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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Crítica - Atração perigosa

O crime como metáfora!

Não é algo novo. Hollywood se aperfeiçoou em usar a atividade criminosa como metáfora de reminiscências familiares e sociais. Desde o auge do cinema de gangster com Vencido pela lei (1934) até a edificação de Nova Iorque pelo olhar de Martin Scorsese em Gangues de Nova Iorque (2002). Ben Affleck vem, com brilhantismo, prestar sua contribuição ao filão. Atração perigosa (The town, EUA 2010) é um filme autoral que não se esquiva da necessidade de se mostrar comercial, já que é um produto de um estúdio regido por uma lógica capitalista. Transitar com habilidade e manter-se invicto ante essa dualidade é, sem dúvida, o maior mérito de Ben Affleck que, aos poucos, deixa de ser um diretor promissor para figurar na lista dos diretores interessantes.
Em Atração perigosa, Affleck faz um interessante painel de um bairro de imigrantes irlandeses em Boston, o que justifica o título original, mas não perde seus personagens principais de vista. O comentário do diretor (que também divide os créditos de roteirista) remete a influência que o ambiente exerce na sua formação. Não à toa, Affleck ambienta esse segundo filme que dirige, assim como havia feito com o primeiro, na cidade que cresceu e que conhece intimamente. Doug MacRay (Affleck) quer se desvencilhar de seu destino, mas esbarra na inércia. Quis o acaso que uma mulher que aparenta ser tão frágil quanto ele (ainda que essa fragilidade seja de outra natureza) representasse o “empurrão” que Doug precisava para vencer a inércia.

Amigos de fé: As mesmas regras e a mesma formação não impedem que Doug e Jem pensem diferente em um belo painel montado pelo diretor Affleck em seu filme


Há quem diga que Atração perigosa manipula clichês de gênero com destreza e que o filme se limita a isso. É uma interpretação superficial e simplista. De fato, há uma manipulação bastante criativa e qualificada dos elementos que gravitam o cinema do gênero, porém, há mais. Affleck investe nas sutilezas e trabalha com personagens fortes. Seja o pai irremediado em sua aflição explosiva e silenciosa (Chris Cooper em uma cena fantástica), seja a estrangeira em busca de amparo emocional (Rebecca Hall cada vez mais diligente em cena) ou o cara que não sabe como escapar da vida que vive (Affleck).
O crime e a relação destes personagens com esse universo passa, então, a ser uma metáfora preciosa de inadequação. Atração perigosa não deixa de ser também romântico em sua visão crepuscular e bifurcada dos laços que compõem amigos irmanados no crime. É, ainda, uma excelente fita de ação. Do tipo que prima por diálogos fortes e ação anexada à emoção genuína e bem engendrada por um diretor que pensa o filme de dentro para fora, ou seja, os personagens ditam o rimo da ação e não o contrário.
Vale comentar, também, a atuação de Ben Affleck. O ator dá sintomas de que acumulando as funções de diretor e roteirista redobra os cuidados com seu trabalho como intérprete. Aqui vemos um Affleck humilde (todos brilham mais que ele. Até mesmo Blake Lively) e senhor dos gestos de seu personagem. Doug não é um cara explosivo (ao contrário de Jem, personagem do também ótimo Jeremy Renner) e Affleck produz os gestos que levam a platéia a concluir o perfil implosivo de Doug. Um trabalho notável de um ator limitado que se revela um diretor agudo. E com o diretor Affleck, o ator deve sair lucrando bastante.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Atração perigosa - Aliando aspectos autorais a fórmulas comerciais

“Affleck sabia que tinha uma oportunidade única nas mãos”, escreveu em seu blog o crítico e observador da indústria de cinema Patrick Goldstein em referência ao significado de Atração perigosa (The Town, EUA 2010) para o ator, diretor e roteirista Ben Affleck.
Depois de uma estréia elogiada com Medo da verdade (Gone baby gone, EUA 2007), filme que entrou no ranking dos 25 melhores filmes da década organizado por Claquete, Affleck precisava mostrar que não foi acometido por aquela conspiração universal chamada sorte de principiante. “Em Atração perigosa, Affleck tinha que provar que sabia contar uma história e ainda entregar o filme que o estúdio queria”, observou em matéria sobre o filme a revista Entertainment weekly. “Eu sabia o que queria fazer”, retruca Affleck que admite ser fã do subgênero conhecido como heist movie, mas não vê razão do por que se limitar a ele: “a ideia desses personagens viverem com segredos e ao mesmo tempo buscarem um vínculo verdadeiro me envolve”.
Affleck se refere ao conflito vivido por Doug MacRay, interpretado pelo próprio ator. Líder de uma bem sucedida quadrilha de assaltantes, Doug tenta administrar personalidades conflitantes. Após uma complicação em um das ações da quadrilha, Doug se aproxima de uma mulher feita refém (personagem de Rebecca Hall) para se certificar de que ela não será capaz de reconhecê-los. Ele não contava que iria se apaixonar pela mesma. Uma estrangeira, assim como Doug se sente em relação a seus amigos, hábitos e tudo o mais.
Paralelamente a isso, o agente do FBI Adam Frawley (Jon Hamm) tenta desbaratar a quadrilha e percebe que para alcançar seu intento a chave é a personagem de Rebecca Hall.


 A razão do título nacional: Rebecca Hall e Ben Affleck em cena. Afinidades que vão muito além da atração...


Direto de Mad men: Jon Hamm encarna um detetive obsecado em desbaratar a quadrilha liderada pelo personagem de Affleck


“Impressiona o vigor da trama policial, mas o que mais chama a atenção é a profundidade dos personagens”, destacou Goldstein em sua resenha do filme. Atração perigosa está sendo cotado para ser um dos concorrentes ao Oscar 2011 e Ben Affleck já se fiou como diretor promissor. A Warner já projeta uma relação com ele nos moldes da que mantém com cineastas como Clint Eastwood, Christopher Nolan e Steve Soderbergh. Boatos indicam que ele deve rodar a ficção científica Replay, engavetada pelo estúdio há uma década.
Mas as críticas positivas ao novo trabalho de Affleck não se restringem a crítica americana. No Brasil, veículos distintos como Veja, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Época e O Globo apontam para uma unanimidade: Affleck promete ser um cineasta de mão cheia.
A partir desta sexta-feira (29 de outubro), o cinéfilo poderá tirar suas próprias conclusões. Não que elas devam ser muito diferentes desse coro cada vez mais afinado.

domingo, 10 de outubro de 2010

Insight

 Ben Affleck é o novo Eastwood?




O novo filme dirigido por Ben Affleck, Atração perigosa, tem sido algo próximo de uma unanimidade na crítica americana. A crítica internacional, presente nos festivais de Veneza e Toronto, onde o filme foi exibido, também exaltou a qualidade da fita e a sobriedade de Affleck na direção.
Já surgem em alguns nichos da crítica americana uma comparação instigante. Críticos de veículos distintos, mas respeitados, como Los Angeles Times, Vanity Fair, Entertainment Weekly e Washington Post avalizaram uma curiosa relação entre Affleck e Clint Eastwood. Embora inusitada, a comparação não é despropositada. Ambos são atores que não primam pela excelência em seus ofícios, mas que se mostram vigorosos na direção. Tanto Affleck e Eastwood iniciaram uma fase autoral adaptando um livro de Dennis Lehane (Sobre meninos e lobos no caso de Eastwood e Medo da verdade no caso de Affleck) e ambos arrancam performances salutares de seu elenco. É lógico que a comparação soa artificial posta dessa forma. Eastwood já dirige há 40 anos e Affleck acaba de lançar o segundo filme. Mas Eastwood não era reconhecido como o autor que é hoje até essa mais recente safra de filmes. É Sobre meninos e lobos que marca essa nova fase do que hoje é considerado um dos maiores cineastas americanos vivo.
É justamente neste sentido que a comparação favorece Affleck. Depois da elogiada estréia, e de um segundo filme ainda mais elogiado, Affleck já parece caminhar para um acordo formal com a Warner (nos moldes do que Eastwood detém com o mesmo estúdio). Depois da boa carreira de Atração perigosa, que ainda é cotado para a vindoura temporada de premiações, a tendência é que Affleck, o cineasta, só trabalhe para o estúdio.

Affleck orienta o irmão mais novo nos sets de Medo da verdade: surpresa, elogios e a promessa de um grande diretor


Affleck orienta John Hamm nos sets de Atração perigosa, filme que também estrela. A fita deve chegar ao Brasil no dia 29 de outubro


Ben Affleck não teve um mentor assim como Eastwood tivera (Sergio Leone), mas é pacífico que o próprio Eastwood hoje é uma referência viva e expansiva. É confortante ver que, mesmo que Affleck siga um caminho distinto de Eastwood como cineasta (o que não parece ser o caso), presenciamos a consolidação de um grande talento do cinema. Affleck não chega a ser um grande ator. A beleza e o "fator Gênio indomável" (filme que escreveu e estrelou junto do chapa Matt Damon e que os revelou em 1997) cuidaram de lhe viabilizar como astro de cinema. Agora, com estofo e experiência, ele parece disposto a cavar seu lugar na história do cinema como bom roteirista que é (escreveu os dois filmes que dirigiu) e ótimo diretor que cada vez mais demonstra ser.
Faz lembrar, embora com algumas sutis diferenças (que agregam ainda mais valor a sua jornada) um certo Clint Eastwood que ninguém levava a sério algumas décadas atrás.

sábado, 14 de agosto de 2010

Claquete destaca

+ Uma continuação de Os mercenários já está em vias de fato. Na premiere londrina do filme esta semana, Stallone e alguns produtores associados apresentaram a possibilidade à imprensa condicionando-a, obviamente, a bilheteria do primeiro filme que estreou nesta sexta-feira.


+ Senhores do crime 2 vai mesmo acontecer. A mais bela e pungente história de ascensão no mundo do gangsterismo desde O poderoso chefão terá Viggo Mortensen e Vincent Cassel às ordens de David Cronenberg uma vez mais.


+ Semana passada você ficou sabendo que a produção de Entrando numa fria com as crianças enfrentava problemas. Pois bem, com as mudanças de rumo na história a Paramount decidiu alterar o título nacional do filme. Little fockers se chamará no Brasil Entrando numa fria maior ainda com a família.E aí, topa entrar nessa fria?


+ Um dos desenhos mais descolados de todos os tempos finalmente ganhou um longa metragem. Zé colméia, uma produção da Warner Brothers, com as vozes de Dan Aykrod como Zé Colméia e Justin Timberlake como Catatau chega às telas americanas em dezembro. No Brasil, o filme está previsto para 4 de fevereiro.


+ Josh Brolin está em negociações para atuar em Young adults, novo filme de Jason Reitman. Charlize Theron já está confirmada na produção, cujo roteiro é de Diablo Cody.


+ Chegou esta semana as locadoras de todo o país, o último filme de Martin Scorsese. Ilha do medo é seguramente das melhores produções a ter estreado em 2010 nos cinemas. O filme que é uma mistura entre o cinema de horror B e o noir que marcaram o cinema americano entre as décadas 30 e 70 deverá figurar nas listas de melhores do ano em dezembro.


+ Como era de se esperar o filme Deadpool corre o risco de não acontecer. A Warner está fazendo lobby contra a produção, já que Ryan Reynolds que retomaria o personagem que encarnou em X-men origens: Wolverine é o intérprete do lanterna verde no filme que o estúdio lança ano que vem. A Fox, que já negociava com Robert Rodriguez para dirigir o filme, não confirma que a produção avance sem Reynolds.

+ Um dos principais lançamentos desse final de ano é The town ou, como se chamará no Brasil, Atração perigosa. O segundo trabalho de Affleck na direção é novamente uma trama policial ambientada em Boston. Affleck vive um fora da lei com coração no filme que conta com grande elenco. Blake Lively, Jon Hamm, Chris Cooper, Rebecca Hall e Jeremy Renner, em seu primeiro papel após Guerra ao terror, são alguns dos destaques. The town será exibido agora em setembro nos festivais de Veneza e Toronto.