domingo, 12 de maio de 2013

Insight - O voo internacional de Wagner Moura



Um dos filmes mais esperados no mundo todo em 2013 tem Wagner Moura como um dos protagonistas. Essa afirmação diz muito sobre o status de Wagner Moura que, efetivamente, ainda verá nascer sua careira internacional quando Elysium for lançado no próximo mês de agosto. O convite para estrelar ao lado de Matt Damon e Jodie Foster a ficção científica que dá sequência à carreira de Neil Blomkamp após o estardalhaço de crítica elogiosas e bilheteria surpreendente que foi Distrito 9 aconteceu depois que o diretor sul-africano viu Moura em Tropa de elite. Era aquela energia, irreprodutível segundo afirmou o cineasta em entrevista coletiva realizada no México há algumas semanas, que ele queria para o personagem mais ambíguo de seu novo filme. Os bons observadores reconhecem que o capitão Nascimento é o personagem mais ambíguo da história do cinema nacional, a despeito de sua maciça popularidade.  
Wagner Moura, que já declarou com graus distintos de sutileza que não quer saber mais de novela, projeta devagarinho, com seu jeito baiano que adentra qualquer sotaque, uma carreira internacional. O faz com a parcimônia de quem quer correr riscos artísticos, se testar comercialmente, afagar a vaidade inata de todo ator, mas sem perder de vista sua identidade como intérprete. Até o momento, Moura está vinculado a outros dois projetos internacionais diversos na forma e no conteúdo. Fellini black and white está em pré-produção e motivou Moura a fazer aulas de italiano. Trata-se de um filme americano pequeno dirigido e roteirizado por Henry Bromell – nome quente em virtude dos engenhosos textos da série "Homeland" – e que tem no elenco os ótimos Terrence Howard (No ritmo de um sonho) e Peter Dincklage ("Game of Thrones'). Trata-se de um projeto de extrema importância para Moura. Pode içá-lo ao patamar dos atores mais quentes do cinema contemporâneo. No filme, Moura será Fellini na trama que mostra a viagem do cineasta italiano para Los Angeles em 1957 para participar da cerimônia do Oscar. O diretor se perdeu de sua comitiva por 48 horas e o filme acompanha justamente esse período. Interpretar Fellini é uma oportunidade rara que pode brindar o ator com o reconhecimento internacional. Moura é o tipo de ator capaz de cavar personalidades complexas e Fellini é um gênio que favorece o processo criativo de Moura.
O outro projeto ao qual Moura está vinculado é Trash, novo filme do premiado Stephen Daldry (As horas, O leitor). Wagner Moura será um policial no filme que será parcialmente rodado no Rio de Janeiro. Embora não haja maiores detalhes sobre seu personagem, a natureza da trama – sobre meninos que vivem no lixão e descobrem uma bolsa com documentos e dinheiro – sugira que ele possa ser o principal antagonista.

Moura ao lado de Matt Damon e Diego Luna em Elysium: um começo promissor no cinema americano

São filmes em que se percebe com clareza que mais do que um bom agente, Moura tem um bom olho para projetos que além de expandir sua carreira internacionalmente podem fomentar desafios mais encorpados para seus dotes como ator.
Parece razoável crer que se esses filmes forem bem sucedidos, e Moura cercou-se de pessoas que indicam que essa é a realidade mais palpável, Wagner Moura deve se tornar rapidamente uma referência brasileira no cinema internacional.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Espaço Claquete - Morte por encomenda


Você se lembra de quando Nicolas Cage fazia filmes que valiam o ingresso? Morte por encomenda (Red Rock West, EUA 1993), um policial bastante climático com indisfarçável silhueta de filme B é desses filmes que mostram que Cage é um ator que sempre teve um faro para filmes ruins que podem ser bons sob certa perspectiva.
Dirigido por John Dahl, que tem ótimos filmes como Cartas na mesa (1998) e Perseguição – a estrada da morte (2001) no currículo, além da direção de episódios diversos de séries como “Dexter”, “Californication” e “Breaking bad”, Morte por encomenda tem Nicolas Cage como Michael Williams, um veterano do exército americano, com uma perna debilitada, que perambula pelo interiorzão dos EUA em busca de um emprego. Um belo dia, depois de mais uma frustrada tentativa de arranjar um emprego e com a carteira vazia, Williams para seu carro com placa do Texas e entra em um barzinho da pacata Red Rock na esperança de descobrir se há uma vaga de emprego pela região. O dono do bar confunde Williams, que se deixa confundir, com um assassino profissional contratado para matar sua esposa. Williams ouve atentamente o plano do dono do bar e aceita os U$ 5 mil iniciais pelo serviço. Ele vai ao encontro da esposa e a faz crer que ela poderia reverter a mira de sua arma. Williams pega mais U$ 5 mil com a esposa e decide deixar Red Rock para trás. Antes disso, escreve uma carta para o xerife da cidade alertando dos planos homicidas do casal. Contudo, a “fuga” de Williams acaba em atropelamento e ele é reconduzido a Red Rock e ás consequências de suas atitudes, à medida que o dono do bar se revela o xerife da cidade e que o assassino contratado por este último, papel milimetricamente vestido por um Dennis Hopper na melhor vibe Dennis Hopper, chega à cidade.
Morte por encomenda é daqueles filmes que empolgam, a despeito da simplicidade do argumento e do pouco espaço para os atores excederem o estereótipo. O maior mérito de Dahl é não querer fazer um filme B parecer um filme A, coisa que diretores da mesma estirpe de Dahl – como John Singleton ou Rob Cohen – costumam fazer.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Crítica - Um bom partido


Tá ruim, mas tá bom

Às vezes um bom elenco pode disfarçar a pobreza de um filme. Isso não acontece, de todo, com Um bom partido (Playing for keeps, EUA 2012), péssimo título nacional do novo filme do italiano Gabriele Muccino no cinema americano.
A trama, dentro de sua previsibilidade, até tinha certo potencial, mas Muccino faz muitas opções erradas – desde alguns nomes do casting até a metragem exacerbada da fita – e acaba entregando um filme simplista, frequentemente enfadonho e constantemente incongruente com os próprios conflitos dos personagens.
Gerard Butler faz um ex-jogador de futebol (do soccer para os americanos) que vai para os EUA em parte porque vive uma aposentadoria fracassada (está quebrado) e em parte para tentar voltar às boas com a ex-mulher, papel de Jessica Biel, e com o filho, vivido por Noah Lomax – que acaba se revelando a melhor coisa do filme.
Butler e Lomax: química praticamente desperdiçada...
A boa ideia de um ex-astro do soccer no único país em que isso não significa alguma coisa é desperdiçada, a princípio, para o ensaio de uma trama de fundo familiar sobre amadurecimento para, alguns minutos mais tarde, Um bom partido se descobrir uma comédia romântica algo machista e francamente problemática. Isso porque ao seu fim sugere que a opção pela família e não pelo emprego é sinal de amadurecimento, quando, na verdade, o pathos do personagem mostra que justamente por não priorizar suas responsabilidades – e a família já teria sido essa prioridade - ele chegou ao “poço” onde estava. Entre aspas porque se ele não está no poço, também não é o bom partido que o título nacional faz crer. O filme joga com a noção do estrangeiro atlético e de sotaque sedutor em um subúrbio que não costuma ter esse tipo de atração. Na comparação ao péssimo título nacional, Um bom partido – o filme – apresenta sua primeira vantagem.
Nessa brincadeira de levar gato por lebre, quem se sai pior é Uma Thurman, afetada em cena como a mulher de um milionário esbanjador e ciumento (papel de Dennis Quaid). Catherine Zeta-Jones também não se sai muito melhor, mas sua personagem pelo menos tem algum propósito dramatúrgico.
Gerard Butler é quem se sai bem, com a oportunidade de transitar entre momentos mais dramáticos e outros de humor – onde inegavelmente se sente mais a vontade.
Um bom partido não é um filme ruim. Apenas é um filme muito problemático para uma produção que pretende navegar por clichês que ofertam acima de tudo segurança. Muccino precisa desesperadamente de um bote salva vidas no cinema americano.

Espaço Claquete - Caché


Caché (FRA/ALE/AUS 2005) é um filme sob muitos aspectos plural. É uma experiência estética arrojada de um cineasta propenso a elas, um suspense erigido a partir da força da imagem e um drama social de cores fortes ainda que sem um viés definido. É um filme acadêmico na forma como concilia interesse sociológico à feitura de um cinema que se pretende artístico através da inquietação com que formula seu pensamento.
Georges (Daniel Auteuil) é um famoso apresentador de tv que tem sua rotina perturbada a partir do momento que passa a receber fitas de vídeo com a movimentação em frente a sua casa. São gravações de mais de duas horas que externam que ele e sua família estão sendo observados. As fitas passam a chegar com desenhos aparentemente infantis, mas com conotação violenta. A tensão familiar aflora, Georges procura a polícia – que informa não ser possível fazer nada já que não há uma ameaça concreta – e passa a discutir severamente com sua esposa (papel de Juliette Binoche) a partir do momento que essa brincadeira de mau gosto parece relacionada a eventos do passado de Georges.
Descrito desta maneira, o espectador pode antecipar um suspense que combine originalidade e convencionalismo, mas seria uma precipitação. Michael Haneke está menos interessado no desenrolar da trama policial do que na espiral de tensão crescente que acomete Georges. É possível sorver outra sutileza da narrativa de Haneke. O aspecto político, presente nos reflexos de uma cultura colonialista e na tensão entre as diferentes classes sociais na França, pode ser angulado na contraposição entre culpa e preconceito que formam o eixo gravitacional do “segredo” de Georges que remete a malvadezas de sua infância.  
Haneke nunca foi tão lento. Nunca fez uso de tantos closes. A imagem é o principal instrumento de Haneke em Caché. Afinal, é dela que Georges precisa filtrar a verdade, qualquer que ela seja. E é nela, em alguns momentos de surpresa e choque, que Haneke amplia o escopo do seu filme distendendo sugestões nem sempre fisgáveis em um primeiro olhar.
Esse domínio da imagem e o exercício desse jogo com suas potencialidades referenda Michael Haneke como um cineasta agudo tanto das elaborações cinematográficas como das miudezas do homem. Justamente por isso, Caché é filme para ser visto e revisto.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Crítica - O abismo prateado


... e ela dançou como jamais havia dançado antes

Fazer um filme inspirado por uma canção que fala sobre amor e abandono não é fácil, mas se há um cineasta capaz de fazê-lo com identidade própria é Karim Aïnouz. O abismo prateado, é fruto de inspiração em “Olhos nos olhos” de Chico Buarque, e encontra na música – essa e outras ao longo de sua curta projeção de aproximadamente 80 minutos – um sentido que foge à narrativa audiovisual. Esse mérito é algo perseguido por Aïnouz com seu cinema e que em O abismo prateado (Brasil 2011) surge multifacetado em um filme de muitos silêncios, um conflito abstrato e na força de uma atriz.
Alessandra Negrini vive Violeta, uma dentista de classe média carioca que celebra o fato de ter recentemente se mudado com sua família – constituída pelo marido Djalma (Otto Jr.) e pelo filho João – para um novo apartamento. Mas antes de Violeta surge o mar, em toda a sua imensidão e com suas ondas insinuantes que revelam Djalma – o homem está aflito, arisco e depois do banho de mar o flagramos no ato sexual com sua mulher – aí então conhecemos Violeta. O sexo é intenso, mas enquanto a mulher busca compartilhar o gozo, o homem busca ar. Ela busca os olhos dele, ele os cerra enquanto a penetra mais forte; para no fim soltar um grunhido que poderia ser de relaxamento, mas também de enfado. Aïnouz explica toda a relação deles, que depois descobriremos ser de 14 anos, nessa cena poética e cujo silêncio só é rompido por esses sons e gemidos. Os sons, aliás, são coadjuvantes poderosos na lógica narrativa de O abismo prateado, pois são a melhor testemunha da passagem do tempo – subjetivo e objetivo – que marca as quase 24 horas que o filme acompanha da vida de Violeta.

Alessandra Negrini na pista de dança: um filme que busca nas sensações a cumplicidade da audiência

Na manhã seguinte a noite de banho de mar e sexo, Djalma viaja a trabalho e deixa uma mensagem no celular de violeta dizendo que não vai voltar. Que não a ama mais. Violeta então se põe a tentar entender o que aquilo significa para ela. A lidar com o abandono e com essa violência impelida por alguém que ama.
O abismo prateado, no entanto, propõe uma experiência mais hermética a quem se predispuser assisti-lo. Mais sensorial. Aïnouz filma Alessandra Negrini com tristeza, com zelo, mas também conta com a expressividade de seu rosto, do fluxo de seu olhar, do minimalismo de seus gestos...
Algumas soluções são muito interessantes. Uma, por exemplo, enquanto espera por uma amiga para falar sobre seu desespero, Violeta entra e sai do quadro – a câmera permanece imóvel – e anda ansiosamente pelos limites do enquadramento até posicionar-se quase que completamente fora dele. Essa liberdade no enquadramento de sua protagonista mostra que o filme pretende ser menos objetivo e mais intertextual.
Há, ainda, a cena em que ela resolve ir para uma danceteria no meio da madrugada e em que as luzes da balada propõem uma experiência catártica que, na verdade, ainda não aconteceu. Ao som de “Maniac”, Violeta se relativiza na pista de dança.
Por fim, Aïnouz propõe um encontro de perdidos na noite, figuras abandonadas em relevos e contextos diferentes que confabulam sobre o abandono usufruindo da companhia alheia em um aeroporto deserto. Há, nesse jogo de signos, um valor narrativo que poucos filmes contemporâneos são capazes de articular. Aïnouz fecha seu filme, ao som de “Olhos nos olhos” na voz de Barbara Eugênia, sem que o ciclo dramático de sua protagonista tenha se encerrado. O pior talvez ainda estivesse por vir, mas o norte havia se aclarado para ela.
O abismo prateado é um filme, que como uma música, tira sua beleza das extremidades da intimidade. Seja da audiência ou dessa insurreição de sua protagonista.

sábado, 4 de maio de 2013

Crítica - A morte do demônio


Ode ao gore!

O remake de A morte do demônio (Evil dead, EUA 2013) não é um filme para quem tem “nojinho”. Dito isso, a produção dirigida por Fede Alvarez deve agradar ao público que vê no terror hardcore a grande manifestação do gênero. Se essa versão perde no humor, na comparação com o filme original, ganha na tensão crescente injetada por Alvarez na trama. O roteiro, que teve supervisão de Diablo Cody, apresenta preocupações incomuns para o gênero como justificar a presença de um grupo de jovens em uma cabana isolada no meio da floresta. O roteiro, no entanto,  falha na pretensão nítida de relacionar a possessão demoníaca ao ônus de uma intervenção em viciados em drogas. Não se trata de uma comparação efetiva, mas de uma insinuação mal dosada que acaba empobrecendo o que poderia ser apenas um destacado mérito.

Sem búúú: o buraco em A morte do demônio é mais embaixo

Se há esse “porém”, A morte do demônio não economiza no sangue e nas mutilações, constituindo-se como uma ode ao gore. O aspecto trash, essência da trilogia original, parecia não fazer parte do pacote até a meia hora final, quando a tensão é tamanha que a realização, com a audiência já fisgada, manda ver no absurdo. No entanto, Alvarez não faz essa transição de maneira sofisticada – o que também compromete o final do filme. Uma vez que o público que desconhece o material original e vinha acompanhando um terror sem concessões ao risível – à parte a bem sacada (que vem do original) cena do estupro de uma das mulheres por uma árvore – pode não reagir bem à mudança de tom que caracteriza o desfecho do filme.
Esse ruído não depõe contra o talento de Alvarez, que merece um impulso em Hollywood, mas diminui sensivelmente a qualidade do entretenimento que A morte do demônio objetiva ser.
Como remake funciona tanto por preservar o espírito do original como por ser reverente a ele, mas como produto de seu espaço tempo se apequena ante produções que tem o original como referência. Um paradoxo que somente por existir tira o brilho do filme.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Crítica - A caça


Frenesi de perversidade

A caça (Jagten, DIN 2012) não é um filme sobre pedofilia, ainda que remeta a esse aterrador universo e seja ventilado por ele constantemente. O novo, denso e frequentemente impactante filme de Thomas Vinterberg é um estudo, deverás ruidoso, da perversidade humana em múltiplas formas. Desde a mais remota e ligeira vergonha até a incivilizada propensão infantil à crueldade, passando pela boçalidade dos adultos e culminando na complacência com que certas articulações humanas são conduzidas.
Amparando-se quase que completamente nos cânones do movimento dogma 95 que ajudou a constituir, a preocupação no uso da luz natural e a trilha sonora restrita ao ambiente em que se desenrola a ação são características marcantes em A caça, Vinterberg tece uma trama assustadora sobre os efeitos de uma mentira mal contada e ainda pior verificada.
Lucas (Mads Mikkelsen) é um homem de 42 anos extremamente tímido, divorciado, com um filho que a ex-esposa lhe dificulta o acesso, e que trabalha como professor em uma escola do jardim de infância em um vilarejo qualquer dinamarquês. A composição de Mikkelsen favorece a percepção de que se trata de um homem frustrado, mas também conformado com sua rudeza e simplicidade, que enxerga no hábito de caçar – cultivado junto de amigos bonachões – um sentido maior que a realidade impõe. Ajuda essa ambientação do personagem, a aproximação de Nadja (Alexandra Rapaport), estrangeira que trabalha na escolinha e manifesta interesse por Lucas. Ele se comporta como uma presa hesitante e Nadja como uma caçadora convicta.

Mikkelsen em uma das cenas mais fortes de A caça, feito presa e tolerante a humilhação, Lucas não tarda a perceber que sua vida mudou para sempre


Lucas é amigo próximo de Theo (Thomas Bo Larssen), ao ponto de contar com sua confiança para levar ou trazer Klara (Annika Wedderkopp) à escola. Klara, de apenas cinco anos, é muito suscetível à instabilidade de sua vida familiar e isso é algo que Vinterberg cristaliza com propriedade na primeira meia hora de filme. Nessa conjuntura e carente de atenção, é natural que se volte para Lucas – sempre atencioso e paternal. Um belo dia, a menina tasca-lhe um beijo na boca e lhe oferta uma cartinha carinhosa. Lucas lhe repreende, ainda que o faça com carinho, e provoca em Klara um temor por aquela rejeição. Horas depois a menina conta uma história francamente insustentável – se uma mínima e séria investigação preliminar fosse conduzida – indicando Lucas como um agressor sexual. A diretora da escolinha, personagem displicente em sua atividade, acolhe com o esperado choque o relato da menina sem grandes questionamentos e um circo, ou uma caça, em que Lucas se torna a principal atração, ou presa, está armado.  
O que interessa a Vinterberg, em termos primários, é a total falta de interesse na investigação mais aprofundada da acusação. “Por mais que se tenha imaginação fértil, uma criança não inventaria uma coisa dessas”, diz a diretora da escolinha a certa altura a outro personagem sobre o depoimento de Klara – inconsistente, mas gráfico no que precisaria ser. É desse choque de expectativas do que se espera (de uma criança, de uma sociedade e até mesmo de Lucas) e o que de fato se desenvolve, que A caça se articula enquanto proposta dramática.

Perversidade pontual e perversidade generalizada: a crueldade de Klara não necessariamente é a mais acachapante de A caça

Vinterberg quer mostrar que, quando lhe é dada a chance, a sociedade (enquanto grupo organizado) apressa-se em primitivizar-se. E sublinha seu comentário ao mostrar que submetido a lei (principal instrumento civilizatório em uma sociedade) – aqui coadjuvante na arquitetura dramática do filme - Lucas é inocentado sem grandes questionamentos.
A retumbante cena final, no entanto, demonstra que o lado primitivo nos homens, uma vez provocado, resiste alerta e ameaçador.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Carta do editor - Cannes e o resto


Maio é o mês do festival de Cannes e quem acompanha Claquete há algum tempo sabe que isso tem um sentido todo especial. Em 2013, no entanto, a cobertura se dará de maneira diferente. Através da fanpage do blog noFacebook. Serão postagens diárias repercutindo e destacando tudo o que acontece na croisette e reverbera na mídia especializada internacional.
Não obstante, o saldo do festival será objeto de análise em Claquete também.
Mas Maio ainda traz consigo o espólio de abril. A seção Tira-teima que seria reinaugurada no mês quatro, ficou para o mês cinco. Assim como as estreias dos novos filmes de Terrence Malick e Marco Bellocchio. Os cinemas europeu e americano serão mesmo antagonistas ao longo do mês no blog. Se a safra americana chega pop com Velozes e furiosos 6, Se beber não case –parte III e Uma ladra sem limites, a europeia se cristaliza no excelente A caça – que além da crítica fomenta a coluna Euro & Travelling do mês, Ferrugem e osso e Em transe, novo de Danny Boyle.
A seção TOP 10 destacará os dez atores mais cults da atualidade e a primeira seção Em off do mês vai lembrar das dez atrizes mais cults da atualidade para que nenhum cult fique fora de lugar. A seção Spotlight on retorna com uma sempre bem vinda análise das novas e revolucionárias (?) plataformas de distribuição de filmes.
As seções Insight, publicadas aos domingos, não ficam a dever. Do potencial internacional da carreira de Wagner Moura à maneira como a indústria farmacêutica é retratada por Hollywood, em maio Claquete fala de Cannes, mas não deixa de falar do resto.


terça-feira, 30 de abril de 2013

TOP 10 - Dez excelentes comediantes que não são tidos como comediantes


Nada de Alec Baldwin, Sacha Baron Cohen, Ben Stiller ou Jim Carrey. Está na hora de fazer justiça a alguns atores que são ótimos comediantes, mas que por serem ótimos em outras áreas não são lembrados por seus dotes cômicos. Claquete repara essa incorreção história e lista dez excelentes comediantes que você não tinha parado para pensar que são, de um jeito bem especial, comediantes.

10  - Bruce Willis
Willis já esteve em mais comédias do que você consegue lembrar. Do pop Meu vizinho mafioso (1999) ao humor negro de A morte lhe cai bem (1992), passando por fanfarronices como pontas como ele mesmo em Doze homens e outro segredo (2004) e Fora de controle (2008) e comédias como Vida bandida (2001), entre outros. Some-se a isso a desenvoltura com que Willis se apoia na comédia para criar seus personagens em filmes de ação como Duro de matar (1988), Xeque-mate (2006), 16 quadras (2006) e Red – aposentados e perigosos (2010).

9 – Jon Hamm
Por trás do classudo Don Draper da excepcional série Mad men reside um comediante de marca maior. Pouca gente sabe, mas as primeiras incursões de Hamm na TV foram na comédia. Mesmo depois do sucesso obtido com a série mais premiada de todos os tempos, Hamm pôde ser visto em participações hilárias no Saturday Night Live e no seriado 30th Rock.

8 – Brad Pitt
Já está pacificado que Pitt é um baita ator. Foram anos e muitos trabalhos desafiadores para que Pitt conquistasse o respeito e admiração de setores da indústria e da crítica. Um próximo desafio que Pitt poderia se investir era o de provar o ótimo comediante que é. Desde a ótima participação na sitcom “Friends” até as memoráveis composições do idiota rato de academia em Queime depois de ler (2008) e do idiota que escalpa nazistas em Bastardos inglórios (2009), passando por excelentes performances cômicas na trilogia Onze homens e um segredo (em que faz um comilão obsessivo), em Sr. & Sra. Smith (2005) e em Snatch- porcos e diamantes (2000). 

7 – Robert Downey Jr.
Alguma polêmica quanto à presença de Downey Jr. nesta lista? Impossível. Nenhum ator atual consegue convergir tão harmonicamente a gravidade do drama com cinismo e sarcasmo. Downey Jr. em toda aparição pública é um show à parte, mas na tela de cinema é um show inteiro. Prova disso são as duas bilionárias franquias (Homem de ferro e Sherlock Holmes) que carrega nas costas.

6 – Mark Wahlberg
É isso aí! Marky Mark! Quem teve um primeiro contato com a veia humorística de Mark Wahlberg em Ted pode até estranhar sua presença nessa lista, mas Wahlberg já havia se descoberto um homem da comédia há algum tempo. Em 2013 ele mistura ação e risos em Suor e glória, que promete ser dos filmes mais divertidos dos últimos anos, e 2 guns. Para quem precisa correr atrás do prejuízo, recomenda-se Os outros caras (2010), Uma noite fora de série (2010) e Três reis (1999).

Willis é um dos representantes da lista
que além do muque, apresenta tino para o riso
5-  Dwayne “The Rock” Johnson
Ele começou como raspa de tacho da franquia A múmia. Ex- lutador profissional e com uma carreira sólida na TV com filmes de ação, The Rock, que então assumiu de vez o nome Dwayne Johnson, se sedimentou no cinema de ação a partir de 2002 com o spin off de A múmia, O escorpião rei (2002) e filmes como Bem-vindo à selva (2003) e Com as próprias mãos (2004). Meio que sem querer, em 2005, em Be cool – o outro nome do jogo, mostrou que tinha tino para a comédia. Não à toa faz sucesso junto ao público infantil em filmes como Treinando o papai (2007) e A montanha enfeitiçada (2009). Fará dupla com Wahlberg em Suor e glória.

4 – Kevin Spacey
Ator de grife, Spacey é um baita de um comediante. Já fez imitações hilárias de personalidades diversas em talk- shows, criou personagens engraçadíssimos em alguns de seus filmes mais modestos e de suas peças mais disputadas em Londres. Entre seus melhores momentos como comediante no cinema estão O árbitro (1994), O psicólogo (2009), O super lobista (2010) e Quero matar meu chefe (2011).

3- Justin Timberlake
As esquetes no Saturday Night Live são famosas e Justin já mostrou as manhas do humor em outras oportunidades. Tanto no cinema como em eventos ao vivo. Não por menos seu nome é ventilado como candidato à apresentar a cerimônia do Oscar em 2014. No cinema, Timberlake mostra seu “comedy back” em filmes como Professora sem classe (2010) e Amizade colorida (2011).

2- Philip Seymour Hoffman
Em uma entrevista recente à revista Total Film, Chris O´Dowd de filmes como Solteiros com filhos e O virgem de 40 anos disse que se espanta com a facilidade com que Philip Seymour Hoffman faz comédia. Para O´Dowd, Hoffman é uma referência negligenciada por muitos que desejam ingressar no humor. Hoffman prova que O´ Dwod está certo em filmes como Quero ficar com Polly (2004), Jogos do poder (2007) e Os piratas do Rock (2009).

1 – Woody Harrelson
Woody Harrelson é um dos maiores atores do cinema contemporâneo. Apesar de ser frequentemente subestimado, Harrelson segue com o bom nível de atuações em filmes como Um tira acima da lei e Virada no jogo.  No entanto, um recorte na carreira de Harrelson permite vislumbrar o grande comediante que ele é e poucos se dão conta. Seja como alívio cômico em blocbusters de ação (2012) ou roubando a cena dos protagonistas de comédias românticas (Amizade colorida, ED TV), Harrelson sempre manda bem quando a ordem do dia é fazer rir. Outros grandes momentos são Sete psicopatas e um Shih tzu (2012), Zumbilândia (2009), Ladrão de diamantes (2004) e Tratamento de choque (2003).