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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Crítica - A hora mais escura


Entre a cruz e a espada

Grande fomentador de polêmicas, A hora mais escura (Zero dark thirty, EUA 2012) não merece grande parte delas. Ao focar na caçada a Osama Bin Laden pelos EUA, Kathryn Bigelow simplifica alguns temas complexos pelos quais perpassa e o faz de maneira oportunista. Ela e Mark Boal, roteirista do longa, logo anunciam em meio a vozes do 11 de setembro que se trata de um filme-reportagem, baseado em fatos que ocorreram e foram colhidos por Boal, jornalista que já cobriu a ação americana no Afeganistão, mas também reclamam a liberdade de uma obra de ficção. Esse oportunismo custa caro a A hora mais escura. Primeiro porque falta interpretação ao filme – e por isso serve de combustível tanto para quem vê legitimidade no uso da tortura para combater o terrorismo como para quem condena essa prática. O filme não defende a tortura como muitos rotularam desde que foi lançado nos EUA, tampouco a condena. É apenas um registro oportunista e sem profundidade das escamas da guerra ao terror. Talvez por isso Bigelow, nas constantes defesas em que se viu incumbida de fazer do filme desde que ele foi lançado, morda e assopre conservadores e liberais. O problema estrutural de A hora mais escura não é seu aparente apartidarismo, é flagrante a simpatia da realização pela gestão Obama, mas a pobreza de contextualização filosófico-sociológica com a qual encampa o flagelo americano na guerra ao terror em geral, e na obsessão com Bin Laden, em particular.  Nesse sentido, a performance de Jessica Chastain é eloquente. Ótima atriz, Chastain – indicada ao Oscar por razões que excedem seu trabalho aqui – está deslocada. Pouco convincente como uma agente da CIA que vai se transformando e endurecendo à medida que a caçada a Bin Laden avança em anos. Chastain não consegue interiorizar os conflitos éticos e morais de um país e, dessa maneira, torna-se uma espécie de relatoria do filme – que padece do mesmo problema.

Jessica Chastain e Kyle Chandler: o elenco coadjuvante não decepciona, mas a atriz não acerta o tom do registro

O que não quer dizer que o trabalho de Bigelow e Boal seja ruim. O roteiro de A hora mais escura é muito bem estruturado nos recortes temporais que faz; nas associações que projeta e nas adversidades em que joga luz. Bigelow, por sua vez, dirige com a firmeza e economia de emoções necessárias para um drama como o que A hora mais escura pretende ser.
Mesmo assim, ela não resiste à auto-adulação. Como A hora mais escura fracassa em estabelecer um discurso vívido e ressonante, Bigelow conclama o saldo de Guerra ao terror, no comentário final que avaliza com a última cena – sendo que essa conclusão funciona muito mais lá do que cá. Incidir que a América é um país beligerante e que depois do 11 de setembro mergulhou em uma obsessão que ceifa muitos dos próprios ideais americanos é um discurso prévio ao filme e que este falha em dimensionar.
Se se preocupasse menos em ser uma versão fiel dos fatos, A hora mais escura talvez fosse um filme mais verdadeiro. Se quisesse de fato discutir a obsessão americana com o terrorismo, o faria com mais criticismo e menos empenho em parecer verossimilhante. Para um filme-reportagem, A hora mais escura é uma ficção problemática. Para uma obra de ficção, é pouco contundente em suas proposições.

domingo, 11 de setembro de 2011

Questões cinematográficas - O cinema americano depois do 11 de setembro

Soa pueril dizer que o 11 de setembro transformou o cinema americano. Ou que ainda os eventos daquele fatídico dia tenham promovido uma profunda modificação no olhar dessa arte tão global e abrangente para com o mundo a sua volta – ainda que em um recorte essencialmente americano.
Mas seria igualmente pobre afirmar que o cinema americano não reagiu com contundência criativa à maior tragédia proporcionada pelo homem em solo americano.
O primeiro vestígio do 11 de setembro no cinema americano foi o desejo de voltar a tragédia. Filmes como alguns dos listados no TOP 10 do mês, A última noite, de Spike Lee, A vida durante a guerra, de Todd Solondz e Lembranças, de Allen Coulter erguem seus dramas da sombra do 11 de setembro no convívio de personagens essencialmente amargurados.
Chicago, um musical colorido que tinha o cinismo e o show business como alvo, foi o primeiro vencedor do Oscar após os atentados, revelando como a indústria reagiria a eles. Hollywood, a princípio, focou nas comédias e nas fantasias. As franquias Harry Potter e O senhor dos anéis, que chegaram aos cinemas no mesmo ano dos atentados terroristas, foram o principal alicerce do cinema americano naquele período.
O cinema americano, aos poucos, foi interiorizando os ataques terroristas. Fossem em filmes como Vôo United 93 ou em movimentos que sinalizavam busca pela tolerância e compreensão do outro (os Oscars de Crash e Quem quer ser um milionário? – ambas produções independentes que penaram para ver a luz do dia). Ambos os filmes, vicejados por clichês e soluções sentimentalistas, denotam essa intenção de capturar as contradições humanas mediante situações limites (pobreza, intolerância, violência) por uma ótica paternalista (moralista).

Cena de Os infiltrados, de Martin Scorsese: a paranóia e a violência ganharam destaque em filmes que assinalavam as contradições humanas


Em contrapartida, diretores como David Fincher, Christopher Nolan, Clint Eastwood e Martin Scorsese rodaram filmes sobre paranóia, desilusão, terrorismo e passagem do tempo. Nolan apresentou um filme de super herói que, além de prover uma desesperadora concepção do terrorismo (Batman – o cavaleiro das trevas), versa sobre a capacidade de se realizar sacrifícios e ter esperança no homem. Scorsese fez uma refilmagem de uma fita de ação oriental (Os infiltrados) e acrescentou desmedidos componentes de violência e paranóia em um pessimista retrato da condição humana. Depois fez um outro elaborado estudo sobre paranóia (Ilha do medo). David Fincher fez um notável filme sobre a passagem do tempo (O curioso caso de Benjamin Button) e sobre como o ser humano é trivial, opaco e redundante em escala universal .Terrence Malick , em A árvore da vida, resgata a discussão com muito menos vigor. Coube a Clint Eastwood a pecha de ser revisionista. Menina de ouro, Gran Torino, Invictus e Além da vida, separadamente, já possuem brilho. Juntos mostram a predisposição do cineasta de refletir um mundo marcado pela segregação e incompreensão. Gran Torino, em particular, é um libelo de tolerância.
Com os dez anos do 11 de setembro, a crônica cultural busca iluminar a representatividade dos atentados terroristas na produção de cinema nos EUA. Essa representatividade está vinculada à introspecção que pode ser notada no cinema independente e sua tentativa de capturar ruídos existenciais, um interesse perene desse tipo de produção acentuado pela vulnerabilidade pós-11 de setembro, ou no espetáculo hollywoodiano de filmes como Avatar e Harry Potter.

Clint Eastwood entrou em sua melhor fase como cineasta após os atentados terroristas de 2001: incompreensão, perdão, tolerância são algumas das palavras chaves dos filmes que tem feito de lá para cá...



O cinema americano ainda irá especular muito sobre o 11 de setembro. O distanciamento histórico talvez respalde a ousadia que ainda tateia em busca de abrigo. A recente morte de Osama Bin Laden abre mais um sem número de possibilidades.
O que de mais significativo ocorreu foi a busca pelo diálogo com o público. Se As torres gêmeas é uma homenagem a uma figura heróica como a dos bombeiros, Zona verde é o dedo em riste de Hollywood para a administração Bush. Nenhum desses filmes fez grande sucesso. O que ajuda a entender porque as produções bancadas pelos estúdios são tão espaçadas.
O cinema americano continuará cercando o 11 de setembro. Às vezes de forma mais sutil, outras de maneira indireta e outras tantas mais enfaticamente. Contudo, a grande “mudança” já aconteceu. E aconteceu na esteira dos próprios ataques. A capacidade de descortinar a tragédia como um campo de estudo sobre humanidades.

domingo, 4 de setembro de 2011

TOP 10 - dez diferentes abordagens do terrorismo após o 11 de setembro

O cinema americano, pode-se dizer, ainda não estourou sua cota do 11 de setembro. Ainda há muito a ser rememorado, analisado e aprofundado no cinema. Mas depois do maior atentado terrorista da história da humanidade, a pauta se estabeleceu não só na cinematografia daquele país como na de outros países também. Da Palestina à França, o interesse em refletir a conflagração e as consequências de tamanha hediondez insurgiu com propriedade e diversidade. A seção TOP 10 deste mês apresenta dez abordagens diferentes do terrorismo e seus compulsórios efeitos em filmes que foram produzidos a partir da queda das torres gêmeas.


10 – People - histórias de Nova Iorque, de Danny Leiner (People, 2005)
Esse pequeno filme independente foca em uma Nova Iorque ainda marcada e ressentida dos atentados terroristas de 2001. A ação se passa um ano após os aviões se chocarem com o World Trade Center. A trama do filme de Danny Leiner segue um punhado de personagens, de classes sociais e etnias distintas, tentando superar traumas pessoais com o vestígio dos atentados terroristas impregnado no clima da cidade.
É um trabalho interessante sobre como o ser humano é capaz de se desvencilhar de sombras, mas soa um tanto maniqueísta.


9 - Em busca de Osama Bin Laden, de Roger Goodman (EUA 2002)
Um documentário produzido quase que a toque de caixa por produtores associados à Discovery Network. Com figurões como a ex-secretária de estado americana Condolezza Rice, o ex-secretário da defesa Donald Rumsfeld e mais um punhado de analistas dos serviços de inteligência americano, este documentário alinhado com a visão americana cumpre uma função estratégica: vender o trabalho desempenhado pelo governo republicano de George W. Bush.
É interessante observar, no entanto, o raciocínio político que se estabeleceu a partir dos atentados terroristas de 11 de setembro e como esse filme curto (tem pouco mais de 60 minutos) atende a uma demanda dos americanos naquela época, a cabeça do homem mais assustador que a humanidade viu desde Adolf Hitler. De certa forma, Em busca de Osama Bin Laden alimenta essa iconografia.



8 – As torres gêmeas, de Oliver Stone (World Trade center, EUA 2006)
Quando Oliver Stone anunciou que faria um filme sobre o 11 de setembro, o mundo deu um passo para trás estupefado. O maior conspirador do cinema, reacionário para alguns, que fez um filmaço sobre a morte de JFK, duas espetaculares fitas sobre a guerra do Vietnã e outra certeira sobre Nixon iria, com menos de dez anos de intervalo, aspirar a poeira sobre os escombros da maior tragédia em solo americano. Mas As torres gêmeas não era um legítimo Oliver Stone. Pelo menos sob a perspectiva da intriga. Stone quis fazer uma homenagem àquela figura que saiu maculada da tragédia: os bombeiros.
Seu filme é um cântico de honra e coragem que jubila a profissão e faz do sentimentalismo um cortejo cinematográfico dos mais eficientes em termos dramáticos.



7 - O pecado de Hadewijch, de Bruno Dumont (Hadewijch, FRA 2009)
Na Europa, o preconceito com imigrantes consegue ser ainda mais forte e disseminado do que nos Estados Unidos. A religião, com o Islamismo no centro, é um dos principais focos de conflitos étnicos que marcam a Europa há séculos. De certa forma, esse elogiado filme de Bruno Dumont cerca esse tema. Ao acompanhar Céline (Julie Sokolowski), uma mulher viciada em sofrimento (para fazer uso de uma classificação grosseira mas objetiva), Dumont estabelece matizes para o fanatismo religioso que forja terroristas na Europa oriental e no oriente médio. Um filme introspectivo que pode provocar tanto repúdio quanto fascínio.




6 - 11 de setembro , de Youssef Chachine, Amos Gitai, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Shoshei Imamura, Claude Lelouch, Len Loach, Mira Nair, Sean Penn e Danis Tanovic, (11´09´11, FRA/EUA/Egito/Israel/Bósnia/JAP, 2002)
A proposta desse filme reflete a própria proposta desse TOP 10. Universalizar um ato que chocou o mundo e o transformou irreversivelmente. São onze curta-metragens com diferenças de estilo, estética e narrativa que se interrelacionam por ter o 11 de setembro de 2001 como ponto de coalizão. Datas históricas que se erigiram no 11 de setembro, a perspectiva do Oriente Médio, de uma viúva que perdeu o marido nos atentados, entre outras tramas modulam um panorama, ainda que irregular, humano e suficientemente curioso sobre esse evento definidor.



5 - Paranóia americana, de Jeff Renfroe (Civic duty, EUA 2006)
Esse filme descende diretamente do ótimo O suspeito da rua Arlington (1999) que captura maravilhosamente os gargalos da paranóia americana. O filme de Jeff Renfroe atualiza a trama daquele filme com o sabor do 11 de setembro. Um americano desempregado de Nova Iorque (Peter Krause) suspeita que seu vizinho, um estudante islâmico, seja um terrorista e passa a investigá-lo. O filme não tem o mesmo impacto de sua referência estrelada por Jeff Bridges e Tim Robbins, mas mapeia bem o acirramento da tensão étnica em certos bolsões americanos.



4 - Guerra ao terror, de Kathryn Bigelow (The hurt locker, EUA 2009)
A abordagem que esse filme agigantado pelos prêmios que conquistou faz tanto do conflito no Iraque, como do cotidiano de uma guerra enraizada em ações de terrorismo e contra-terrorismo é salutar. Tanto do ponto de vista narrativo, quanto da perspectiva mais global. A guerra que os EUA se lançaram após o 11 de setembro é diferente de todas as outras e este filme, com toda a sua tensão engendrada, expõe isso meticulosamente.



3- O suspeito, de Gavin Hood (Rendition, EUA/África do Sul, 2007)
Um dos reflexos diretos da paranóia que se estabeleceu após os atentados de 11 de setembro foi o chamado “patrioct act”. Medida para lá de problemática perpetrada pelo governo Bush que suspendia, sem aviso prévio, os direitos civis de quem quer que entrasse no radar dos suspeitos dos agentes do governo. Esse filme com elenco de peso (Meryl Streep, Alan Arkin, Reese Whiterspoon, Jake Glynhehaal e Peter Sarsgaard) remonta uma situação recorrente e que rendeu fortes críticas ao governo Bush por parte das Nações Unidas e órgãos dos direitos humanos. Um médico de origem mulçumana (um cidadão egípcio radicado nos EUA) é barrado no aeroporto e, além de ter seus direitos cerceados, é duramente torturado sem indícios sólidos de estar envolvido com células terroristas.
Um ótimo drama e um filme denúncia de grande ressonância.



2- Vôo united 93, de Paul Greengrass (United 93, EUA/INGL 2006)
Uma proposta tão inusitada quanto bem realizada. O inglês Paul Greengrass reproduz aqui, com um elenco formado por atores e profissionais que atuaram na linha de frente do 11 de setembro, os esforços para entender o que se passava a bordo dos aviões sequestrados e, se possível, impedir o pior. Vôo united 93, baseado em transcrições originais, também reproduz o que se passou no interior do vôo que dá título ao filme.
A fita, realista em proporções que escapam às referências, é tensa e emocionante na medida certa. Greengrass encerra seu relato de maneira a constituir uma homenagem àqueles cujas vidas foram ceifadas pelo terror em 11 de setembro de 2001.



1 - Paradise now, de Hany Abu-Assad (Palestina, 2005)


O que faz uma pessoa se tornar homem bomba? Essa é a pergunta chave por trás de Paradise now. Sem ideologismos e respostas fáceis, o diretor Hany Abu-Assad fornece um painel altivo e cheio de ruídos que podem incomodar um olhar ocidental, mas não emite julgamentos. É um filme implacável em sua proposta e irresoluto em seus resultados. Uma análise acinzentada que rejeita critérios obtusos e cerrados de seus interlocutores.

domingo, 16 de agosto de 2009

On TV

Ensaio: As bifurcações empalidecem o mistério de Lost

Como uma grande idéia se tornou um grande pepino?
Em 2004 tomou de assalto a TV americana e alguns meses depois todo o resto do mundo, um seriado de tv com premissa inovadora e cheio de referências que extravasavam a cultura pop. Lost, programa idealizado por J.J Abrams que se tornaria grife em virtude do êxito da série, Carlton Cuse e Damon Lindelof para a ABC, dos estúdios Disney, versa a principio sobre sobreviventes de um acidente aéreo perdidos em uma ilha deserta.
A pedido dos executivos do canal entretanto, Abrams acrescentou alguns elementos fantásticos que remetiam diretamente a clássicos da ficção científica como Twin Picks e Além da imaginação. Injetou ainda consideráveis componentes filosóficos e religiosos em uma trama segmentada e de narrativa fragmentada, como viria a ser marca tanto do programa quanto de Abrams que a reproduziria em seus outros projetos como o filme Missão impossível 3 e a série Fringe.
O vôo Oceanic 815 entrou para o âmago da cultura pop. Em uma ilha de paradeiro e origem desconhecidas, personagens de diferentes lugares do mundo e com personalidades conflitantes se viram obrigados a conviver e a lutar pela sobrevivência. Aos poucos a série ia revelando suas camadas, o recurso narrativo conhecido como flashback sugeria um propósito maior para aquela fatalidade que dava partida na série, já que não havia necessidade de lançar mão dele apenas para conhecer melhor os personagens.
Logo no episódio piloto, Abrams incutiu altas doses de mistério na trama. Como a existência de um urso polar em uma ilha tropical e coisas do tipo. A primeira e a segunda temporada foram proliferas em fabricar questionamentos; muitos dos quais distantes de qualquer lógica, mas foram exatamente essas duas primeiras temporadas que emularam melhor a representação filosófica a qual a série se predispusera.
Confrontando visões de mundo, promovendo de forma bastante intuitiva alteração de percepções, os personagens de Lost se mostraram um celeiro dos mais prósperos para toda e qualquer manifestação por parte de seus autores. A ciência e o ceticismo representados na figura de Jack ( Mathew Fox) contra a fé e a crença em um propósito maior representada na figura de John Locke ( Terry o´Quinn) deram o tom da segunda temporada.
Lost se mostrou pertinente também ao enfileirar criticas sociais a partir daquele contexto bastante específico. Seus criadores também foram eloqüentes na síntese dos elementos que buscavam trabalhar. Muitos episódios funcionavam maravilhosamente bem singularmente e também para a cronologia da série, algo que a própria série teria dificuldade de ostentar mais adiante.
A galeria de personagens era plural e aumentava a cada temporada, assim como os insolúveis mistérios, que começaram a inquietar e levantar suspeitas sobre a capacidade dos criadores de resolvê-los. Apesar destes assegurarem que tudo já estava delineado e que as respostas e os mistérios se resolveriam gradualmente, a terceira temporada de Lost sofreu com baixos índices de audiência e a reprovação da crítica.
Na terceira temporada, os produtores intensificaram o confronto entre Os Outros (habitantes que já moravam na ilha) e os sobreviventes do vôo Oceanic, na tentativa de renovar o interesse na série, não foi suficiente, o final da temporada contudo foi revigorante, Abrams e sua trupe surpreenderam e lançaram mão de flashforwards. Assim caia uma série de teorias sobre a série e resgatava-se um interesse legitimo de sua audiência.
A quarta temporada então foi desenvolvida para que a cronologia construída até ali se ajustasse a revelação do fim da temporada anterior. Nesse momento, a ABC em acordo com os produtores já havia fechado uma data para Lost terminar.2010. Seriam então 6 temporadas, e tornava-se imperativo portanto começar a amarrar as pontas. Só que a quarta temporada sofreu um revés. A greve dos roteiristas a diminuiu. Por consequência aumentando as duas últimas. Como de praxe no universo do seriado, muitas respostas surgiram( mais do que a média) mas junto com elas um sem número de perguntas, algo que continuava a impacientar os fãs, cada vez mais escassos.
A quinta temporada findada em maio último, foi aquela para por a história nos eixos. Os personagens agora não são mais o foco. Dar respostas é. Mas como? Como depois de semear tantas dúvidas com respaldo filosófico e verniz religioso, será possível saciar racionalmente algo que prescinde da racionalidade?
Da forma mais irracional possível, mas manipulando com argumentos que parecem lógicos. Assim, evocando O exterminador do futuro. Lost da inicio as viagens temporais em que relativiza tudo o que aconteceu, a ordem em que aconteceu e as responsabilidade de cada um acerca de tudo que gravita a ilha e o que ela significa.
Dessa maneira Lost, em sua quinta temporada, embora revigore o interesse por aquilo que tem de mais atraente - seu mistério escandescente, o faz de maneira pálida e rocambolesca, propositadamente confusa e contraditória para que não se possa alegar furos e omissões. Uma tacada de mestre de produtores espertos, inteligentes e muito bem informados, mas que inegavelmente não tinham noção de como terminar de maneira racional e satisfatória, tremendo fenômeno pop. Ao evitar uma lógica uníssona e clarividente, eles perpetuam o mito e garantem o sucesso de sua estratégia inicial.
O fim da quinta temporada resgata um pouco do elemento religioso que pautou a série no inicio. E dita também o tom daquilo que veremos na sexta temporada. No fim das contas, parece que Lost será uma alegoria filosófica para a terra e como Deus e o Diabo agem sobre ela. Ainda é precipitado afirmar isso, mas é a impressão deixada no fim do quinto ano. É preciso muita habilidade narrativa( o que há), e espaço para desenvolve-la( o que não há) para reverter essa impressão no último ano.
Fato é, que Lost não irá terminar sob o mesmo status que começou. E essa simples constatação já empobrece seu legado.

Filme do dia:

Segunda – feira 17

O suspeito na HBO às 20:15hs
Filme dirigido por Gavin Hood, que esse ano lançou Wolverine, sobre os efeitos devastadores que a guerra ao terror produz tanto na sociedade civil quanto nos valores americanos. Um cidadão de origem egípcia é barrado clandestinamente e interrogado por suspeita de terrorismo, sem que haja para tanto, uma prova sequer de sua participação. Existe um cena impagável entre a durona personagem de Meryl Streep, uma raposa do governo, e o assessor parlamentar vivido por Peter Saarsgard discutindo sobre os prós e os contras de tal politica de prevenção.

Terça – feira 18

A fantástica fábrica de Chocolate na TNT ás 19:30 hs
Remake visualmente arrojado de Tim Burton para a célebre e educativa história de Charlie e Willy Wonka. São os efeitos especiais e os malucados umpa lumpas que diferem essa versão de Burton da original. E como não poderia deixar de ser, Johnny Depp impressiona em uma composição andrógena e afetada.

Quarta- feira 19

A.I – inteligência artificial no Telecine Light ás 22:00hs
O filme de Steven Spielberg realizado a partir de uma idéia de Stanley Kubrick é um conto, entre outras coisas, sobre a capacidade de amar. E é na figura frágil do robô vivido por Haley Joel Osment e sua saga para ser amado, que Spielberg realiza o filme do pinóquio definitivo. Pois assim como a cria de Gepeto, o que impede a felicidade do protagonista aqui, é o fato dele nã ser um menino de verdade.

Quinta-feira 20

Evidências de um crime no MaxPrime ás 20:15 hs
Com elenco de peso, Ed Harris, Samuel L. Jackson e Eva Mendes, essa fita preenche suas expectativas. Jackson faz um ex -policial que toca um ramo em expansão, limpa cenas de crime, após a policia liberar é claro. Só que depois de não receber por um serviço e se ver suspeito do homicidio que ajudou a esconder, ele tem de voltar a rotina de investigações. Suspense básico sem grandes variações, mas bem delineado.

Sexta-feira 21

O amor nos tempos do cólera no Telecine Premium ás 17:40hs
Adaptado da obra de Gabriel Gargia Marquez, é improvável que o filme surta o mesmo efeito que o livro em quem leu. Contudo a obra de Marquez encontra dignidade no registro de Mike Newel e tem em um contido Javier Barden um bom catalisador da paixão inveterada de um homem por uma mulher que desconhece limites, até mesmo os do tempo.

Sábado 22

Até que a fuga os separe no Telecine Light ás 22:00hs
Grande momento dos comediantes Eddie Murphy e Martin Lawrence em que interpretam dois amigos que passam a vida inteira na prisão por um crime que não cometeram. Entre tentativas de fuga e treinos de beisebol, a dupla de comediante celebra os filmes de camaradagem com muito humor e bom gosto. Algo que ambos viriam a abrir mão com perolas escatológicas como Norbit e A vovozona 2.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Filme do dia


Paradise now

O diretor Hany Abu Assad surpreendeu meio mundo com essa fita que acompanha dois homens bombas palestinos momentos antes de concretizarem sua missão. De formações e crenças conflitantes, eles compartilham o mesmo destino, mas divergem quanto a funcionalidade daquilo que estão prestes a fazer. O filme de Assad é obrigatório pelo olhar inusitado e pela resistência em militar. Paradise Now é um filme da Palestina para o mundo. Não é uma obra prima, mas é um eloquente retrato de uma realidade que parece subsistir.