hoje é um prêmio global...
- Está presente em praticamente todas as categorias técnicas

Contras:
- Não tem nenhuma performance indicada. É o único dos indicados a melhor filme nessas circuntâncias
- A percepção de que merece mais prêmios por sua destreza técnica
- A pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- Ter sido rodado em 3D e a tecnologia ainda não conquistou muitos acadêmicos


Um clássico menor

Django livre é uma desforra à tarantina. O western sobre um escravo vingador de Quentin Tarantino não é o filme que se esperava dele depois de Bastardos inglórios, mas ainda é entretenimento em alto nível. Django livre consolida Tarantino como uma das figuras do Oscar, mas é seu filme com menos chances de vitória nesta categoria.

Prós:
- Diverte como poucos dos incluídos entre os indicados e isso há de contar para alguma coisa
- O espírito de reescrever a história que Tarantino tem apresentado pode cativar muitos eleitores
- Tem ótimas atuações e bons diálogos
- Quentin Tarantino é um sujeito com muitos fãs

Contras:
- Ser muito inferior a Bastardos inglórios que é relativamente recente pode afugentar votos
- Quentin Tarantino é um sujeito ao qual muitos têm restrições
- O fato de Tarantino não ter sido indicado a melhor diretor
- Não é tão inventivo quanto seus principais filmes


Realismo fantástico

A Academia parece cada vez mais propensa, mais do que selecionar um pequeno indie, a selecionar um de narrativa imaginativa. Foi assim com A árvore da vida no ano passado e com Distrito 9 em 2010. Indomável sonhadora embarca no realismo fantástico e ganha o apoio do Oscar. É o tipo de filme que ainda não tem chances de ganhar, mas que pavimenta o caminho para que outros que venham depois possam sonhar mais alto.

Prós:
- É o time pequeno do ano e tem muita gente, dentro da academia inclusive, que gosta de torcer para time pequeno
- Pode se beneficiar do hype da indicação para Quvenzhané Wallis de apenas 9 anos

Contras:
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- A existência de outro independente muito mais baladado: O lado bom da vida
- Não ter tido uma campanha de marketing forte na corrida pelo prêmio


O melhor?

O lado bom da vida é um filme excelente em todos os predicados que caracterizam o bom cinema (direção, roteiro, atuação, montagem, etc), mas é também uma comédia romântica – ainda que bifurcada com um drama sobre transtornos psicológicos. Há quem entenda que não é “material de Oscar”, mesmo sendo o melhor entre os filmes indicados. Para vencer precisa superar esse paradigma.

Prós:
- O filme caiu nas graças do colegiado dos atores e em uma disputa parelha isso pode ser uma vantagem
- É independente e os independentes têm prevalecido no Oscar nos últimos cinco anos
- É o mais leve e otimista dos indicados a melhor filme
- Os últimos filmes com indicações para melhor ator e atriz, direção e roteiro e filme, o chamado big five, venceram o Oscar de melhor filme: Menina de ouro e Beleza americana entre eles
- Ser promovido por ninguém menos que Harvey Weinstein também conhecido como papa Oscars

Contras:
- É para todos os efeitos uma comédia e comédias não costumam ganhar o Oscar de melhor filme
- Não ganhou nenhum prêmio major na temporada
- A percepção de que é um “filme de atores”
- Weinstein levou a melhor nas duas últimas disputas por melhor filme. Três consecutivas pode ser demais até para ele

O maior herói americano

Não é super-homem, mas um “self made man”, como gostam de classificar os americanos. Abraham Lincoln também é um “self made politician” e Lincoln, o filme de Spielberg que lidera a corrida pelo Oscar, é mais sobre essa faceta do único presidente capaz de unir democratas e republicanos em vias de consenso. Nem sempre foi assim e o ótimo filme de Spielberg se ocupa dessa história. O Oscar seria apenas mais um estandarte na gloriosa história do político mais influente da América.

Prós:
- É o filme líder de indicações no ano
- Apresenta um personagem com uma base consolidada de fãs e admiradores dentro e fora da Academia
- É dirigido por uma figura muito querida que é Steven Spielberg e tem como protagonista outra figura querida e admirada que é Daniel Day Lewis
- Não é uma biografia quadrada
- Esteve presente em todas premiações majors da temporada e na liderança da corrida em todas elas
- Depois de filmes estrangeiros brilharem nos últimos dois anos, é uma produção essencialmente americana sobre a grandeza americana
- É um filme de rara inteligência tanto na filmografia de Spielberg quanto na média das produções premiadas com o Oscar de melhor filme
- É o maior sucesso de bilheteria nos EUA entre os indicados a melhor filme
- A badalação em torno da atuação de Day Lewis pode computar votos para o filme
- Muitos propensos a votar a favor de um terceiro Oscar para Spielberg podem se decidir pelo filme, mesmo que não o enxerguem como o melhor do ano

Contras:
- Não ganhou nenhum prêmio major na temporada
- É considerado anticlimático demais para os padrões de Spielberg e pode afugentar votos habituais do diretor
- É mais um filme sobre política do que sobre Lincoln propriamente dito e filmes políticos não costumam prevalecer no Oscar
- Apesar das muitas indicações em diversos prêmios, Lincoln não converteu as indicações em vitórias e adquiriu a pecha de “filme derrotado”
- Não é o melhor filme do ano e, para alguns, nem mesmo o melhor sobre escravidão no ano 


Honesto e sem concessões

A indiferença da vida especialmente a essa fabricação humana que é o amor é um dos eixos centrais desse doloroso e pouco passional filme de Michael Haneke que foi surpreendentemente abraçado com ímpeto pela Academia. Mais uma investigação da fragilidade da vida e de suas reminiscências do que um tratado sobre o mais nobre dos sentimentos, Amor é um filme agigantado por sua humanidade. Faz bem ao Oscar tê-lo em seu pool de nomeados.

Prós:
- É um filme calcado no desempenho dos atores, algo sempre reverberante junto ao maior colegiado que compõe a Academia
- É um filme extremamente humano e atemporal
- É falado em francês e a França anda em alta em Hollywood
- É simples no seu desenvolvimento e complexo em sua contextualização. Menina de ouro, com estrutura semelhante, já triunfou no Oscar em situação parecida
-É um filme estrangeiro e de um diretor cult. Há muito apelo nessa convergência de características; especialmente em um ano sem grandes filmes

Contras:
- Tem ritmo demasiado lento em comparação com a média de filmes vencedores do Oscar e dos filmes contra os quais concorre neste ano
- A percepção de que é um “filme de atores”
- A resistência ainda bastante forte de se premiar uma produção estrangeira
-Filmes com temática semelhante já receberam bastante atenção do Oscar nos últimos anos como Menina de ouro, Longe dela e Mar adentro
-A percepção de que basta a vitória na categoria de filme estrangeiro para honrar o trabalho de Haneke


Mais escuro do que claro

Certamente o mais fraco dos indicados a melhor filme, A hora mais escura é também o que reunia mais expectativas. Ainda que uma condição não esteja relacionada à outra, o filme sobre a caçada a Osama Bin Laden se revela oportunista e perigosamente impreciso em suas formulações episódicas e estruturais. A polêmica pode ter diminuído o tamanho do filme no Oscar, mas o hype de ser o primeiro filme a abordar um dos maiores feitos americanos na guerra contra o terror lhe garantirá um lugar distinto na história.

Prós:
- É um registro no estilo documental que tanto agradou os votantes que deram a vitória à Guerra ao terror há três anos
- É um elaborado misto de thriller de espionagem com filme político. Em um eventual revival dos anos 70, é um candidato imbatível no Oscar
- Foi o filme mais premiado pela crítica na temporada
- Estabelece um novo paradigma no cinema comercial americano: o filme-reportagem

Contras:
- É nitidamente oportunista ao flertar com ideias republicanos e democratas as vezes em uma mesma cena
- É um filme demasiadamente anticlimático para um vencedor do Oscar
- Há pouco espaço para os atores brilharem e isso pode ressentir o voto desse colegiado
- Reza a mesma missa de Guerra ao terror
- As polêmicas barulhentas acerca do terrorismo e da tortura podem fazer acadêmicos que apreciem o filme pensarem duas vezes antes de votar nele
- O fato de Kathryn Bigelow não ter sido indicada na categoria de direção  

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Crítica - A hora mais escura


Entre a cruz e a espada

Grande fomentador de polêmicas, A hora mais escura (Zero dark thirty, EUA 2012) não merece grande parte delas. Ao focar na caçada a Osama Bin Laden pelos EUA, Kathryn Bigelow simplifica alguns temas complexos pelos quais perpassa e o faz de maneira oportunista. Ela e Mark Boal, roteirista do longa, logo anunciam em meio a vozes do 11 de setembro que se trata de um filme-reportagem, baseado em fatos que ocorreram e foram colhidos por Boal, jornalista que já cobriu a ação americana no Afeganistão, mas também reclamam a liberdade de uma obra de ficção. Esse oportunismo custa caro a A hora mais escura. Primeiro porque falta interpretação ao filme – e por isso serve de combustível tanto para quem vê legitimidade no uso da tortura para combater o terrorismo como para quem condena essa prática. O filme não defende a tortura como muitos rotularam desde que foi lançado nos EUA, tampouco a condena. É apenas um registro oportunista e sem profundidade das escamas da guerra ao terror. Talvez por isso Bigelow, nas constantes defesas em que se viu incumbida de fazer do filme desde que ele foi lançado, morda e assopre conservadores e liberais. O problema estrutural de A hora mais escura não é seu aparente apartidarismo, é flagrante a simpatia da realização pela gestão Obama, mas a pobreza de contextualização filosófico-sociológica com a qual encampa o flagelo americano na guerra ao terror em geral, e na obsessão com Bin Laden, em particular.  Nesse sentido, a performance de Jessica Chastain é eloquente. Ótima atriz, Chastain – indicada ao Oscar por razões que excedem seu trabalho aqui – está deslocada. Pouco convincente como uma agente da CIA que vai se transformando e endurecendo à medida que a caçada a Bin Laden avança em anos. Chastain não consegue interiorizar os conflitos éticos e morais de um país e, dessa maneira, torna-se uma espécie de relatoria do filme – que padece do mesmo problema.

Jessica Chastain e Kyle Chandler: o elenco coadjuvante não decepciona, mas a atriz não acerta o tom do registro

O que não quer dizer que o trabalho de Bigelow e Boal seja ruim. O roteiro de A hora mais escura é muito bem estruturado nos recortes temporais que faz; nas associações que projeta e nas adversidades em que joga luz. Bigelow, por sua vez, dirige com a firmeza e economia de emoções necessárias para um drama como o que A hora mais escura pretende ser.
Mesmo assim, ela não resiste à auto-adulação. Como A hora mais escura fracassa em estabelecer um discurso vívido e ressonante, Bigelow conclama o saldo de Guerra ao terror, no comentário final que avaliza com a última cena – sendo que essa conclusão funciona muito mais lá do que cá. Incidir que a América é um país beligerante e que depois do 11 de setembro mergulhou em uma obsessão que ceifa muitos dos próprios ideais americanos é um discurso prévio ao filme e que este falha em dimensionar.
Se se preocupasse menos em ser uma versão fiel dos fatos, A hora mais escura talvez fosse um filme mais verdadeiro. Se quisesse de fato discutir a obsessão americana com o terrorismo, o faria com mais criticismo e menos empenho em parecer verossimilhante. Para um filme-reportagem, A hora mais escura é uma ficção problemática. Para uma obra de ficção, é pouco contundente em suas proposições.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Filme em destaque - A hora mais escura


Chris Pratt e Joel Edgerton em cena do novo e comentado filme de Kathryn Bigelow sobre a caçada a Osama Bin Laden. Filme, que concorre a cinco Oscars, gerou mais polêmicas do que a própria ação que matou o terrorista


“É o elenco masculino mais bonito jamais reunido em um filme”. Escreveu a crítica de cinema Sasha Stone do blog Awards Daily sobre A hora mais escura, que foi listado por ela, por razões totalmente diversas da beleza de seu elenco masculino, como um dos melhores filmes de 2012. O filme de Kathryn Bigelow, que estreia nos cinemas brasileiros nessa sexta-feira com a força de suas cinco indicações ao Oscar (filme, atriz para Jessica Chastain, roteiro original, montagem e edição de som), de fato reúne um numeroso elenco e com proeminência masculina. Jason Clarke, Mark Strong, Kyle Chandler, Alexander Karim, Edgar Ramirez, James Gandolfini, Joel Edgerton, Mark Valley e Chris Pratt são os nomes que validam (ou não) a afirmação de Sasha Stone.

Mudança aos 45 do segundo tempo
O elenco, no entanto, não foi a maior das preocupações de Kathryn Bigelow na confecção de A hora mais escura. Desde o Oscar conquistado em 2010 por Guerra ao terror, Bigelow e seu atual namorado, o jornalista, roteirista e produtor Mark Boal, alimentavam a ideia de fazer um filme sobre a busca por Osama Bin Laden. A outra ideia era fazer um filme sobre o tráfico de drogas na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Esse projeto ficou para depois. Quis o destino que o projeto escolhido para dar sequência ao premiado Guerra ao terror sofresse profundas mudanças estruturais já sendo desenvolvido. Isso porque o presidente Barack Obama anunciou em maio de 2011 que os EUA haviam achado e matado o terrorista mais procurado do mundo. “Tivemos que mudar tudo”, disse Bigelow ao Los Angeles Times. “Mas a essência da história continua a mesma”.
A personagem de Jessica Chastain, a obstinada agente da CIA Maya, é um decalque de muitos personagens aos quais Mark Boal teve contato em sua pesquisa, mas a figura central é uma mulher que esteve envolvida durante dez anos na investigação que culminou na morte de Bin Laden. Jessica Chastain foi sempre a opção número um de Bigelow para viver essa personagem. Bigelow ligou pessoalmente para Chastain para lhe apresentar o projeto.

As faces da polêmica
A hora mais escura se consagrou o filme mais premiado pela crítica em 2012. No início da temporada de premiações muitos criam que o feito conquistado pelo time Bigelow/Boal com Guerra ao terror se repetiria. Os responsáveis pelo filme vendiam a ideia de filme –reportagem, e destacavam que o roteiro refletia intenso trabalho investigativo e de pesquisa. Essas declarações motivaram uma primeira resposta da CIA desautorizando o filme como fonte fidedigna do que de fato aconteceu em relação à captura de Bin Laden. Depois, o Senado americano quis saber se a produção do filme teve acesso a documentos sigilosos. Comissões do congresso passaram, então, a se interessar por um debate pouco conclusivo aludido pelo filme: a efetividade da tortura na ação que matou Bin Laden.
A sucessão de polêmicas obrigou Bigelow a defender seu filme e a opção por um cinema questionador. Críticos ao redor do mundo puseram em dúvida se A hora mais escura é mesmo honesto em seus questionamentos e proposições. Se não é apenas um produto oportunista. O marketing do filme, patenteou um estrategista do Oscar ouvido pelo USA Today, errou e feio na promoção do filme. Se as polêmicas custaram uma posição de maior prestígio no Oscar 2013 ao filme, só é possível especular. Certo é que elas não foram tão positivas como muitos imaginavam.
A hora mais escura, ainda que permaneça entre os dez filmes mais vistos do box office americano, não apresenta o vigor nas bilheterias que fitas envoltas em polêmicas costumam exibir. Seria o elenco masculino mais uma das infindáveis polêmicas que envolvem A hora mais escura?  

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Oscar Watch 2013 - A ruiva que quer dominar o mundo




Até pouco tempo atrás ninguém sabia quem era Jessica Chastain. Tudo mudou em 2011, um ano prolífero para ela em muitos aspectos. Com o lançamento de sete filmes, Chastain marcou presença em todos os proeminentes festivais de cinema da temporada (Berlim, Cannes, Veneza e Toronto) e integrou o elenco mais prestigiado do ano e que lhe proporcionou sua primeira indicação ao Oscar. Histórias cruzadas foi, também, uma das maiores bilheterias do ano.
Hoje, quase dois anos depois e de volta ao Oscar – dessa vez indicada como melhor atriz por A hora mais escura – Jessica Chastain é uma realidade. Atriz cortejada e disputada, Kathryn Bigelow lhe assediou pessoalmente para que integrasse o elenco de seu thriller sobre a caçada a Osama Bin Laden, se aproveita dos holofotes no cinema para encaminhar uma carreira paralela na Broadway. Lá as críticas não têm sido tão favoráveis, mas a ousadia e dedicação da atriz aliam fãs e detratores.
Linda e talentosa, Jessica Chastain admitiu em entrevista à revista Serafina que tem medo dos bons papéis cessarem de repente. A superexposição, entre 2011 e 2013 não a incomoda mais do que a falta de tempo para outras coisas além de trabalho.
Há poucas coisas programadas para os próximos anos. Em 2013, pela primeira vez, Jessica está no topo do cartaz e com a missão de segurar um filme nas bilheterias. Mama, terror produzido por Guillermo Del Toro, estreou em primeiro lugar em plena temporada de premiações, dando provas de que Jessica é mesmo um nome quente.
Setores da crítica internacional, no entanto, se preocupam com o que classificam como “os efeitos de um Oscar precoce” concedido a ela. Além da famigerada maldição do Oscar que tem acometido atrizes como Halle Berry, Jennifer Connelly, Reese Witherspoon, entre outras, ser sempre uma sombra para atrizes jovens.
Jessica, aos 35 anos, não parece se importar com essa sombra. Assume o sonho que é Hollywood e diz que ama atuar. A recíproca, ao que tudo indica, é verdadeira.

 1. Jessica sexy em ensaio para a GQ inglesa; 2. ao lado de Sam Worthington no thriller A grande mentira, um de seus muitos filmes de 2011; 3. outra vez sexy em editorial de moda da revista americana W; 4. ao lado das colegas de elenco do filme Histórias cruzadas pelo qual recebeu sua primeira indicação ao Oscar; 5. segurando o diploma entregue pela crítica de Los Angeles que a considerou a melhor atriz de 2011

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Oscar Watch 2013 - Os indicados ao Bafta 2013


Foram divulgados nesta quarta-feira, 9 de janeiro, os indicados ao prêmio da Academia Britânica de Cinema, o Bafta. Como de praxe nessa temporada, Lincoln, lidera no número de indicações. Uma relativa surpresa, já que Os miseráveis é uma produção britânica e, musical que é, tinha toda a pompa e circunstância para liderar a disputa. Mas essa relativa  surpresa esconde outra. Mesmo liderando com 10 indicações, Lincoln não rendeu a Steven Spielberg uma nomeação a melhor diretor. Nem a Tom Hooper, que é britânico. Aliás, nenhum diretor britânico foi indicado. Uma raridade no Bafta e que revela que Lincoln e Os miseráveis, pelo menos aqui, não devem ir muito longe. Melhor sorte está reservada para Argo, que além da indicação para melhor filme, rendeu a Ben Affleck menções como diretor e ator. As sete indicações para o filme de Affleck acusam o favoritismo sugerido pela inclusão do ator entre os concorrentes a melhor ator do ano desbancando favoritos como John Hawkes (As sessões) e Denzel Washington (O voo). Se há um filme que mede forças com Argo, pelo menos na consistência das indicações, é A hora mais escura. A fita de Kathryn Bigelow só concorre em cinco categorias, mas elas são edição, atriz, roteiro original, direção e filme. Argo, no entanto, deve prevalecer. Não está descartada, porém, uma divisão tão incauta quanto a que norteou as nomeações. Lincoln poderia prevalecer e se configurar como o primeiro filme da história a triunfar na principal categoria do Bafta sem ter uma indicação para direção.


A inclusão de Joaquin Phoenix entre os melhores atores no Bafta pode ser uma pista de sua indicação ao Oscar   
 
 Cuidado com ele: Michael Hanake pode ser o elemento surpresa no Bafta

Essa aparente desordem é reflexo direto da antecipação do calendário de premiações forçado pelo Oscar. A bem da verdade, o Bafta, em sua extravagância tão peculiar, sempre reservou certas surpresas, o que conferia charme à temporada. Não obstante, a Academia Britânica desde que realinhou a distribuição de seu prêmio o fixando antes do Oscar, tem se mostrado capaz de influenciar escolhas decisivas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
Justamente por isso, as citações a Amor devem se consideradas. O filme foi lembrado em roteiro original, direção e atriz. Alguma dessas, se não todas, podem se repetir na lista do Oscar amanhã. Os europeus Javier Bardem e Helen Mirren também têm motivos para comemorar. Depois da inclusão de seus nomes entre os indicados ao Bafta, suas presenças no Oscar podem ser dadas como certas.
Esse panorama de destaques europeus não deixa de ser um contraponto em um ano que a Academia Britânica, mais do que em qualquer outro ano, se rende a artistas e histórias essencialmente americanas.

Mais pitacos
A briga por melhor filme é mesmo entre Argo e A hora mais escura, com Lincoln soprando no cangote dos dois. Já a disputa por melhor diretor acaba se mostrando uma incógnita. O Bafta se renderá a Ben Affleck? Diferentemente do Oscar, a Academia Britânica não tem o impulso de louvar diretores atores. É possível Haneke triunfar nessa categoria sem estar concorrendo a melhor filme do ano e, quem sabe, prevalecer também entre os filmes estrangeiros? Ou Kathryn Bigelow seria vitoriosa novamente três anos após prevalecer por Guerra ao terror? Não são respostas fáceis no Bafta.
Daniel Day Lewis deve prevalecer entre os atores. Hugh Jackman talvez seja sua maior ameaça. Entre as atrizes, a briga deve ser a mesma que pautará o resto da temporada de premiações e se limitar entre Jennifer Lawrence por O labo bom da vida e Jessica Chastain por A hora mais escura.
Entre os atores coadjuvantes, o favoritismo segue com Philip Seymour Hoffman (O mestre) e Tommy Lee Jones (Lincoln). Já entre as coadjuvantes, Anne Hathaway (Os miseráveis) preserva o favoritismo que ostenta durante toda a temporada.
Confira a lista completa dos indicados ao Bafta aqui. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Oscar Watch 2013 - Como devem ser as indicações ao Oscar nesta semana


Na próxima quinta-feira (10) serão revelados os concorrentes da 85ª edição do Oscar. Nessa temporada, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deve destacar um número mais vistoso de produções de estúdio; o que deve configurar um contraponto em relação aos últimos anos em que produções independentes eram favoritas e, de fato, protagonistas do Oscar.
Lincoln, filme de Steven Spielberg que vem encantando o público americano e já é responsável por uma bilheteria superior a U$ 150 milhões deve ser o recordista de indicações do ano. A questão que se coloca a respeito do filme é se baterá o recorde de indicações pertencente a Titanic (1997) e A malvada (1950) de 14 indicações ou igualá-lo. Como se vê, o entusiasmo com o filme de Spielberg é grande, ainda que o filme não seja apontado como virtual bicho papão da temporada, essa é uma possibilidade que será aventada em Claquete mais adiante.
De pronto, é certo que Os miseráveis e A hora mais escura são os principais rivais de Lincoln no número de indicações. Ambos os filmes, com fortes chances de serem indicados a melhor filme do ano, ainda veem outros filmes entre eles e Lincoln na briga pela estatueta de melhor filme. Argo, O lado bom da vida e As aventuras de Pi parecem certezas entre os selecionados do ano para melhor filme. Com menos chances, mas que podem garantir presença na lista estão Moonrise kingdom, Django livre, 007-operação skyfall, O mestre e O voo. A disputa se resume a esses filmes, mas a Academia pode reservar surpresas e resolver incluir o austríaco Amor ou mesmo o francês Os intocáveis, grande sucesso de público nos EUA, entre os indicados a melhor filme. Seria uma solução bem vinda e ainda inédita desde a flexibilização do número de concorrentes ao principal prêmio do Oscar.

Joaquin Phoenix em cena de O mestre, de Paul Thomas Anderson: apesar do desempenho mediano na temporada de premiações, o filme deve ter presença sólida na lista do Oscar


A briga pela estatueta de melhor diretor é outra com três certezas: Steven Spielberg por Lincoln, Ben Affleck por Argo e Kathryn Bigelow por A hora mais escura. As outras duas vagas são disputadas por David O. Russell, Tom Hooper, Quentin Tarantino, Ang Lee e Paul Thomas Anderson. Russell e Lee são os favoritos para fisgar essas duas últimas vagas.
Entre os roteiros adaptados, Argo, Lincoln, As aventuras de Pi e O lado bom da vida são presenças certas. As vantagens de ser invisível pode ser o quinto selecionado. Na divisão dos originais, A hora mais escura, O mestre, Django livre, Moonrise kingdom e Looper são as apostas mais seguras, porém, O voo e Amor podem ser lembrados.

Atuações
Entre os atores, Daniel Day Lewis (Lincoln) puxa o bonde. Denzel Washington deve voltar ao Oscar por seu desempenho em O voo. Outras boas apostas são John Hawkes (As sessões) e Bradley Cooper (O lado bom da vida). A quinta vaga é disputada a foice por Hugh Jackman, que conta com a enorme simpatia da academia, por Os miseráveis, Joaquin Phoenix, que não tem lá tanta simpatia junto à Academia, por O mestre, e Richard Gere, eterno injustiçado, com o papel de sua carreira em A negociação. Em um lance de sorte dois deles podem entrar roubando a vaga de Hawkes ou Washington. Improvável que os três figurem entre os indicados.
Entre as atrizes há mais indefinição do que de hábito na categoria. Certas apenas Jessica Chastain por A hora mais escura e Jennifer Lawrence por O lado bom da vida. Com grandes chances estão Naomi Watts por O impossível e Helen Mirren por Hitchcock. Esta pode perder a vaga para Emmanuelle Riva (Amor), Rachel Weisz (Deep Blue Sea) ou mesmo Quvenzhané Wallis (Indomável sonhadora). De qualquer jeito, os concorrentes nessa categoria parecem mais definidos do que na âmbito masculino.
Entre os coadjuvantes masculinos, Phillip Seymour Hoffman (O mestre) e Tommy Lee Jones (Lincoln) são certezas. Alan Arkin (Argo) também deve voltar à disputa. Para as outras duas vagas, muitos concorrentes. A Academia reconhecerá Leonardo DiCaprio, tido como a melhor coisa de Django Livre ou preferirá mais um vilão saborosamente interpretado por Javier Bardem em Operação Skyfall? Robert De Niro voltará a disputar uma estatueta depois de 20 anos por O lado bom da vida? Há espaço para surpresas como Eddie Redmayne por Os miseráveis?

Denzel em O voo: seria sua primeira indicação ao Oscar desde a vitória por Dia de treinamento em 2002 

Anne Hathaway em Os miseráveis, de Tom Hooper: ele se cristaliza como a maior chance de Oscar do filme...


Entre as atrizes coadjuvantes as circunstâncias são muito parecidas. Anne Hathaway (Os miseráveis) e Sally Field (Lincoln) são certezas. Apostas seguras são Amy Adams (O mestre) e Helen Hunt (As sessões). E a última vaga? Será de Nicole Kidman por The paperboy ou a Academia revelará uma surpresa de última hora como Ann Dowd por Compliance?
Abaixo, as apostas de Claquete para os indicados nas principais categorias do Oscar:

Filme
A hora mais escura
Lincoln
Argo
As aventuras de Pi
O lado bom da vida
Os miseráveis
Moonrise kingdom
O mestre

Direção
Ben Affleck (Argo)
Steven Spielberg (Lincoln)
David O. Russell (O lado bom da vida)
Kathryn Bigelow (A hora mais escura)
Paul Thomas Anderson (O mestre)

Roteiro original
Django livre
O mestre
A hora mais escura
Moonrise kingdom
Looper

Roteiro adaptado
Lincoln
Argo
As aventuras de Pi
As vantagens de ser invisível
O lado bom da vida

Filme estrangeiro
Amor
Os intocáveis
O amante da rainha
No
Além das montahas

Ator
Daniel Day Lewis (Lincoln)
Joaquin Phoenix (O mestre)
John Hawkes (As sessões)
Bradley Cooper (O lado bom da vida)
Denzel Washington (O voo)

Atriz
Jennifer Lawrence (O lado bom da vida)
Naomi Watts (O impossível)
Jessica Chastain (A hora mais escura)
Emmanuela Riva (Amor)
Quvenzhané Wallis (Indomável sonhadora)

Ator coadjuvante
Tommy Lee Jones (Lincoln)
Philip Seymour Hoffman (O mestre)
Javier Bardem (Operação Skyfall)
Robert De Niro (O lado bom da vida)
Leonardo DiCaprio (Django livre)

Atriz coadjuvante
Amy Adams (O mestre)
Anne Hathaway (Os miseráveis)
Sally Field (Lincoln)
Helen Hunt (As sessões)
Nicole Kidman (The paperboy)

Fotografia
Lincoln
O mestre
Operação Skyfall
As aventuras de Pi
Django livre 

Direção de arte
Os miseráveis
Lincoln
Django livre
Argo
Moonrise kingdom

Montagem
Lincoln
A hora mais escura
Argo
Os miseráveis
As aventuras de Pi

Trilha sonora
As aventuras de Pi
Moonrise kingdom
Lincoln
Argo
O mestre


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Oscar Watch 2013 - A polêmica ajuda ou atrapalha "A hora mais escura"?



Apontado como um dos fortes candidatos ao Oscar, A hora mais escura, novo longa de Kathryn Bigelow se vê no epicentro de polêmicas que podem tanto impulsionar sua candidatura, como miná-la. O manejo de certos elementos pelo marketing do filme e a absorção deles por crítica e indústria ditarão os rumos da obra na vigente temporada de premiações. O projeto, a bem da verdade, estava destinado às polêmicas. O filme que versaria sobre a caçada a Osama Bin Laden teve de ser reimaginado após a morte deste por uma tropa da marinha americana em maio de 2011.  A hora mais escura aventa um dos maiores dissabores dos EUA na guerra ao terror: o uso da tortura como estratégia de combate ao terrorismo. A CIA já emitiu comunicado oficial condenando o filme e o Congresso americano questiona o vazamento por setores da Casa Branca de arquivos confidenciais sobre a operação que culminou na morte de Bin Laden para o roteirista Mark Boal, que é também jornalista com vasta experiência no Oriente Médio. Boal, inclusive, acompanhou in loco durante muito tempo a ação dos EUA no Afeganistão.
Membros do alto comissariado do governo Obama vieram a público dizer que não houve colaboração do governo na feitura do filme. Bigelow e Boal, no entanto, insistem que apesar de ser uma ficção, há elementos verídicos de sobra no filme que eles classificam como “um registro próximo ao jornalismo literário” (gênero jornalístico dimensionado por Truman Capote no clássico “A sangue frio” que admite recursos literários na confecção de um relato jornalístico).
O meio intelectual americano rapidamente passou a discutir essa questão, então logo percebida como central em A hora mais escura, que é a adoção da tortura como instrumento na guerra ao terror.  O fato de Obama não ter fechado ainda a prisão que os EUA mantêm em Guantánamo (Cuba), uma de suas promessas na primeira campanha para a presidência dos EUA, projeta uma sombra ainda maior sobre o jeito americano de conduzir um conflito longe do fim.
A diretora Kathryn Bigelow no set do filme: relevância
que pode pesar a favor ou contra
A relevância pode ser um valioso cabo eleitoral para A hora mais escura, mas a profundidade de seus questionamentos pode lhe ser prejudicial no momento em que se define quem deve prevalecer na corrida. Nesse sentido, reverenciar um filme como Lincoln – biografia de uma das poucas figuras que é unanimidade entre democratas e republicanos – pode ser uma solução artística para um edema político.
Bigelow e Boal não estão conduzindo bem a situação. É certo que reiterem que o filme fale por si, mas não podem se abster de participarem do debate que fomentam com sua obra e se escorarem em um pretenso registro jornalístico. Ao se equilibrarem em fatores imponderáveis como sorte e ânimos políticos, eles arriscam os rumos do filme no Oscar. Nessa altura do campeonato, a única coisa capaz de selar uma vitória consagradora de A hora mais escura no Oscar seria um atentado terrorista em solo americano. Seria um desfecho agridoce para a carreira de um filme taxado de republicano por democratas e de democrata por republicanos.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Oscar Watch 2013 - Crítica das indicações à 70ª edição dos prêmios Globo de Ouro


Como de hábito, a lista apresentada pela Hollywood Foreign Press Association (HFPA) passa longe da unanimidade. Mas em 2012, a opção por nomes e filmes mais sólidos deram o tom. É isso o que ajuda a explicar o favoritismo de Lincoln, cinebiografia do presidente americano mais popular da história feita por um dos diretores mais populares da história, Steven Spielberg, e a exclusão da categoria de O mestre, saudado por muitos como um dos filmes mais importantes e complexos da temporada. Mesmo assim, O mestre valeu a seus três principais atores indicações ao prêmio.
A hora mais escura, filme seguinte a Guerra terror de Kathryn Bigelow, conquistou quatro indicações e se alinhou a Argo, de Ben Affleck, e Django livre, de Quentin Tarantino, ambos com cinco nomeações, como as grandes forças na categoria dramática a assombrar o favoritismo de Lincoln.
Do lado das comédias, O lado bom da vida, novo longa de David. O Russell, é o filme a ser batido. Os miseráveis não parece apto à concorrência de um dos filmes mais prestigiados da temporada, mas o gosto da HFPA por musicais pode desequilibrar essa disputa. Os outros três filmes listados na categoria, Moonrise kingdom, O exótico hotel Marigold e Amor impossível, fazem apenas figuração.
Entre os diretores, Steven Spielberg goza de certo favoritismo. Mas Affleck e Tarantino podem ser surpresas. Ang Lee por As aventuras de PI, que também está indicado entre os filmes dramáticos, seria uma opção surpreendente dentro do desenho que se ergue na atual temporada.

Cena de Django livre, novo longa de Tarantino: o filme caiu nas graças da HFPA e pode decolar na temporada ou ficar pelo Globo de Ouro mesmo


Na categoria de roteiro pode se cristalizar a força de Lincoln na temporada. O Globo de Ouro dificilmente alinha o prêmio de roteiro ao de filme dramático, salvo quando há muito entusiasmo com a produção em questão, caso de A rede social em 2011 e O segredo de Brokeback Mountain em 2006. Ano passado, por exemplo, Meia noite em Paris triunfou nessa categoria e na de melhor comédia. Apenas O lado bom da vida pode fazer o mesmo esse ano no segmento das comédias. Já em drama, tudo indica que Lincoln deve prevalecer em filme, direção e roteiro. A fita poderia faturar ainda os prêmios de ator e ator coadjuvante, se tornando um dos maiores vencedores do Globo de Ouro em todos os tempos com cinco prêmios. Apesar do prestígio de Daniel Day Lewis, sua vitória, no entanto, não é uma certeza. Joaquin Phoenix, muito elogiado por O mestre, pode ser uma boa aposta. John Hawkes (As sessões), Richard Gere (A negociação) e Denzel Washington (O voo) têm menos chances, ainda que Washington, que já não ganha um Globo de Ouro há muito tempo, apresente prestígio tão consolidado quanto Day Lewis.
Entre as atrizes dramáticas Jessica Chastain parece um passo a frente por seu desempenho em A hora mais escura. Sua vantagem se agiganta mais em seu background recente no cinema. Contudo, Marion Cotillard (Ferrugem e osso) e Naomi Watts (O impossível) podem ser alternativas a uma premiação até certo ponto previsível.
No âmbito das comédias e musicais, Jack Black por Bernie pode ser o elemento surpresa na briga entre Hugh Jackman (Os miseráveis) e Bradley Cooper (O lado bom da vida). Mas o último é a aposta mais segura. Assim como sua parceira de cena, Jennifer Lawrence, parece certeza entre as atrizes de comédia.
Na briga dos coadjuvantes, a alta estima conquistada por Django livre junto aos votantes e a preferência sempre indisfarçada da HFPA por Leonardo DiCaprio pode dar ao ator mais uma vitória no Globo de Ouro. A última foi por O aviador. Mas Tommy Lee Jones por Lincoln é um nome a se respeitar, ainda mais com a força que o filme vem demonstrando na temporada. Anne Hathaway (Os miseráveis) vem convivendo com a expectativa desse ser o seu ano e no Globo de Ouro a certeza disso deve começar a se construir. Mas figuras igualmente queridas como Amy Adams (O mestre) e Sally Field (Lincoln) podem ser potenciais estraga prazeres.

Naomi Watts é um nome emergente na temporada por sua atuação em O impossível e pode ser uma opção a Jessica Chastain

Amour deve prevalecer entre as produções estrangeiras e Detona Ralph e A origem dos guardiões dividem o favoritismo entre as animações.
No lado da TV, as novatas da HBO Girls e The newsroom devem prevalecer, mas as surpresas não devem dar o tom nas categorias de atuação. A HBO, com Game change, também deve ser a grande vencedora entre as minisséries e filmes feitos para a tv.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Oscar Watch 2013 - A desforra dos estúdios



Há três particularidades que convergem para fazer da corrida pelo Oscar na temporada 2012/2013 algo raro dentro do contexto erigido nos últimos anos. A primeira, e cujos efeitos só poderão ser precisados em revisão histórica, é o estreitamento do calendário promovido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ao antecipar em cerca de 15 dias o anúncio dos indicados ao Oscar. A segunda, e em si um fato que chama muito a atenção, é o baixo apelo do cinema independente na temporada. Depois de ser protagonista nos últimos seis anos (o último filme de estúdio a vencer o Oscar foi Os infiltrados em 2006), o cinema independente se vê diminuído na atual temporada. São poucos os filmes que suscitam algum buzz. Da Focus, braço independente da Universal, aquele que reúne mais chances de indicação é Um fim de semana em Hyde Park. Há alguma expectativa em torno de Anna Karenina e Moonrise kingdom, mas nada muito empolgante. A Fox searchlight, que já brilhou com longas como Pequena miss Sunshine (2006) e Quem quer ser um milionário? (2008) e no ano passado arrancou uma indicação para A árvore da vida, tem suas maiores aspirações concentradas em Hichtcock . Mas o braço independente da Fox também almeja algo com os elogiados As sessõesIndomável sonhadora, adquiridos pelo selo no festival de Sundance 2012.  
Cartaz de O voo: feijão com arroz
bem feito por um estúdio
A precariedade dos candidatos independentes ganha mais verniz nas bem acabadas produções de estúdio de 2012. A Paramount, por exemplo, aposta suas fichas em O voo. Drama convencional que marca o retorno de Robert Zemeckis à direção de um longa em live action. Fala-se que o filme, que centra suas forças na performance de Denzel Washington, é o feijão com arroz bem temperado e que uma campanha bem conduzida, pode colocá-lo bem posicionado na disputa pelo ouro. A Fox, por sua vez, investe pesado no marketing de As aventuras de Pi e crê ser possível transformar o épico espiritual de Ang Lee em uma das forças da temporada. O filme é tido por muitos como obra-prima, o que sempre ajuda. A Warner detém um precioso leque! Tem O hobbit, com toda a aura que o sucesso crítico de O senhor dos anéis é capaz de despertar, o blockbuster O cavaleiro das trevas ressurge, e o elogiadíssimo drama Argo – no qual investe suas mais preciosas fichas. A Universal, de longe o grande estúdio com mais dificuldade em produzir indicados a melhor filme – e que não ganha desde Uma mente brilhante em 2001 – deposita fortes esperanças no musical Os miseráveis, de Tom Hooper.
A Disney juntou forças à DreamWorks de Steven Spielberg para formatar o perfeito candidato à múltiplas indicações ao Oscar, trata-se de Lincoln. Filme que vê seu buzz ampliar à medida que surgem críticas de elogios rasgados e o interesse do público aumenta. Já a Sony, que há dois anos sofreu uma dura derrota quando tinha A rede social na disputa – e tudo fazia crer na vitória de uma produção de estúdio naquele ano – traz para a disputa A hora mais escura, de Kathryn Bigelow.
Conciliando a boa qualidade dos filmes de estúdio nesse ano e o baixo índice de postulantes entre os independentes, tudo leva a crer que o Oscar 2013 lavará a alma de estúdios que há muito pareciam ter perdido o caminho para a maior festa do cinema.