quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Espaço Claquete - O legado Bourne

Seguir uma franquia sem seu principal astro é um problema que muitos estúdios já tiveram que encarar. Tiveram, entre aspas porque essa é uma opção puramente mercadológica. No caso da franquia Bourne, a dependência de Matt Damon é ainda maior. O legado Bourne (The Bourne Legacy, EUA 2013), sem Damon e com Jason Bourne apenas como uma sombra, consegue se desvencilhar desse problema com relativo sucesso. O que não implica constatar que seja um bom filme de ação ou mesmo um eficiente thriller de espionagem.
Dirigido por Tony Gilroy, responsável pelo roteiro da trilogia original, o filme amplia o escopo da franquia e mostra outros agentes como Bourne de programas patrocinados pelo governo americano que passam a ser eliminados quando as coisas começam a dar errado e Bourne expõe alguns segredos sujos das agências de inteligência americana e seus contratos obscuros com empresas de segurança privada.  A ação se desenvolve paralelamente aos eventos de O ultimato Bourne.
Se Gilroy é hábil em adequar seu filme ao novo contexto da série, ainda que não definitivo, é pouco eficiente em tornar a trama de O legado Bourne cativante. O filme é perigosamente previsível, com poucas, esparsas e enjoadas cenas de ação e um protagonista pouco carismático. Jeremy Renner, frequentemente um poço de carisma, sofre para dar viço e carga dramática a Aaron Cross, que não é desmemoriado, mas pouco sabe sobre o programa do qual faz parte.
A luta pela sobrevivência é o motriz da série que continua a investir em intérpretes sofisticados (Edward Norton e Rachel Weisz são as novas adições) e no clima de teoria conspiratória. No entanto, Gilroy não tem como diretor o mesmo senso de espetáculo de Paul Greengrass e não conta com o elemento surpresa que favoreceu Doug Liman no debute da série. Se por vezes, O legado Bourne soa um filme mais sério do que de fato é, é mérito seu. O problema é que na maioria das vezes o filme soa mais banal do que realmente é.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Crítica: Kick-Ass 2

Pensando na sequência...

Kick-Ass: quebrando tudo foi um sucesso acidental, na concepção mais ampla do termo. Objeto de culto, em parte pela apoteose que é a personagem Hit girl, uma sequência do filme rapidamente se impôs nos planos do estúdio. Kick-Ass 2 (EUA 2013) é bem melhor do que se poderia esperar, dada a desistência do diretor Matthew Vaughn em tocar a sequência e do bafafá em torno da violência do filme construído por Jim Carrey. É bem verdade que o filme dirigido por Jeff Wadlow não é, de maneira alguma, o poço de inventividade narrativa, de originalidade visual e temática que o de Vaughn, mas a essência está preservada. O que depõe contra este filme é sua preocupação em soar pedagógico, algo que vai contra o espírito tanto da HQ na qual se inspira como do filme original. Há uma preocupação em lembrar a plateia de que o que se vê na tela é um filme, que há uma guia moral que precisa ser observada. É desperdício de recurso (e tempo) narrativo.
Feita essa ressalva, Kick-Ass 2 mantém o fio da meada do filme original. Dave (Aaron Johnson) ainda precisa elaborar exatamente o que significa ser Kick-Ass enquanto Mindy (Chlöe Grace Moretz) precisa aprender a se desvencilhar de Hit Girl e ser apenas Mindy. Algo que ela não sabe exatamente como fazer. Chris D´ Amico (Christopher Mintz-Plasse) está cada vez mais obsessivo com Kick-Ass, o responsável pela morte de seu pai. A evolução desses conflitos culminará, como não poderia ser diferente, no pau comendo para todo o lado.
Dave e Mindy sem os trajes: de alguma maneira incompletos...

Há ótimas piadas e gags em Kick-Ass 2 que continua ímpar no uso que faz do humor e da ironia para satirizar tanto a sociedade do consumo como o universo utópico e anedótico das HQs. Nesse aspecto, o filme vale (e muito) o ingresso. Há mais hit girl também, embora ligeiramente mais bem comportada, para quem vidrou na heroína mais original e desbocada de todos os tempos. Há, também, a percepção de que a sequência foi cuidadosamente pensada, o que nem sempre é bom sinal. No próprio filme há duas ou três piadas, todas ensejadas pelo personagem de Aaron Johnson, sobre isso. O lado bom disso é constatar o desprendimento do filme em rir de seu meio e de si. Sempre uma boa notícia.

domingo, 10 de novembro de 2013

Insight - Por que o nazismo ainda move mundos e fundos no cinema?

Praticamente todo ano são lançados filmes que abordam, de algum ângulo, o nazismo ou o holocausto. E não só pelo cinema americano, o cinema europeu também se alimenta dessa aparentemente inesgotável fonte temática. É o caso de Lore (2012), filme alemão lançado este mês nas principais praças do país. No drama, com o fim terceiro reich, uma família capitaneada por um oficial nazista se desintegra. Com o pai e a mãe em fuga, a jovem Lore é instruída a conduzir seus irmãos até uma cidade afastada onde sua avó reside. Além da fome e outras mazelas, ela precisará administrar as relações pandêmicas com judeus naquele cenário de pós-guerra ainda incerto. O filme propõe uma subversão no papel de presa e predador e vai além da retórica habitual das grandes narrativas erguidas depois do colapso do nazismo.
 Os falsários (2008), Bastardos inglórios (2009), A queda – as últimas horas de Hitler (2004), Um homem bom (2008), O leitor (2008) e Hannah Arendt (2012) são alguns exemplos de filmes recentes que abordaram o nazismo e o holocausto de perspectivas diferenciadas, renovadas por um olhar menos reverente e mais reflexivo.
Nesse contexto, de revisão histórica, de análise profunda da essência humana, de suas contradições, fraquezas e fragilidades, atentando para a perenidade das mesmas, reforça o nazismo como um tema riquíssimo do ponto de vista cinematográfico. A multiplicidade de enfoques é tamanha que apenas os seis filmes citados no parágrafo acima demonstram como o tema – ainda que provoque fadiga vez ou outra – está longe de se esgotar no cinema.
Lore, Hanna Arendt e O leitor são frutos de um refinamento que apenas o tempo imprime ao tratamento do nazismo pelo cinema. Não quer dizer que não haja dramalhões como O menino do pijama listrado (2008), mas o nazismo, à medida que sua memória vai ficando confinada ao século XX, se torna alvo de descobertas por outros olhares. É um momento de impensável vigor tanto para o tema no cinema como para aqueles que por ele se interessam.

Cena de Hanna Arendt, excelente filme alemão que vocaliza uma controversa teoria da filósofa que dá nome ao filme de que oficiais nazistas não faziam o que faziam por serem maus, mas por serem comprometidos com suas funções 

Em um Um homem bom, dirigido pelo brasileiro Vicente Amorim, Viggo Mortensen faz um intelectual sem afinidade com o ideário nazista que aos poucos vai compactuando com o regime de Hitler simplesmente por omitir-se

sábado, 9 de novembro de 2013

Perfil - Ethan Hawke

Profissional do cinema


Ele já foi casado com a atriz Uma Thurman, mas não merece que essa seja a primeira frase de um perfil sobre sua pessoa. Ethan Green Hawke, esse texano que completou 43 anos em 6 de novembro, além de ator é escritor (já publicou dois livros) e roteirista indicado ao Oscar (pelo texto de Antes do pôr-do-sol ao lado da atriz Julie Delpy e do diretor Richard Linklater). O que pouca gente sabe é que essa veia literária, artística em estado mais bruto, corre em suas veias, já que é descendente direto do dramaturgo americano Tennessee Williams. O bisavô de Hawke era irmão de Williams. 
A primeira vez que tomamos conhecimento de Ethan Hawke foi em Sociedade dos poetas mortos (1989), aquele belo filme de Peter Weir em que Robin Williams fazia um professor que tentava transmitir o carpe diem para seus alunos. Hawke era um dos jovens atores que faziam os alunos, ao lado de Josh Charles e Robert Sean Leonard. É, inegavelmente, o que se deu melhor em Hollywood. Mas por se dar melhor não se quer dizer que adentrou o sistema como um astro. Isso nunca esteve na carta de intenções do ator que transita entre produções comerciais e independentes.
Nesse sentido, Antes do amanhecer (1995) foi o divisor de águas em sua carreira. O filme que se resume a dois atores conversando sobre vida e amor em uma passagem por Viena acertou em cheio o coração da cultura pop como algo novo, cheio de originalidade e força criativa. Hawke já havia participado, inclusive, de produções indicadas ao Oscar como Quis show – a verdade nos bastidores (1993) e em produções surpreendentes como Vivos (1992), mas foi com aquele filme despretensioso, mas cheio de alma que se projetou no cinema. Na sequência viria o casamento com Uma Thurman, sua parceira em uma das melhores ficções científicas dos anos 90, Gattaca – a experiência genética (1997). No ano seguinte, ele voltaria a colaborar com Richard Linkalater em Newton boys – irmãos fora da lei. O protagonismo já era uma realidade em filmes como Neve sobre os cedros (1999) e Hamlet (2000), moderna e mal sucedida versão de Shakespeare.

 1- Hawke, jovem, em foto Capricho; 2 - erguendo os punhos, ainda jovem, e fazendo cara de mau; 3 - ao lado de Uma Thurman, com se casaria após pedir duas vezes, em Gattaca e 4 - em foto deste ano para o jornal  britânico Guardian


A primeira, e até o momento única indicação ao Oscar como ator, veio pelo papel de coadjuvante em Dia de treinamento em que dividiu  a cena com Denzel Washington, premiado pelo filme


Richard Linklater novamente acionou Hawke para um projeto experimental. Waking life (2001) era um misto de animação e live action repleto de filosofia e angústias existenciais. No ano seguinte, viria a primeira indicação ao Oscar por Dia de treinamento (2001), em que antagoniza com Denzel Washington em um policial fervoroso de Antoine Fuqua.

Indo além?
Nessa última década, Hawke tem se mostrado mais polivalente. Além de escrever roteiros, mergulhar em filmes com propostas diametralmente opostas e debutar na direção, o ator tem apostado em um gênero que começa a demonstrar potencial de crescimento. O terror independente. Com filmes como A entidade (2012) e Uma noite de crime (2013), estreia deste mês nos cinemas brasileiros, Hawke é o primeiro dos atores de prestígio a colocar-se à prova nesse filão. Em 2013, ele esteve nos cinemas também em Antes da meia-noite, terceiro (e último?) arco da história iniciada com Antes do amanhecer.
A estreia na direção foi em 2006 com Um amor jovem. O roteiro, também de autoria de Hawke, é uma sintetização por vezes feliz da trilogia de Linklater. Foi seu único trabalho como diretor lançado comercialmente, ainda que ele já tenha dirigido outras coisas.
Filmes como O senhor das armas (2005), Roubando vidas (2001), Nação fast food – uma rede de corrupção (2006) e Antes que o Diabo saiba que você está morto (2007) são provas fidedignas da versatilidade do ator em matéria de cinema. Justamente por isso, muita gente não entendeu o porquê dele dividir a cena e o topo do cartaz com a estrela teen Selena Gomez em Getaway, seu filme mais comercial do ano e, também, seu maior fracasso em 2013.

Fim de caso? Ao lado de Julie Delpy em Antes da meia-noite: a ideia de um quarto filme agrada ao ator

Atualmente casado com Ryan Shawhughes-Hawke, que foi babá de seus filhos com Uma Thurman, Hawke segue com uma carreira regular, sem muitos altos e baixos. Disse em entrevistas recentes que está mais interessado em Shakespeare, que se arrepende de ter casado muito jovem e que não entende como nos EUA o sexo pode assustar mais do que a violência no cinema.
Sem querer produzir sentido com sua carreira, mas ciente de que está em uma posição em que pode escolher projetos pelos parceiros com quem quer trabalhar, pelos roteiros ou simplesmente pelo dinheiro, Hawke se configurou em um operário do cinema americano. Em toda a liberdade, mas também com todo o confinamento que o termo tem a oferecer.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

TOP 10 - Dez atuações "padrão Tom Hanks"

O cineasta Paul Greengrass admitiu em recente entrevista à revista Preview que fator preponderante para que aceitasse dirigir Capitão Phillips, uma das principais estreias deste mês nos cinemas brasileiros, foi trabalhar com Tom Hanks. “Foi uma decisão muito pessoal minha. Todo cineasta quer ter um ator como Tom Hanks em seu filme”, disse o diretor. Muitos comentaristas estão considerando que Hanks irá ao Oscar, Claquete antecipou o bom momento do ator – agora confirmado – em maio deste ano. A seguir, lista dez atuações que ajudaram a consolidar o padrão Tom Hanks de qualidade.



10 - Apollo 13 – do desastre ao triunfo (Apollo 13, EUA 1996), de Ron Howard
Eis aqui um trabalho genial em sua simplicidade. Hanks puxa o bonde de um elenco estrelado em um filme de grande apelo comercial e enorme potencial dramático. É seu personagem, porém, quem representa o elo com o público. Algo que Tom Hanks faz como ninguém.

9 - O terminal (The terminal, EUA 2004), de Steven Spielberg
Hanks põe todo o seu carisma a serviço de um personagem preso a uma situação esdrúxula. Por seu país ter sofrido um golpe de Estado, não pode sair do terminal de um aeroporto. Spielberg faz um filme doce e cheio de camadas contando com a astuta colaboração de Hanks que cria um personagem inesquecível. Difícil pensar que O terminal seria um filme tão lembrado, até porque em essência é bem banal, se Hanks não fosse o protagonista.

8 - Náufrago (Cast away, EUA 2000), de Robert Zemeckis
Tom Hanks segura sozinho, há quem diga que houve ajuda de Wilson (uma bola), um filme de mais de duas horas em que há a predominância do silêncio. Hanks voltou ao Oscar por esse trabalho louvável de atuação em que demonstra uma infinidade de recursos dramáticos provando ser um ator muito maior e mais capaz do que muitos tinham por fato.

7 - Matadores de velhinhas (The ladykillers, EUA 2004), dos irmãos Coen
Os irmãos Coen eram parte da nata de cineastas americanos com que Hanks ainda não havia colaborado. Nessa espirituosa sátira ao establishment americano, o primeiro remake dos Coen, Hanks vive um larápio cheio de lábia e com um visual excêntrico. É o ator exercitando sua veia cômica em uma proposta para lá de sofisticada.

6 - O resgate do soldado Ryan (Saving private Ryan, EUA 1998), de Steven Spielberg
É seguramente uma das melhores atuações de Hanks. Inesperadamente sutil e subitamente grave, o ator preenche de vivacidade e emoção seu personagem, um homem que precisa liderar um punhado de soldados em uma missão potencialmente suicida para resgatar um único homem no crepúsculo da segunda guerra mundial. Se já não tivesse ganhado dois Oscars, a academia não teria desculpas (e mesmo assim elas são pouco aceitáveis) de não ter lhe dado o Oscar por esse desempenho.

5- À espera de um milagre (The green mile, EUA 1999), de Frank Darabont
Tom Hanks novamente fazendo as vezes de canal entre o público e a trama que se desenvolve. Nesse belo drama baseado em obra de Stephen King, ele faz um carcereiro que descobre um dom especial em um prisioneiro e passa a alimentar um conflito existencial que abrange fé, justiça e outras tantas angústias.

4 - Forrest Gump, o contador de histórias (Forrest Gump, EUA 1994), de Robert Zemeckis
Certamente seu personagem mais famoso, Forrest Gump é, também, a graduação de Hanks como ator dramático. Sua prova de que é, afinal, alguém capaz de transmitir com eficiência ímpar os pormenores de um personagem e decodificar aspectos do roteiro que apenas um grande ator seria capaz de tornar em trunfos narrativos.

3 - Jogos do poder (Charlie´s Wilson war, EUA 2007), de Mike Nichols
Uma das melhores atuações da carreira do ator, mas poucos percebem isso. Transitando com fineza entre os registros dramáticos e cômicos, Hanks constrói um personagem satírico sem ser caricato – tarefa dificílima – e se fia como um dos pontos altos desse grande filme de Nichols.

2- Estrada para perdição (Road to perdition, EUA 2002), de Sam Mendes
Tom Hanks faz um homem mau neste filme. Mesmo? A ambiguidade do personagem é dilatada pela qualidade da interpretação do ator na pele deste gangster em fuga com seu filho após este último ter presenciado o assassinato do restante de sua família. Um filme poderoso sobre a descoberta do filho pelo pai e do pai pelo filho e uma crônica sobre o código de ética mafioso por um ângulo jamais visto.

1-Filadélfia (Philadelphia, EUA 1993), de Jonathan Demme
A primeira grande atuação de Tom Hanks? Não. Ele já havia sido indicado ao Oscar antes, e por uma comédia. Mas essa talvez seja sua primeira atuação formal no sentido de se erguer como um dos maiores atores a ter pisado na Terra. Lhe valeu o primeiro Oscar e o personagem aidético que inicia uma luta nos tribunais contra a empresa que o demitiu ainda é de uma pungência fora do normal visto 20 anos depois. Não é qualquer ator que consegue isso.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Crítica: Thor - o mundo sombrio

Loki reloaded!

É consenso que o melhor que havia no filme de Kenneth Branagh que deu origem à franquia Thor no cinema era o conflito shakespeariano a rondar Loki, o irmão adotado do protagonista, corroído pela inveja. Não precisaria de um ator tão bom como Tom Hiddleston para sublinhar essa preciosidade, mas Hiddleston foi superlativo e crucial para o sucesso tanto daquele filme como de Os vingadores, no ano seguinte.
A sequência de Thor, O mundo sombrio (Thor – the dark world, EUA 2013) passou por conflitos que não costumam caracterizar os filmes da Marvel. Parte desses conflitos davam conta da expansão da participação do personagem no filme. Quem quer que tenha brigado por mais Loki em cena precisa ser parabenizado. Se um vilão é o principal termômetro de um filme, O mundo sombrio tem Malekith (Christopher Eccleston), e isso não é boa notícia. Daí a necessidade de Loki. Um vilão testado, aprovado e que nas graças de Hiddleston se torna muito melhor do que o roteiro prevê.
Alan Taylor, cuja expertise na série Game of Thrones lhe valeu o emprego aqui, faz um filme ao gosto de uma produção Marvel. Não há grandes divagações temáticas e há humor. Aliás, se há algo que difere Thor – o mundo sombrio de O homem de aço, é justamente o apreço pelo humor. Não se levar a sério é algo muito sério nesse mundo dos blockbusters megalomaníacos. Além de ser uma fusão entre Star Wars e O senhor dos anéis, esse filme oferece muito pouco a quem pretende assistir um filme que vá além da diversão escapista. E é aí que entra Loki. De longe o personagem mais completo, carismático e tridimensional do universo criado em Thor. Mesmo sem estar no eixo central da trama, ou a movê-la como no primeiro filme e em Os vingadores, o personagem é responsável não só pelos melhores momentos de O mundo sombrio, como por aqueles em que é possível se vislumbrar o tipo de filme que a Marvel poderia estar fazendo se já não gozasse de conforto suficiente na Hollywood de hoje.

Loki em cena: o filme é dele e a gente agradece por isso...

Neste segundo filme, elfos malignos retornam para se vingar dos asgardianos que os subjugaram milênios atrás. Na guerra cujo desfecho pode ser o fim do universo, Jane Foster (Natalie Portman), acidentalmente se torna uma peça fundamental. O que, obviamente, levará Thor (Chris Hemsworth) às últimas consequências para salvá-la. Até mesmo aliar-se a seu irmão. Se você viu o trailer, você já sabe tudo que precisa saber sobre o filme, descontada uma ou outra cena de visual arrebatador. O que torna O mundo sombrio um filme, e não um imenso trailer, é justamente Loki.

A Marvel tem ciência das potencialidades do personagem e o gancho final inspira expectativas de que o eventual terceiro filme, nas mãos de um diretor menos operário, possa ser digno do Deus do trovão e de seu irmão, que teima em roubar-lhe a cena filme após filme. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Crítica - Serra Pelada

Bamburrou!

Havia grande expectativa, e também alguma apreensão, com Serra Pelada (Brasil 2013), filme de indisfarçável ambição e orçamento graúdo para os padrões nacionais, de Heitor Dhalia. O filme responde bem a essas demandas.
Serra Pelada é um filme comercial, mas é também um filme de Heitor Dhalia. Essa dicotomia serve bem ao cinema brasileiro em um recorte conjuntural, mas desapropria o filme de uma fundamentação dramática mais arejada, de uma investigação cênica mais arrojada e de uma realização mais insidiosa dos conflitos que norteiam a trama – ficcional, mas picotada de pequenas verdades.
Na trama, acompanhamos os amigos Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Júlio Andrade) que rumam para Serra Pelada, no Pará, tão logo começam a surgir os boatos de que o lugar está repleto de ouro a ser garimpado. Chegam e rapidamente ascendem na peculiar pirâmide social do lugar. Mas enquanto Joaquim se agarra ao sonho de enriquecer e prover uma vida melhor para sua família, Juliano sucumbe à tentação do poder. Essa espiral bifurcada que acomete os dois personagens é a principal verve dramática desse filme que tem ambição de ser um épico sobre ganância que funde brasilidade a signos do western.
Reforça essa perspectiva a relação entre Juliano e Tereza (Sophie Charlotte), ex-prostituta tornada prostituta particular de um barão cheio de querer em Serra Pelada (Matheus Nachtergaele) e cobiçada ardentemente pelo amigo mais abusado da dupla que vem de São Paulo.
A química entre os dois é um dos pontos fortes do filme. A lógica da pele, do “não te quero, mas te quero tanto” é crucial para que o espectador dimensione a mudança paradigmática que o personagem de Cazarré sofre ao embevecer-se do poder que experimenta no garimpo paraense.

Química em ebulição: Juliano Cazarré e Sophie Charlotte contribuem para um dos picos de Serra Pelada enquanto dramaturgia

Se Serra Pelada alia bem suas pretensões comerciais aos interesses estéticos (a inserção de imagens de arquivo e registros jornalísticos são um primor) e temáticos de Dhalia, é preciso constatar que há gorduras. Se há sutileza e economia narrativa na jornada de Joaquim, o mesmo não pode se dizer do personagem de Juliano, que avança mais do que o necessário para os propósitos do filme. O personagem de Wagner Moura, que originalmente viveria Juliano, Lindo Rico, é o tipo cheio de potencialidade, mas que surge sem qualquer propósito formal na trama. Ainda que Moura domine a cena com virulência e satisfação construindo um personagem tarantinesco. O off é outro elemento mal alocado na narrativa.
São demandas do ponto de vista comercial que interferem no saldo artístico de Serra Pelada. De qualquer maneira, o filme de Dhalia é um espetáculo visual que engrandece a produção cinematográfica brasileira e, no particular, um filme que se não acresce à filmografia do cineasta, certamente não a diminui. 

domingo, 3 de novembro de 2013

Insight - O cinema para o público adulto na berlinda

No ultimo domingo, como parte da cobertura especial sobre o filme O quinto poder no blog, a seção Insight abriu um debate sobre a produção cinematográfica voltada para o público adulto. Na ocasião, estavam sob análise o modelo de produção hollywoodiano, a exposição que esses filmes recebem e a maneira como o sucesso deles é avaliado.
Paul Greengrass que apresenta agora o tenso Capitão Phillips, lançou em 2010 o ótimo e inteligente Zona verde. A ideia do estúdio Universal era muita clara. Pegar a dupla responsável pelo sucesso da franquia Bourne e colocá-los a frente de um filme que discutia com coragem a falácia do governo americano de que havia armas de destruição em massa em poder do regime de Saddam Hussein no Iraque. O filme foi um fracasso de bilheteria retumbante, ainda que tenha contado com boas críticas.
Essa introdução é necessária para contextualizar a resistência do sistema de estúdios hollywoodiano a produções que fujam de sua valoração monetária (remakes, adaptações de HQs, games e etc). Mas não são apenas os estúdios os vilões dessa história. Tanto distribuidores como exibidores se fiam na lógica comercial, afinal, estão no negócio do cinema para faturar. Má disposição para estratégias de marketing, pouco tempo e horários ingratos nas salas de exibição são outros fatores que contribuem para esse sufocamento das opções mais adultas nos cinemas. Em outubro, no entanto, uma concentração incomum de produções dessa estirpe se deu nas salas brasileiras. Bons filmes como Os suspeitos, O conselheiro do crime, O capital, Conexão perigosa, Gravidade, entre outros foram lançados e, por vias tortas, iluminaram a falta que esse tipo de produção faz no circuito comercial brasileiro.

 Matt Damon e Greg Kinnear em cena de Zona verde: filme inteligente que não atendeu às expectativas comerciais do estúdio

Hugh Jackman em cena de Os suspeitos: thriller com vontade de ir bem além do convencional e que foi muito elogiado por isso


Mas o cinema americano, aquele que compreensivelmente recebe mais destaque em todo o planeta, é apenas o caso mais alarmante. O Brasil, por exemplo, viceja no mesmo problema. Filmes voltados a um público que aprecia um entretenimento mais inteligente escasseiam na produção nacional e não se remete a produções autorais que exigem gosto refinado e verve cinéfila, mas filmes como Disparos, Boca e Chamada a cobrar, que apresentam potencial comercial, mas que não se esmeram unicamente neste princípio. São filmes que buscam um público adulto, mas por razões diversas, não acham. Esse tipo de produção é vítima do mesmo sistema perverso que acomete a produção hollywoodiana. Nesse sentido, o cinema argentino se destaca por catalisar onde Brasil e EUA fraquejam. O cinema comercial argentino aposta no público adulto e, não à toa, tem no astro Ricardo Darín seu fiel da balança. Filmes como Um conto chinês, Dois mais dois e mesmo El crítico, em cartaz na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, desafiam ao rimar humor acessível com inteligência argumentativa. Isso para ficar na seara das comédias. O cinema argentino investe em uma produção refinada em variados gêneros, obtendo sucesso comercial com filmes altamente críticos como Elefante branco. O filme abertamente comercial mais inteligente lançado este ano no Brasil é argentino e se chama Tese sobre um homicídio.
Com essa dificuldade de se impor no mercado, o cinema adulto não exatamente artístico vai se abrigar nos festivais e passa a competir por espaço com os referidos filmes artísticos, mudando a cara da programação de alguns festivais de médio e pequeno porte e transfigurando o circuito de arte das grandes metrópoles como São Paulo.

Ricardo Darín em cena do excelente Tese sobre um homicídio: a principal razão de sucesso dos filmes argentinos no Brasil é porque eles apostam (sempre) no público adulto

Se é um cenário preocupante no curto prazo, no longo prazo é alarmante; pois se passamos a ver uma produção que não se ajusta aos padrões circunstanciais de “produto comercialmente viável” empurrada para a janela de lançamentos artísticos, o que acontecerá com as produções mais experimentais, livres e artísticas na concepção inteira do termo? O jogo de influências tende a se desequilibrar. O primeiro sinal disso talvez seja a sombra que o festival de Toronto faz sobre Veneza e como esse se americaniza mais a cada ano, conforme já apontado por Claquete reiteradas vezes.
A revolução na distribuição de conteúdo audiovisual, com novos players se erguendo na internet, pode relativizar esse quadro perturbador. Até porque o público adulto, neste primeiro momento, parece ser o principal alvo de empresas como Netflix e Amazon. Mas, nesse mesmo momento, essa possibilidade é apenas uma aposta obscura. Afinal de contas, os novos players também estão nessa para ganhar dinheiro.

sábado, 2 de novembro de 2013

Carta do editor - Opções para todos os gostos

O mês já começa com a volta do Deus do trovão aos cinemas. Thor – o mundo sombrio é a principal estreia comercial em um mês que revela alguns mimos cinéfilos. Do campeão de bilheteria e de fenomenal boca a boca Cine Holliúdy, que finalmente chega às telas da região Sudeste depois de bela carreira no Nordeste, ao novo Woody Allen, Blue Jasmine. Mas há outras pequenas preciosidades programadas para este mês nos cinemas. O novo filme de François Ozon, Jovem e bela; o alemão Lore, que subverte a perspectiva entre predador e presa na esteira do fim do nazismo; Uma noite de crime, fita de terror para lá de elogiada nos EUA e protagonizada pelo sr. filme independente Ethan Hawke; Capitão Phillips, filme que pode levar Tom Hanks novamente à disputa pelo Oscar; Eu e você, o frequentemente adiado e mais recente filme de Bernardo Bertolucci; e o premiado e brasileiríssimo Tatuagem, de Hilton Lacerda. Este último tem Irandhir Santos, um dos melhores atores do cinema nacional, como destaque. O ator também estrela Febre do rato, destaque da seção Claquete repercute neste mês.
Os atores são mesmo a nata do mês. Tom Hanks e Ethan Hawke também receberão postagens especiais ao longo de novembro. A seção Insight ainda irá repercutir temas como o porque do nazismo ainda nos fascinar enquanto cinema e a sexualidade feminina sob o olhar masculino no cinema. É um mês mais sofisticado que bebe da fonte de outubro que já foi um mês com ótimas opções para adultos no cinema. Esse tipo de produção ainda não recebe a deferência necessária de público e mercado. Esse assunto foi perpassado em outubro, na seção Insight publicada no último domingo, e ainda é objeto de análise do blog em diferentes seções e reportagens.

Outra novidade que vale a menção é que o blog agora é parceiro do site Opinião & Notícia, um site dedicado a quem gosta e preza a boa informação. O foco do site é o noticiário econômico e político, mas compreensivelmente há um interesse na área cultural e a opção por Claquete para ajudar a atender a essa demanda, muito me enobrece na condição de editor desse blog. À medida que parcerias tão bem fundamentadas e azeitadas como essa se viabilizam, Claquete solidifica sua marca. Bom para o blog e bom para quem o acompanha também. 

Reinaldo Glioche
Editor