Western vingador
Depois de Bastardos inglórios (2009), a missão de Quentin
Tarantino não era fácil. Ainda que expectativas sejam sempre ruidosas em torno
de seu cinema, depois da obra prima que revelou ao mundo o talento de Christoph
Waltz, acrescentou-se à espera por Django livre (Django unchained, EUA 2012), a
percepção de que Tarantino fizesse pelos negros o que fez pelos judeus em
Bastardos inglórios. Não foi essa a opção artística de Tarantino, ainda que ele
tenha alimentado essa expectativa em entrevistas promocionais. Há sim o espírito
revanchista visto em Bastardos inglórios e licenças poéticas equivalentes. Mas
não há a mesma sofisticação no argumento e sua flagrante ramificação nos
diálogos. Ainda que o roteiro seja tão esperto quanto se poderia imaginar, as
referências empregadas por Tarantino, salvo a participação de Franco Nero e o
peso de uma menção a Alexandre Dumas, são menos entusiasmantes do que o diretor
de Pulp Fiction acostumou sua plateia. De maneira alguma, no entanto, depõem
contra o entretenimento salutar que é Django livre; especialmente para os fãs
do cineasta.
Tudo começa com o dr. King Schultz (Christoph Waltz), um
caçador de recompensas alemão que compra Django (Jamie Foxx) para ajudá-lo a
identificar três irmãos fugitivos com cabeças à prêmio. Mais adiante, Schultz e
Django, a quem o alemão libertou por abominar a escravidão, gozando de
indubitável afinidade, travam um acordo: Django será o parceiro de Schultz em
suas caçadas pelo inverno e depois Schultz o ajudará na missão de libertar sua mulher Broomhilda – parte daí um das coisas mais sedutoras em Django livre. Tarantino
se apropria de uma lenda nórdica, bastante popular na Alemanha, para temperar a
história de amor que move Django e confere mais estofo à trama de
vingança.
Os bons companheiros: o alemão e o negro contra a tirania americana do sul no western revanchista de Tarantino
Broomhilda está em Candyland, fazenda de propriedade de
Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um exótico apreciador de “mandigo fights”,
lutas entre escravos.
Tarantino investe em um western de fotografia saturada, com
atuações caricaturais e tiros espalhafatosos. É uma alternativa reverente a um
de seus gêneros preferidos. Mas como western, Django livre é um ótimo filme de
Tarantino. Talvez aí esteja parte do problema da obra. Para se ter uma ideia,
os Coen foram muito mais bem sucedidos na releitura que fizeram de um clássico
do gênero com Bravura indômita (2010).
No entanto, Tarantino articula algumas boas aventuranças em
sua empreitada. A figura do escravo vingador Django é a mais nítida de todas,
mas o conchavo de um emergente Ku Klux Klan é outro grande momento. A ojeriza
do europeu civilizado em face da selvageria americana em pleno século XIX é
outro comentário sutil muito eloquente do cineasta que ganha nas expressões
sempre febris de Waltz uma força tremenda. A relação de Candie com seu escravo
Stephen (Samuel L. Jackson), uma relação de um homem com seu pet, também é um
assombro em sua eloquência. O mesmo Stephen, personagem vivido com gosto por Jackson, um negro que se acha superior aos outros negros – um personagem tão
real quanto incômodo – é outro esqueleto no armário que Tarantino revela com
seu filme.
Django livre, como todo bom Tarantino, opta pela via
violenta em seu desfecho. Mas há um comentário valoroso embutido no ato que
desencadeia a violência que dita o clímax do filme. Um homem que mata por
dinheiro é mais honrado do que um homem que o faz apenas para seu
entretenimento. É um comentário poderoso que se fosse mais bem articulado nas
cenas que se seguem poderia fazer de Django livre um filme mais significativo
do que de fato é. E aí entra outro problema do filme. A edição. É certo que o
filme poderia ser pelo menos uns 25 minutos mais curto. Cenas inteiras são
desnecessárias. Um peso que certamente abala a estrutura do filme.
Um abalo positivo, porém, reside na pomposa trilha sonora.
Todas as composições, inclusive as quatro do mestre Ennio Morricone, tornam a
jornada de Django e Schultz mais potente.
Visceral: Leonardo DiCaprio tem em Django livre um dos melhores momentos de sua carreira
Potente, aliás, é Leonardo DiCaprio em cena. O ator cria um
personagem asqueroso em toda a sua existência que representa com clareza toda a
ignorância e selvageria que avexam esse recorte da história americana. Com bem
menos tempo em cena do que Foxx e Waltz, DiCaprio atinge os melhores agudos de
Django livre com sua interpretação.
Por fim, o mais recente Tarantino é um filme imperfeito. Não
tem a força e inteligência de Bastardos inglórios, sua obra prima, nem a
originalidade e ousadia, de Pulp Fiction, sua antologia, mas é um filme que
sobrevive em suas boas intenções para com o cinema e com a humanidade.
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