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sábado, 27 de novembro de 2010

Crítica - A vida durante a guerra

O que vem depois da felicidade...


Em A vida durante a guerra a intenção de Solondz era avançar nos temas tratados em Felicidade. O diretor, no entanto, só se repete


Doze anos após Felicidade (Hapiness, EUA 1998), Todd Solondz retoma os personagens daquele filme em A vida durante a guerra (Life during wartime, EUA 2009). No novo filme, Solondz busca rememorar a acidez com que via o mundo em Felicidade. Para isso, não só revisita os personagens como revisita cenas inteiras daquele filme. Quem não volta para A vida durante a guerra são os intérpretes originais. Solondz justificou, em mais de uma oportunidade, que optou por novos atores porque não queria amarras no registro. Essa justificativa, no entanto, não faz sentido. A estética pura e simples também não mancomuna com a opção de ter os personagens de Felicidade vividos por atores distintos dos que os viveram primeiramente. Por outro lado, essa opção acresce interesse ao registro que Solondz faz desses personagens em um mundo mudado. Em um mundo à sombra do 11 de setembro. Se no primeiro filme a busca era pela felicidade, agora a busca é pelo perdão. Muito se faz, muito se erra na busca pela felicidade, “mas só os perdedores esperam ser perdoados”, vaticina uma personagem em um dado momento. A vida durante a guerra apresenta o mesmo esboço esquemático que pauta o cinema de Solondz (calcado em diálogos ásperos e em um humor de deslocamento que cerceia o drama) e alcança os mesmos efeitos. Choca, mas não envolve. Os temas repercutidos em Felicidade estão de volta (o passado é algo do qual não se pode fugir, argumenta Solondz), mas eles não ganham profundidade. Agrega-se a trama algumas ponderações sobre terrorismo que não avançam à psicologia de botequim. Embora renda cenas interessantes, o todo de A vida durante a guerra não produz o mesmo impacto proporcionado por Felicidade. Solondz era mais arguto e sarcástico ali. Aqui é apenas repetitivo.

Cantinho do DVD

Tido como um diretor fetichista e, mais ainda, pessimista, Todd Solondz está com fita nova nos cinemas brasileiros. A vida durante a guerra, cuja crítica o leitor pode conferir no post acima, retoma os personagens do mais célebre filme de Solondz, Felicidade. É esta produção de 1998, multipremiada (prêmio da crítica em Cannes, melhor filme no festival de Toronto e indicado ao Oscar de roteiro original, para citar alguns), que a seção Cantinho do DVD desta semana destaca. Felicidade não é um filme fácil. Muito pelo contrário, é enjoativo em alguns momentos e pesado em outros. Ainda assim, é o melhor trabalho desse cineasta bissexto.



Ficha técnica:

Título original: Happiness
Direção: Todd Solondz
Roteiro: Todd Solondz
Elenco: Jane Adams, Phillip Seymour Hoffman, Dylan Baker, Lara Flynn Boyle e Chyntia Stevenson
Gênero: Drama
Estúdio: Good machine/Imovision
Duração:134 min
Status: disponível em DVD para venda e locação
Preço médio: R$ 44,90



Crítica

Felicidade é um ideal ou um objetivo palpável? Para Todd Solondz isso pouca importa. Na conjuntura dramática proposta em Felicidade (Happiness, EUA 1998), ela pode ser tanto um objetivo de vida quanto um ideal distante; mas enquanto há vida há esperança, propaga uma personagem próximo do encerramento da fita. No filme, acompanhamos o cotidiano da família Jordan e de mais um punhado de personagens que a gravita. O que Solondz objetiva ao se aproximar desse microcosmo é professar sua fé: de que a América está corrompida pela pervertida busca pela felicidade. Não deixa de ser um tanto melancólica essa constatação. No painel alçado pelo diretor e roteirista estão um pedófilo que não parece se ressentir de sua condição, um tarado introvertido, a irmã falsa e arrogante (Helen), a irmã competitiva e prepotente (Trish) e a irmã que não sabe como se situar (Joy). Há muito mais no emaranhado de arquétipos que Solondz ilumina em seu filme.
Em Felicidade, há –deliberadamente – a intenção de chocar. Por isso, a risada nervosa do espectador aparece uma ou duas vezes durante o filme. Apesar de utilizar uma mise em scène esquemática (geralmente duas pessoas travando um diálogo em um enquadramento congelado), Solondz não economiza no conteúdo dos diálogos. Homossexualidade, pedofilia, drogas, infidelidade, entre outros assuntos tão incendiários quanto esses ocupam o itinerário dramático dos personagens. Itinerário porque eles pouco se parecem com seres vivos, mais se assemelham a rabiscos destinados a produzir um efeito reflexivo. Esse distanciamento opcional que Solondz afere à sua narrativa não é tão positivo quanto pode parecer. Ao prescindir da conexão emocional entre público e personagens, Solondz relega seu filme a mero instrumento para estudiosos (sejam eles do cinema ou das relações sociais).
Felicidade e todo o seu potencial agridoce estipulam uma sociedade perdida em seus desejos e em sua contemporaneidade. A cena final, das mais poderosas do cinema nos últimos 20 anos, resume toda a razão de ser do filme. O gozo, no final das contas, é o que vale.