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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Panorama - Um lugar qualquer


Um ator, um hotel, uma menina que desperta nele uma luz interior. Não se trata de Encontros e desencontros, mas de Um lugar qualquer (Somewhere, EUA 2010), vencedor do Leão de ouro no festival de Veneza em 2010. O último filme de Sofia Coppola é sua afirmação como cineasta. É onde ela recupera temas e questões de seu cinema e os afina com perícia técnica em sobreposição a sensibilidade. A sensibilidade da cineasta em Um lugar qualquer não deve ser intuída pelo espectador, deve ser percebida. Essa é a grande preocupação de Sofia ao contar a história de um astro de filmes de ação americano que descobre a paternidade em meio ao vazio existencial que lhe preenche entre festas, noitadas e entrevistas promocionais.
E Sofia consegue. Um lugar qualquer é brilhante sob o ponto de vista da realização. Com uma narrativa sofisticada, o filme revela uma cineasta segura de suas escolhas e ciente das opções narrativas que faz. A fita só não resplandece como o melhor filme de Sofia Coppola porque já vimos um filme sobre um ator, um hotel e uma menina que desperta nele uma luz interior. Esse filme, em que a sensibilidade da diretora podia ser intuída, se chamava Encontros e desencontros.

domingo, 24 de abril de 2011

Insight

Para onde vai o cinema de Sofia Coppola?



Após quatro filmes, muita festa, um Oscar de roteiro, uma indicação ao Oscar de direção, um leão de ouro e de ter concorrido a Palma de ouro, a indagação se impõe: para onde vai o cinema de Sofia Coppola? A pergunta se justifica pelo culto à cineasta que divorciou-se do status de “filha de Coppola” para criar uma marca pessoal da qual, nesse momento, parece refém.
Muitos defendem que Sofia realiza o mesmo filme, sem acrescentar nenhuma espécie de juízo ou percepção, variando apenas o espaço-tempo. A afirmação carrega uma certa dose de intolerância, mas não é desprovida de sentido. O cinema de Sofia Coppola guarda algumas reminiscências e se Sofia avançou na técnica de diretora – algo que pode ser sentido em Um lugar qualquer – não dá para dizer, em uma separação pontual, que avançou como cineasta. Sua obsessão temática a faz apurar o escopo sobre solidão, incompreensão e outros ardis que tanto lhe interessam, mas dá pistas de que Sofia seja uma cineasta enclausurada em si. Incapaz de pensar além do espelho. De guiar-se pelo imaginativo. De curiosidade arguta e sensitiva.

 Sofia em momento "I´m the fucking deal": moda e cultura indie se sintonizam com seu cinema


Kirsten Dunst desnuda-se como a Maria Antonieta de Sofia Coppola: diferente de todas as outras leituras...


Encontros e desencontros parece tão vivo em Um lugar qualquer não por mero acaso. Toda a estrutura do filme estrelado por Bill Murray está presente em seu mais recente trabalho. A diretora parecia disposta a refinar (do ponto de vista narrativo) uma história que já havia contado. As características presentes em seus quatro filmes sugerem que essa será uma constante em seu cinema. A recepção a seu último filme sugere, também, que a crítica lhe será cada vez mais reticente.
As vaias na exibição oficial em Cannes de Maria Antonieta (em 2006) sintetizavam um descontentamento da crítica em perceber que Sofia havia ajustado a célebre personagem francesa a desajustes modernos e que se correlacionavam com as demandas emocionais verificadas nos filmes anteriores. A subversão proposta por Sofia não havia sido bem recebida. O viés feminista inerente ao cinema da filha de Coppola (muito forte nos três primeiros filmes) não passava de um instrumento. Não era em si significativo. Essa percepção também esvaziou o conceito do cinema de Sofia. Não que toda mulher que dirija deva fazer um cinema feminista, mas as personagens de Sofia (e Maria Antonieta mais do que todas) tragavam esse pathos em essência. Pelo menos teoricamente. O feminismo no cinema de Sofia Coppola se resolvia como um subterfúgio narrativo. Não que os filmes resultassem menos sensíveis, aprofundados e dialéticos em razão disso. Mas uma vez notada essa idiossincrasia, a magia do que Sofia tinha a dizer, menos se parecia com magia.

Sofia nos sets de Um lugar qualquer: um cinema preso em divagações do próprio mundo



Talvez por isso, em Um lugar qualquer haja tanto esmero técnico. Sofia quer certificar-se de que o público vivencie o que seu protagonista experimenta (o tédio). Novamente ensejada em falar de solidão, a diretora consegue evoluir dentro desse objetivo; mas faz sua audiência crer que ir ao cinema ver Sofia Coppola será sempre uma análise, nem sempre tão satisfatória, da inadequação solitária (redundante assim mesmo). De preferência, envolta em luxo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Crítica - Um lugar qualquer

Patenteando um estilo de fazer cinema

A cena que abre Um lugar qualquer (Somewhere, EUA 2010) é impressionante. Mas mais do que impressionar ela estipula que estamos assistindo um filme de Sofia Coppola. Essa é a grande contribuição desse filme que venceu, de maneira contestada e cercada de polêmicas, o leão de ouro no último festival de Veneza. Ao revisitar questões relevantes dentro de sua filmografia de uma perspectiva mais arejada, embutido a paternidade como elemento desafogador de um estado de catatonia, Sofia afirma seu estilo enquanto cineasta e sua obsessão temática.
O estilo dá conta de um cinema de ritmo próprio, pensativo, observador, enquanto que o tema se desdobra desde a solidão da fama até a melancolia que pode advir da incompreensão. Mais do que desenvolver seu personagem principal, um astro de Hollywood imerso em uma vida de superficialidades, Sofia o observa. E observa com paciência e apreensão. O ritmo do filme, com longos takes e silêncios demorados, convida o espectador a experimentar essa estafa um tanto quanto desorientada que Johnny Marco (Stephen Dorff) vivencia. Ao observá-lo com sua filha Cleo (Elle Fanning), que fica sob seus cuidados uns dias, o espectador logo percebe que se trata de um cara que não sabe apreciar a paternidade e nunca se preocupou em fazê-lo. O interesse de Sofia passa a ser então se há algo em Marco que responda a Cléo. Há. E é da descoberta desse algo que trata Um lugar qualquer. Não se trata de uma epifania. É uma alerta para a vida que um homem, que vegeta no luxo, teve não tão subitamente assim.

My guitar hero: pai e filha vivem momento de carinho...



Um lugar qualquer não é um grande filme. Também não é ruim. Posto em comparação com Encontros e desencontros, filme mais significativo da carreira de Sofia e com o qual este exemplar guarda algumas semelhanças, Um lugar qualquer sai perdendo em matéria de cinema, mas ganha em propriedade narrativa. Essa dicotomia ocorre por duas razões. Se em Encontros e desencontros Sofia contava com um ator do calibre e sensibilidade de Bill Murray, aqui ela dispõe de Stephen Dorff, que embora esforçado, nunca consegue deixar o espectador avançar à sua alma. É um ator, talvez, mais superficial em cena, do que o que vive no filme. Em compensação Um lugar qualquer delimita, pelo tom, pelos ângulos e pela composição de algumas cenas, uma cineasta mais madura, mais conectada com as especificidades da dramaturgia. É um filme muitíssimo bem dirigido. É o melhor trabalho de Sofia como diretora, ainda que ela já tenha feito melhor como roteirista.
Sofia, no entanto, já cede a vaidade. Ela vincula definitivamente esta fita a Encontros e desencontros. No filme estrelado por Bill Murray e Scarlett Jonhansson, no final do filme os personagens trocam um cochicho que ficamos sem saber o que é e conjecturamos sobre o que poderia ter sido. Em Um lugar qualquer Johnny Marco grita algo para sua filha e é abafado pelo som das hélices do helicóptero. Ela não ouve o que ele diz, mas nós sim. Sofia já faz figura de linguagem com os próprios filmes. É uma metáfora bonita. É algo para cravejar seu cinema de um requinte autoral que já é facilmente identificado por seus admiradores. Um lugar qualquer é a afirmação do estilo Sofia Coppola de fazer cinema. E tudo o mais que se vê no filme se submete a isso.

Filme em destaque: Um lugar qualquer

A nova introspecção de Sofia


Dizem que um grande cineasta faz sempre os mesmos filmes com uma ou outra variação temática. Dizem também que o quarto filme de Sofia Coppola é o mesmo que seu primeiro, segundo e terceiro trabalhos, mas com a tal da variação. Um lugar qualquer (Somewhere, EUA 2010), ganhador do leão de ouro no último festival de Veneza, é sobre melancolia e crise existencial, temas centrais na filmografia da cineasta.
Johnny Marco (Stephen Dorff) é um astro de filmes de ação de Hollywood que leva uma vida de superficialidades. Habituê do famoso hotel Chateau Marmont (onde John Belushi morreu de overdose), notório pela tolerância que dispensa a celebridades de toda a estirpe, Marco passa seus dias entre festas, álcool e sexo casual. Sem que se sinta necessariamente ligado a qualquer uma dessas coisas.


Sozinho com esse cara

Vida de um playboy acidental: Johnny Marco não é uma Linday Lohan, mas também não é um George Clooney



Sofia Coppola disse em entrevista a revista americana Premiere que sua intenção era deixar o espectador sozinho com Johnny Marco. Para que o público mais do que intuir, pudesse sentir o tédio, o vazio que caracteriza o cotidiano daquele homem entregue a melancolia da fama. A cena que abre Um lugar qualquer é, nesse sentido, de uma grandeza (ainda que dentro de um viés minimalista) sensorial. A câmera estática (característica do cinema da diretora) observa uma Ferrari dando uma, duas, três, quatro voltas em uma paisagem deserta. A Ferrari para e um homem, que logo viremos a saber que se trata desse Johnny Marco, sai do veículo e observa o nada a seu redor como quem não sabe exatamente que indagação deve fazer.
A solidão de Johnny Marco é interrompida pela chegada de Cleo (Elle Fanning). A filha de 11 anos que Marco recebe esporadicamente para programas tão exíguos quanto protocolares. Eis que a convivência acentuada com Cléo, possibilitada por um refugo nunca explicado a contento da mãe da menina, desperta uma ansiedade, um desejo oculto por algo mais real, vívido em Marco. É do alvorecer desse desejo que trata Um lugar qualquer e que também tratava Encontros e desencontros. A inadequação é um poderoso elemento no cinema de Sofia Coppola e Um lugar qualquer guarda muitas semelhanças com seu filme mais famoso.

Não é Veneza: Johnny e sua filha em uma premiação na Itália; sentimento de não petencimento em qualquer lugar



Ligação com a música
Outro elemento de força genuína no cinema de Sofia é a música. Como nos outros filmes, canções desempenham forte apelo narrativo e ajudam a decifrar tanto o estado de espírito dos personagens como o comentário que a diretora pretende fazer. Em Um lugar qualquer não poderia ser diferente. Entre silêncios e ruídos (sejam do motor da Ferrari ou do esfrega esfrega de strippers no poste de pole dance), a seleção musical de Um lugar qualquer, além de ótima qualidade, propicia uma conexão com a história de maneira quase midiúnica. “Acho que a música é uma forma de induzir a introspecção”, comenta a diretora sobre sua disposição de rechear seus filmes de músicas. A banda The strokes é uma constante. De quatro filmes, está presente em três. Mas Sofia - musa indie que escolhe bandas de igual prestígio entre os indies para seus filmes - argumenta que seus critérios se limitam a propriedade da história.
Para a cena em que Johnny Marco descobre um dos muitos talentos de sua filha, o espectador compartilha desse momento ao som de uma música genuinamente de gosto adolescente. Não é nova, mas nunca sai de moda e se ajusta perfeitamente ao momento de descoberta que se vislumbra. Sutilezas que enaltecem o cinema de Sofia. Ainda que você já a tenha visto fazer este filme antes, não o viu com essa música.