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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Panorama - O novo mundo


O cinema de Malick permanece regido por interesses antropológicos. Fica mais evidente a disposição do cineasta de entender a relação do homem com o meio. Essa versão de Pocahontas decepcionou pelo viés contemplativo e a ausência de conflitos, mas Malick, em si, não fugiu as características que pontuaram seu cinema desde os primórdios. O interesse no sentimento que insurge entre o inglês John Smith (Colin Farrell) e a nativa Pocahontas (Q´Orinka Kilcher) não é mais importante do que a devassa nos hábitos e costumes das tribos que habitam a América e o choque cultural proposto pela presença dos ingleses naquele lugar. É essa a combustão de O novo mundo, filme que acabou se revelando o mais decepcionante da carreira de Malick pelo simples fato de que o diretor se entregou completamente a seu impulso antropólogo e negligenciou algumas demandas narrativas que poderiam acrescer a seu filme.
O vigor visual de O novo mundo denuncia o apreço de Malick pela natureza. A fotografia é mesmo de pasmar, mas a narrativa é a mais enferrujada dos trabalhos do diretor.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Panorama - Além da linha vermelha


Depois de um hiato de 20 anos, fazia sentido que Terrence Malick se dedicasse ao acontecimento que redefiniu a história e o rumo da humanidade: a segunda guerra mundial. Muita gente boa quis fazer parte da leitura que Malick faria do evento. Sean Penn, George Clooney, Nick Nolte, Jim Caviezel e Woody Harrelson são alguns deles. Além da linha vermelha (The thin red line, EUA 1998) é o mais próximo de belo e poético que um filme de guerra pode ser. Essa sensação se agiganta por uma curiosidade astrológica. Nesse mesmo ano, Steven Spielberg, um cineasta bem menos contemplativo do que Malick, rodou o seu filme sobre a segunda guerra. O resgate do soldado Ryan – que até melhor do que esse filme – podia ser mais urgente, sentimental e movimentado, mas Além da linha vermelha sobeja nas minúcias. Nos ínterins da guerra. Das amizades forjadas em meio a paradoxos monumentais. Da morte à espreita como convidada indesejada. É um filme de belas imagens, mesmo que essas imagens seja hediondas. Talvez isso as tornasse mais belas. Malick busca na insensatez da guerra, as bifurcações humanas mais improváveis e, justamente por isso, mais ricas para escrutínio no cinema. Não é um filme perfeito. Mas seu impacto provoca reações que não ocultam esse adjetivo da mente do espectador.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Panorama - Dias de paraíso

O segundo filme de Terrence Malick foi recebido como uma dádiva autoral e minimalista em meio a filmes cada vez mais expansivos – como os da contemporânea saga Star wars que mesmerizava platéias àquela época.
Depois de uma consagradora estréia com Terra de ninguém (1973), Malick apresentou essa trama de aparente simplicidade com muita propriedade narrativa. A fita marca também o primeiro papel de destaque de Richard Gere no cinema. Aqui ele faz um jovem de pavio curto que convence sua namorada a casar com um rico fazendeiro moribundo. A ideia é herdar a fortuna do homem que flerta com a morte. O triangulo amoroso, no entanto, lá pelas horas tantas desvirtua.
Malick denuncia com esse filme seu gosto por imagens contemplativas – que seria reafirmado nas produções que se seguiriam. Mas a história não apresenta as ambições que pautariam sua obra na retomada (entre Dias de paraíso e Além da linha vermelha se passaram 20 anos). Aí está o grande x da carreira de Malick. Em Dias de paraíso são os personagens que lhe interessam. Suas angústias. Seus conflitos. Nos filmes que se seguiram, conforme a mostra Panorama irá sacramentar, o interesse era mais antropológico. Embora ávido pela relação do homem com a natureza, o cineasta não desvia o foco em Dias de paraíso e realiza um filme de fotografia irradiante, mas com personagens que dão sentido à beleza entristecida que se vê na tela.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Panorama - Antes que o Diabo saiba que você está morto


Sidney Lumet rodou, aos 82 anos, um dos filmes mais importantes de sua filmografia. Não por que Antes que o Diabo saiba que você está morto se revelaria seu derradeiro filme, mas porque a obra está impregnada do DNA desse gigante do cinema. Aferindo viço e propriedade narrativa a uma trama de assalto com forte componente de tragédia familiar, Lumet – em seu rigor técnico – potencializa as fronteiras do filme.
Ao optar por uma narrativa fracionada, o diretor destrincha expectativas e constrói um sentido mais amplo dos dramas daqueles personagens. Permite, também, que seu filme se revele surpreendente quando a cotação de reviravoltas já se presume esgotada.
Seguro na direção de atores, Lumet filma Marisa Tomei com sensualidade esbanjadora e exige entrega de Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke, seus protagonistas.
A moralidade volta a permear a obra do cineasta. Os dois irmãos que decidem roubar a joalheria dos pais e veem, depois do fracasso do plano, o desmoronar de suas vidas não fogem ao escrutínio da lente de Lumet. As escolhas de todos os personagens são grafadas pelo diretor em um impactante conto moral que não termina com nenhum tipo de redenção.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Panorama - O veredicto


Sidney Lumet voltou aos dramas de tribunal em grande estilo. Com Paul Newman em grande performance, O veredicto é aquele tipo de filme que ganha em vigor e densidade dramática por ter um grande diretor no comando. Um advogado que já experimentara a grandeza, prostrado ante o alcoolismo, vê sua chance de voltar ao topo da carreira e da dignidade ao levar a julgamento um caso de imperícia médica. Tentado a fazer um acordo, a prática vigente em seu ostracismo profissional, Frank Galvin (Newman) se sente desafiado pela própria indignação ante seu comportamento. Lumet desenvolve um filme relativamente convencional com grande esmero narrativo. As tensões dramáticas são bem justificadas por um roteiro costurado a dedo por um diretor com olho clínico para a angústia humana. A secura dos cortes, a trilha sonora discreta, a confiança absoluta na capacidade de Newman memorar a platéia e a pujança solene da misè-en-scene resultam em uma produção de alto impacto emocional e cinematográfico.
De lambuja, Lumet entrega um dos melhores filmes sobre um homem se erguendo de seu vício.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Panorama - Um dia de cão




Era um dia como outro qualquer no Brooklin. E Sidney Lumet abre Um dia de cão (Dog day afternoon, EUA 1975) frisando isso. Essa casualidade combinada com a tragédia é um elemento de proeminência na filmografia do diretor que aqui a exacerba e se transforma em referência para o cinema policial. Spike Lee homenageou Um dia de cão com seu O plano perfeito (Inside man, EUA 2006), tanto na psicologia da ação quanto na forma de encená-la. Visceral e tenso, Um dia de cão foi o filme que colocou o cinema policial no primeiro escalão da produção cinematográfica. Al Pacino faz Sonny, um cara educado que decide roubar um banco para financiar a operação de mudança de sexo do amante. O inferno de Sonny  e seu comparsa Sal, que faz questão de ser tido como heterossexual, começa com a constatação de que há pouco dinheiro no cofre do banco. O cerco policial é outro entrave nos planos de Sonny que, aos poucos, vai deixando o desespero tomar conta.
A inconsequência de Sonny, sugere Lumet, seria fruto de uma rotina familiar esmagadora, um trabalho opressivo e um sentimento de ingratidão muito forte. É possível enxergar uma causa proletária na ação de Sonny, mas não em Um dia de cão. Lumet já abre seu filme afirmando que era um dia qualquer no Brooklin. Calhava de não ser um bom dia para Sonny. 

sábado, 14 de maio de 2011

Panorama - Doze homens e uma sentença


Não há estréia no cinema mais acachapante do que a de Sidney Lumet com Doze homens e uma sentença (12 angry men, EUA 1957). Talvez haja equivalentes em termos dramáticos ou mesmo em comoção crítica, mas diretor nenhum em sua estréia revelou tamanha idoneidade em um ofício tão dependente da experiência. Lumet, egresso da TV, produziu o melhor dos dramas de tribunais sem ambientar o filme em um tribunal. Com o prodigioso Henry Fonda à frente do elenco, estabeleceu uma lógica teatral aliada a um tom televisivo em um registro de profunda força cinematográfica. Revestindo os diálogos de tensão e permitindo que eles revelassem camadas da história como uma donzela que se desnuda calmamente, Lumet orquestrou um filme que espanta por sua propriedade narrativa.
Veio com a estréia a justíssima indicação ao Oscar de direção e a história dos 12 homens que desconstroem uma tese sobre a culpa de um décimo terceiro entraria para galeria dos grandes filmes da história do cinema.
Aqui, o diretor sinalizava seu esmero narrativo e seu interesse por afligir a platéia com dúvidas de ordem moral. Esse questionamento essencial pautou grande parte de sua obra e está presente nos filmes selecionados para ilustrar a mostra Panorama em sua homenagem.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Panorama - Um lugar qualquer


Um ator, um hotel, uma menina que desperta nele uma luz interior. Não se trata de Encontros e desencontros, mas de Um lugar qualquer (Somewhere, EUA 2010), vencedor do Leão de ouro no festival de Veneza em 2010. O último filme de Sofia Coppola é sua afirmação como cineasta. É onde ela recupera temas e questões de seu cinema e os afina com perícia técnica em sobreposição a sensibilidade. A sensibilidade da cineasta em Um lugar qualquer não deve ser intuída pelo espectador, deve ser percebida. Essa é a grande preocupação de Sofia ao contar a história de um astro de filmes de ação americano que descobre a paternidade em meio ao vazio existencial que lhe preenche entre festas, noitadas e entrevistas promocionais.
E Sofia consegue. Um lugar qualquer é brilhante sob o ponto de vista da realização. Com uma narrativa sofisticada, o filme revela uma cineasta segura de suas escolhas e ciente das opções narrativas que faz. A fita só não resplandece como o melhor filme de Sofia Coppola porque já vimos um filme sobre um ator, um hotel e uma menina que desperta nele uma luz interior. Esse filme, em que a sensibilidade da diretora podia ser intuída, se chamava Encontros e desencontros.

sábado, 23 de abril de 2011

Panorama - Maria Antonieta

O filme posterior a Encontros e desencontros, naturalmente, atrairia atenção e expectativas desmedidas. Maria Antonieta foi selecionado para concorrer à Palma de ouro em Cannes e foi um dos filmes mais destruídos da edição de 2006 do festival. A percepção é de que Sofia não fazia filmes e sim ventilava algumas sensações próprias em sua narrativa. A Maria Antonieta da diretora era incompreendida, mas nem de longe a incompreendida que a História pincelava. Sofia Coppola faz um filme de rearranjos sofisticados e muita liberdade criativa. Não era a liberdade com que Sofia retratava aquele universo que incomodava parte da crítica, mas sim a ausência de um propósito em “imaginar” Maria Antonieta. O propósito era, ainda que enquadrado em proporções distintas, o mesmo de acompanhar o solitário Bob Harris (protagonista de Encontros e desencontros): a solidão do poder, o desprestígio do prestígio e todas essas contradições bem particulares. Esperava-se um filme investigativo sobre aquela personalidade tão cativante, não que a personalidade tão cativante fosse mero instrumento de identificação para os interesses da cineasta. E foi por não corresponder essas expectativas, por não exceder o mero e óbvio jogo de espelhos que Sofia Coppola foi vaiada em Cannes.
O filme é uma adaptação rasa, mas musicada, de seus dois filmes anteriores. Com boa música, figurinos sobressaltados e uma Maria Antonieta histriônica, Sofia Coppola realiza o filme menos marcante de sua filmografia e o que lhe suscita mais críticas.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Panorama - Encontros e desencontros


É inegável que este é o filme mais cultuado e mais particular de Sofia Coppola. Ainda que não seja o mais pessoal. É difícil distinguir pessoal do particular – ainda mais com o cinema de Sofia como campo demográfico. Contudo, Encontros e desencontros (Lost in translation EUA 2003) facilita a tarefa. É um filme de investigação da solidão e da erupção de sentimentos e sensações que esta desencadeia. E Bill Murray, que teve o papel de Bob Harris – o ator falido que vai ao Japão gravar um comercial e se deixa cativar pela solitária personagem de Scarlett Johansson – escrito especialmente para ele, é tão importante para o filme de Sofia quanto suas próprias experiências. É sabido, e Sofia gosta de sugerir isso com sua dramaturgia, que sua vida no mundinho de Hollywood lhe inspira como artista. E Murray expressa essa estafa de maneira sutil e, ainda assim, peremptória. Encontros e desencontros não é só sobre amarguras. É sobre o estado de sítio da alma. É pontual que a história se passe com dois americanos no Japão. Não é preciso ceder a miudezas como, por exemplo, o marido fotógrafo star de Scarlett (visivelmente decalcado de Spike Jonze, ex de Sofia) para perceber o refinamento das metáforas da filha de Coppola e a busca pela consagração de um estilo próprio e minimalista. Sofia sinaliza com Encontros e desencontros que busca falar consigo mesma através do cinema. Essa espécie de cinema terapia é referência pós-feminista ou taquicardia passional? Encontros e desencontros é um bom filme sobre temas que, de uma maneira ou de outra, são recorrentes na cinematografia mundial. O que torna o filme de Sofia especial é o despudor com que se assume nostálgico, introspectivo e minucioso em seu microcosmo. Um paradoxo que fascina e surpreende.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Panorama - As virgens suicidas


Sofia Coppola é conhecida como uma cineasta do feminino. Que abrange sentimentos femininos e que reveste seus filmes de uma energia e compreensão que só podiam emanar de uma mulher. Essa percepção foi avalizada por seu filme de estréia. O impactante, ainda que irregular, As virgens suicidas (The virgin suicides, EUA 2000) é o filme que delimita o escopo do cinema de Sofia. É aqui que ela demonstra o interesse em descortinar o estado de espírito de seus personagens. Em buscar no relativismo de suas essências, respostas para as próprias angústias. No filme, Sofia acompanha o desabrochar da depressão que acomete quatro irmãs após o suicídio de uma outra. Pode-se dizer que a loira Kirsten Dunst também se beneficiou da repercussão do filme. Além de atingir o estrelato com Homem aranha, voltaria a trabalhar com Sofia em um filme bem mais comentado, Maria Antonieta.
As virgens suicidas é lento, introspectivo e pensativo. Características que acompanhariam Sofia em seus próximos filmes. Ainda insegura quanto ao ofício, Sofia hesita na direção dos atores. As referências não são trabalhadas com elegância, mas é perceptível que a diretora busca confluir música e estilo a seu cinema. A inadequação experimentada pelas personagens é envernizada pela diretora em uma metalinguagem involuntária que ela dominaria mais tarde. A resolução de As virgens suicidas denota que Sofia ainda tem muito que pensar no cinema.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Panorama - O vencedor


O vencedor (The fighter, EUA 2010) não parece um filme de David O. Russell e, de certa maneira, não o é. A fita caiu no colo do diretor devido a sua amizade com o protagonista e produtor Mark Wahlberg. Um drama familiar e um filme de boxe. Essas são duas definições bastante ouvidas sobre o filme em que Russell, que novamente assina o roteiro (dessa vez em parceria), está mais comedido do que nunca. Não há espaço para as ironias típicas do humor debochado do diretor. A técnica, na condução da história do boxer que através de sua saga pelo sucesso une sua família, aparece apurada. Russell surge um diretor mais seguro de suas escolhas. Os ângulos, os planos, a música insidiosa... Tudo conspira para um diretor de mão firme por trás daquelas cenas. Contudo, essa constatação não evita o sentimento de que O vencedor é o filme mais frágil de Russell do ponto de vista criativo. Afora boas soluções visuais na encenação das lutas e uma eficiente direção de atores, Russell pouco contribuiu com um filme “de encomenda” e que poderia ter sido realizado por qualquer outro com formação técnica equivalente.
A ironia que fica é que para tornar-se um diretor reconhecido (o trabalho lhe rendeu uma indicação ao Oscar), Russell renunciou justamente ao que lhe distinguia.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Panorama - Huckabees:a vida é uma comédia

Existencialismo. Essa é a palavra chave do quarto filme de David O. Russell. Novamente o humor negro se viabiliza como matéria prima para o cineasta nessa história detetivesca em que Albert Markovski (Jason Schwartzman) tenta descobrir o sentido da vida. Uma modelo cansada de ter que ser bonita, um bombeiro confuso e um cara sortudo que subitamente começa a ter azar; esses ingredientes apimentam uma comédia peculiar com veia filosófica que conta com o melhor dos elencos que Russell já dirigiu. Mark Wahlberg, Jude Law, Naomi Watts, Dustin Hoffman e Isabelle Huppert são alguns dos destaques.
Russell costura uma crônica ácida sobre incompatibilidades, desejos obscuros e gente esquisita. Se não tem o brilho de Três reis, Huckabees – a vida é uma comédia guarda a mesma inventividade no registro. Com o acréscimo de uma trilha sonora tão descolada quanto àquele universo algo idílico que temos acesso no último filme independente de Russell até o momento.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Panorama - Três reis

David O. Russell tinha a seu favor o anonimato quando lançou Três reis (Three kings, EUA 1999). Vantagem que o sucesso de crítica do filme lhe roubou. Aqui Russell potencializa o olhar irônico e o cinismo calculado que permeara seu trabalho anterior. Três reis não é um drama de guerra. É uma comédia sobre o fim de uma guerra. E essa constatação faz toda a diferença. Russell compreende que a melhor maneira de se estabelecer uma crítica é não se levar a sério. E Três reis sobeja na arte de não se levar a sério. Russell não se interessa mais pela alegoria política do que pelo absurdo da situação de um grupo de soldados americanos entediados resolverem roubar o ouro de Saddam Hussein. O despertar de consciência desse grupo é igualmente tratado com desdém pelo diretor que não se incumbe de fazer sua audiência acreditar no súbito amor ao próximo de seus personagens. É esse misto de admiração e desdém que pauta a narrativa de Três reis. Uma equação fácil de se apreciar, difícil de se obter. A verve de Russell pode ser sentida justamente aí. Na força com que conduz uma história que poderia resultar em muitos erros, mas que se transforma em uma soma de acertos em muito pelas opções da realização. Tecnicamente empolgante (a fotografia e a montagem da fita são impactantes), Três reis é o cartão de visitas de Russell em Hollywood. Doze anos depois, ainda é o melhor que ele tem em mãos.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Panorama - Procurando encrenca

David O. Russell ainda é um desconhecido de grande parte do público de cinema. Se em 2011 ele ganhou alguma notoriedade nos bastiões da cinefilia, em virtude da indicação ao Oscar de direção por O vencedor, foi nos anos 90 que ele disse a que veio. Bem antes do reconhecimento por sua “veia tradicionalista”, Russell se mostrara um cineasta irascível. Procurando encrenca (Flirting with disaster, EUA 1996) é uma ácida comédia que se envaidece no humor negro quase que coloquial com que é concebida. O segundo longa metragem de Russell (o primeiro de maior visibilidade) coloca um ainda desconhecido Ben Stiller na busca por seus pais biológicos. A descompostura de Russell, que também assina o roteiro, é tanta que ele coloca a figura de uma estudante de psicologia (papel de Téa Leoni) para documentar a busca – na maior parte do filme – mal sucedida do protagonista. Contudo, os tipos que cruzam o caminho dos personagens por mais idiossincráticos que sejam, não se comparam aos pais verdadeiros que aparecem por horas tantas da produção. Se o que importa é a viagem, Russell se incumbe de ridicularizá-la com a obstinação de quem não se contenta em questionar clichês e verdades absolutas.
Esse filme, ainda que em menor escala do que Três reis (próximo tópico de Panorama), delimita o estilo e a verve de Russell no cinema independente. Sagacidade narrativa, pontos de partida incomuns e a predisposição a ridicularizar situações que ninguém enxerga o potencial de ridículo que elas contêm. Procurando encrenca revela um cineasta de olhar aguçado e senso de humor inequívoco, ainda que temperamental.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Panorama - Sherlock Holmes



Existia um misto de apreensão e ansiedade. Guy Ritchie, apesar de imensamente pop e comunicacional, era um cineasta feito no cinema independente com uma linguagem um tanto quanto subversiva para os padrões conservadores do cinemão ianque. Portanto, uma releitura de Sherlock Holmes sob a batuta de Ritchie, mas com um grande estúdio a financiá-lo, era algo a provocar comoção cinéfila. Se o resultado não chegou a entusiasmar, tão pouco provocou arritmias. Sherlock Holmes é uma fita de ação bem resolvida, que reproduz com assertividade o humor inglês e confia no trabalho dos atores. Nesse sentido, a escolha de Robert Downey Jr. e Jude Law diz muito sobre as intenções de Ritchie aqui. Ele deixa espaço para seu par de excelentes intérpretes ludibriarem a platéia enquanto lança mão de alguns artifícios narrativos que se estão lá para afagar-lhe a vaidade, funcionam muitíssimo bem. Como por exemplo, o escrutínio que Ritchie faz do raciocínio rápido de Holmes – mesmo em uma luta livre.
Sua primeira incursão pelo cinema comercial, afirmou-lhe o status de cineasta grife. Coisa para poucos. Spielberg, Scorsese e Shyamalan (que vislumbram diferentes variantes dessa equação) que o digam. A sequência de Sherlock Holmes vem aí e, por enquanto, só mesmo Madonna derrubou Ritchie do cavalo.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Panorama: Rockn´rolla - a grande roubada


Com o fim do casamento com Madonna, renovou-se o cinema de Guy Ritchie. Rockn´rolla foi apontado por muitos setores da crítica como um dos principais filmes de 2008. Rápido, divertido, sarcástico (como Ritchie não era desde antes de casar-se) e dinâmico, o filme aliava com inteligência as commodities do cinema de gangster com a erosão da bolha imobiliária que ocasionou a crise econômica mundial em 2008. Ritchie novamente concebeu grandes personagens em um filme e Tom Wilkinson e Mark Strong se incumbiram de torná-los ainda maior. Rockn´rolla é sexual e sensual, explosivo e pop, inglês e internacional. Ritchie acertara a mão novamente. O filme também deixou claro que Destino insólito e Revólver foram filmes necessários para que Ritchie evoluísse como cineasta. Rockn´rolla apesar de ser um filme típico de Guy Ritchie, guarda poucas semelhanças (narrativas e estruturais, não de linguagem) com seus dois exemplares mais famosos até então. É um filme em que o diretor Ritchie prevalecia sob os outros aspectos como um legítimo Rockn´rolla (só vendo o filme para entender).

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Panorama - Revólver


A essa altura do campeonato, todo mundo sabe que o casamento com Madonna foi um pulgueiro criativo para Guy Ritchie. A união que foi um best seller de tablóides, minou a verve criativa do cineasta. Ele foi brincar de Fellini e se deu incrivelmente mal na comédia italiana feita em uma ilha, Destino insólito, estrelada pela musa (e sua mulher) Madonna. A péssima repercussão daquele filme deprimiu Guy Ritchie enquanto cineasta e os sintomas ainda podem ser mensurados em Revólver, seu filme seguinte. A fita de 2005 foi concebida ainda sob a unção da união com a pop star americana. E foi um desastre. Junto à crítica e ao público. Apesar de retornar ao universo do gangsterismo, Ritchie soava enferrujado. Seu cérebro não parecia em forma. As soluções visuais pareciam rascunhos descartados de seus filmes anteriores e os diálogos nunca suficientemente empolgantes. Ritchie estava oficialmente no ostracismo. Alguns discípulos de Nostradamus profetizavam que o casamento seria a ruína do autor Ritchie.
Em Revólver, o diretor escala pela terceira vez seu chapa (e maior descoberta) Jason Stathan para medir forças com um mafioso vivido por Ray Liotta. Nem o reforço de Luc Besson (que assina o roteiro ao lado de Ritchie) foi suficiente para evitar o gosto de dejà vu. Acontece que, diferentemente do que ocorreu com Snatch, Revólver falha em potencializar os acertos de Jogos, trapaças e dois canos fumegantes. Pelo contrário, o filme aponta para uma exaustão na fórmula do cineasta. Reinventar-se (ou descasar-se) era preciso.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Panorama: Snatch-porcos e diamantes


Este talvez seja o melhor filme de Guy Ritchie. Snatch – porcos e diamantes (Snatch, EUA 2000) é sua primeira incursão no cinema americano e a própria sombra aqui lhe fez muito bem. Ao invés de se intimidar pela crítica internacional (em especial a americana) estar esperando um novo Jogos, trapaças e dois canos fumegantes, Ritchie se aproveitou dessa expectativa e entregou o mesmo filme. Só que muito melhor. O cineasta caprichou no humor negro inglês, apostou na hipérbole das imagens, no ritmo ligeiro dos diálogos, na edição clipada e colocou um astro americano para fazer papel de patife (Brad Pitt) e deixou-se levar pelo hype. Ajudou o fato de ter coadjuvantes do naipe de Dennis Farina e Vinnie Jones para carregar o piano. Benicio Del Toro e Jason Stathan também fazem boas aparições, mas o cigano de fala incompreensível de Pitt guardou a primazia da lembrança em Snatch. Este filme mostrou definitivamente o jeito que Ritchie tem (como roteirista) para criar personagens descolados e o talento que tem (como diretor) para fazê-los soarem ainda mais divertidos.
Snatch, em sua simplicidade pop dosada com arrojo visual, talvez tenha sido o melhor filme de gangster moderno até o surgimento de Os infiltrados em 2006 (que devolveu a Scorsese o posto de cineasta do gangsterismo que Ritchie sinalizava ser capaz de roubar aqui).

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Panorama - Jogos, trapaças e dois canos fumegantes


Surgiu na cena independente inglesa, no final dos anos 90, um pequeno filme de gangster dirigido por um diretor desconhecido que apostava na verborragia de seus personagens tanto quanto no apuro visual de seu cinema. Essas características passariam a preceder o cineasta Guy Ritchie, alçado ao posto cult após o sucesso de público e crítica de Jogos, trapaças e dois canos fumegantes (Lock, stock and two smoking berrels, ING 1998).
A fita alia, de maneira bem sucedida, clichês de filmes de gangster com piadas rápidas embaladas pelo humor tipicamente inglês. Na trama, que acompanha um grupo de amigos que após uma má noite em uma mesa de pôquer se mete em uma enrascada atrás da outra, Ritchie concilia referências pop com ousadia e leveza. Um cineasta sem medo do novo, mas com a pegada certa de reverência ao tradicional. Por causa desse filme, Ritchie ficaria retido ao submundo dos gangsters até Sherlock Holmes (sua primeira incursão pelo cinemão meramente comercial). Não que ele visse problemas nisso.
Richie demonstra em Jogos, trapaças e dois canos fumegantes que tem criatividade de sobra (não a toa conferiu novo impulso ao subgênero que não chamava a atenção desde Os bons companheiros, de Scorsese) e é suficientemente imaginativo como diretor para equilibrar seu roteiro afiado com ótimas soluções visuais.