
Pois é, se o senhor Silvio ainda tivesse seu Show do milhão na ativa, poderia muito bem eleger essa, a pergunta de um milhão de reais. O perigo aí é que nem mesmo o sabichão Silvio saberia declinar a resposta com exatidão. Descobrir o fascínio que Johnny Depp exerce na mulherada, em um primeiro plano, e no público generalizado, em um segundo plano, não é um exercício que possa ser desenvolvido apenas pelo limiar da lógica. Depp é um apelo ao histrionismo, sem abdicar da introspecção. Um paradoxo que alimenta e se alimenta do status de celebridade que demorou a chegar. Embora já fosse um ator plenamente reconhecido e reconhecível, Johnny Depp só se tornou astro nos anos 2000, com o sucesso do personagem Jack Sparrow de Piratas do caribe: a maldição do pérola negra. A própria repercussão do personagem foi um show a parte. Além de ter agradado o público (de todas as faixas etárias e procedências) agradou a critica e aos colegas de profissão. Ganhou o prêmio do sindicato dos atores (SAG) e foi indicado ao Oscar de melhor ator por um papel cômico em um filme de verão, feito inédito nos 80 anos de história do Oscar e que até hoje continua sendo único.
Depp é avesso a badalações. No início dos anos 90, é bem verdade, enquanto namorava a doidinha Winona Ryder, frequentou os holofotes, mas desde o fim do namoro aderiu a descrição. Opção consolidada pelo casamento com a modelo francesa Vanessa Paradis e a subsequente mudança para o sul da França.

As colunas de fofoca até tentam, mas nunca conseguem algo realmente relevante, ou suculento (para usar um jargão do meio) sobre o ator. Depp não trabalha a imagem de sedutor (embora alguns digam que ele não precisa fazer isso), algo que alguns de seus contemporâneos fazem com naturalidade (caso de George Clooney), com graciosidade (caso de Matt Damon) ou com ostentação (caso de Brad Pitt). Ainda por cima, Depp tem uma queda por personagens que, a primazia, deveriam afastar o interesse do público por sua pessoa. Figuras andrógenas, monstros sanguinários e personagens circenses não fizeram de Terence Stamp ou Martin Landau sex simbols. Há quem argumente que lhes faltava beleza. Pode ser. Mas não há como negar que Depp flerta perigosamente com sua imagem, mesmo sem parecer fazê-lo. Talvez por isso, por esse flerte aparentemente irresponsável e desencanado, Depp seja para a cultura pop o que é. Talvez por isso, que exerça o fascínio que exerce nas mulheres. A confiança e a masculinidade acima de qualquer suspeita se revitalizam a cada excentricidade nas telas e o amor e comprometimento com a família e com a mulher se agigantam na descrição que pauta sua vida pessoal.
Johnny Depp talvez seja o enigma mais cristalino da Hollywood atual. Justamente por isso, o mais indecifrável.

















