Triângulo amoroso-intelectual
Um método perigoso (A dangerous method, EUA/CAN 2011) propõe uma minuciosa análise das circunstâncias que aproximaram e afastaram Jung e Freud, os dois principais pilares do pensamento psicanalítico. E faz isso da maneira mais atraente possível, ao iluminar a figura de Sabina Spielrein (Keira Knightley). A russa judia foi a primeira paciente de Jung, interpretado com precisão e respeito por Michael Fassbender, tratada pelo método revolucionário proposto por Freud (Viggo Mortensen). A cura pela fala era algo ainda visto com profunda desconfiança pela comunidade médico-científica e o entendimento de Freud alinhava à sexualidade todos os problemas de ordem emocional/psicológica.
O que Um método perigoso captura com extrema sensibilidade crítica é a forma como Sabina desestabilizou convicções de Jung e proporcionou um amadurecimento do pensamento teórico freudiano. Essa vertente é patenteada pela conflituosa relação que se estabelece entre os três vértices desse triângulo. Embora Sabina e Jung se relacionem amorosamente, é com Freud que a futura psiquiatra irá desenvolver afinidade teórica. Esse embasamento se mostra riquíssimo na construção dramática de Um método perigoso e no comentário que Cronenberg e o roteirista Christopher Hampton tecem sobre esses personagens. A fita se prolonga por cerca de 15 anos e finda pouco antes da eclosão da primeira guerra mundial. O interesse de Cronenberg em radiografar a evolução do relacionamento entre Freud e Jung pode submergir o espectador em um filme verborrágico e pouco contemplativo. O que não é necessariamente algo negativo. A constante insurgência de conflitos sofisticadamente colocados pelos personagens transmuta Um método perigoso em uma seção de análise reveladora. Não à toa, o filme se encerra com seus personagens mergulhados em erupções internas e diante de frustrações de variadas procedências.
Keira e Fassbender em momento de tensão sexual: a cura de um está diretamente relacionada ao surgimento de angústias existenciais por parte do outro
Freud, na construção vigorosa de Viggo Mortensen, é um sujeito calmo que demonstra grande ansiedade pelo que julga ser uma contribuição inestimável à humanidade. É também um sujeito arrogante, suscetível a alguma inveja do abastado Jung e ainda mais intransigente no que toca a defesa de seu ponto de vista. No entanto, sua retidão moral e teórica é algo que não foge à percepção da realização. Por outro lado, Jung é registrado com mais carisma e fragilidade por Michael Fassbender. O despudor de Jung para afrontar Freud em suas convicções é algo valorizado pela narrativa que não o condena por seus desvios teóricos e morais, mas acaba por reforçar – ao menos dramaticamente – o método freudiano através deles.
Keira Knightley faz por merecer novo elogio pormenorizado em seu segundo trabalho consecutivo. Depois de uma aparição contida e generosa em Não me abandone jamais, a atriz assume o difícil papel de Sabina com inteligência e relevo dramático. A histeria da personagem quando a conhecemos é apresentada com sagacidade pela atriz que elaborou cacoetes capazes de transmitir à audiência a agonia que sua personagem experimenta. O flerte com a caricatura é algo do qual Knightley escapa habilmente. Ajuda, é claro, ter Michael Fassbender como bússola.
Um método perigoso é uma amostra de como o cinema pode se apresentar como articulador de ideias e revisor histórico. Se não é um filme pulsante e catártico como geralmente o são as fitas de Cronenberg, é embasamento teórico para a obra de um cineasta um tanto freudiano e fonte incendiária para debates dos seguidores de ambos os intelectuais. É cinema que pensa!
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