O novo Almodóvar é um estímulo ao debate sobre o cinema, a filmografia do espanhol e as convenções de um gênero clássico. Para participar desse debate conclamado por Claquete, é recomendável que já se tenha visto a obra
“É possível que muitos fãs do diretor se sintam desconfortáveis com esta obra estranha, este suspense sombrio e distante do universo tradicional do diretor, sem tanto senso de humor, sem lágrimas. Por outro lado, é impossível sair indiferente de uma sessão de A Pele que Habito”, pontuou Roberto Guerra, ao finalizar sua crítica para o site Cineclick. Esse novo trabalho do cineasta espanhol tem se mostrado mais polarizante do que a média, revelando dividendos ambicionados pelo próprio diretor no momento em que se definiu pelo projeto. Mas o estranhamento pode ser circunstancial. “A Pele Que Habito é um filme diferente na cinematografia do diretor, mas indiscutivelmente um Almodóvar”, continua Guerra. “Estão lá suas obsessões com traição, solidão, identidade sexual e morte. Os planos almodavarianos, os close-ups e as cores - estas mais sombrias - estão lá. A estes elementos típicos de seu cinema, o cineasta acrescentou um misto de ficção científica e horror. Uma amálgama tão complexa, um híbrido tão instável, que somente alguém talentoso como ele poderia ter misturado tais elementos sem criar uma bomba”.
A percepção de Guerra se assemelha a leitura que o crítico Inácio Araújo faz do longa. “Nunca antes Almodóvar se permitiu ser tão sombrio sem abandonar as cores vivas que são sua marca registrada”. Araújo elabora que o diretor visita a questão do transformismo e da identidade sexual de uma maneira totalmente nova em sua filmografia: “o fundamento de A pele que habito é a identidade, por um lado, o corpo mutante, por outro. O que não exclui nada, começando pela revolucionária pele sintética criada por Ledgard”. O crítico do jornal Folha de São Paulo vai além em sua construção. “Se Ledgard aceita por princípio que o corpo é transformável, graças a sua pele sintética, para começar, é porque não reconhece nenhuma existência intrínseca a ele. O eu que habita essa pele é vazio: a pele define não apenas a aparência, mas tudo o que nós somos. A partir desse reconhecimento, algo se apresenta de maneira sólida: é um universo de terror o que se evoca”.
Muitos deram por falta do melodrama - elemento característico do cinema do diretor. Não foi o caso de Marcio Claesen que enxerga as “influências calculadas” de Hitchcock, Buñuel e Georges Franju em sua crítica que fez do filme para O Estado de São Paulo. O crítico observa que “o diretor ousa ao fazer de A Pele que Habito uma mistura realçada pelo terror, nos privando das situações cômicas e delirantes que lhe fizeram a fama, com uma trama construída de forma rigorosa e que custa a envolver”, mas destaca que “ele apresenta uma narrativa coesa e surpreendente”. Para Claesen, “Almodóvar entrega uma obra perturbadora, e tem um de seus melhores momentos”.
A cena que abre o filme já demonstra que se trata de um Almodóvar afinal...
Impressões
Roberto Guerra lembra que “A pele que habito do título tem diversos sentidos na narrativa, sendo tanto a pele literal quanto a noção metafórica de identidade pessoal”. Inácio Araújo lembra que Almodóvar realinhou temas caros a sua cinematografia sob uma perspectiva renovada. “No centro da enunciação desse novo corpo e da nova identidade que Ledgard cria existe, é claro, o sexo, o novo sexo. A exemplo do cinema de terror clássico, aqui também o sexo é o fantasma dos fantasmas. Mas desta vez é à identidade sexual que Almodóvar se refere. Nada de inédito em sua obra, em que o travesti é figura recorrente”, observa o crítico buscando algum contexto histórico.
O crítico da Folha teoriza sobre essa figura tão presente no cinema de Almodóvar e que, em A pele que habito, ganha novos contornos filosóficos e dramáticos. “Também no travesti existe algo de distorcido, uma identidade que não se deixa apreender, nem homem, nem mulher, nem homossexual propriamente dito. Uma identidade misteriosa, não nomeável: corpo masculino reconstruído segundo uma imagem (feminina), alheio a qualquer identidade original”. De fato, Araújo provê uma depreensão notável do trabalho de Almodóvar neste filme.
Para o Hollywood Reporter, que escreveu uma das críticas mais elogiosas que o filme recebeu em Cannes, só um diretor como Almodóvar poderia ser capaz de misturar elementos tão diversos sem dinamitar o filme. Já a Variety, embora reconheça o valor dos aspectos técnicos da fita, observa que Almodóvar falha em criar um filme genuinamente aterrorizante. O que seria, lembra o articulista Justin Chang em uma crítica recente, a proposta primária.
Ilações
É possível observar em A pele que habito a existência de um mcguffin, termo e técnica cunhados por Hitchcock para descrever um recurso dentro da narrativa que possibilite a condução da trama, sem que haja muita importância. A pele sintética que Robert Ledgard desenvolve, no final das contas, é menos importante para a narrativa do que a trama envolvendo Vicente, Vera e a obsessão desmedida de Robert a respeito.
Almodóvar abraça a matéria prima de seu filme e principal força gravitacional de todo o debate que marca este texto já próximo da metade da metragem. Com comedimento, o espanhol desvela a história permitindo que a platéia se depare com ruídos bastante expressivos do horror que retrata.
Loucura familiar: Comum aos filmes de Almodóvar, o principal núcleo familiar de A pele que habito se revela problemático. Não há um personagem sequer que não seja moralmente condenável...
Como personagem, Vera é interessantíssima. Justamente por isso, Almodóvar a desenha de maneira unidimensional a princípio. Todo o sentido vai sendo construído (ou desconstruído) à medida que as revelações e eventos se sucedem.
O desfecho se abre para a tragédia, mas não desconsidera as complexidades envolvidas. O terror proposto por Almodóvar não poupa nenhum dos personagens e os submete a destinos cruéis. Não por acaso, em A pele que habito, todos têm moral torta e fraqueza de espírito. Almodóvar, por sua lente, os redime com poesia e surrealismo.