quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Repercutindo A pele que habito

O novo Almodóvar é um estímulo ao debate sobre o cinema, a filmografia do espanhol e as convenções de um gênero clássico. Para participar desse debate conclamado por Claquete, é recomendável que já se tenha visto a obra



“É possível que muitos fãs do diretor se sintam desconfortáveis com esta obra estranha, este suspense sombrio e distante do universo tradicional do diretor, sem tanto senso de humor, sem lágrimas. Por outro lado, é impossível sair indiferente de uma sessão de A Pele que Habito”, pontuou Roberto Guerra, ao finalizar sua crítica para o site Cineclick.  Esse novo trabalho do cineasta espanhol tem se mostrado mais polarizante do que a média, revelando dividendos ambicionados pelo próprio diretor no momento em que se definiu pelo projeto.  Mas o estranhamento pode ser circunstancial.  “A Pele Que Habito é um filme diferente na cinematografia do diretor, mas indiscutivelmente um Almodóvar”, continua Guerra. “Estão lá suas obsessões com traição, solidão, identidade sexual e morte. Os planos almodavarianos, os close-ups e as cores - estas mais sombrias - estão lá. A estes elementos típicos de seu cinema, o cineasta acrescentou um misto de ficção científica e horror. Uma amálgama tão complexa, um híbrido tão instável, que somente alguém talentoso como ele poderia ter misturado tais elementos sem criar uma bomba”.
A percepção de Guerra se assemelha a leitura que o crítico Inácio Araújo faz do longa. “Nunca antes Almodóvar se permitiu ser tão sombrio sem abandonar as cores vivas que são sua marca registrada”. Araújo elabora que o diretor visita a questão do transformismo e da identidade sexual de uma maneira totalmente nova em sua filmografia: “o fundamento de A pele que habito é a identidade, por um lado, o corpo mutante, por outro. O que não exclui nada, começando pela revolucionária pele sintética criada por Ledgard”. O crítico do jornal Folha de São Paulo vai além em sua construção. “Se Ledgard aceita por princípio que o corpo é transformável, graças a sua pele sintética, para começar, é porque não reconhece nenhuma existência intrínseca a ele. O eu que habita essa pele é vazio: a pele define não apenas a aparência, mas tudo o que nós somos. A partir desse reconhecimento, algo se apresenta de maneira sólida: é um universo de terror o que se evoca”.
Muitos deram por falta do melodrama - elemento característico do cinema do diretor. Não foi o caso de Marcio Claesen que enxerga as “influências calculadas” de Hitchcock, Buñuel e Georges Franju em sua crítica que fez do filme para O Estado de São Paulo. O crítico observa que “o diretor ousa ao fazer de A Pele que Habito uma mistura realçada pelo terror, nos privando das situações cômicas e delirantes que lhe fizeram a fama, com uma trama construída de forma rigorosa e que custa a envolver”, mas destaca que “ele apresenta uma narrativa coesa e surpreendente”. Para Claesen, “Almodóvar entrega uma obra perturbadora, e tem um de seus melhores momentos”.

A cena que abre o filme já demonstra que se trata de um Almodóvar afinal...


Impressões
Roberto Guerra lembra que “A pele que habito do título tem diversos sentidos na narrativa, sendo tanto a pele literal quanto a noção metafórica de identidade pessoal”. Inácio Araújo lembra que Almodóvar realinhou temas caros a sua cinematografia sob uma perspectiva renovada. “No centro da enunciação desse novo corpo e da nova identidade que Ledgard cria existe, é claro, o sexo, o novo sexo. A exemplo do cinema de terror clássico, aqui também o sexo é o fantasma dos fantasmas. Mas desta vez é à identidade sexual que Almodóvar se refere. Nada de inédito em sua obra, em que o travesti é figura recorrente”, observa o crítico buscando algum contexto histórico.
O crítico da Folha teoriza sobre essa figura tão presente no cinema de Almodóvar e que, em A pele que habito, ganha novos contornos filosóficos e dramáticos. “Também no travesti existe algo de distorcido, uma identidade que não se deixa apreender, nem homem, nem mulher, nem homossexual propriamente dito. Uma identidade misteriosa, não nomeável: corpo masculino reconstruído segundo uma imagem (feminina), alheio a qualquer identidade original”. De fato, Araújo provê uma depreensão notável do trabalho de Almodóvar neste filme.

Para o Hollywood Reporter, que escreveu uma das críticas mais elogiosas que o filme recebeu em Cannes, só um diretor como Almodóvar poderia ser capaz de misturar elementos tão diversos sem dinamitar o filme. Já a Variety, embora reconheça o valor dos aspectos técnicos da fita, observa que Almodóvar falha em criar um filme genuinamente aterrorizante. O que seria, lembra o articulista Justin Chang em uma crítica recente, a proposta primária.

Ilações
É possível observar em A pele que habito a existência de um mcguffin, termo e técnica cunhados por Hitchcock para descrever um recurso dentro da narrativa que possibilite a condução da trama, sem que haja muita importância. A pele sintética que Robert Ledgard desenvolve, no final das contas, é menos importante para a narrativa do que a trama envolvendo Vicente, Vera e a obsessão desmedida de Robert a respeito.
Almodóvar abraça a matéria prima de seu filme e principal força gravitacional de todo o debate que marca este texto já próximo da metade da metragem. Com comedimento, o espanhol desvela a história permitindo que a platéia se depare com ruídos bastante expressivos do horror que retrata.

Loucura familiar: Comum aos filmes de Almodóvar, o principal núcleo familiar de A pele que habito se revela problemático. Não há um personagem sequer que não seja moralmente condenável...


Como personagem, Vera é interessantíssima. Justamente por isso, Almodóvar a desenha de maneira unidimensional a princípio. Todo o sentido vai sendo construído (ou desconstruído) à medida que as revelações e eventos se sucedem.
O desfecho se abre para a tragédia, mas não desconsidera as complexidades envolvidas. O terror proposto por Almodóvar não poupa nenhum dos personagens e os submete a destinos cruéis. Não por acaso, em A pele que habito, todos têm moral torta e fraqueza de espírito. Almodóvar, por sua lente, os redime com poesia e surrealismo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Crítica - A pele que habito

O mais delirante pesadelo de Almodóvar!


Em ordem de se apreciar corretamente A pele que habito (La piel que habito, ESP 2011), é preciso ter equacionadas as reais dimensões do cinema de horror e do cinema de gênero. O terror proposto por Almodóvar nessa incursão voyeur que faz pelo gênero é de ordem psicológica. Não há sustos. Há angústia e aflição dosados com maestria pela trilha sonora de Alberto Iglesias, parceiro habitual do cineasta.
A pele que habito não promove a ruptura que muitos fazem crer dentro da cinematografia do diretor. Estão lá o transsexualismo, peça fundamental em sua mise-en-scène, a perda, a sombra da morte, a extravagância das cores, o sexo como desdobramento da loucura, etc. No entanto, o cinema de gênero surge delimitado como pouco se viu no fluxo recente de sua obra. O médico louco (e Frankenstein é uma referência óbvia), a vingança, grandes mansões, profusão de lâminas e tudo o mais que compete ao gênero de horror está lá. Almodóvar destila competência ao fazer um filme cheio de preciosismo técnico sem comprometer a fluidez e sutileza que caracterizam seu cinema.
Robert Ledgard (Antonio Banderas) é um cirurgião plástico brilhante que, após a morte da mulher, se engajou em experimentos para desenvolver um novo tipo de pele muito mais resistente do que a humana. Desde o momento que pousamos os olhos em Robert, Almodóvar vai desvelando camadas de seu filme e sobre o infortúnio que acomete aquele personagem. Sua loucura vai sendo exacerbada a cada nova cena. Vera (Elena Anaya) é a cobaia que Robert mantém em cativeiro e em quem realiza os testes com a pele que desenvolve. Robert tem por Vera um sentimento difícil de definir e que fica ainda mais difícil de mensurar a medida que vamos descobrindo suas origens.
Almodóvar utiliza-se sabiamente dos atores para construir tensão e, de súbito, demoli-la. Como quando Zeca (Roberto Álamo), o irmão bastardo de Robert, surge em uma cena que vai do absoluto imponderável ao mais escrachado humor folhetinesco. Nesse contexto, Antonio Banderas surge surpreendentemente contido. Em uma aparição bem diferente de suas histriônicas atuações recentes em produções de Hollywood. Mas a grande força interpretativa de A pele que habito é Elena Anaya. A última atriz confirmada no elenco é dona das expressões mais “almodovarianas” de todo o filme. É em seu semblante que Almodóvar constrói o clima da fita e coloca a audiência exatamente aonde quer.

Banderas observa Elena Anaya, dona da grande performance da fita: a loucura do protagonista é desvelada comedidamente por Almodóvar 


Há quem se decepcione com a “surpresa” que Almodóvar revela pelas tantas do filme e que, na verdade, já estava disponível nas primeiras sinopses. É um sentimento mal dimensionado por julgar a destreza e as intenções do espanhol irmanadas com aquelas verificadas na atual conjuntura dos thrillers cinematográficos. O equívoco se avoluma se observado que mesmo com a revelação já feita, Almodóvar consegue manipular as sensações da platéia para um constante clima de incômodo e espanto em que objetos fálicos funcionam como elementos de puro e genuíno terror.    
A pele que habito é um filme que possibilita profundas leituras. É um Almodóvar sombrio revisitando temas que já abordara de maneira mais amena, ao mesmo tempo em que é um filme interessantíssimo sobre os alcances da vingança e os rumos da obsessão. Ainda que não forneça grandes respostas a quem atentar para essas perguntas, A pele que habito é um filme semiótico no que propõe sobre os limites do corpo, da identidade e da loucura.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Crítica - Contágio

Medo!
A austeridade com que Steven Soderbergh filma Contágio (Contagion, EUA 2011) leva ao crescente sentimento de paranoia. Mais do que um compromisso de isenção, que ganha dimensão na comparação inerente com o jornalista vivido por Jude Law no filme, o recurso prova a eficácia de manter a platéia afastada da ação. O que não implica em esquivar-se da emoção, mas quando desvia o foco dos personagens – e por consequência do elenco estrelado que possui – e mira um vírus de procedência desconhecida como protagonista, Soderbergh demonstra interesse menos na reação das pessoas a uma catástrofe do porte de um vírus biológico e mais no impacto sócio-cultural da epidemia.Traduzindo: a erupção do medo.
E a experiência de Contágio é essa. Possibilitar a audiência um vislumbre aterrador do que seriam aquelas circunstâncias. O grau de realismo espanta. Justamente por esse tom alarmista na medida certa que Contágio tem sido saudado pela crítica como um filme de contemporaneidade ímpar. É inegável que a fita de Soderbergh diverge da produção habitual cinematográfica de grandes catástrofes por inverter as prioridades do registro.

Medidas desesperadas: a humanidade tateia diante do caos em um filme sem firulas


Tudo começa com uma tosse. Gwyneth Paltrow surge em um close tão intruso que chega a incomodar. Soderbergh, aliás, em uma demonstração de técnica invejável, abusará de ângulos e tomadas inusitadas no decorrer da fita. A montagem, assinada pelo próprio diretor sob pseudônimo, é outro ponto forte. O diretor sabe fazer seu público segurar a respiração com o constante fluxo de personagens pela trama. Mesmo com nomes como Laurence Fishburne, Matt Damon, John Hawkes, Jude Law, Kate Winslet, Gwyneth Paltrow, Marion Cottilard, Bryan Cranston e Elliott Gould, o diretor não se detém nos personagens e seus dramas funcionam como meros apêndices argumentativos para o propósito do filme.
A opção final de Soderbergh tira um pouco do brilho da fita, mas é uma concessão justificável dentro da lógica hollywoodiana. Contágio é um filme que dificilmente figurará na lista de melhores do ano. Não é para tanto. Mas dificilmente um filme em 2011 terá penetrado o espectador com maior densidade. No final das contas, o slogan da fita já dizia tudo: nada se espalha mais rápido do que o medo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Crítica - O preço do amanhã

Sem tempo para metáforas!

O grande achado de O preço do amanhã, além de uma bem sacada homenagem ao clássico Bonnie & Clyde –uma rajada de baladas, é provar que Justin Timberlake convence como astro de ação. O que não é pouca coisa em tempos que nem mesmo o brucutu Vin Diesel se firma sem o apelo da marca Velozes e furiosos.
Justin observa: Jason Stathan aí vou eu...
A fita de Andrew Niccol apresenta um futuro aterrador. O corpo humano é programado para envelhecer até os 25 anos. E a partir de então, você precisa ganhar cada hora do seu dia. Os pobres não duram muito e os ricos flertam com a imortalidade. A moeda em questão é o tempo. A parte uma maior contextualização, que Niccol se esquiva de prover em prol do hype de observar esse futuro tão próximo e tão distante, O preço do amanhã funciona como metáfora desde que haja boa intenção. A ideia é mesmo jogar o protagonista em uma espiral de adrenalina na luta por sua vida. Após perder a mãe, Will Salas (Timberlake) parece conformado com os dois dias de vida que ainda lhe restam. Ao cruzar com um sujeito centenário e profundamente deprimido, seu conformismo se transformará. O velho confinado no corpo jovem de Matt Bomer, lhe cede mais de 100 anos de vida com a condição de que ele não os desperdice. Um conceito, convenhamos, um tanto vago. Salas se incumbe de lutar contra o sistema e aí entra em choque com os agentes do tempo. É quando entra em cena o outro grande achado de O preço do amanhã: Cillian Murphy. O ator está bem a vontade na pele de um policial incorruptível com um senso de obrigação irrevogável. Ponderado e com uma face sofrida, Murphy está um tom acima – em nível de qualidade - de seus companheiros de elenco.
Niccol não parece interessado em desenvolver o bom argumento que tem em mãos. O drama dos personagens está lá para dimensionar a ação e não o contrário. Não é uma opção ilegítima.
Niccol já se provou capaz de criar universos realmente aterradores e um mundo em que se é preciso valorizar cada hora e viver cada dia como se fosse o último realmente pode prescindir de metáforas e refugiar-se na eloquente homenagem ao clássico dirigido por Arthur Penn e estrelado por Warren Beatty e Faye Dunaway.

domingo, 6 de novembro de 2011

Insight

Os loucos devaneios de Andrew Niccol 



O que os filmes Gattaca – experiência genética (1997), O show de Truman (1998), O terminal (2004), O senhor das armas (2005) e o recente O preço do amanhã (2011) têm em comum? O gênio criativo de Andrew Niccol, neo zelandês radicado na Inglaterra e que floresceu no cinema americano. Ele não dirigiu todos eles, mas foi a peça central de histórias inusitadas e, não raro, impressionantes.
Niccol chegou em Hollywood com o roteiro de Gattaca, produção que lhe valeu alguns prêmios e muitos elogios. A ficção científica produzida pela Columbia Pictures não rendeu fábulas de dinheiro, mas rapidamente se tornou cult e referencial para filmes que viriam a se consagrar na ficção científica como Matrix, por exemplo.
Em Gattaca, os seres humanos são manipulados geneticamente em laboratório e todos aqueles que foram concebidos biologicamente são considerados inválidos. O personagem de Ethan Hawke é um dos inválidos que consegue se passar por ser superior até que um assassinato coloca toda a sua armação em risco. A alegoria com o nazismo e experiências científicas que dataram daí em diante são óbvias. Gattaca é um thriller de primeira linha que apresentava um articulador de ideias com talento bruto, mas promissor.
Com o sucesso de Gattaca embaixo dos braços, Niccol passou a procurar casa para um outro roteiro: uma pequena jóia chamada O show de Truman que ele já havia escrito e ofertado a alguns estúdios antes. O poderoso Harvey Weinstein (que se tornaria mais poderoso ainda) queria comprar o roteiro para proceder mudanças. Scott Rudin, na época trabalhando apenas com a Paramount, achava o roteiro perfeito, mas não aceitava o outro termo de Niccol: dirigir o filme.
Peter Weir e Jim Carrey chegaram para fazer de O show de Truman um dos filmes mais significativos dos anos 90 e um verdadeiro estudo sobre humanidades. Niccol ainda conseguiu sua única indicação ao Oscar até o momento pelo roteiro da fita.

Niccol instrui Al Pacino no set de Simone-nasce uma super estrela: um golpe em uma carreira em franca ascensão 


Para quem ainda não assistiu a esse filmaço, Truman (Carrey) vive toda a sua vida em um reality show sem ter conhecimento disso. No momento que descobre que toda a sua existência é uma farsa de tv, entra em parafuso. O filme, obviamente, é uma antecipação enfática da mania dos realities e um caloroso drama sobre as ramificações da consciência e livre arbítrio.
O próximo passo foi em falso. Niccol recrutou ninguém menos que Al Pacino para viver o mentor e criador de uma estrela de cinema virtual. "Simone – nasce uma super estrela (2002) tinha uma grande ideia, mas não um longa metragem”, chegou a escrever a Time à época do lançamento do filme. Uma mesura de ambições desmedidas e revolução digital que encontravam em um histriônico Pacino um desnível muito grande em matéria de reflexão. Simone não agregou valor ao portfólio de Niccol, mas não impediu que uma colaboração sonhada tomasse forma. Steven Spielberg o chamou para escrever um filme que o diretor faria “por esporte”, chamado O terminal. A sinopse é conhecida. Um turista de um país do leste europeu não pode entrar nos EUA após um golpe militar e posterior estado de sítio que acomete seu país. O personagem de Tom Hanks, então, fica confinado à uma improvável estadia no aeroporto JFK, um dos principais dos EUA. Niccol também atuaria como produtor do filme. O roteiro, com incrível tom otimista, seria a curva mais notória na “mente perturbada” do diretor e roteirista, como viria a classificar Justin Timberlake - estrela de O preço do amanhã – em recente entrevista ao Late Show with David Letterman. 
Mais cínico, inteligente e audacioso foi seu projeto seguinte. No drama O senhor das armas, Niccol arranca uma das melhores atuações de Nicolas Cage nos últimos dez anos na pele de um mega traficante internacional de armas que se esforça para manter-se afastado de sua consciência. O filme abre com uma sequência genial e imaginativa de toda a “existência” de uma bala e segue com a mesma desenvoltura narrativa. Um achado. 
Superar esse trabalho elogiado e impactante demandaria tempo. O preço do amanhã pode não ter esse efeito, mas é a primeira produção de médio porte assinada por Niccol com todo o maquinário de um grande estúdio, no caso a Fox, a lhe dar suporte.
O neo zelandês não goza do mesmo status de outro roteirista sensação que causou em Hollywood na última década, mas diferentemente de Charlie Kaufman seus filmes ostentam maior apelo comercial. Além do mais, Niccol já provou ser um diretor mais capaz do que seu par e mais aberto a concessões quando não dirige o próprio texto. São características que atestam que as loucuras de Niccol ficam confinadas às histórias que ele cria.

Niccol, Amanda Seyfried e Justin Timberlake no painel do filme O preço do amanhã realizado na última edição da Comic Con em San Diego nos EUA 

sábado, 5 de novembro de 2011

Cantinho do DVD

Filmes sobre crise financeira geralmente seguem por dois caminhos: são estritamente técnicos, afastando qualquer possibilidade de envolvimento da platéia com os personagens ou circunstâncias; ou apelam às emoções para cativar o público e relevam a segundo plano a matéria prima da película em questão. A grande virada, destaque da seção Cantinho do DVD desta semana, consegue arejar esse conceito. O filme, escrito e dirigido por John Wells, é uma parábola vigorosa dos efeitos da última crise financeira de grande porte que o mundo testemunhou a partir de 2008. Com outra crise dobrando a esquina, o filme parece uma boa pedida.



Crítica
Um filme pungente e que elabora muito bem as relações de poder. Essa é uma boa definição de A grande virada (The company men, EUA 2010), filme que marca a estréia na direção de longa metragens de John Wells. O criador da série E.R também assina o roteiro que se desdobra sobre os efeitos da crise econômica de 2008 em uma empresa e, mais especificamente, na vida de um punhado de personagens ligados a ela. Robert Walker (Ben Affleck) é demitido logo no começo do filme. Seu emprego se vai junto com o de outras três mil pessoas. “Nós trabalhamos para os acionistas”, justifica James Salinger (Craig T. Nelson), presidente da empresa, para Gene McClary (Tommy Lee Jones), diretor do departamento afetado pelos cortes.
Antes do término de A grande virada haverá novos cortes. O filme é um retrato prolífero das entranhas da crise no contexto sócio econômico americano. Como ela afetou a vida de diferentes famílias de diferentes classes sociais. Mas não é só. O longa de Wells também faz um estudo rico das relações de poder. Como elas se sobrepõem a amizade e mesmo aos laços familiares. O núcleo encabeçado por Affleck é uma boa ilustração disso. O personagem, que ganhava - fora bônus - cerca de U$ 120 mil anuais, não aceita a súbita mudança de padrão de vida. É aí, em contraste com a angústia experimenta por Gene, que o mais rígido comentário da realização se erguerá. O próprio Gene, que vai contra os interesses da empresa, demitido, separa-se da mulher que representa algo que para ele não faz mais sentido.
A grande virada é um filme de elipses e por isso exige atenção. É um filme, também, de refinado trato. Embora circunde questões econômicas, e demanda familiaridade do espectador, versa sobre humanidades.  
Chris Cooper faz um personagem um tanto emblemático. Aliás, todos o são. Até o caso extra-conjugal de Gene com a responsável pelo RH da empresa (Maria Bello) o é. Estão ali escondidas metáforas de como a América lida com uma crise cruel, inesperada e que redefiniu prioridades para muitos. Mas é o Phil Woodward de Chris Cooper, em grande atuação, que expõe uma ferida de difícil cicatrização. Ao sublinhá-la, Wells não ataca o capitalismo. Apenas põe em relevo suas incoerências e incontinências. Um filme sobre crise e poder não poderia ser mais objetivo naquilo que se propõe. O final otimista não disfarça a conclusão de que são nas crises que nos descobrimos mais humanos. Pelo menos a maioria de nós. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Filme em destaque - O preço do amanhã

Justin Timberlake e Amanda Seyfried fazem uma literal corrida contra o tempo na nova ficção científica do diretor de Gattaca- a experiência genética e Claquete revela os bastidores dessa corrida


É comum que nomes de filmes mudem durante a fase de produção. Não há nenhum indicativo nesse fato de que a produção periga ou haja incertezas. Woody Allen é um que geralmente só nomeia seus filmes depois de feitos. Quando não lança mão desse artifício, frequentemente rebatiza a cria; como fez com o ainda não finalizado Nero Fiddled, originalmente chamado de Bad Decameron. O preço do amanhã, que chega nesta sexta-feira (4) aos cinemas brasileiros, é um caso clássico. O roteiro foi aprovado pela Fox, estúdio que distribui e financiou o filme, com o nome de 25. O número, que para quem vê de fora surge um tanto enigmático, logo foi substituído pelo mais indicativo I´m imortal. O novo título já possibilitava uma rápida depreensão do que o filme ofereceria. Mas a Fox e Andrew Niccol acabaram optando pelo charmoso In time que, no limiar, atende aos predicados do filme.
O nome mudou, mas o plot do quarto filme dirigido pelo neozelandês Niccol não. Em um futuro não determinado, o tempo de uma pessoa se tornou sua moeda. Nessa conjuntura, as pessoas só envelhecem até os 25 anos e os dias (que ganham importância vital em um contexto como esse) são a base de barganhas e pequenos luxos. Não é preciso dizer que o sistema é corrupto e determinadas pessoas ricas encontram brechas para obter imortalidade.
O Robin hood que se levantará contra o sistema é vivido pelo ator Justin Timberlake. “Depois que David Fincher o escalou para A rede social, ele adquiriu um novo status como intérprete”, explicou Niccol à revista Entertainment Weekly sobre a escolha de Timberlake para o papel. De fato, em O preço do amanhã, o ator tem seu primeiro protagonismo e em uma produção de ficção científica de médio porte. “Acho que vai ser a primeira vez que meus amigos irão ao cinema pare me ver e não por causa da Cameron Diaz ou Mila Kunis”, brincou o ator em entrevista ao Late Show with David Letterman. O ator se referiu às outras duas fitas que lançou em 2011: Professora sem classe e Amizade colorida.
Justin Timberlake está a frente de um elenco jovem, formado por atores em franca ascensão. São eles Amanda Seyfried de filmes como O preço da traição e A garota da capa vermelha; Johnny Galecki, o Leonard da série The big bang theory; Olívia Wilde, que só este ano já pôde ser vista nos filmes Cowboys & Aliens e Eu queria ter a sua vida; e Matt Bomer, o galã do seriado White Collar.
Era essencial um elenco jovem, por imposição da trama, mas Niccol pôde respirar aliviado por usufruir de tanto talento e carisma. “Fui abençoado”, declarou o diretor na premiere americana do filme.
A fita, que estreou na última semana nos EUA, teve uma largada pouco abaixo das expectativas. Na terceira posição, atrás de Atividade paranormal 3 e O gato de botas, arrecadou cerca de U$ 15 milhões. Mas o elenco jovem, o sex appeal de Justin Timberlake e a premissa engenhosa devem valer sobrevida nas bilheterias. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Filme em destaque - A pele que habito

Para fora da zona de conforto

Pedro Almodóvar provoca a crítica e desafia sua audiência a decifrá-lo em sua nova obra, uma fita de terror com ritmo de thriller e fluência de ficção científica. Claquete apresenta as razões que movem A pele que habito


Há muito tempo se fala do novo Almodóvar. Com o peso de autor de cinema em uma época em que os tipos rareiam e o conceito confunde, Almodóvar sabe bagunçar expectativas. Foi com alarde que foi recebida a notícia de sua incursão pelo terror – ele já havia passeado pelo thriller em Má educação. O portentoso título da fita sugeria uma inflexão Almodovoriana na escala mais alta: A pele que habito.
A recepção em Cannes amornou os ânimos, mas não arrefeceu aquelas expectativas que Almodóvar sempre desperta. “É a mais profunda, a mais arriscada e a que tem uma leitura mais difícil que te deixa a vontade de querer revê-la porque há algo nela que te impede de saber onde termina exatamente a história", opinou a atriz Marisa Paredes, longa colaboradora do cineasta espanhol, que representou o filme no Festival do Rio desse ano. Para a atriz, A pele que habito é o filme em que Pedro se permite ser mais radical. Mas ainda traz todas as suas idiossincrasias. Marisa Paredes pondera que a crítica nem sempre captura a essência do cinema de Almodóvar de pronto. “É difícil aceitar a mudança proposta por Pedro com este filme, mas não se pode esquecer que às vezes a crítica se confunde. Foi assim com trabalhos que no final provaram que eram grandes obras".
Almodóvar, por sua vez, reagiu menos na defensiva a respeito das respostas que seu filme tem obtido. “A essa altura, concordo com todo e qualquer tipo de classificação, até mesmo se disserem que meu filme é uma comédia musical”, disse o cineasta à revista Veja. “Todo espectador tem o direito de classificá-la como quiser. Sou uma pessoa muito eclética e sempre estou mesclando gêneros. Eles se misturam em meus filmes de uma maneira orgânica, quase biológica. Há um predomínio de melodrama, mas com sequências de horror e ficção científica”, completou.

Imagens refletidas: em A pele que habito, Almodóvar discute a questão da identidade


Em A pele que habito, o cineasta se reúne a Antônio Banderas, com quem trabalhou e projetou nos filmes Matador (1986), A lei do desejo (1987), Mulheres a beira de um ataque de nervos (1988) e Ata-me (1990), para contar a saga de loucura de um cirurgião plástico com origens brasileiras. A escolha pela ascendência brasileira do protagonista tem a ver, segundo o diretor, com a influência que a cirurgia plástica brasileira exerce internacionalmente.  E o Brasil mexe com Almodóvar. Seja através de Caetano Veloso ou uma simples menção ao Rio de Janeiro, o Brasil sempre deu um jeito de marcar presença na filmografia recente do diretor. No novo filme, essa presença, além de mais enraizada, é mais intrínseca à história.
“Queria que a família do filme fosse muito selvagem, muito independente moralmente falando, que não tivesse tido a mesma educação que qualquer espanhol. Que sua cultura não estivesse baseada no castigo e no pecado como a cultura cristã na qual eu nasci e vivi", justificou o diretor a sua escolha pela “cultura brasileira”. Não a toa, os críticos brasileiros têm classificado o novo Almodóvar como seu filme mais frio. Talvez em uma resposta, ainda que inconsciente, a essa estigmatização.
Almodóvar filosofa quando questionado o por quê de rodar um filme de terror tão descolado, em termos estruturais, da representatividade de sua obra. “A principio, queria fazer uma homenagem ao expressionismo de Fritz Lang”, disse à Veja. Em Cannes, afirmou se tratar de uma demanda física de seu cinema. “O corpo me pedia para arriscar e foi um luxo que eu me dei”.

Almodóvar e Banderas em um momento de bastidor: "Filmar com Almodóvar é um ato de fé", declarou o ator espanhol em sua passagem pelo Brasil no fim de julho


Identidade
A convenção dita que o novo Almodóvar é um filme sobre identidade. Ainda que o cineasta já tenha perpassado o tema sob variados ângulos, nunca o sublinhara com elementos de perversidade e erotismo nos níveis que se testemunha em A pele que habito. O jornal San Francisco Chronicle, em sua crítica, pontua com autoridade: “Tal qual um filme de horror feito por David Cronenberg, A pele que habito é realizado por um diretor que não teme o corpo, mas se revela nele de uma sensualidade e amoralidade incapazes de achar algo nojento ou intrusivo de fato”.  O americano Boston Globe, por sua vez, louva a ousadia do diretor espanhol. “A pele que habito é Almodóvar retomando seu lado mais doentio e desavergonhado e é interessante observá-lo retratando a luxúria do abandono”.
São créditos a uma fita audaciosa, que pode ou não ser o aceno de mais uma ruptura na obra do cineasta. Estaria ele pronto para abandonar os melodramas? O próprio já manifestou o desejo de fazer uma comédia na sequência. O que demoveria essa tese.  Um retorno às comédias poderia ser definido como uma questão de identidade para Pedro Almodóvar. Mas quem se arriscaria? 

Editorial - Uma lipo providencial

Há quem possa reclamar das constantes mudanças no blog. As movimentações de colunas e seções, com suas chegadas e partidas, sempre compartilharam de um objetivo em comum: proporcionar mais (e melhor) informação e entretenimento ao leitor. As mudanças que passam a vigorar a partir desse mês de novembro são de ordem mais prática e menos nobre. Elas derivam da dificuldade de manter atualizadas as muitas colunas e seções do blog nas datas acordadas com os leitores.
Por essa razão, duas seções, até certo ponto apreciadas, ficam extintas a partir deste momento. A primeira delas é a seção Tira-teima que já colocou no ringue os dois maiores sucessos de James Cameron (Avatar e Titanic), Angelina Jolie e Jennifer Aniston, as duas principais tramas envolvendo vampiros na atualidade (True blood e Crepúsculo), duas lendas do cinema (Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock), duas lendas do cinema em formação (David Fincher e Christopher Nolan), dois dos festivais de cinema mais badalados do mundo (Veneza e Toronto), entre outras regalias cinéfilas.
A outra seção que se despede é Filmografia comentada, uma das caçulinhas do blog, cuja última edição pode ser conferida no post abaixo. Os grandes diretores do cinema, no entanto, não serão negligenciados; continuarão a ter vez nas outras colunas e seções do blog. Além de matérias ocasionais.
A coluna Questões cinematográficas e as seções TOP 10 e Claquete repercute seguem firme e forte, mas terão a periodicidade flexibilizada. Continuarão mensais, mas sem um dia pré-determinado para suas publicações.
O ajuste de foco é, na verdade, menor do que sugerem as mudanças. O blog adentra uma fase minimalista, mas sua vocação para análise e contexto segue preservada. A abertura que se dá para mais matérias especiais poderá ser notada a partir desta semana em que os filmes A pele que habito, de Pedro Almodóvar e a ficção O preço do amanhã, de Andrew Niccol terão matérias caprichadas nos blog.

Há quem pergunte o por quê da analogia com uma lipoaspiração lá no título. Pois bem. A ideia é deixar o corpo do blog mais ajustado e cortes estão sendo feitos. O conceito, portanto, é menos lisonjeiro e mais prático. Como toda providência em sua definição etimológica.