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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Crítica - Contágio

Medo!
A austeridade com que Steven Soderbergh filma Contágio (Contagion, EUA 2011) leva ao crescente sentimento de paranoia. Mais do que um compromisso de isenção, que ganha dimensão na comparação inerente com o jornalista vivido por Jude Law no filme, o recurso prova a eficácia de manter a platéia afastada da ação. O que não implica em esquivar-se da emoção, mas quando desvia o foco dos personagens – e por consequência do elenco estrelado que possui – e mira um vírus de procedência desconhecida como protagonista, Soderbergh demonstra interesse menos na reação das pessoas a uma catástrofe do porte de um vírus biológico e mais no impacto sócio-cultural da epidemia.Traduzindo: a erupção do medo.
E a experiência de Contágio é essa. Possibilitar a audiência um vislumbre aterrador do que seriam aquelas circunstâncias. O grau de realismo espanta. Justamente por esse tom alarmista na medida certa que Contágio tem sido saudado pela crítica como um filme de contemporaneidade ímpar. É inegável que a fita de Soderbergh diverge da produção habitual cinematográfica de grandes catástrofes por inverter as prioridades do registro.

Medidas desesperadas: a humanidade tateia diante do caos em um filme sem firulas


Tudo começa com uma tosse. Gwyneth Paltrow surge em um close tão intruso que chega a incomodar. Soderbergh, aliás, em uma demonstração de técnica invejável, abusará de ângulos e tomadas inusitadas no decorrer da fita. A montagem, assinada pelo próprio diretor sob pseudônimo, é outro ponto forte. O diretor sabe fazer seu público segurar a respiração com o constante fluxo de personagens pela trama. Mesmo com nomes como Laurence Fishburne, Matt Damon, John Hawkes, Jude Law, Kate Winslet, Gwyneth Paltrow, Marion Cottilard, Bryan Cranston e Elliott Gould, o diretor não se detém nos personagens e seus dramas funcionam como meros apêndices argumentativos para o propósito do filme.
A opção final de Soderbergh tira um pouco do brilho da fita, mas é uma concessão justificável dentro da lógica hollywoodiana. Contágio é um filme que dificilmente figurará na lista de melhores do ano. Não é para tanto. Mas dificilmente um filme em 2011 terá penetrado o espectador com maior densidade. No final das contas, o slogan da fita já dizia tudo: nada se espalha mais rápido do que o medo.