Ficção científica cascuda
Não é de hoje que Tom Cruise gosta de patrocinar cineastas
jovens e promissores, mas corre o risco de a História imputar ao astro a
descoberta de Joseph Kosinski. Para todos os efeitos, o diretor de Tron – o
legado (2010) estreia, de fato, com essa ficção científica que concilia
referências que vão de 2001: uma odisseia no espaço a Blade Runner – o caçador
de androides, dois ícones do gênero, passando por substanciais franquias como
Mad Max, Matrix, entre outros.
Oblivion (EUA 2012) é, por força de definição, uma ficção
científica cascuda. Daquelas que não deve agradar espectadores ocasionais. É
preciso ter “formação” no gênero para apreciar a contento o filme que alia
visual arrebatador a uma trama francamente engenhosa na fusão de referências
com que trabalha. Kosinski, diferentemente do que se esperaria de um diretor
que sobeja tanto na linguagem visual, arquiteta a narrativa de Oblivion com o
ritmo necessário que um filme tão ambicioso e reverente pede. É um acerto que o
torna, a despeito da presença de Tom Cruise, um filme de gueto.
Cruise, aliás, demonstra desenvoltura na ficção científica
nessa sua primeira incursão sem a tutela do amigo Steven Spielberg, com quem
rodou Minority Report – a nova lei (2002) e Guerra dos mundos (2005).
Clean até certo ponto: Oblivion fala de um mundo distópico em que tecnologia e passado se contrapõem e a história de amor que surge no filme desempenha papel fundamental nesse confronto...
O desenvolvimento do roteiro recebe a mesma atenção que
recebe o visual arrojado da Terra deserta do pós-guerra em que uma espécie
alienígena, ainda que derrotada, obrigou os humanos a viverem fora da órbita terrestre. É essa a
explicação inicial que o personagem de Cruise, Jack, responsável pela manutenção
de drones que patrulham o planeta, oferta em suas divagações existenciais de
quem se ressente de abandonar o planeta. Essa missão, que divide ao lado de sua
namorada (Andrea Riseborough), está para acabar e eles irão, finalmente, se
juntar aos outros humanos.
Mas as coisas não são exatamente o que parecem ser. E o que
aparentemente é um acidente envolvendo uma cápsula espacial se torna o grande
ponto de partida para uma tomada de consciência pelo personagem de Cruise.
Se Oblivion não tem a força narrativa ou a pujança reflexiva
de alguns dos filmes no qual busca abrigo, é bem sucedido em propor um novo
conceito, passível de muitas reverberações, no cinema. Adaptado de uma graphic
novel de autoria do próprio Kosinski, Oblivion se subscreve como mais uma prova
do campo prolífero que é a ficção científica para a investigação da essência
humana. É, também, o testemunho de que Tom Cruise, além de se manter em dia
como astro de apelo, continua matador como produtor. Kosinski tem um futuro
danado pela frente.
