Somos todos miseráveis!
O impacto de se assistir Os miseráveis (Les Misérables,
EUA/ING 2012) é algo que precisa ser destacado, ainda que ele esteja
diretamente relacionado à tolerância do espectador a musicais. O filme de Tom
Hooper, adaptado da obra atemporal e ainda vaticinante de Victor Hugo, em maior
amplitude, e da bem sucedida versão musical para os palcos assinada por Trevor
Nunn e John Caird, mais especificamente, é um poderoso testamento da força de
uma narrativa bem construída e conduzida. Para isso, a direção de Tom Hooper
foi fundamental. Se em O discurso do rei, pelo qual ganhou o Oscar de direção,
os ângulos eram quadrados e a câmera sempre posicionada de maneira acadêmica e
comportada, em Os miseráveis começa pelo posicionamento da câmera a força do
que se vê na tela. Hooper aborda seus atores com ímpeto e intensidade (colando
a câmera em seus rostos com menos de um palmo de distância) e sabe quando abrir a imagem
para aproveitar o fato do musical que se assiste ser assistido no cinema –
valorizando os cenários majestosamente criados. Todas as escolhas da direção
são acertadas. Outra, por exemplo, é a captação das performances vocais “ao
vivo”, ou seja, no take da cena e não em pós-produção. Esse
recurso inflaciona a emoção da cena e possibilita uma conexão mais avantajada
da platéia com os personagens. Esse compromisso com o hiper realismo faz de Os
miseráveis um musical mais denso e insidioso do discurso já clássico e
ressonante do material original.
Deriva daí outro acerto de Hooper que com suas opções, e fundir
a áspera crítica social de Victor Hugo e seu exame das diferenças e
ressentimentos entre classes sociais à lógica do musical nesses termos é a mais
reluzente delas, expõe as vísceras do argumento de Hugo com proeminência jamais
vista.
Hugh Jackman brilha intensamente como Jean Valjean, o homem
preso por mais de 20 anos por ter roubado um pão e que depois ascende à riqueza
sem deixar de experimentar outros tantos infortúnios. Jackman e Anne Hathaway
como Fantine são os picos de um filme que se desenrola via música e ambos,
performáticos e bons cantores, se garantem como sustentáculos da obra. Russell
Crowe como o implacável Javert é outro acerto, ainda que não apresente a mesma
afinação de seus co-protagonistas.
Tom Hooper e Hugh Jackman nos sets de Os miseráveis: um diretor que tomou decisões corajosas e todas elas foram acertadas
O filme de Hooper oscila quando o mote amoroso ganha
destaque, mas não perde de vista o poderoso discurso em que vislumbra a verdade
da qual todos os personagens desejam escapar: somos todos miseráveis. Seja
Javert flagrado em sua busca sem sentido, Valjean que não pode escapar de um
passado pernicioso, Fantine em seu abandono e desamparo, Marius (Eddie
Redmayne) e Cosette (Amanda Seyfried), por apaixonarem-se no pior dos momentos,
Éponine (Samantha Barks), por apaixonar-se por um homem que não a enxerga, ou
mesmo os parisienses por ainda não terem “voz”.
O musical de Hooper, entre o solene e o íntimo, dá tintas
definitivas a uma história por si só cativante e etérea. É um musical
superlativo, mas o é para quem aprecia a riqueza narrativa oferecida por
musicais. Mais do que outros tantos musicais que buscam um público mais amplo, no que pode ser apontado como o único problema do filme de Hooper, é sua
predisposição de pregar apenas para os convertidos.









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