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sábado, 28 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013 - Os dez melhores personagens do ano

Fama, vingança, violência, desespero, manipulação, desamparo. Os melhores personagens do ano mimetizam algumas das idiossincrasias mais identificáveis no nosso convício social. Mas há, também, espaço para outras particularidades. Do cruel escravagista vivido por Leonardo DiCaprio em Django livre à solar personagem defendida por Jennifer Lawrence em O lado bom da vida. Os dez melhores personagens do ano no cinema no crivo de Claquete.


10 - João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira) em Faroeste caboclo

Calado e quieto, são mesmo duas características diferentes, Santo cristo carrega no olhar o esfacelamento da esperança. Pelo menos até se descobrir apaixonado por Maria Lucia e é aí que se transforma em um personagem esfomeado por algo que não consegue exatamente definir. A redenção é uma via de mão única e Santo Cristo, personagem nascido na música da Legião Urbana e adensado no filme robusto de René Sampaio, não é homem de desviar o olhar.

9 - Lancaster Dodd (Phillip Seymour Hoffman) em O mestre

Visionário, manipulador, líder religioso, picareta. Na assombrosa construção de Phillip Seymour Hoffman, Lancaster Dodd projeta todas essas sombras. O criador e principal articulador de uma seita religiosa é um dos personagens mais enigmáticos e fascinantes do ano e, ainda, um brilhante arquétipo das maquinagens institucionais em voga na sociedade contemporânea.

8- Daniel Lugo (Mark Wahlberg) em Sem dor, sem ganho

Em um ano com especial atenção à intensa, frenética e renovada busca pelo sonho americano no cinema, Daniel Lugo, o brucutu vivido por Mark Wahlberg em Sem dor, sem ganho, subestimado filme de Michael Bay, ganha merecido destaque na lista. Seria mais sofisticado ressaltar Jay Gastby, de O grande Gatsby, personagem clássico e com pedigree da mais fina literatura americana, mas Lugo é mais bruto, triste, melancólico e, por que não, verdadeiro em sua jornada tragicômica. O personal trainer que resolveu roubar tudo de um cliente e foi cometendo uma burrada atrás da outra é tão inacreditável quanto verdadeiro e tirou toda a sua “expertise” do cinema. Bingo!

7- Luciano (Aniello Arena) em Reality – a grande ilusão

Não é exatamente o sonho americano que move Luciano, mas uma variação mais encorpada e universal. O sonho pela fama e a ganância que deriva dele. No ótimo drama italiano premiado em Cannes, Luciano encasqueta que será selecionado para o Big Brother e passa a guiar suas ações e relações nessa percepção, que não se afasta nem mesmo quando o programa começa. Uma análise dolosamente bem urdida da loucura pela fama tão inserida em nosso contexto social.

6- Malkina (Cameron Diaz) em O conselheiro do crime

Fria. Sexual. Duas variações que dificilmente se aproximam. Mas a personagem defendida com brio e mesura por Cameron Diaz nesse incompreendido filme de Ridley Scott alimenta a duas descrições com igual voracidade. Implacável e impiedosa, a personagem se identifica com felinos selvagens e aos poucos o espectador vai se dando conta da acuidade dessa relação.

5- Tiffany (Jennifer Lawrence) em O lado bom da vida

Carente? Não é exatamente esse o problema de Tiffany, personagem que valeu o Oscar de melhor atriz a Jennifer Lawrence. Em sofrimento depois da morte do marido e com um quadro psiquiátrico francamente incompreendido, ela vê na promissora relação com Pat (Bradley Cooper), sofrendo também do coração e da mente, um caminho de volta para a felicidade. Impossível não ceder aos encantos da personagem mais “porra louca” do ano.

4- Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) em Django livre

O que de pior há na humanidade. Essa é uma das melhores descrições de Quentin Tarantino para o personagem que criou e Leonardo DiCaprio tão brilhantemente deu vida em Django livre. Senhor escravagista do Sul dos EUA no século XIX, Candie é um homem que vai conquistando o asco da audiência aos poucos, ainda que não consigamos desviar o olhar dele.

3- Joe (Matthew McConaughey) em Killer Joe – matador de aluguel

O terceiro lugar da lista é um tipo mais aterrador, complexo e, justamente por isso, mais fascinante do que Candie. Por isso se situa a sua frente na lista. O policial e assassino de aluguel vivido com esplendor por Matthew McConaughey parece não ter limites em seu sadismo, mas na verdade apresenta uma ética e um pragmatismo que o civilizam. Ainda que de uma maneira insanamente doentia.

2- Jon (Joseph Gordon-Levitt) em Como não perder essa mulher

Ele tem um vício em filmes pornográficos, mas o grande vício de Jon é tentar esconder suas fragilidades emocionais. O personagem criado e vivido por Joseph Gordon-Levitt é uma síntese de um conflito geracional ainda não resolvido. A tomada de consciência pelo personagem, e não exatamente uma maturação pré-condicionada, deflagra reflexões necessárias nessa altura do novo milênio.

1-Jasmine (Cate Blanchett) em Blue Jasmine

Defendida com bravura e talento incomensuráveis por Cate Blanchett, Jasmine é o reflexo de mudanças de paradigmas que não são exatamente compreendidos. No novo e pessimista filme de Woody Alle, Jasmine precisa se adaptar à vida de pobre depois que seu marido vai para a prisão, e se mata pouco depois, por fraude financeira. Tudo em Jasmine fascina. Sua loucura, seu deslocamento, seu esforço para se reinventar, sua humanidade... a personagem mais imperfeita e mais completa de 2013 nos cinemas.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Oscar Watch 2013 - A peleja dos filmes

1- As aventuras de Pi; 2- Amor; 3- Indomável sonhadora; 4- Argo; 5- Django livre; 6 - O lado bom da vida; 7 - Os miseráveis; 8 - Lincoln; 9 - A hora mais escura



Quando perder é ganhar

Argo é sobre Hollywood e sobre como as aparências são cruciais em jogo de manipulação e dissimulação que aproximam CIA e Hollywood. A melhor pior ideia que Hollywood teve, por sinal, foi deixar Ben Affleck de fora da lista dos diretores indicados. A solidariedade com o filme o impulsionou a um favoritismo na corrida que parecia impensável há alguns meses. Ótimo storytelling, Argo é um filme fácil de se gostar ainda que não seja especialmente notável. Sua vitória seria um legítimo “argo fuck yourself” para alguns cânones hollywoodianos.

Prós:
- Ganhou absolutamente todos os prêmios majors da temporada
- É a maior unanimidade em uma temporada de premiações desde Quem quer ser um milionário? em 2009
- Ganhou os prêmios de direção e filme no Critic´s Choice Awards, no Globo de Ouro e no Bafta, uma demonstração de que sua candidatura a melhor filme está bem consolidada
- Ganhou os prêmios dos sindicatos dos atores, diretores e produtores. Nos últimos dez anos, apenas três filmes (O discurso do rei, Quem Quer ser um milionário? e Chicago) contaram com o apoio dos três sindicatos e eles ganharam o Oscar de melhor filme.
- A percepção de que há muito voto solidário em favor de Argo pelo fato da Academia ter esnobado Ben Affleck entre os diretores. Vale lembrar que apenas o brunch de diretores da Academia elege os indicados a melhor diretor, mas todos os membros da academia escolhem os vencedores. Tanto na categoria de filme, como na de diretor.
- Ser um filme basicamente sobre Hollywood. Isso tem contado pontos nos últimos anos.
- Ter uma veia patriótica, ainda que moderada
- O vencedor do ano passado, O artista, também era sobre Hollywood

Contras:
- O vencedor do ano passado, O artista, também era sobre Hollywood
- Apenas três vezes na história do Oscar um filme venceu como melhor filme sem ter o diretor indicado e apenas uma vez nos últimos 60 anos
- O fato de ter relativamente poucas indicações em que pode ser considerado favorito depõe contra suas chances
- Muitos acadêmicos podem optar por um filme que tenha o diretor indicado por questões de coerência


Bom, mas nem tanto

Os miseráveis até conseguiu uma presença robusta no Oscar com suas oito indicações. Mas se tem um filme que parece fadado a não conquistar nenhuma das estatuetas a qual concorre é o musical de Tom Hooper. Prova disso é que é o único dos concorrentes a melhor filme que não tem uma indicação por roteiro. O desalento só não é maior porque Anne Hathaway é favorita na categoria de atriz coadjuvante e deve lavar a alma do musical de Tom Hooper. De qualquer jeito, a coragem do cineasta de fazer um musical do clássico de fundo social de Victor Hugo recebeu valiosa distinção da academia.

Prós:
- Prevaleceu nas categorias técnicas em premiações como o Bafta e o Critic´s Choice Awards
- É um sucesso de bilheteria até certo ponto improvável para um musical
- Ganhou o Globo de ouro de melhor comédia/musical
- Tem sua força em suas interpretações e isso pode cativar o maior colegiado da academia que é o dos atores
- Deve agradar o voto mais conservador
- É uma história essencialmente francesa e os franceses estão em voga no Oscar nos últimos anos

Contras:
- Não ter sido indicado em montagem, direção e roteiro praticamente liquida qualquer chance de vitória
- O fato de Tom Hooper ter ganhado em grande escala no Oscar recentemente com O discurso do rei
- É um musical até certo ponto vanguardista e as liberdades tomadas por Hooper podem incomodar o voto mais conservador


Blockbuster de coração

As aventuras de Pi é o filme mais família dos indicados. É também o de narrativa mais complexa já que boa parte do tempo se passa em um bote salva vidas em que um adolescente tem um tigre digital como companhia. Ang Lee realiza um filme com forte conotação espiritual sem ser presunçoso. É um filme digno das 11 indicações que recebeu. Pode ser uma opção mais convencional a filmes sisudos ou modernos demais para o Oscar.

Prós:
- É um épico de alma intimista. Hollywood costuma apreciar filmes assim
- Foi indicado a todos os prêmios major da temporada
- Tem uma das maiores bilheterias internacionais entre os indicados a melhor filme. Como o Oscar hoje é um prêmio global...
- Está presente em praticamente todas as categorias técnicas

Contras:
- Não tem nenhuma performance indicada. É o único dos indicados a melhor filme nessas circuntâncias
- A percepção de que merece mais prêmios por sua destreza técnica
- A pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- Ter sido rodado em 3D e a tecnologia ainda não conquistou muitos acadêmicos


Um clássico menor

Django livre é uma desforra à tarantina. O western sobre um escravo vingador de Quentin Tarantino não é o filme que se esperava dele depois de Bastardos inglórios, mas ainda é entretenimento em alto nível. Django livre consolida Tarantino como uma das figuras do Oscar, mas é seu filme com menos chances de vitória nesta categoria.

Prós:
- Diverte como poucos dos incluídos entre os indicados e isso há de contar para alguma coisa
- O espírito de reescrever a história que Tarantino tem apresentado pode cativar muitos eleitores
- Tem ótimas atuações e bons diálogos
- Quentin Tarantino é um sujeito com muitos fãs

Contras:
- Ser muito inferior a Bastardos inglórios que é relativamente recente pode afugentar votos
- Quentin Tarantino é um sujeito ao qual muitos têm restrições
- O fato de Tarantino não ter sido indicado a melhor diretor
- Não é tão inventivo quanto seus principais filmes


Realismo fantástico

A Academia parece cada vez mais propensa, mais do que selecionar um pequeno indie, a selecionar um de narrativa imaginativa. Foi assim com A árvore da vida no ano passado e com Distrito 9 em 2010. Indomável sonhadora embarca no realismo fantástico e ganha o apoio do Oscar. É o tipo de filme que ainda não tem chances de ganhar, mas que pavimenta o caminho para que outros que venham depois possam sonhar mais alto.

Prós:
- É o time pequeno do ano e tem muita gente, dentro da academia inclusive, que gosta de torcer para time pequeno
- Pode se beneficiar do hype da indicação para Quvenzhané Wallis de apenas 9 anos

Contras:
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- A existência de outro independente muito mais baladado: O lado bom da vida
- Não ter tido uma campanha de marketing forte na corrida pelo prêmio


O melhor?

O lado bom da vida é um filme excelente em todos os predicados que caracterizam o bom cinema (direção, roteiro, atuação, montagem, etc), mas é também uma comédia romântica – ainda que bifurcada com um drama sobre transtornos psicológicos. Há quem entenda que não é “material de Oscar”, mesmo sendo o melhor entre os filmes indicados. Para vencer precisa superar esse paradigma.

Prós:
- O filme caiu nas graças do colegiado dos atores e em uma disputa parelha isso pode ser uma vantagem
- É independente e os independentes têm prevalecido no Oscar nos últimos cinco anos
- É o mais leve e otimista dos indicados a melhor filme
- Os últimos filmes com indicações para melhor ator e atriz, direção e roteiro e filme, o chamado big five, venceram o Oscar de melhor filme: Menina de ouro e Beleza americana entre eles
- Ser promovido por ninguém menos que Harvey Weinstein também conhecido como papa Oscars

Contras:
- É para todos os efeitos uma comédia e comédias não costumam ganhar o Oscar de melhor filme
- Não ganhou nenhum prêmio major na temporada
- A percepção de que é um “filme de atores”
- Weinstein levou a melhor nas duas últimas disputas por melhor filme. Três consecutivas pode ser demais até para ele

O maior herói americano

Não é super-homem, mas um “self made man”, como gostam de classificar os americanos. Abraham Lincoln também é um “self made politician” e Lincoln, o filme de Spielberg que lidera a corrida pelo Oscar, é mais sobre essa faceta do único presidente capaz de unir democratas e republicanos em vias de consenso. Nem sempre foi assim e o ótimo filme de Spielberg se ocupa dessa história. O Oscar seria apenas mais um estandarte na gloriosa história do político mais influente da América.

Prós:
- É o filme líder de indicações no ano
- Apresenta um personagem com uma base consolidada de fãs e admiradores dentro e fora da Academia
- É dirigido por uma figura muito querida que é Steven Spielberg e tem como protagonista outra figura querida e admirada que é Daniel Day Lewis
- Não é uma biografia quadrada
- Esteve presente em todas premiações majors da temporada e na liderança da corrida em todas elas
- Depois de filmes estrangeiros brilharem nos últimos dois anos, é uma produção essencialmente americana sobre a grandeza americana
- É um filme de rara inteligência tanto na filmografia de Spielberg quanto na média das produções premiadas com o Oscar de melhor filme
- É o maior sucesso de bilheteria nos EUA entre os indicados a melhor filme
- A badalação em torno da atuação de Day Lewis pode computar votos para o filme
- Muitos propensos a votar a favor de um terceiro Oscar para Spielberg podem se decidir pelo filme, mesmo que não o enxerguem como o melhor do ano

Contras:
- Não ganhou nenhum prêmio major na temporada
- É considerado anticlimático demais para os padrões de Spielberg e pode afugentar votos habituais do diretor
- É mais um filme sobre política do que sobre Lincoln propriamente dito e filmes políticos não costumam prevalecer no Oscar
- Apesar das muitas indicações em diversos prêmios, Lincoln não converteu as indicações em vitórias e adquiriu a pecha de “filme derrotado”
- Não é o melhor filme do ano e, para alguns, nem mesmo o melhor sobre escravidão no ano 


Honesto e sem concessões

A indiferença da vida especialmente a essa fabricação humana que é o amor é um dos eixos centrais desse doloroso e pouco passional filme de Michael Haneke que foi surpreendentemente abraçado com ímpeto pela Academia. Mais uma investigação da fragilidade da vida e de suas reminiscências do que um tratado sobre o mais nobre dos sentimentos, Amor é um filme agigantado por sua humanidade. Faz bem ao Oscar tê-lo em seu pool de nomeados.

Prós:
- É um filme calcado no desempenho dos atores, algo sempre reverberante junto ao maior colegiado que compõe a Academia
- É um filme extremamente humano e atemporal
- É falado em francês e a França anda em alta em Hollywood
- É simples no seu desenvolvimento e complexo em sua contextualização. Menina de ouro, com estrutura semelhante, já triunfou no Oscar em situação parecida
-É um filme estrangeiro e de um diretor cult. Há muito apelo nessa convergência de características; especialmente em um ano sem grandes filmes

Contras:
- Tem ritmo demasiado lento em comparação com a média de filmes vencedores do Oscar e dos filmes contra os quais concorre neste ano
- A percepção de que é um “filme de atores”
- A resistência ainda bastante forte de se premiar uma produção estrangeira
-Filmes com temática semelhante já receberam bastante atenção do Oscar nos últimos anos como Menina de ouro, Longe dela e Mar adentro
-A percepção de que basta a vitória na categoria de filme estrangeiro para honrar o trabalho de Haneke


Mais escuro do que claro

Certamente o mais fraco dos indicados a melhor filme, A hora mais escura é também o que reunia mais expectativas. Ainda que uma condição não esteja relacionada à outra, o filme sobre a caçada a Osama Bin Laden se revela oportunista e perigosamente impreciso em suas formulações episódicas e estruturais. A polêmica pode ter diminuído o tamanho do filme no Oscar, mas o hype de ser o primeiro filme a abordar um dos maiores feitos americanos na guerra contra o terror lhe garantirá um lugar distinto na história.

Prós:
- É um registro no estilo documental que tanto agradou os votantes que deram a vitória à Guerra ao terror há três anos
- É um elaborado misto de thriller de espionagem com filme político. Em um eventual revival dos anos 70, é um candidato imbatível no Oscar
- Foi o filme mais premiado pela crítica na temporada
- Estabelece um novo paradigma no cinema comercial americano: o filme-reportagem

Contras:
- É nitidamente oportunista ao flertar com ideias republicanos e democratas as vezes em uma mesma cena
- É um filme demasiadamente anticlimático para um vencedor do Oscar
- Há pouco espaço para os atores brilharem e isso pode ressentir o voto desse colegiado
- Reza a mesma missa de Guerra ao terror
- As polêmicas barulhentas acerca do terrorismo e da tortura podem fazer acadêmicos que apreciem o filme pensarem duas vezes antes de votar nele
- O fato de Kathryn Bigelow não ter sido indicada na categoria de direção  

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Insight - Depois da obra-prima



O ano de 2012 pregou uma pegadinha em cinéfilos, críticos e em alguns cineastas. O ano reuniu os trabalhos sequenciais de muita gente que vinha do pico de suas carreiras. Michael Haneke, por exemplo, vinha do soberbo e irrevogável A fita branca (2009), um colosso de cinema sob qualquer ângulo que se observe. A Palma de ouro em Cannes, e mais um punhado de prêmios internacionais, pareciam coroar uma carreira pungente e acadêmica que ainda não havia sido reconhecida a contento. Mas aí veio Amor.
Paul Thomas Anderson, por seu turno, havia atingido a glória com Sangue negro (2007). Filme que para muitos críticos o levara ao panteão dos diretores imortais. Não era preciso fazer mais nada; mas já que ele não decidiu se aposentar, se investiu da necessidade de fazer algo minimamente compatível com a imensa expectativa que um filme como Sangue Negro para sempre ensejaria sobre sua obra futura. E aí veio O mestre.
Bastardos inglórios: o auge de
Tarantino
Outros cineastas prestigiados também se viram as voltas com expectativas semelhantes em 2012. Christopher Nolan mudou a percepção que o mundo tinha de adaptações de quadrinhos nos cinemas com O cavaleiro das trevas (2008). Uma mudança muito mais profunda e complexa do que um primeiro olhar faz crer. Ele fez A origem em 2010 que só fez aguçar a curiosidade pelo desfecho da trilogia que para sempre será entoada como a obra máxima de Nolan. O cavaleiro das trevas ressurge, no entanto, não sobreviveu às expectativas desestabilizadoras que confluíram a seu encontro.
Outro arista americano revolucionário, Quentin Tarantino, talvez ostentasse um desafio ainda maior. Mais icônico e reconhecido do que Nolan, Tarantino apresentou ao mundo em 2009, sua obra prima: Bastardos inglórios. O próprio, em recurso metalinguístico muito bem sacado admitiu isso dentro do próprio filme – tamanha era a clareza de que aquele se tratava, enfim, do auge de sua carreira. Django livre, a despeito do imenso sucesso de público e das indicações ao Oscar, é uma curva descendente em relação a Bastardos inglórios.
Esses quatro casos servem para dar nova dimensão a uma angústia que marca boa parte dos diretores de cinema depois de apresentarem ao mundo, aquilo que crítica, público e indústria chamam de obra-prima. Cineastas como M.Night Shyamalan, para ficar em um exemplo bastante famoso, não sabem se desvencilhar dessa arapuca.

Paul Thomas Anderson orienta Daniel Day Lewis no set de Sangue negro: auge da carreira ou de seu primeiro ciclo?

Paul Thomas Anderson orienta Joaquin Phoenix no set de O mestre: de quantas obras-primas uma carreira imortal necessita?


Atenção às similaridades
Salta aos olhos, o fato desses quatro cineastas serem escritores/diretores e de gozarem de total liberdade em seus projetos. A falta de liberdade é constante reclamação de Shyamalan e foi o que motivou Woody Allen, por exemplo, a ir filmar na Europa.
Haneke e Anderson, em particular, obtiveram resultados muito melhores do que Tarantino e Nolan com seus lançamentos de 2012. Amor, ainda que não seja um filme tão importante em ramificações sociológicas quanto o é A fita branca, apresenta predicados tão eloquentes quanto.
É um filme em que Haneke mantém sua postura estética e o interesse sobre o comportamento humano em face de circunstâncias adversas; ainda que tenha mudado o escopo de análise, ele manteve firme seu olhar. A história do casal de idosos às voltas com o desfalecimento da mulher não é, nesses termos aventados, diferente do casal vítima de uma dupla de sádicos (Violência gratuita) ou de uma vila consternada por uma série de ataques injustificados (A fita Branca).
O mesmo compasso serve para analisar o mais recente filme de Paul Thomas Anderson. À parte a óbvia relação da religião ser parte proeminente tanto em Sangue negro como em O mestre, Anderson alinhava personagens para servir como parâmetro para um estudo minucioso da alma humana. De convenções como ambição, pertencimento, ego, felicidade, capitalismo, entre outros. A observação pode ser estendida para outras de suas obras como Magnólia (1999) e Boogie Nights (1997). Mas é inegável que esses seus dois últimos filmes dialogam em um nível muito particular. Nos arranjos do texto, porém, O mestre é mais sofisticado.
Haneke de costas no set de Amor:
fidelidade estética e liberdade temática
Já Nolan e Tarantino se aproximam não só pelo fato de ambos terem obtidos resultados menos satisfatórios em suas empreitadas posteriores as suas obras-primas, mas por mais do que aprofundarem seus interesses narrativos, reciclarem fórmulas bem sucedidas sem o mesmo apelo de outrora.
Tarantino nos tirou o fôlego ao reescrever a história em Bastardos inglórios e conferir ao cinema uma importância redentora até então inédita. Ele resolveu utilizar o mesmo recurso em um western spaghetti com um escravo vingador no período pré-guerra civil americana. Se o rebuscamento de Bastardos inglórios falta a Django livre, estão lá a presença luxuosa de Christoph Waltz – a evocar Bastardos a todo o tempo – e o manancial de referências cinematográficas e culturais que tanto acrescem ao cinema tarantinesco. Se Django livre viesse ao mundo antes de Bastardos inglórios, os dois filmes teriam melhor estima do que já ostentam. Na ordem real, Django livre acaba por engrandecer o trabalho anterior de Tarantino.
Com Nolan acontece mais ou menos a mesma coisa. Ele filtra muito da estrutura narrativa de seus dois maiores acertos (A origem e O cavaleiro das trevas) no desfecho da trilogia do Batman, mas não adensa o filme dramaticamente. O conflito eriçado em O cavaleiro das trevas ressurge já surge esgotado.  

Christopher Nolan no set de O cavaleiro das trevas ressurge: uma trilogia dramaticamente esgotada em dois filmes

Positivo
É certo, porém, que esses quatro cineastas apresentaram em 2012 obras expressivas e catalisadoras de merecida atenção. São filmes que, em alguns casos, não se comparam aos trabalhos anteriores, mas que ainda estão acima da média dominante do cinema mundial. Mais do que qualquer coisa, entretanto, esses cineastas demonstraram em 2012 que há, sim, vida depois da obra-prima.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Crítica - Django livre


Western vingador

Depois de Bastardos inglórios (2009), a missão de Quentin Tarantino não era fácil. Ainda que expectativas sejam sempre ruidosas em torno de seu cinema, depois da obra prima que revelou ao mundo o talento de Christoph Waltz, acrescentou-se à espera por Django livre (Django unchained, EUA 2012), a percepção de que Tarantino fizesse pelos negros o que fez pelos judeus em Bastardos inglórios. Não foi essa a opção artística de Tarantino, ainda que ele tenha alimentado essa expectativa em entrevistas promocionais. Há sim o espírito revanchista visto em Bastardos inglórios e licenças poéticas equivalentes. Mas não há a mesma sofisticação no argumento e sua flagrante ramificação nos diálogos. Ainda que o roteiro seja tão esperto quanto se poderia imaginar, as referências empregadas por Tarantino, salvo a participação de Franco Nero e o peso de uma menção a Alexandre Dumas, são menos entusiasmantes do que o diretor de Pulp Fiction acostumou sua plateia. De maneira alguma, no entanto, depõem contra o entretenimento salutar que é Django livre; especialmente para os fãs do cineasta.
Tudo começa com o dr. King Schultz (Christoph Waltz), um caçador de recompensas alemão que compra Django (Jamie Foxx) para ajudá-lo a identificar três irmãos fugitivos com cabeças à prêmio. Mais adiante, Schultz e Django, a quem o alemão libertou por abominar a escravidão, gozando de indubitável afinidade, travam um acordo: Django será o parceiro de Schultz em suas caçadas pelo inverno e depois Schultz o ajudará na missão de libertar sua mulher Broomhilda – parte daí um das coisas mais sedutoras em Django livre. Tarantino se apropria de uma lenda nórdica, bastante popular na Alemanha, para temperar a história de amor que move Django e confere mais estofo à trama de vingança.  

Os bons companheiros: o alemão e o negro contra a tirania americana do sul no western revanchista de Tarantino


Broomhilda está em Candyland, fazenda de propriedade de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um exótico apreciador de “mandigo fights”, lutas entre escravos.
Tarantino investe em um western de fotografia saturada, com atuações caricaturais e tiros espalhafatosos. É uma alternativa reverente a um de seus gêneros preferidos. Mas como western, Django livre é um ótimo filme de Tarantino. Talvez aí esteja parte do problema da obra. Para se ter uma ideia, os Coen foram muito mais bem sucedidos na releitura que fizeram de um clássico do gênero com Bravura indômita (2010).
No entanto, Tarantino articula algumas boas aventuranças em sua empreitada. A figura do escravo vingador Django é a mais nítida de todas, mas o conchavo de um emergente Ku Klux Klan é outro grande momento. A ojeriza do europeu civilizado em face da selvageria americana em pleno século XIX é outro comentário sutil muito eloquente do cineasta que ganha nas expressões sempre febris de Waltz uma força tremenda. A relação de Candie com seu escravo Stephen (Samuel L. Jackson), uma relação de um homem com seu pet, também é um assombro em sua eloquência. O mesmo Stephen, personagem vivido com gosto por Jackson, um negro que se acha superior aos outros negros – um personagem tão real quanto incômodo – é outro esqueleto no armário que Tarantino revela com seu filme.
Django livre, como todo bom Tarantino, opta pela via violenta em seu desfecho. Mas há um comentário valoroso embutido no ato que desencadeia a violência que dita o clímax do filme. Um homem que mata por dinheiro é mais honrado do que um homem que o faz apenas para seu entretenimento. É um comentário poderoso que se fosse mais bem articulado nas cenas que se seguem poderia fazer de Django livre um filme mais significativo do que de fato é. E aí entra outro problema do filme. A edição. É certo que o filme poderia ser pelo menos uns 25 minutos mais curto. Cenas inteiras são desnecessárias. Um peso que certamente abala a estrutura do filme.
Um abalo positivo, porém, reside na pomposa trilha sonora. Todas as composições, inclusive as quatro do mestre Ennio Morricone, tornam a jornada de Django e Schultz mais potente.

Visceral: Leonardo DiCaprio tem em Django livre um dos melhores momentos de sua carreira


Potente, aliás, é Leonardo DiCaprio em cena. O ator cria um personagem asqueroso em toda a sua existência que representa com clareza toda a ignorância e selvageria que avexam esse recorte da história americana. Com bem menos tempo em cena do que Foxx e Waltz, DiCaprio atinge os melhores agudos de Django livre com sua interpretação.
Por fim, o mais recente Tarantino é um filme imperfeito. Não tem a força e inteligência de Bastardos inglórios, sua obra prima, nem a originalidade e ousadia, de Pulp Fiction, sua antologia, mas é um filme que sobrevive em suas boas intenções para com o cinema e com a humanidade.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Filme em destaque - Django livre

Sem medo de polêmicas

Um negro racista, um senhor de escravos no limite da crueldade, um ex-escravo vingador e violência transbordante em meio ao humor negro que lhe é característico; Django livre é o novo filme de Tarantino e a sequência de uma trilogia sobre vingança iniciada com Bastardos inglórios (2009)



“A ideia de fazer um spaghetti western é anterior (à Bastardos inglórios), me acompanha há mais de dez anos e talvez tenha me acompanhado desde sempre, mas começou a nascer efetivamente há uns sete ou oito anos”, confessou Quentin Tarantino em entrevista a O Estado de São Paulo. O cineasta, no entanto, reconheceu que a cena inicial somente lhe veio a cabeça durante um evento de promoção de Bastardos inglórios no Japão.
Django livre para Tarantino é uma homenagem ao cinema de ícones do western spaghetti como Sergio Leone, mas principalmente, Sergio Corbucci, cineasta de extensa filmografia que permaneceu na sombra do Sergio mais famoso. Contudo, Tarantino reconhece que Django livre é, também, a sequência de uma trilogia informal sobre vingança iniciada com Bastardos. “O cinema me permite reescrever a história”. O cineasta explica que ainda não pensou na temática do terceiro filme e diz que não tem pressa para fazê-lo.

Filmagens tumultuadas
Temporais destruindo os sets de filmagens, atores entrando e saindo do elenco, Tarantino não teve vida fácil para confeccionar seu sétimo longa-metragem. E nem para finalizá-lo. Django livre é o primeiro filme de Tarantino a não pousar em um festival de cinema. Até mesmo Cães de aluguel, quando Tarantino ainda era um desconhecido, percorreu um vasto circuito de festivais – até mesmo a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Acredito no cinema sob pressão”, contextualiza o diretor. “É bom experimentar a urgência que consome os personagens. Ela serve ao filme. E eu estaria mentindo se dissesse que não ligo para o Oscar”. O diretor correu para aprontar o filme a tempo de lançá-lo em meio à corrida pelo Oscar. “O lançamento ideal seria lá para março”.
Atores que Tarantino queria para seu filme largaram o projeto no meio. Um exemplo é Kevin Costner que faria um capataz. Especulou-se à época do casting que esse personagem seria o Vincent Vega (personagem de John Travolta em Pulp Fiction - tempos de violência) de Costner. O ator, no entanto, era frequentemente flagrado falando mal do personagem e de sua violência injustificada. Alguns meses depois do início das filmagens, Costner abandonou o projeto sem uma justificativa oficial. A assessoria do filme e do ator se aprontaram em dizer que seu compromisso com as filmagens do novo Superman ensejavam conflitos e ele teria optado pelo filme em que teria uma participação maior. Pois bem, Kurt Russell, outro ícone oitentista que já havia trabalhado com Tarantino no média metragem À prova de morte assumiu o papel, para poucos dias depois largá-lo, novamente, sem uma justificativa plausível. Outros atores como Joseph Gordon-Levitt, Sascha Baron Cohen e Jonah Hill entraram e saíram da produção em virtude dos constantes atrasos e por conflitos de agenda.
Antes disso tudo, porém, Tarantino levou um doloroso não de Will Smith, para quem havia escrito o papel de Django. Tarantino, em entrevistas recentes, tem minorado esse episódio, mas a verdade é que Django livre começou sem o seu protagonista ideal.

Certo desde sempre no elenco, o austríaco Christoph Waltz foi o único ator que participou da confecção do roteiro. Ele e Tarantino se reuniam periodicamente para discutir o texto do filme 


Niggers, Waltz e mais polêmica
Quais são os três grandes atores negros americanos da atualidade? Além de Will Smith, há Denzel Washington e Jamie Foxx. Foi a este último a quem Tarantino recorreu e foi socorrido. Seu filme, afinal, tinha um Django. “Will tem um lado bonachão. Jamie ressaltou o que há de duro, o rancor de Django. E eu acho que ele também assumiu o desejo do ex-escravo pela mulher. Jamie é um ‘ladies man”, explica Tarantino enquanto valoriza seu protagonista. Se garantir Django foi difícil, os outros três personagens centrais da trama não foram. Christoph Waltz, o icônico coronel Hans Landa de Bastardos inglórios, sempre foi a primeira opção para viver o sadomasoquista dentista que se serve do instinto de vingança de Django enquanto busca recompensas e extrai sisos. E havia também Leonardo DiCaprio. “Ele é um ator fenomenal e ajudou a construir o meu primeiro vilão que eu realmente detesto”, disse Tarantino à Total Film. A crítica internacional reagiu ao cruel escravocrata de Leonardo DiCaprio como um dos grandes momentos da carreira do ator. A parcela que desgostou do mais recente filme de Tarantino assinalou que o personagem de DiCaprio é a potencialidade do que Django livre poderia ter sido.
O que Django livre é, na verdade, é um ímã para polêmicas. A mais recente a abraçar o filme diz respeito ao uso da palavra “nigger”. A norma do politicamente correto aboliu o uso do termo (que quer dizer negro) em virtude de seu caráter depreciativo. Acusações de que o filme e Tarantino sejam racistas começaram a pipocar e Samuel L. Jackson, que faz um negro racista no filme (outro nome fechado com o diretor desde o início), saiu em defesa do filme: “Era como era naquela época. Você reproduzir isso não quer dizer que compactue com o conceito”.
O cineasta Spike Lee foi a público maldizer o filme e garantir que não veria Django livre por este ser desrespeitoso. “A escravidão não foi um western spaghetti. Foi um holocausto”. Tarantino evitou o bate boca em público, mas está cada vez mais impaciente a perguntas sobre a violência em seus filmes. Recentemente, bateu boca com um repórter que relacionou massacres como o ocorrido em uma escola primária em Sandy Hook e filmes como Bastardos inglórios e Pulp Fiction.
Mesmo violento e envolto em polêmicas, Django livre vai ao Oscar. O filme recebeu cinco indicações ao prêmio da Academia. Filme, roteiro original, Ator coadjuvante para Christoph Waltz, fotografia e edição de som.
Tarantino não acredita que seu filme ganhe algum Oscar. "Mas é legal ser convidado para a festa".

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Oscar Watch 2013 - As primeiras impressões dos indicados ao Oscar





Em um primeiro momento, a lista dos concorrentes à 85ª edição do Oscar é revigorante. Não exatamente pela inexistência de injustiças e esnobadas, em um prêmio da estatura do Oscar e em que o gosto de um colegiado amplo e diversificado precisa ser equalizado elas sempre acontecerão. No entanto, é uma lista com invejável personalidade e que devolve ao Oscar o título de barão dos prêmios de cinema – posição que estava se perdendo em temporadas cada vez mais previsíveis. Não que a Oscar season 2013 não tenha um favorito absoluto. Lincoln desde a fase pré-Oscar já era tido como o filme a ser batido, impressão confirmada pela liderança na corrida de todos os prêmios. Mas pelo fato de que o Oscar, com a antecipação de suas indicações forçando a antecipação de todo o calendário de premiações, favoreceu um ambiente de frescor e emoção que há muito não se via. Os sindicatos e premiações preliminares viram seu peso diminuir e muitos “gurus” protestaram quanto ao que acham uma lista injusta e surpreendente. Sobre esse tópico em particular, Claquete fará considerações mais adiante na semana.
Sobre a lista em si, é possível dizer que estão aí os indicados ao Oscar. Aqueles filmes que deixaram boa impressão junto aos acadêmicos e não os filmes que estavam monopolizando as atenções na temporada de premiações, ainda que justificadamente alguns deles estejam em destaque no Oscar.
Conforme Claquete já antecipava, a polêmica envolta em A hora mais escura custou ao filme de Bigelow a pujança que críticos se apressaram em atribuir à fita. Na celeuma entre conservadores e liberais, dentre os favoritos declarados, A hora mais escura foi o que obteve menos consistência nas indicações.
A esnobada em Ben Affleck na categoria de direção desarma os detratores do Oscar que se apressaram em dizer que as surpresas ocorreram pela antecipação do calendário simplesmente. Diferentemente de Quentin Tarantino (Django livre), Tom Hooper (Os miseráveis) e Kathryn Bigelow (A hora mais escura), Argo foi lançado em outubro. Amor, indicado a filme e direção, foi lançado nos EUA em dezembro, em poucas salas, e ainda é falado em francês. É preciso mais reflexão para entender a exclusão de Affleck da disputa. Quanto a Hooper e Bigelow, suas recentes vitórias e o fato de seus filmes não acolherem a unanimidade, podem ter sido fatores decisivos. A Tarantino, a razão de sempre: a academia não lhe engole como diretor. Mesmo assim ele já ostenta duas indicações na categoria.
Em um ano aparentemente tão atípico, uma comédia romântica com pegada dramática salta aos olhos na lista. Trata-se de O lado bom da vida. O filme de David O. Russell angariou oito indicações ao Oscar e, inclusive, nas quatro categorias de atuação. Feito inédito em 31 anos. Desde Reds que isso não acontecia. O entusiasmo com Russell não deixa de ser um contraponto a Tarantino. Ambos são diretores roteiristas com um passado de declarações improperas que atingiram maturidade autoral nos últimos anos. Mas Russell talvez seja mais palatável, certamente é menos cortante.

O lado bom da vida contraria o histórico das comédias no Oscar e conquista invejáveis oito indicações ao prêmio máximo do cinema

Outro mérito a ser observado é que pela primeira vez desde 2010, quando o número de indicados a melhor filme dilatou, houve equivalência entre as indicações a melhor filme e melhor roteiro. A ode à coerência é reforçada pelo fato de, entre os selecionados a melhor filme, não ter uma produção sequer com menos de quatro indicações – caso de Indomável sonhadora.
Algumas com cinco (Django livre, Amor, A hora mais escura), outra com sete (Argo), duas com oito (Os miseráveis e O lado bom da vida), uma com onze (As aventuras de Pi) e o campeão do ano Lincon com 12 nomeações.
É uma prova viva de que os membros da academia estão aprendendo a votar com o novo sistema de preferência que admite entre cinco a dez indicados a melhor filme.
No campo das atuações, foi o menor índice de concomitância entre os selecionados pelo SAG e pelo Oscar desde que o sindicato começou a distribuir seu prêmio. Ótima notícia também. Isso quer dizer que os membros da academia estão vendo filmes e não apenas “copiando e colando” o que o sindicato, um brunch infinitamente maior, avaliza.
Alguns filmes parecem se destacar no campo das atuações. Além de O lado bom da vida, Lincoln, O mestre e Os miseráveis, todos com mais de uma indicação, parecem ter agradado o departamento de atores. À parte O mestre, todos concorrem ao prêmio de elenco do sindicato.
Nesse momento, a briga parece se concentrar entre Lincoln e As aventuras de Pi, que estão em confronto também no Globo de Ouro, no Producers Guild Awards, no Bafta e no Directors Guild Awards, mas não se pode menosprezar a força de O lado bom da vida, de longe a presença mais sólida no Oscar. Além de estar presente em todas as categorias ditas nobres, o filme é distribuído pelo mesmo Harvey Weinstein que já tirou leite de pedra. Pode não parecer, mas a corrida ainda está começando...

sábado, 15 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012 - Os dez cartazes mais cool do ano


10 – Drive

Um dos filmes mais cool do ano não poderia ficar de fora da lista. Ainda que o departamento de marketing tenha caprichado, o melhor pôster de Drive foi feito por um fã e devidamente reconhecido pelos distribuidores que trataram de promover o pôster e, claro, o filme.

9 – Django livre

Muitos cartazes do novo filme de Quentin Tarantino já foram liberados depois desse, mas esse pôster teaser – divulgado logo no início de 2012 – é puro conceito e avalanche de saliva na boca.

8 – O hobbit: uma jornada inesperada

Desde o close detalhado na face de Gandalf, passando pelo aspecto do papel e culminando no azul dos olhos. Um dos cartazes mais belos de toda a campanha promocional do filme que marca o retorno à Terra Média.

7 – Na estrada

O detalhe no retrovisor, as faces dos três protagonistas em ângulos distintos. O azul forte e colorido. Um cartaz inspirador que fez aumentar as expectativas pelo longa de Walter Salles.

6 – Os mercenários 2

O jeitão retrô sempre garante um cartaz na lista de mais cools do ano. Dessa vez, sobrou para os mercenários liderados por Sylvester Stallone. Impossível não se cativar por uma arte que conseguiu fazer essa multidão de brucutus sair bem na foto...

5 – Operação Skyfall para IMAX

De volta ao básico e com estilo. É isso que promete o belo cartaz para IMAX de 007-Operação Skyfall. Não há muito o que dizer, apenas admirar.

4 – Sete psicopatas e um shi tsu

Todos os cartazes desse filme são bem sacados. Mas esse com o topete de Colin Farrell, as cores extravagantes e estilizadas e essa garrafa no bolso da jaqueta entregam que o filme que reúne o ator ao diretor e roteirista de Na mira do chefe é do tipo imperdível. 


3- Os infratores

A sombra projetada sobre um angustiado Shia LaBeouf garante a dimensão trágica da história que o filme quer contar e o faz de maneira robusta e bela.

2 – Ted


A imagem de um homem e um ursinho de pelúcia urinando em mictórios dá a ideia exata do que esperar da estreia no cinema do criador de Uma família da pesada. Um filme inventivo e original, tal como o cartaz.

1 – O homem da máfia

Nenhum filme produziu tantos cartazes cool e cheios de estilo em 2012 quanto O homem da máfia. Isso justifica a primeira posição na lista, mas o escolhido para representar o filme nesse top 10 fala por si só!