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sexta-feira, 24 de maio de 2013

Espaço Claquete - Possuídos


À primeira vista, Possuídos (Bug EUA 2006) poderia ser confundido por um filme de David Cronenberg, em parte por versar sobre o estado de paranoia, em parte pela fusão que propõe entre o gênero de terror e ficção científica com o corpo como ponte. Trata-se, no entanto, de um filme de William Friedkin baseado em peça do dramaturgo Tracy Letts.
O filme passado quase que exclusivamente no interior de uma casa não esconde as raízes teatrais, mas se beneficia do domínio cênico de Friedkin – diretor capaz de sempre valorizar tremendamente seus cenários.
Agnes White (Ashley Judd) é uma garçonete solitária que vive da expectativa sombria do retorno do ex-marido (Harry Connick Jr.), um tipo violento que cumpriu pena por motivos nunca de todo esclarecidos. Agnes, que vive em um hotel de beira de estrada, é apresentava a Peter Evans (Michael Shannon) por sua colega de trabalho R.C (Lynne Collins). A princípio, Peter parece apenas recatado, mas com o tempo se mostra um sujeito paranoico. Antes mesmo de descobrirmos que Peter é, na verdade, um veterano da guerra do golfo e possivelmente cobaia de experimentos bancados pelo exército americano, descobrimos que Agnes – que mantém sua cota de vícios em dia – é receptiva às vibrações de Peter. Talvez em virtude de sua solidão, talvez por ser ela mesma um pouco paranoica. Perdeu o filho em um supermercado, mora em um hotel de beira de estrada, tem um ex-marido bandido... razões para a paranoia não lhe faltam aponta o roteiro.
Possuídos, é preciso dizer antes de outra qualquer elaboração, é um filme de terror diferente. Do tipo que aterroriza pela dúvida que incute a respeito da paranoia dos protagonistas ser fruto da loucura em estado bruto deles ou da sociedade que vivemos. Outra aproximação pertinente ao cinema de Cronenberg, portanto. E que loucura seria essa? Peter, abstêmio de sexo, cede ao interesse desesperado de Agnes por ele. Imediatamente depois de consumarem a paixão desajeitada que os aproximava, Peter começa a ver pequenos insetos na cama de Agnes. Ele demonstra uma irritação mais aguda do que se poderia imaginar para a situação. Agnes, a princípio, não vê os tais insetos, mas acompanha a inquietação de Peter – como seria natural.
A partir de um determinado momento ela começa a vê-los também, mas apenas depois de Peter compartilhar com ela sua angústia. A de que era uma cobaia do exército americano. Seria ele o hospedeiro de uma devastadora arma biológica?
A grande sacada de Possuídos, valorizada pela forma como Friedkin tece o registro, é a total impossibilidade de uma conclusão efetiva a respeito. O filme, ele mesmo em tensão crescente, fustiga a teoria da conspiração, mas não nega a verdade dos protagonistas – enamorados na loucura. Seriam os insetos responsáveis por esse rompante de insanidade? O terror, para a audiência, reside na possibilidade.

terça-feira, 12 de março de 2013

Crítica: Killer Joe - matador de aluguel


Uma história de violência

O retorno de William Friedkin ao cinema não poderia ser mais impactante. O diretor de obras atemporais como Operação frança e O exorcista realiza o filme mais inquietante e vigoroso dos últimos tempos. Killer Joe – matador de aluguel (Killer Joe, EUA 2012) é, à primazia, sobre a perversidade humana. Mas também sobre a ignorância, loucura, degeneração familiar e ganância. Tudo imerso em uma lógica de humor negro e violência dosadas com invejáveis equilíbrio e assertividade por um diretor no auge de sua forma. Friedkin reconhece a potência do material original que serve de base ao filme. Não à toa, os créditos iniciais enunciam se tratar do filme de William Friedkin da peça homônima de Tracy Letts – que também a adapta para o cinema.
A abertura do filme é qualquer coisa de fora de série. Debaixo de torrencial chuva e sob os latidos de um pitbull chamado T-Bone, Chris (Emile Hirsch) bate à porta de um trailer e chama por sua irmã Dottie (Juno Temple). Quem atende a porta é Sharla (Gina Gershon), sua madrasta. Ela está com seu sexo exposto. Chris, expulso de casa por sua mãe, quer falar com seu pai. Ele tem uma proposta. Matar a mãe e rachar o seguro de vida, cuja beneficiária seria Dottie, no valor de U$ 50 mil. A dúvida que se estabelece, pois ninguém parece hesitar em relação a matar um membro da família, é sobre como será feita a divisão da fatia.
Joe (Matthew McConaughey) é um detetive que entre suas atividades extracurriculares está ser um assassino de aluguel. É a ele que Chris e seu pai Ansel (Thomas Haden Church) recorrem para realizar o serviço. No entanto, como não há como pagar o serviço de Joe antes dele estar concluído, pai e filho aceitam que Joe desvirgine Dottie como “calção” (garantia). Joe, no entanto, subverte essa lógica e decide que ficará por perto (de Dottie e da família) até que receba seu pagamento (U$ 25 mil).

Humor negro e violência: Killer Joe é ácido, inteligente e pessimista

Como Joe, McConaughey alcança o maior pico de sua carreira. Ilegível em sua polidez amedrontadora, McConaughey se vale de seu sotaque interiorano do Texas para criar um tipo único na galeria de personagens icônicos. Joe oscila entre o surto psicótico e o cálculo com uma naturalidade que apenas um bom ator poderia dar conta. Gina Gershon, Emile Hirsch e Juno Temple também estão ótimos, mas é Thomas Haden Church que impressiona ao compor um tipo totalmente desprovido de luz própria e que enseja os momentos de respiro em um filme francamente alucinado.
Esse talvez seja o filme que Quentin Tarantino sempre quis fazer, mas jamais conseguiu. Eloquente na análise profunda que faz de uma América corrompida, divertido na elaboração dos conflitos, chocante em cenas sempre surpreendentes, engraçado e aterrorizante, por vezes simultaneamente, e rigoroso na mise-en –scène.
Friedkin faz, certamente, um dos maiores filmes da década. Killer Joe – matador de aluguel pode lhe provocar tontura com sua violência bifurcada entre o físico e o psicológico, mas lhe proporcionará, também, a satisfação de estar vendo uma excepcional história desvelada na tela. Ainda que seja uma história de violência.