quinta-feira, 9 de maio de 2013

Espaço Claquete - Caché


Caché (FRA/ALE/AUS 2005) é um filme sob muitos aspectos plural. É uma experiência estética arrojada de um cineasta propenso a elas, um suspense erigido a partir da força da imagem e um drama social de cores fortes ainda que sem um viés definido. É um filme acadêmico na forma como concilia interesse sociológico à feitura de um cinema que se pretende artístico através da inquietação com que formula seu pensamento.
Georges (Daniel Auteuil) é um famoso apresentador de tv que tem sua rotina perturbada a partir do momento que passa a receber fitas de vídeo com a movimentação em frente a sua casa. São gravações de mais de duas horas que externam que ele e sua família estão sendo observados. As fitas passam a chegar com desenhos aparentemente infantis, mas com conotação violenta. A tensão familiar aflora, Georges procura a polícia – que informa não ser possível fazer nada já que não há uma ameaça concreta – e passa a discutir severamente com sua esposa (papel de Juliette Binoche) a partir do momento que essa brincadeira de mau gosto parece relacionada a eventos do passado de Georges.
Descrito desta maneira, o espectador pode antecipar um suspense que combine originalidade e convencionalismo, mas seria uma precipitação. Michael Haneke está menos interessado no desenrolar da trama policial do que na espiral de tensão crescente que acomete Georges. É possível sorver outra sutileza da narrativa de Haneke. O aspecto político, presente nos reflexos de uma cultura colonialista e na tensão entre as diferentes classes sociais na França, pode ser angulado na contraposição entre culpa e preconceito que formam o eixo gravitacional do “segredo” de Georges que remete a malvadezas de sua infância.  
Haneke nunca foi tão lento. Nunca fez uso de tantos closes. A imagem é o principal instrumento de Haneke em Caché. Afinal, é dela que Georges precisa filtrar a verdade, qualquer que ela seja. E é nela, em alguns momentos de surpresa e choque, que Haneke amplia o escopo do seu filme distendendo sugestões nem sempre fisgáveis em um primeiro olhar.
Esse domínio da imagem e o exercício desse jogo com suas potencialidades referenda Michael Haneke como um cineasta agudo tanto das elaborações cinematográficas como das miudezas do homem. Justamente por isso, Caché é filme para ser visto e revisto.

2 comentários:

  1. Lendo agora a sua crítica, eu lembrei que preciso ver esse filme (e já tem um bom tempo!).

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