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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Oscar Watch 2013 - A peleja dos filmes

1- As aventuras de Pi; 2- Amor; 3- Indomável sonhadora; 4- Argo; 5- Django livre; 6 - O lado bom da vida; 7 - Os miseráveis; 8 - Lincoln; 9 - A hora mais escura



Quando perder é ganhar

Argo é sobre Hollywood e sobre como as aparências são cruciais em jogo de manipulação e dissimulação que aproximam CIA e Hollywood. A melhor pior ideia que Hollywood teve, por sinal, foi deixar Ben Affleck de fora da lista dos diretores indicados. A solidariedade com o filme o impulsionou a um favoritismo na corrida que parecia impensável há alguns meses. Ótimo storytelling, Argo é um filme fácil de se gostar ainda que não seja especialmente notável. Sua vitória seria um legítimo “argo fuck yourself” para alguns cânones hollywoodianos.

Prós:
- Ganhou absolutamente todos os prêmios majors da temporada
- É a maior unanimidade em uma temporada de premiações desde Quem quer ser um milionário? em 2009
- Ganhou os prêmios de direção e filme no Critic´s Choice Awards, no Globo de Ouro e no Bafta, uma demonstração de que sua candidatura a melhor filme está bem consolidada
- Ganhou os prêmios dos sindicatos dos atores, diretores e produtores. Nos últimos dez anos, apenas três filmes (O discurso do rei, Quem Quer ser um milionário? e Chicago) contaram com o apoio dos três sindicatos e eles ganharam o Oscar de melhor filme.
- A percepção de que há muito voto solidário em favor de Argo pelo fato da Academia ter esnobado Ben Affleck entre os diretores. Vale lembrar que apenas o brunch de diretores da Academia elege os indicados a melhor diretor, mas todos os membros da academia escolhem os vencedores. Tanto na categoria de filme, como na de diretor.
- Ser um filme basicamente sobre Hollywood. Isso tem contado pontos nos últimos anos.
- Ter uma veia patriótica, ainda que moderada
- O vencedor do ano passado, O artista, também era sobre Hollywood

Contras:
- O vencedor do ano passado, O artista, também era sobre Hollywood
- Apenas três vezes na história do Oscar um filme venceu como melhor filme sem ter o diretor indicado e apenas uma vez nos últimos 60 anos
- O fato de ter relativamente poucas indicações em que pode ser considerado favorito depõe contra suas chances
- Muitos acadêmicos podem optar por um filme que tenha o diretor indicado por questões de coerência


Bom, mas nem tanto

Os miseráveis até conseguiu uma presença robusta no Oscar com suas oito indicações. Mas se tem um filme que parece fadado a não conquistar nenhuma das estatuetas a qual concorre é o musical de Tom Hooper. Prova disso é que é o único dos concorrentes a melhor filme que não tem uma indicação por roteiro. O desalento só não é maior porque Anne Hathaway é favorita na categoria de atriz coadjuvante e deve lavar a alma do musical de Tom Hooper. De qualquer jeito, a coragem do cineasta de fazer um musical do clássico de fundo social de Victor Hugo recebeu valiosa distinção da academia.

Prós:
- Prevaleceu nas categorias técnicas em premiações como o Bafta e o Critic´s Choice Awards
- É um sucesso de bilheteria até certo ponto improvável para um musical
- Ganhou o Globo de ouro de melhor comédia/musical
- Tem sua força em suas interpretações e isso pode cativar o maior colegiado da academia que é o dos atores
- Deve agradar o voto mais conservador
- É uma história essencialmente francesa e os franceses estão em voga no Oscar nos últimos anos

Contras:
- Não ter sido indicado em montagem, direção e roteiro praticamente liquida qualquer chance de vitória
- O fato de Tom Hooper ter ganhado em grande escala no Oscar recentemente com O discurso do rei
- É um musical até certo ponto vanguardista e as liberdades tomadas por Hooper podem incomodar o voto mais conservador


Blockbuster de coração

As aventuras de Pi é o filme mais família dos indicados. É também o de narrativa mais complexa já que boa parte do tempo se passa em um bote salva vidas em que um adolescente tem um tigre digital como companhia. Ang Lee realiza um filme com forte conotação espiritual sem ser presunçoso. É um filme digno das 11 indicações que recebeu. Pode ser uma opção mais convencional a filmes sisudos ou modernos demais para o Oscar.

Prós:
- É um épico de alma intimista. Hollywood costuma apreciar filmes assim
- Foi indicado a todos os prêmios major da temporada
- Tem uma das maiores bilheterias internacionais entre os indicados a melhor filme. Como o Oscar hoje é um prêmio global...
- Está presente em praticamente todas as categorias técnicas

Contras:
- Não tem nenhuma performance indicada. É o único dos indicados a melhor filme nessas circuntâncias
- A percepção de que merece mais prêmios por sua destreza técnica
- A pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- Ter sido rodado em 3D e a tecnologia ainda não conquistou muitos acadêmicos


Um clássico menor

Django livre é uma desforra à tarantina. O western sobre um escravo vingador de Quentin Tarantino não é o filme que se esperava dele depois de Bastardos inglórios, mas ainda é entretenimento em alto nível. Django livre consolida Tarantino como uma das figuras do Oscar, mas é seu filme com menos chances de vitória nesta categoria.

Prós:
- Diverte como poucos dos incluídos entre os indicados e isso há de contar para alguma coisa
- O espírito de reescrever a história que Tarantino tem apresentado pode cativar muitos eleitores
- Tem ótimas atuações e bons diálogos
- Quentin Tarantino é um sujeito com muitos fãs

Contras:
- Ser muito inferior a Bastardos inglórios que é relativamente recente pode afugentar votos
- Quentin Tarantino é um sujeito ao qual muitos têm restrições
- O fato de Tarantino não ter sido indicado a melhor diretor
- Não é tão inventivo quanto seus principais filmes


Realismo fantástico

A Academia parece cada vez mais propensa, mais do que selecionar um pequeno indie, a selecionar um de narrativa imaginativa. Foi assim com A árvore da vida no ano passado e com Distrito 9 em 2010. Indomável sonhadora embarca no realismo fantástico e ganha o apoio do Oscar. É o tipo de filme que ainda não tem chances de ganhar, mas que pavimenta o caminho para que outros que venham depois possam sonhar mais alto.

Prós:
- É o time pequeno do ano e tem muita gente, dentro da academia inclusive, que gosta de torcer para time pequeno
- Pode se beneficiar do hype da indicação para Quvenzhané Wallis de apenas 9 anos

Contras:
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- A existência de outro independente muito mais baladado: O lado bom da vida
- Não ter tido uma campanha de marketing forte na corrida pelo prêmio


O melhor?

O lado bom da vida é um filme excelente em todos os predicados que caracterizam o bom cinema (direção, roteiro, atuação, montagem, etc), mas é também uma comédia romântica – ainda que bifurcada com um drama sobre transtornos psicológicos. Há quem entenda que não é “material de Oscar”, mesmo sendo o melhor entre os filmes indicados. Para vencer precisa superar esse paradigma.

Prós:
- O filme caiu nas graças do colegiado dos atores e em uma disputa parelha isso pode ser uma vantagem
- É independente e os independentes têm prevalecido no Oscar nos últimos cinco anos
- É o mais leve e otimista dos indicados a melhor filme
- Os últimos filmes com indicações para melhor ator e atriz, direção e roteiro e filme, o chamado big five, venceram o Oscar de melhor filme: Menina de ouro e Beleza americana entre eles
- Ser promovido por ninguém menos que Harvey Weinstein também conhecido como papa Oscars

Contras:
- É para todos os efeitos uma comédia e comédias não costumam ganhar o Oscar de melhor filme
- Não ganhou nenhum prêmio major na temporada
- A percepção de que é um “filme de atores”
- Weinstein levou a melhor nas duas últimas disputas por melhor filme. Três consecutivas pode ser demais até para ele

O maior herói americano

Não é super-homem, mas um “self made man”, como gostam de classificar os americanos. Abraham Lincoln também é um “self made politician” e Lincoln, o filme de Spielberg que lidera a corrida pelo Oscar, é mais sobre essa faceta do único presidente capaz de unir democratas e republicanos em vias de consenso. Nem sempre foi assim e o ótimo filme de Spielberg se ocupa dessa história. O Oscar seria apenas mais um estandarte na gloriosa história do político mais influente da América.

Prós:
- É o filme líder de indicações no ano
- Apresenta um personagem com uma base consolidada de fãs e admiradores dentro e fora da Academia
- É dirigido por uma figura muito querida que é Steven Spielberg e tem como protagonista outra figura querida e admirada que é Daniel Day Lewis
- Não é uma biografia quadrada
- Esteve presente em todas premiações majors da temporada e na liderança da corrida em todas elas
- Depois de filmes estrangeiros brilharem nos últimos dois anos, é uma produção essencialmente americana sobre a grandeza americana
- É um filme de rara inteligência tanto na filmografia de Spielberg quanto na média das produções premiadas com o Oscar de melhor filme
- É o maior sucesso de bilheteria nos EUA entre os indicados a melhor filme
- A badalação em torno da atuação de Day Lewis pode computar votos para o filme
- Muitos propensos a votar a favor de um terceiro Oscar para Spielberg podem se decidir pelo filme, mesmo que não o enxerguem como o melhor do ano

Contras:
- Não ganhou nenhum prêmio major na temporada
- É considerado anticlimático demais para os padrões de Spielberg e pode afugentar votos habituais do diretor
- É mais um filme sobre política do que sobre Lincoln propriamente dito e filmes políticos não costumam prevalecer no Oscar
- Apesar das muitas indicações em diversos prêmios, Lincoln não converteu as indicações em vitórias e adquiriu a pecha de “filme derrotado”
- Não é o melhor filme do ano e, para alguns, nem mesmo o melhor sobre escravidão no ano 


Honesto e sem concessões

A indiferença da vida especialmente a essa fabricação humana que é o amor é um dos eixos centrais desse doloroso e pouco passional filme de Michael Haneke que foi surpreendentemente abraçado com ímpeto pela Academia. Mais uma investigação da fragilidade da vida e de suas reminiscências do que um tratado sobre o mais nobre dos sentimentos, Amor é um filme agigantado por sua humanidade. Faz bem ao Oscar tê-lo em seu pool de nomeados.

Prós:
- É um filme calcado no desempenho dos atores, algo sempre reverberante junto ao maior colegiado que compõe a Academia
- É um filme extremamente humano e atemporal
- É falado em francês e a França anda em alta em Hollywood
- É simples no seu desenvolvimento e complexo em sua contextualização. Menina de ouro, com estrutura semelhante, já triunfou no Oscar em situação parecida
-É um filme estrangeiro e de um diretor cult. Há muito apelo nessa convergência de características; especialmente em um ano sem grandes filmes

Contras:
- Tem ritmo demasiado lento em comparação com a média de filmes vencedores do Oscar e dos filmes contra os quais concorre neste ano
- A percepção de que é um “filme de atores”
- A resistência ainda bastante forte de se premiar uma produção estrangeira
-Filmes com temática semelhante já receberam bastante atenção do Oscar nos últimos anos como Menina de ouro, Longe dela e Mar adentro
-A percepção de que basta a vitória na categoria de filme estrangeiro para honrar o trabalho de Haneke


Mais escuro do que claro

Certamente o mais fraco dos indicados a melhor filme, A hora mais escura é também o que reunia mais expectativas. Ainda que uma condição não esteja relacionada à outra, o filme sobre a caçada a Osama Bin Laden se revela oportunista e perigosamente impreciso em suas formulações episódicas e estruturais. A polêmica pode ter diminuído o tamanho do filme no Oscar, mas o hype de ser o primeiro filme a abordar um dos maiores feitos americanos na guerra contra o terror lhe garantirá um lugar distinto na história.

Prós:
- É um registro no estilo documental que tanto agradou os votantes que deram a vitória à Guerra ao terror há três anos
- É um elaborado misto de thriller de espionagem com filme político. Em um eventual revival dos anos 70, é um candidato imbatível no Oscar
- Foi o filme mais premiado pela crítica na temporada
- Estabelece um novo paradigma no cinema comercial americano: o filme-reportagem

Contras:
- É nitidamente oportunista ao flertar com ideias republicanos e democratas as vezes em uma mesma cena
- É um filme demasiadamente anticlimático para um vencedor do Oscar
- Há pouco espaço para os atores brilharem e isso pode ressentir o voto desse colegiado
- Reza a mesma missa de Guerra ao terror
- As polêmicas barulhentas acerca do terrorismo e da tortura podem fazer acadêmicos que apreciem o filme pensarem duas vezes antes de votar nele
- O fato de Kathryn Bigelow não ter sido indicada na categoria de direção  

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Oscar Watch 2013 - A hora e a vez de Benh Zeitlin

                                                                                         Vanity fair

Acontece de vez em quando de um diretor estreante encantar o mundo com seu filme de estreia, mas raramente na proporção que o nova-iorquino Benh Zeitlin, de apenas 30 anos, conseguiu. Com Indomável sonhadora, ele já havia conquistado Sundance em 2012 e também Cannes, onde o filme foi premiado na mostra Um certo olhar. A cereja no bolo, no entanto, veio com a surpreendente nomeação ao Oscar de direção. Zeitlin é o segundo mais novo na história a concorrer nesta categoria. A frente dele, apenas John Singleton que em 1991 foi indicado na categoria pela direção de seu filme de estreia, Os donos da rua, com apenas 24 anos.

Zeitlin, no entanto, tem outra indicação ao Oscar neste ano. Ele também concorre pelo roteiro de Indomável sonhadora, em parceria com a autora do texto original, uma peça de teatro, Lucy Alibar.
Zeitlin conduz uma trama de encantamento sobre pobreza, superação, dor e sonho. Ao temperar a realidade com fantasia, Zeitlin que já havia dirigido curtas premiados em festivais e associações de críticas conquistou os votantes da academia e barrou figurões como Quentin Tarantino, Kathryn Bigelow e Ben Affleck entre os indicados a melhor diretor de 2012.
O último diretor estreante a vencer o Oscar foi Sam Mendes em 2000 por Beleza americana. Mendes, de fato tinha um trabalho excepcional, mas tinha também um filme de estúdio em suas mãos. Imaginar uma vitória de Zeitlin talvez seja sonhar demais, mas ele já se provou surpreendente.
Desde a vitória de Sam Mendes, a Academia nomeou outros diretores novatos ao Oscar de melhor direção. Sofia Coppola concorreu em 2004 por Encontros e desencontros, seu segundo trabalho atrás das câmeras. No ano seguinte foram as vezes de George Clooney, com Boa noite e boa sorte, sua segunda incursão na direção, Bennett Miller, documentarista que estreava na ficção com Capote, e Paul Haggis, roteirista que estreava na direção com Crash- no limite. Em 2008, foram indicados Tony Gilroy, roteirista estreante na direção com Conduta de risco, e Jason Reitman, por Juno – seu segundo filme. Já em 2010, Lee Daniels foi contemplado com uma indicação por sua estreia na direção em Preciosa – uma história de esperança. Em 2011 foi a vez de Tom Hooper, por O discurso do rei, ser indicado por sua estreia em direção. Diferentemente de Mendes, no entanto, Hooper já havia dirigido telefilmes e minisséries. Mas era sua estreia em longas-metragens para cinema.  

                                                                                                                                                     Divulgação
Tom Hooper e Sam Mendes, diretores oscarizados por suas estreias no cinema

Como pode se ver, a academia estimula com certa frequência a renovação atrás das câmeras. Sabe se mostrar atenta à movimentação que se dá nos corredores do cinema enquanto arte e, como prova a indicação inesperada de Zeitlin, sabe destacá-la.
Ainda não se sabe o que o futuro reserva para o promissor cineasta de Indomável sonhadora, é provável que siga no cinema independente, mas capitalizando mais atenção e investimento. É o Oscar plantando sementes.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Oscar Watch 2013 - As primeiras impressões dos indicados ao Oscar





Em um primeiro momento, a lista dos concorrentes à 85ª edição do Oscar é revigorante. Não exatamente pela inexistência de injustiças e esnobadas, em um prêmio da estatura do Oscar e em que o gosto de um colegiado amplo e diversificado precisa ser equalizado elas sempre acontecerão. No entanto, é uma lista com invejável personalidade e que devolve ao Oscar o título de barão dos prêmios de cinema – posição que estava se perdendo em temporadas cada vez mais previsíveis. Não que a Oscar season 2013 não tenha um favorito absoluto. Lincoln desde a fase pré-Oscar já era tido como o filme a ser batido, impressão confirmada pela liderança na corrida de todos os prêmios. Mas pelo fato de que o Oscar, com a antecipação de suas indicações forçando a antecipação de todo o calendário de premiações, favoreceu um ambiente de frescor e emoção que há muito não se via. Os sindicatos e premiações preliminares viram seu peso diminuir e muitos “gurus” protestaram quanto ao que acham uma lista injusta e surpreendente. Sobre esse tópico em particular, Claquete fará considerações mais adiante na semana.
Sobre a lista em si, é possível dizer que estão aí os indicados ao Oscar. Aqueles filmes que deixaram boa impressão junto aos acadêmicos e não os filmes que estavam monopolizando as atenções na temporada de premiações, ainda que justificadamente alguns deles estejam em destaque no Oscar.
Conforme Claquete já antecipava, a polêmica envolta em A hora mais escura custou ao filme de Bigelow a pujança que críticos se apressaram em atribuir à fita. Na celeuma entre conservadores e liberais, dentre os favoritos declarados, A hora mais escura foi o que obteve menos consistência nas indicações.
A esnobada em Ben Affleck na categoria de direção desarma os detratores do Oscar que se apressaram em dizer que as surpresas ocorreram pela antecipação do calendário simplesmente. Diferentemente de Quentin Tarantino (Django livre), Tom Hooper (Os miseráveis) e Kathryn Bigelow (A hora mais escura), Argo foi lançado em outubro. Amor, indicado a filme e direção, foi lançado nos EUA em dezembro, em poucas salas, e ainda é falado em francês. É preciso mais reflexão para entender a exclusão de Affleck da disputa. Quanto a Hooper e Bigelow, suas recentes vitórias e o fato de seus filmes não acolherem a unanimidade, podem ter sido fatores decisivos. A Tarantino, a razão de sempre: a academia não lhe engole como diretor. Mesmo assim ele já ostenta duas indicações na categoria.
Em um ano aparentemente tão atípico, uma comédia romântica com pegada dramática salta aos olhos na lista. Trata-se de O lado bom da vida. O filme de David O. Russell angariou oito indicações ao Oscar e, inclusive, nas quatro categorias de atuação. Feito inédito em 31 anos. Desde Reds que isso não acontecia. O entusiasmo com Russell não deixa de ser um contraponto a Tarantino. Ambos são diretores roteiristas com um passado de declarações improperas que atingiram maturidade autoral nos últimos anos. Mas Russell talvez seja mais palatável, certamente é menos cortante.

O lado bom da vida contraria o histórico das comédias no Oscar e conquista invejáveis oito indicações ao prêmio máximo do cinema

Outro mérito a ser observado é que pela primeira vez desde 2010, quando o número de indicados a melhor filme dilatou, houve equivalência entre as indicações a melhor filme e melhor roteiro. A ode à coerência é reforçada pelo fato de, entre os selecionados a melhor filme, não ter uma produção sequer com menos de quatro indicações – caso de Indomável sonhadora.
Algumas com cinco (Django livre, Amor, A hora mais escura), outra com sete (Argo), duas com oito (Os miseráveis e O lado bom da vida), uma com onze (As aventuras de Pi) e o campeão do ano Lincon com 12 nomeações.
É uma prova viva de que os membros da academia estão aprendendo a votar com o novo sistema de preferência que admite entre cinco a dez indicados a melhor filme.
No campo das atuações, foi o menor índice de concomitância entre os selecionados pelo SAG e pelo Oscar desde que o sindicato começou a distribuir seu prêmio. Ótima notícia também. Isso quer dizer que os membros da academia estão vendo filmes e não apenas “copiando e colando” o que o sindicato, um brunch infinitamente maior, avaliza.
Alguns filmes parecem se destacar no campo das atuações. Além de O lado bom da vida, Lincoln, O mestre e Os miseráveis, todos com mais de uma indicação, parecem ter agradado o departamento de atores. À parte O mestre, todos concorrem ao prêmio de elenco do sindicato.
Nesse momento, a briga parece se concentrar entre Lincoln e As aventuras de Pi, que estão em confronto também no Globo de Ouro, no Producers Guild Awards, no Bafta e no Directors Guild Awards, mas não se pode menosprezar a força de O lado bom da vida, de longe a presença mais sólida no Oscar. Além de estar presente em todas as categorias ditas nobres, o filme é distribuído pelo mesmo Harvey Weinstein que já tirou leite de pedra. Pode não parecer, mas a corrida ainda está começando...