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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Claquete 4 anos - Dez filmes mais significativos dos últimos quatro anos

Não se trata dos melhores filmes produzidos durante a existência do blog. Como o período de quatro anos é relativamente curto para se dimensionar uma lista como essa, e o blog publicou em todos os anos os melhores filmes de cada ano, seria redundante tornar a fazê-lo ainda que de forma englobada. A proposta aqui é lançar um olhar plural e complexo sobre a atividade cinematográfica nesses quatro anos. Os filmes que apontaram os caminhos que o cinema está seguindo, aqueles cujas narrativas reverberam e influenciam o cinema moderno, o maior sucesso de público da história, o maior sucesso de público do cinema nacional, o cinema como fórum e faculdade da arte e por aí vai. A ideia desse top 10 é apresentar os dez filmes mais significativos, não essencialmente melhores, de 2009 para cá. Um brinde à existência de Claquete, que chamou a atenção e contextualizou seu público sobre esses filmes e as reminiscências deles, à época de seus lançamentos.

10 – Avatar (EUA 2009), de James Cameron
É inegável que o épico de aventura de James Cameron, indicado a nove Oscars, engatilhou o 3D em sua potência máxima no cinema. Seria essa a grande importância do filme, se Avatar não tivesse quebrado todos os recordes possíveis e imagináveis de bilheteria com U$ 2, 7 bilhões em faturamento. Não obstante, a fita de Cameron é uma aventura de encher os olhos. Seja pela tecnologia de ponta que viabilizou o universo de Pandora, seja pela narrativa bem amarrada pelo diretor.

9 – Toy story 3 (EUA 2010), de Lee Unkrich
Três das melhores bilheterias de 2013 são animações. Essa estatística não deve mudar até o fim do ano. Ela ocorre em parte pelo maior volume de produções, mas principalmente pela qualidade delas. As animações se segmentaram, mas em essência se ratificaram como um gênero familiar – o que é raro na Hollywood atual. As receitas avantajadas calcadas em qualidade tem como símbolo o fecho de uma das melhores trilogias do cinema. Toy Story 3 é sintomático do sucesso da Pixar enquanto estúdio e seara criativa, com prêmios da crítica e da indústria e mais de U$ 1 bilhão em bilheteria.

8 – Distrito 9 (EUA/AFS 2009), de Neill Blomkamp
Não é nenhum exagero apontar Distrito 9 como a ficção científica mais eloquente e politicamente assertiva dos últimos 30 anos. Talvez desde Blade Runner, o caçador de androides (1982) nossa humanidade não tenha sido tão bem abordada pelo gênero. A discussão sobre desigualdade social é um plus desse cativante filme de estreia do sul africano Blomkamp na direção. Com produção de Peter Jackson, Distrito 9 foi uma surpresa em 2009 e sua resiliência garante o interesse pela continuidade da carreira do diretor.

Cena de Distrito 9: a ficção científica com instrumento de compreensão de nossas imperfeições e fragilidades

7 – A origem (EUA 2010), de Christopher Nolan
Nesses quatro anos não houve filme tão original ou provocativo quanto esse tento cinematográfico de Christopher Nolan. Apenas essa razão já lhe garantiria lugar nessa lista, mas A origem é um marco, também, por ser uma produção de grande orçamento estritamente original bem sucedida em uma época de pane criativa em Hollywood em que os grandes orçamentos vão todos para adaptações e refilmagens nem sempre desejáveis.

6 – Tropa de elite 2 – o inimigo agora é outro (Brasil 2010), de José Padilha
Esse talvez seja o filme mais fraco, irregular e desonesto intelectualmente da lista. Talvez. Mas é inegável que o maior sucesso de público da história do cinema brasileiro é, também, um brilhante exercício de gênero com um desenvolvimento complexo e bem estruturado de personagens e uma técnica de equivalência hollywoodiana. Por essa grandeza bem desenhada, do tipo “cinema é a nossa praia”, Tropa de elite 2 não poderia deixar de figurar nessa lista.

5 – Shame (ING 2011), de Steve McQueen
Desprover a nudez de erotismo é um exercício de estilo que apenas artistas plásticos de alto gabarito são capazes de configurar. Fazê-lo em um filme que discute o sexo só comprova o talento do artista plástico e cineasta Steve McQueen para canalizar no cinema estética e narrativa em direcionamentos antagônicos, mas complementares. Shame é um filme todo pensado para causar impacto. Sensorial, emotivo e intelectual. Um tipo de cinema que não se vê por aí.

Desejo e perdição: Shame é um filme que aliou vigor estético a despudor narrativo como poucos na existência de Claquete

4- César deve morrer (ITA 2012), de Paolo Taviani e Vittorio Taviani
Os limites e o alcance da arte são encorpados nesse vitorioso filme italiano que acompanha presidiários ensaiando e encenando uma peça shakespeariana. As linhas que separam documentário e ficção se perdem em um neologismo cinematográfico poderoso e cheio de sentido. A gramática do cinema é relativizada e renovada por realizadores dispostos a pensar fora da caixa.

3– Cópia fiel (FRA/ITA/BEL 2010), de Abbas Kiarostami
Outro filme que discute os limites entre arte e cópia. Representação e autenticidade. Kiatostami expande seu comentário do mundo da arte ao casamento em um filme de linguagem moderna e obstinação ímpar. O próprio filme se apresenta ao espectador como um produto a mercê de sua interpretação. Estamos diante de uma obra autêntica ou de uma simulação bem engendrada?

2– Bastardos inglórios (FRA/EUA/ALE 2009), de Quentin Tarantino
O auge de um autor sempre merece destaque. No cinema americano, Quentin Tarantino – encontrando par em Terrence Malick – é o grande polarizador em matéria de cinema autoral. Bastardos inglórios, para todos os efeitos sua obra-prima, é uma apólice de seguro de Tarantino para a posteridade. O filme que ousou reescrever um dos capítulos mais tristes da humanidade com irreverência, catarse, violência e legendas. Muitas legendas para o público americano.

1-A rede social (EUA 2010), de David Fincher
É o filme da geração Y, dizem muitos por aí. É verdade. Mas A rede social é muito mais. Um dos roteiros mais brilhantes jamais feitos é um filme sobre nosso tempo, tanto em sua organização narrativa – de diálogos em velocidade da luz e cortes multifacetados – como em sua narrativa épico-existencial sobre jovens erguendo impérios digitais e desvinculando-se de laços vívidos reais.  
Não à toa comparado a Cidadão Kane, A rede social é um filme que cresce de tamanho a cada revisão.

O maior de seu tempo: A rede social é o filme testamento de uma geração e de uma linguagem cinematográfica moderna 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Insight

As lições de 2010 para a indústria do cinema

No dia da celebração do que de melhor o cinema produziu no ano passado, convém atentar para as grandes lições que 2010 oferece para a indústria do cinema americano. Muito provavelmente desde 1999, os estúdios não entregavam uma safra tão boa de filmes. A rede social, O vencedor, Bravura indômita, A origem e Toy story 3 têm em comum um grande estúdio por trás (respectivamente Sony, Warner, Paramount e Disney).
Nos últimos anos, tem predominado no Oscar o perfil de produção independente. Isso ocorreu, logicamente, pela orientação da academia de reconhecer uma produção mais adequada aos padrões artísticos, mas também porque desde que Beleza americana, Matrix, Quero ser John Malkovich, O sexto sentido, Magnólia, O informante e A espera de um milagre brilharam, os estúdios não alinhavam em um mesmo ano tantas produções voltadas para um público adulto em que sobejam qualidade e técnica. Em comum, também, o fato de que esses estúdios foram buscar cineastas autorais no seio do cinema independente para aferir sustância a seus filmes (David O.Russell, Christopher Nolan e Darren Aronofsky para citar alguns) Aronofsky, por exemplo, está à frente do novo filme do Wolverine. Em uma demonstração eloquente de que os estúdios de cinema estão convencidos de que um cineasta visionário é mais indicado do que um subordinado a desmandos de produtores em tempos como esses.
A boa bilheteria de um filme como A origem demonstra que é válido apostar em projetos originais. O reconhecimento a engenhosidade narrativa de A rede social atesta que há uma demanda reprimida por entretenimento adulto e inteligente nos multiplexes. David Fincher já foi escalado pela mesma Sony que produziu e distribuiu A rede social para tocar dois projetos com ambição de blockbusters: o remake americano de The girl with the dragon tattoo e a adaptação do clássico "20 mil léguas submarinas". 2011 será um ano ainda marcado por muitos remakes, continuações e adaptações de HQs, mas o público foi responsável por uma pequena revolução nos cinemas. Ao prestigiar produções renovadas, sagazes, inteligentes e, ainda assim, que pedem pipoca, contribuíram para que a produção de meados de 2012 para frente seja de fazer salivar o cinéfilo e atiçar ainda mais as caixas registradoras dos estúdios de cinema. Contrariando as profecias de James Cameron, o cinema vai bem sem o 3D. Muito bem, diga-se.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - A peleja dos filmes

1- Inverno da alma, 2- 127 horas, 3- Cisne negro, 4 - O discurso do rei, 5 - Bravura indômita, 6 - Minhas mães e meu pai, 7 - A rede social, 8 - O vencedor, 9 - A origem e 10 - Toy story 3



Ode à vida

É inegável que 127 horas tem vocação cult. Não só porque não fez muito dinheiro, mas também porque Danny Boyle utiliza uma linguagem moderna que vai ao encontro de cinéfilos feitos no universo videoclipeiro. O filme tem também James Franco em grande atuação. Daquelas que dão sentido a um filme e a uma vida.

Porque deveria ganhar...
É um filme dinâmico, envolvente e que esbanja boa técnica. Traz uma atuação espetacular e faz um brinde a vontade de viver.

Porque não deveria ganhar...
Danny Boyle ainda tropeça em alguns preceitos básicos de direção e, não fosse por James Franco, seu filme poderia virar uma pirotecnia egóica.


As indicações: filme, roteiro adaptado, ator, montagem, trilha sonora e canção


Família Dó-ré-mi


Entra ano e sai ano e famílias disfuncionais continuam a fascinar os acadêmicos. E com toda a razão. Em O vencedor, acompanhamos a saga de uma família cheia de amor, mas que precisa aprender a lapidá-lo de uma maneira que não façam mal uns aos outros. Um filme escorado na força de seu elenco que arranca emoções genuínas da platéia.


Porque deveria ganhar...
É o melhor trabalho de elenco do ano. Um testamento referencial de como um grupo de atores em fina sintonia garante a perenidade de um filme.


Porque não deveria ganhar...
É um filme remontado em clichês e, a bem da verdade, essa história já rendeu Oscar em outros anos.


As indicações: Filme, direção, roteiro original, ator coadjuvante, 2 indicações para atriz coadjuvante e montagem


Família cromossomo X


E tem coisa melhor do que posar de liberal com roupas conservadoras? É mais ou menos isso o que ocorre com Minhas mães e meu pai, um dos filmes mais festejados da temporada. A fita que mostra a vida de uma família chefiada por um casal de lésbicas é a única comédia entre os selecionados. No fundo, o recado está nessa condição. Não é para ser levada a sério.


Porque deveria ganhar...
A última comédia a ganhar o Oscar foi Shakespeare apaixonado há quase 15 anos. Minhas mães e meu pai, pelo menos, é superior aquele filme.


Porque não deveria ganhar...
O filme não reúne predicados que lhe afirmem como um legítimo filme de Oscar. Há competência na misê-èn-scene, mas ela nunca excede o previsível.


As indicações: filme, roteiro original, atriz e ator coadjuvante



Vida longa aos ingleses


Não tem jeito. Uma vez colônia, sempre colônia. É a melhor forma de explicar o favoritismo de O discurso do rei e suas imponderáveis doze indicações ao Oscar. Filme bem feito, mas longe do rigor acadêmico de outras produções de época que tinham contra elas o fato de não serem da terra da rainha.


Porque deveria ganhar...
É um filme que demonstra como a braveza de espírito é imprescindível para a superação de desafios. Traz o tipo de argumento que a academia gosta de referendar.


Porque não deveria ganhar...
Em um ano com produções inovadoras e relevantes, premiar um filme quadrado e pouco inventivo seria, no mínimo, desestimulante em níveis cinematográficos.


As indicações: Filme, direção, roteiro original, ator, atriz coadjuvante, ator coadjuvante, fotografia, trilha sonora, direção de arte, figurino, montagem e mixagem de som


O brilho do independente


São cinco fitas independentes entre os concorrentes a melhor filme. Mas cabe a Inverno da alma, a prerrogativa de chamar-se como tal. Filmado nos confins americanos e ambientado em tais confins, Inverno da alma é aquele tipo de filme que exige paciência e cumplicidade de seu espectador. De ritmo lento e dialética difícil, é uma história violenta sobre uma parte da humanidade paralisada no tempo. E em um mundo de seis bilhões de pessoas, essa realidade é maior do que muitos imaginam.


Porque deveria ganhar...
É um filme que triunfa em todos os seus elementos. Roteiro, atuação, direção, montagem, fotografia e música.


Porque não deveria ganhar...
É demasiadamente complexo em sua simplicidade. Afugenta espectadores à espera de emoções mais consumíveis.


As indicações: Filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante



O sonho real


A origem foi o primeiro candidato ao Oscar a assegurar-se na lista em meados de julho, quando estreou nos cinemas americanos sob festa da crítica. Faltava precisar o tamanho da candidatura. Não foi das maiores, mas foi maior do que seria há alguns anos. O filme de Nolan ainda será responsável por pequenas revoluções no cinema americano e no Oscar. É esse o sonho que ele plantou com seu filme.


Porque deveria ganhar...
É o filme mais inventivo do ano. Nenhum outro filme causou tamanho espanto e admiração em 2010. Nenhum outro filme se assumiu como arte em um produto comercial.


Porque não deveria ganhar...
É um filme que, de alguma maneira, marca mais pela forma do que pelo conteúdo. Esse é o calcanhar de Aquiles de qualquer filme que objetive o Oscar.


As indicações: Filme, roteiro original, fotografia, direção de arte, trilha sonora, mixagem de som, edição de som e efeitos visuais


O tempo e a razão


Em um mundo justo o melhor filme do ano ganharia o Oscar de filme do ano, certo? A academia pode ajudar a fazer do mundo um lugar mais justo em 2011 se premiar A rede social. A fita que, em uma só tacada, desfila arrojo técnico, reverberação social, reflexão filosófica e brilhantismo acadêmico é também um filme que afaga a inteligência como nenhum outro candidato no ano.


Porque deveria ganhar...
É tão bom quanto os outros candidatos no que eles têm de melhor. E é ótimo no que eles falham. Isso o isola como melhor, certo?


Porque não deveria ganhar...
É frio, analítico e impessoal. O Oscar, no limiar, ainda é sobre emoção


As indicações: Filme, direção, roteiro adaptado, ator, montagem, fotografia, trilha sonora e mixagem de som


Sobre ciclos


O Oscar já premiou uma trilogia em seu derradeiro capítulo (O senhor dos anéis: o retorno do rei). Para muitos, Toy story 3 é a melhor trilogia do cinema. Mas não só. É também a afirmação definitiva de que a Pixar está aí para disputar com gente como Almodóvar e Tarantino a alcunha de detentor do melhor cinema autoral em voga atualmente.


Porque deveria ganhar...
É o filme mais poético e emocionante dos indicados. E a vida anda precisando de poesia.


Porque não deveria ganhar...
Se a beleza não põe mesa, o mesmo serve para poesia.


As indicações: Filme, animação, roteiro adaptado, canção original e edição de som


Questão de honra


Dá gosto ver os Coen se contendo em favor de uma obra atemporal como Bravura indômita. Ao fazer isso, eles contribuíram para o novo fôlego do western nas bilheterias. Um filme que consegue aliar beleza à obscuridade e ainda empolga. No final das contas, os fins justificaram os meios.


Porque deveria ganhar...
É um filme belamente realizado com o viço dos grandes clássicos e humor contemporâneo.


Porque não deveria ganhar...
É melhor do que o filme original, mas não é o melhor filme do ano.


As indicações: Filme, direção, roteiro adaptado, ator, atriz coadjuvante, fotografia, figurino, direção de arte, edição de som e mixagem de som


Perfeição


Chegar lá é exaustivo. Mas Cisne negro é prova viva de que é possível. Filme que se envaidece de sua perfeição técnica sem qualquer comedimento, chega ao Oscar menor do que se supunha. Contudo, a perfeição irretocável de Cisne negro abriu portas para aqueles que lhe deram corpo.


Porque deveria ganhar...
Nenhum filme provocou e fascinou tanto o público no ano. Nenhum outro final tirou o fôlego do espectador na sala escura.Há muito tempo, um filme não provocava essas reações.


Porque não deveria ganhar...
É um filme que não teria o mesmo impacto, não fosse por intervenções bem detectáveis da direção


As indicações: Filme, direção, atriz, montagem e fotografia

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Contexto

Por que esses dez filmes?

É o segundo ano consecutivo que a academia seleciona dez indicados para concorrer ao Oscar de melhor filme. Já é pacífico que a medida visa uma maior popularização da cerimônia de TV, um impacto maior nas bilheterias e na reverberação midiática da marca Oscar. Mas quais são os predicados dos dez filmes escolhidos para concorrer ao prêmio máximo do cinema em 2011?
Um primeiro olhar sugere um ecletismo que, pautado pelo equilíbrio, reforça a escolha da academia. Estamos diante de uma seleção de invejável fôlego. Há cinco filmes independentes em disputa (Cisne negro, 127 horas, Minhas mães e meu pai, Inverno da alma e O discurso do rei), três legítimos blockbusters de estúdio (A rede social, A origem e Toy story 3) e dois filmes “baratos” de estúdio (O vencedor e Bravura indômita). Todos de inegável qualidade. Essa equação não foi bem resolvida ano passado, quando os blockbusters eram qualitativamente pálidos (Um sonho possível e Avatar) e o desnível entre outras produções concorrentes era muito grande. É difícil conseguir alguma equidade qualitativa até mesmo com cinco indicados, obter isso com dez é um feito e tanto. Esse dado leva a conclusão de que foi um bom ano. A academia reconheceu a originalidade de projetos modernos e modernosos (A origem e A rede social), prestigiou os independentes que se esmeram no elenco e na história (Inverno da alma e Minhas mães e meu pai que dividem quatro indicações idênticas) e saudou o tradicional nas figuras do western (Bravura indômita), da fita inglesa de época (O discurso do rei) e do filme que traz o boxe como parábola (O vencedor). Chamou a atenção o destaque que esses três filmes receberam da academia. Maior do que muitos supunham ser justificável. Isso ocorreu porque depois de alinhar-se a crítica na edição de 2010, a academia se encontra na necessidade de marcar território novamente. Por isso, filmes tão tradicionais lideram a disputa.

Cartaz conceitual de Bravura indômita, um dos principais concorrentes ao Oscar 2011: filme tradicional com a chancela dos irmãos Coen


Mas a academia está dividida. Entre a engenhosidade narrativa de filmes como A rede social e A origem e a segurança secular de obras como O discurso do rei e O vencedor. De qualquer jeito a lista do Oscar 2011 sinaliza bons tempos. A superação do ser humano continua a ser um dos pilares do Oscar. Ela está presente de variadas formas em 127 horas, O discurso do rei, Bravura indômita e O vencedor. Começa a ruir a barreira que separava a boa ficção científica do Oscar. Pelo terceiro ano seguido um filme de ficção se enfileira entre os melhores. Batman – o cavaleiro das trevas em 2009 (que ao não ter emplacado a candidatura a melhor filme, tornou-se a grande razão de ser dessa mudança para dez indicados), Distrito 9 em 2010 e A origem esse ano. Ainda levará mais algum tempo para que a barreira seja totalmente transposta. A qualidade desses filmes, é bom que se diga, precisará continuar em alta. Ao reconhecer a leveza de um filme que aborda uma família chefiada por um casal de lésbicas, cuja rotina é tão problemática quanto outra qualquer, a academia atesta a preocupação social de não parecer pró-ativa demais. Nem de menos. A violência e as deturpações do mundo nos últimos tempos também têm garantido vez no Oscar. Inverno da alma não tem a apoteose de Os infiltrados, nem o pessimismo de Onde os fracos não têm vez, mas se sustenta na comparação. E, aquele que Claquete já pontuou como o filme do Oscar, A rede social é o filme que transborda conteúdo, relevância e reflexão. Tudo embalado em ótimo entretenimento. Pode não ser escolhido o melhor filme do ano, mas sua presença na lista fará com que os outros imediatamente – na revisão histórica – se tornem um pouco melhores.

sábado, 15 de janeiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Os vencedores do Critic´s Choice Awards

No que promete ser uma antecipação do que se dará na noite de 27 de fevereiro, A origem e A rede social dividiram os holofotes no Critic´s Choice realizado nesta sexta-feira (14). Enquanto o filme de Nolan dominou as categorias técnicas (também foi escolhido como o melhor filme de ação do ano), a fita de David Fincher faturou os principais prêmios da noite. Com quatro vitórias (filme, direção, roteiro adaptado e trilha sonora), A rede social confirmou seu favoritismo. A origem ganhou mais. Foram seis prêmios. O vencedor (com três prêmios) e O discurso do rei (2 prêmios) também foram produções bem contempladas.
Natalie Portman converteu sua indicação na única vitória de Cisne negro na noite. A fita de Darren Aronosky tinha 12 indicações e, nesse contexto, foi a grande derrotada da noite. A única vitória do filme dos irmãos Coen, Bravura indômita, foi para Hailee Steinfield. Preterida na categoria de atriz coadjuvante, Heilee foi escolhida como a melhor interprete jovem.
Nos últimos cinco anos, a fita escolhida como a melhor do ano no Critic´s choice mais tarde se tornou a vencedora do Oscar de melhor filme.


1- Darren Aronosfky não imaginava que chegava para assistir seu filme perder 11 vezes; 2- Annette Bening, ao lado do maridão Warren Beatty, já tinha o sorriso pronto para a hora de aplaudir Natalie Portman; 3- a jovem Hailee Steinfield também foi só sorrisos já que saiu com o único prêmio de Bravura indômita na noite; 4 - o ex-governador Arnold Schwarzenegger, de volta ao cinema, foi um dos apresentadores da noite


Eis os vencedores da 16ª edição do Critic´s choice awards:

Melhor filme: A rede social
Direção: David Fincher (A rede social)
Roteiro adaptado: A rede social
Roteiro original: O discurso do rei
Filme estrangeiro: The girl with the dragon tattoo
Ator: Colin Firth (O discurso do rei)
Atriz: Natalie Portman (Cisne negro)
Ator coadjuvante: Christian Bale (O vencedor)
Atriz coadjuvante: Melissa Leo (O vencedor)
Elenco: O vencedor
Fotografia: A origem
Montagem: A origem
Direção de arte: A origem
Efeitos especiais: A origem
Filme de ação: A origem
Comédia: A mentira
Efeitos especiais: A origem
Maquiagem: Alice no país das maravilhas
Figurino: Alice no país das maravilhas
Documentário: Waiting for superman
Animação: Toy story3
Som: A origem
Canção: If I rise (127 horas)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Qual é o cenário para o filme de Nolan?

Leo e Nolan confabulam: será que rola de um blockbuster levar o Oscar de melhor filme este ano? 



Não restam dúvidas de que A origem foi o filme que mais provocou paixões em 2010. Haverá sempre dissonâncias para apurar se foi o melhor, mas é estatístico que foi o mais comentado e pormenorizado. Recentemente o Twitter divulgou que o filme foi o mais comentado dentro da categoria cinema no site e o quarto assunto geral mais comentado do ano. É um termômetro confiável. A essa altura da temporada de premiações, o leitor bem sabe que A origem já ultrapassou a fronteira do mero blockbuster. Com indicações sólidas para o Critic´s choice awards (que será realizado na próxima sexta-feira), para o Globo de ouro e para os prêmios dos sindicatos dos diretores, roteiristas e produtores, o filme de Christopher Nolan já se inscreveu como um dos principais filmes dessa Oscar season. Tendo ganho alguns prêmios da crítica e as vésperas das indicações para o Oscar, qual é o cenário para o filme?
É preciso pontuar, logo de cara, que A origem não é o favorito ao Oscar. Embora deva receber múltiplas indicações. Alguns observadores da indústria argumentam que o filme de Nolan pode se beneficiar de uma certa estafa independente na Academia, que nos últimos três anos premiou filmes de baixo orçamento e, ainda mais importante, baixo público (Onde os fracos não têm vez, Quem quer ser um milionário? e Guerra ao terror). Para esses observadores, eleger o filme de Nolan como o melhor de 2010 seria a senha para readequar expectativas e, de quebra, aproximar enfaticamente o Oscar do americano médio (porque para esses estrategistas, ter aumentado a disputa na categoria principal - com vistas a incluir blockbusters - não bastaria).
É uma boa leitura. Mas há uma falha aí. Desconsidera-se que A rede social também tem um grande estúdio por trás (a Sony), também tem pegada comercial, um diretor cultuado e também desperta interesse da audiência. E A rede social, pelo menos em termos de premiações periféricas, já saltou na frente de A origem. Ou seja, por esse raciocínio, o filme de estúdio que após três anos levaria o Oscar seria o de Fincher e não o de Nolan.
Mas e o Globo de ouro? Se o Oscar cedeu a verve independente, a Hollywood Foreign Press Association (HFPA) mais do que nunca tem reafirmado sua opção pelo cinemão comercial. Além de sobejamente contemplar esse filão nas indicações deste ano, a HFPA elegeu o portentoso Avatar como o melhor filme ano passado. Se o retrospecto permite intuir que no Globo de ouro a sorte de A origem será melhor, a ressaca moral prevê prudência. As indicações de 2011 não caíram bem e a relevância da HFPA está sendo seriamente questionada. Justamente por isso, a associação pode preferir impulsionar de vez o bem cotado independente Cisne negro ou se alinhar a crítica americana (que a critica tão severamente) distinguindo A rede social como a melhor produção de 2010.
De qualquer jeito, o filme de Nolan deverá ter entre 7 e 10 indicações ao Oscar. Mesmo que não ganhe nada nos Globos e no Critic´s. Embora pareça até certo ponto conservador, as melhores chances de A origem residem mesmo nas categorias técnicas. O grande ganho do filme (e que deve ser bastante comemorado) será vencer a barreira que impediu a indicação do último trabalho de Nolan (superior a este) como melhor filme do ano. Batman – o cavaleiro das trevas ainda é o grande responsável, em todos os parâmetros, pela razão de ser de A origem.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Retrospectiva 2010 - O cinema de 2010 em dez cenas

Todo ano, cenas nos emocionam, nos assustam, nos contagiam, nos empolgam e marcam nossa memória. Em 2010 não foi diferente. Para esse TOP 10 das melhores cenas do ano foi considerado desde o filme mais comercial ao mais independente, passando pelo mais inventivo sem deixar de lado o mais emocionante. No último TOP 10 do ano, antes do mais aguardado de todos (a lista dos dez melhores filmes de 2010 será publicada na quarta-feira, 29 de dezembro), Claquete honra alguns dos momentos mais transcendentais do cinema nesse ano que se despede.  




10 – O retorno de Gordon Gekko
Esse era um dos eventos do ano no cinema. Um dos grandes personagens do século XX, que excedeu os limites da sétima arte e influenciou gerações de executivos e corretores de bolsa de valores, regressava ao cinema. A cena inicial de Wall street – o dinheiro nunca dorme escancara logo que os tempos são outros. Gekko saindo da prisão e recebendo um celular obsoleto e sem ninguém para recepcioná-lo, enquanto um membro de gangue é recebido por uma limusine, é emblemático.



9 - Perdedores a espera de perdão
A vida durante a guerra transcorre e durante todo o tempo seus personagens esperam uma redenção que parece teimar em não vir. Lá pelas tantas do filme, Ciarán Hands, que faz um pedófilo, conversa à mesa de um bar com Charlotte Hampleing (que tem essa como sua única cena no filme) acerca das ingênuas expectativas por perdão. Um diálogo forte, cru e intensamente verdadeiro. A cena vale o filme.



8 – It´s your call!
Viver a vida que se leva ou tentar levar a vida que se tem? Pode parecer simplista, mas Ben Kalmen chega ao fim do filme sem se decidir por uma ou outra condição. Mas como exemplifica a cena final de O solteirão, ninguém pode tomar essa decisão por ele e é ele quem tem que estar 100% comprometido com a decisão que tomar. E como a decisão é de Ben, não temos acesso a ela. Pelo menos não de imediato.



7 – Na igreja
Finalmente aconteceu. Bruce Willis, Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger dividiram uma mesma cena em um mesmo filme. A divertida e histórica cena ocorreu no antecipado e contestado Os mercenários. A auto referência bancada por Stallone teve seu ponto alto justamente nessa cena da igreja. Não poderia haver lugar melhor para reunir esses bispos do verdadeiro cinema de ação.



6 – O telefonema
Se uma cena pode fazer valer a um ator o Oscar, essa cena é a que o personagem vivido por Colin Firth recebe o telefonema que lhe mudará o trato com a rotina. A dor da morte do amante é processada com riqueza de detalhes pela face de Firth que emociona e desespera o espectador. E ainda estamos no começo do filme Direito de amar.



5 – Porrada no político
Pergunte a qualquer pessoa qual a melhor cena de Tropa de elite 2? Dificilmente alguém apontará outra que não a cena em que Nascimento desce a sova em um político corrupto em uma madrugada sangrenta no Rio de Janeiro. Não é por acaso, que Tropa de elite 2 sagrou-se campeão de público e essa cena provocou aplausos de Porto Alegre a Natal.



4 – I´m sorry Paul!
O peso da inevitabilidade não deve ser fácil no momento que sucumbe um ser humano. Daí o impacto do clímax de Enterrado vivo. Quando as palavras perdem o sentido perante a força da imagem e dos acontecimentos que se anunciam, a revolta já não faz mais sentido.



3 – A despedida
Essa talvez seja a cena mais emocionante do ano. Quando Andy se despede dos brinquedos que lhe ajudaram a passar por sua infância em Toy story 3, uma reação normal é encharca-se em lágrimas. A nostalgia nunca foi tão transbordante para uma mesma geração no cinema.



2 – Sem gravidade
Essa quase foi a cena de 2010. Em A origem Chris Nolan chegou a lua em termos cinematográficos. Se os efeitos especiais de A origem são de cair o queixo, na cena em que uma luta é encenada sem as leis da gravidade, o público se apega ao questionamento se aquilo é efeito especial ou sonho propriamente dito.



1 – Não sou o tipo remador
Deslumbrante do ponto de vista técnico, arrepiante em termos narrativos, sintomática da história que precede e sarcasticamente inteligente, a melhor cena do ano faz parte do filme mais inteligente do ano. A cena de abertura de A rede social é, em si, uma aula de cinema propriamente dita. O personagem central não poderia ter sido mais bem apresentado. Em um veloz, abrupto e atropelado diálogo com sua então namorada, nosso herói se define em metáfora pedestre: não sou o tipo remador.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

OSCAR WATCH 2011 - Os vencedores da associação de críticos de Washington

Christian Bale e Mark Wahlberg em cena de O vencedor: o elenco
está prestigiado e Bale dá um passo a frente na briga pelo
Oscar
 

A associação de críticos de Washington divulgou na noite de segunda-feira sua relação dos melhores de 2010. Uma lista que aponta consonância com a divulgada pelo National Board of Review (NBR) na semana passada. A rede social foi escolhido o melhor filme de 2010. A fita também recebeu os prêmios de melhor roteiro adaptado e direção. Nas categorias de atuação, Christian Bale recebeu mais um troféu de coadjuvante por seu papel em O vencedor. Também pelo filme de David O. Russel, Melisa Leo foi eleita a melhor atriz coadjuvante do ano. O prêmio de melhor elenco foi, a exemplo do concedido pelo NBR, para Atração perigosa, o filme de Ben Affleck que cresce em potencial a cada dia. O melhor ator foi Colin Firth por O discurso do rei e a melhor atriz foi Jennifer Lawrence por o Inverno da alma. Toy story 3 e Biutiful foram escolhidos as melhores animação e produção estrangeira respectivamente. A origem, de Christopher Nolan foi o grande vencedor com quatro prêmios: roteiro original, fotografia, direção de arte e trilha sonora.
De concreto pode-se delinear que Atração perigosa não está frequentando a lista de críticos por acidente e deve ter seu lugar na temporada de premiações. Que o novo filme de Alejandro Gonzáles Iñarritu (Biutiful), embora não esteja habilitado na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro, pode ser figura proeminente na temporada e que Christian Bale vem com força (talvez ele se revele a grande força do filme de David O. Russel na temporada). 

sábado, 4 de dezembro de 2010

Retrospectiva 2010 - Os dez posters mais cool do ano

10 – A rede social

A cara estampada de Jesse Eisenberg com o aviso em letras garrafais: “Você não consegue 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos”. Nascia um novo clássico contemporâneo e nós já estávamos curtindo.


9 – Uma noite fora de série


Dois dos atores mais descolados da atualidade chamuscados. Taí uma boa ideia de como vender um filme. Uma noite fora de série pode não ter honrado as expectativas lançadas pelo cartaz, mas nada de culpar o mensageiro né gente?!



8 – Você vai conhecer o homem dos seus sonhos


O filme de Woody Allen combina amargura e graciosidade e, de certa forma, este cartaz do filme captura essa dicotomia com preciosismo. Um cartaz que extrapola os limites da figura de linguagem, além de ser o fino.

7 – Bravura indômita

Não tem jeito. Entra ano, saí ano e os irmãos Coen arranjam um jeito de emplacar um cartaz nos dez mais cool do ano em Claquete. Repara nesse do remake de Bravura indômita (que deve estrear no inicio de 2011 no Brasil) e diz se os caras não tão jogando baixo para manter a vaga cativa?!




6 – Um homem misterioso


George Clooney assumindo seu lado Cary Grant no filme americano com pose de produção européia e cartaz vintage por essência. O pôster principal de Um homem misterioso entrega o espírito da produção: uma ode ao cinema de espionagem de um tempo em que Hitch reinava.



5- O garoto de Liverpool


Um garoto e seu violão. E a expectativa de fazer música de verdade. Ah que saudade! Esse pôster aí promete que, pelo menos um pouco, essa saudade vai ser estancada. Para depois, quem sabe, alargada.



4 – Kick ass – quebrando tudo


Olha o Aaron Johnson aí gente (que também estampa o cartaz da posição anterior)? Ele fechou como o cara mais cool do ano (pelo menos em matéria de cartaz). Em Kick ass- quebrando tudo, ele é o cara. Até que uma menina de 11 anos prove o contrário. Mas no cartaz ele reina.



3 – O assassino em mim


O filme tem sua estréia nacional constantemente adiada (no momento não há previsão de estréia). No entanto, depois de provocar calafrios no último festival de Sundance, o novo filme de Michael Winterbotton é ansiosamente aguardado por aqui. Todo mundo querendo ver o franzino Casey Affleck aí despertar o assassino dentro dele.



2- Em qualquer lugar

O estilo minimalista soft de Sofia Coppola reverbera nos cartazes de seus filmes. Com alto senso de estética, a herdeira do poderoso chefão se responsabiliza pela assinatura dos pôsters de seus filmes. Repare no flerte com o noir...



1 - A origem


O filme mais cool do ano tinha que ter um cartaz na lista certo? Mas qual? Como todos são sensacionais, optou-se pelo mais conceitual de todos. Afinal, a origem de A origem está aí, certo?!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Um outro olhar sobre A origem


O especial aqui no blog acabou, mas A origem continua provocando acaloradas discussões. É o filme do ano. No sentido de se colocar como debate central sobre o cinema e de conduzir o público a extremos do tipo: “amei”, “odiei”, “é um horror!”, “é espetacular!”. Enfim, A origem polariza e continua a reverberar na mídia com o mesmo ímpeto de quando estreou.
Um dos grandes críticos de cinema do país, e um dos que atuam há mais tempo também, Inácio Araújo, do jornal Folha de São Paulo, escreveu em seu blog uma opinião contrária ao filme. Diferentemente de muitos dos algozes do filme de Nolan, o articulista da Folha embasa muito bem sua opinião. Apesar de Claquete na crítica publicada no dia 9 de agosto (clique aqui para ler de novo) ter se pronunciado favoravelmente ao filme de Nolan, é benéfico para o cinema - e para o debate que A origem conclama cinéfilos e espectadores incautos a participarem - repercutir a crítica de Araújo.
O articulista classifica o filme como “uma versão pedante e intimidadora de Onze homens e um segredo”. Segundo o crítico, isso ocorre porque “ onde Onze Homens e um segredo se apresentava como uma saudável diversão, para nós, e alegre aventura, para os personagens, desta vez existem vários aspectos cuja intenção é colocar o espectador na defensiva e colocá-lo em posição de ou gostar do filme ou se sentir uma besta”.
O crítico encerra o seu raciocínio definindo A origem como um “falso brilhante”. Categoria de filme que, segundo ele, pode até impressionar o espectador em um primeiro momento, mas que no instante seguinte desaparece de suas preocupações, de suas lembranças, de seu mundo. Pode-se discordar de Inácio, mas suas palavras não são de todo vazias. Para ler todo o texto do crítico da folha, clique aqui.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ESPECIAL A ORIGEM - crítica

Para a posteridade!

É preciso dizer, logo de antemão, que é extremamente difícil sintetizar em algumas linhas a grandiloquência de A origem (Inception, EUA 2010). O novo filme de Christopher Nolan não é apenas uma elaborada ficção científica. Não é apenas uma deslumbrante fita de ação. Não se contenta em ser um drama existencial de composição moderna, tão pouco em pincelar uma trágica história de amor calcada em personagens fortes e bem delineados. A origem é um filme conceitual em toda a amplitude sugerida pelo termo. Nolan cria um universo que pode ser expandido e aproveitado tanto no cinema quanto em outras mídias. Mas não só. O diretor mantém-se fiel a dogmas de sua obra, tanto estruturais (como o uso da imagem como poderoso instrumento narrativo) quanto discursivas (estamos novamente diante de um personagem às voltas com uma obsessão – no caso, voltar para os filhos). Nolan se utiliza da rica atmosfera constituída em seu filme para submeter seu protagonista Don Cobb (Leonardo DiCaprio) a uma das mais românticas, improváveis e espetaculares jornadas de redenção.
A origem é, em uma primeira e superficial análise, um notável exercício de estilo que conjuga referências que vão desde Matrix a Brilho eterno de uma mente sem lembrança. É incorreto dizer que A origem se apropria de ideias destes dois filmes. Isso não ocorre, mas é possível notar a influência. Há, ainda, a meticulosidade de Nolan na concepção de sua obra. Desde o modus operandi do grupo de invasores de sonhos liderados por DiCaprio, até a forma como as revelações surgem naturalmente para a platéia. Embora Nolan não esconda seu cálculo.


Estilo, ou você tem...: Em A origem a simetria e elegância impressionam. Seja dos planos ou dos figurinos

Há quem enxergue em A origem um certo entretenimento asséptico. Até mesmo estéril. Em que o conteúdo se submete a forma. De fato, a engenhosidade da criação de Nolan, em um primeiro momento, se sobrepõe a qualquer outro aspecto de sua realização. O que pode ser tomado como um defeito à primazia, se revela uma metáfora do próprio filme. A origem, tal qual os personagens vão adentrando níveis dentro dos sonhos - em que o tempo passa de maneira diferenciada-, alcança seu público de maneira mimética e gradativa. Um cálculo tão hábil de Nolan quanto o desenvolvido pela trupe capitaneada por DiCaprio, para plantar uma ideia na mente de seu objeto, no caso o personagem de Cillian Murphy.
É preciso reconhecer o esmero do elenco na defesa de seus personagens. Leonardo DiCaprio entrega outra performance memorável. Seu Cobb é soturno e dócil em uma ambiguidade que interfere tanto nos sonhos, com projeções, quanto na percepção que a platéia tem do filme. É em Cobb que a audiência encarna para adentrar o mundo dos sonhos apresentado por Nolan. O restante do elenco também está fantástico, com destaque para as presenças efusivas de Marion Cottilard e Ken Watanabe.
Nolan respeita também outra de suas diligências. A de referendar a inteligência de seu espectador ao compasso de desafiá-la constantemente. Com um final sutil, que só reforça o poder da imagem (e da capacidade de construir sentido que ele pressente do espectador), Nolan entrega um dos grandes filmes do ano. Destinado a tornar-se maior ainda com o tempo. Que venham continuações. Elas podem até apequenar este filme (como aconteceu com Matrix) ou podem engrandecê-lo ainda mais. De qualquer maneira, a ideia (o conceito) está plantada.

ESPECIAL A ORIGEM - *Repercutindo o filme!


Parábola pós-moderna, revisão de conceitos freudianos, metáforas religiosas de cunho cristão e espírita, entretenimento pensante e alegoria publicitária do soft power hollywoodiano. Há muitas camadas em A origem e são muitas as formas de sorver o filme e sua essência. Ajudar nesta tarefa é o intuito deste artigo. Não se objetiva explicar o filme ou pormenorizar suas cenas e circunstâncias. Isso seria desvirtuar a obra de Nolan e reduzir seu potencial filosófico, além de, talvez, proporcionar enfado ao leitor.
O gol aqui é iluminar algumas das maquinações que se não estão presentes em A origem, servem a sua intelectualização. A primeira delas é a óbvia relação do filme para com a maior arte do século XX; a publicidade. Se a publicidade move o negócio chamado Hollywood e a espionagem industrial é algo que resplandece tanto na fórmula 1 quanto nos gabinetes de governo, Nolan eleva a questão: até onde estamos dispostos a ir? A equipe liderada por Don Cobb (Leonardo DiCaprio) invade os sonhos das pessoas para furtar-lhes os segredos. Uma analogia vigorosa da obstinação humana, ainda que de forma pouco lisonjeira no esquadro aventado por Nolan. Por outro lado, implantar uma ideia é algo complicado. Como bem sabem os publicitários. A fala do personagem Arthur em dado momento do filme ao explicar a Saito (Ken Watanabe) o por que dessa tarefa ser impossível:

Arthur: E seu disser: não pense em elefantes. O que você está pensando agora?
Saito: Em elefantes.
Arthur: Exatamente. Mas sua mente decodificou a origem desse pensamento. É impossível implantar uma ideia em uma mente sem que ela identifique a procedência.


De volta a realidade: quando se vive de sonhar, o que é real?

Esse é o desafio que publicitários enfrentam diariamente. Criar, mais do que a ideia, a necessidade do objeto (o público) por aquela ideia.
Logo, A origem pode ser detectado como um filme que desnuda as engrenagens, ainda que por um viés fantasioso, da máquina publicitária.
Por outro lado, a questão de “um sonho dentro de um sonho”, a relação “morrer/acordar”, a diferença de tempo nos diferentes níveis de sonhos e como o estado das coisas em determinado sonho afeta o estado das coisas em outro sonho permitem um paralelo religioso cristalino. É difícil crer que esse tenha sido um subtexto pretendido por Nolan, mas há um sem número de teorias filosóficas que apontem para esse paralelo.
Poucos críticos brasileiros, ainda estupefatos ou insolúveis, se dedicaram a percorrer esse labirinto de referências pscissomáticas da obra de Nolan. Há, ainda, uma apropriação de conceitos freudianos que conferem ao filme um certo rigor erudito.
É justamente em Freud que reside a grande diferença deste filme para Matrix, ao qual é muito comparado. Ao invés da figura do messias, entram projeções e subconsciente. Nolan não acrescenta nada novo, nem teria autoridade cientifica para fazê-lo, mas embala conhecimento em um produto pop. De quebra, oferece um conjunto de leituras e reflexões que escapam a muitas produções contemporâneas.

Ação e reação:a queda de um automóvel em um sonho, tira a gravidade do outro...

* contém spoilers! É recomendável a leitura apenas depois de ter visto o filme

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

ESPECIAL A ORIGEM - O Midas moderno

Chris Nolan posa ao lado de seu coringa: Ninguém o levou a sério quando ele anunciou que Ledger era sua única escolha para viver o palhaço psicótico


Toda geração tem seus cavalos puro sangue. Explica-se a analogia. De tempos em tempos, surge um conjunto de cineastas que inspiram as melhores das esperanças na crítica e na horda cinéfila. O tempo passa e esses cineastas vão caindo no lugar comum. Ficam restritos a um cinema independente inexpressivo ou se “vendem” ao cinemão. É justamente a partir dessa dicotomia tão vulgar que é possível medir o significado de Christopher Nolan para a atual geração de cineastas e para as vindouras também. É bem verdade que tem muita gente talentosa em seu entorno. David Fincher, M. Night Shymalan, Jason Reitman, Mark Romanek e Sofia Coppola para citar alguns. Contudo, é inegável que Nolan por uma série de fatores que serão explicitados mais adiante se situa a frente de todos eles.
O londrino surgiu junto com os anos 2000, seu primeiro sucesso, um filme independente com algumas caras conhecidas e uma história linearmente invertida, Amnésia (2000), foi dos melhores cartões de visita dos últimos tempos. Afinal, Nolan veio do nada. David Fincher já havia constituído uma respeitada carreira como diretor de viodeoclipes, Jason Reitman e Sofia Coppola são filhos de cineastas, mas o diretor de A origem viabilizou com consideráveis doses de inventividade seu próprio portfólio. Amnésia foi indicado a 4 Oscars e considerado por muitas associações de críticos como o melhor filme do ano. A expectativa pelo novo trabalho de Nolan se instalou em Hollywood. Seu próximo projeto, Insônia (2002) era uma produção da independente Alcon, que foi distribuída pela Warner. O estúdio que se encantou com Nolan e hoje produz todos os seus filmes. Embora não haja um contrato formal, Nolan, assim como Clint Eastwood, tem um escritório na Warner e não se sente estimulado a trabalhar com outro estúdio, já que a Warner exibe total confiança no homem que fez de um filme do Batman, um clássico moderno.

O diretor ao lado do astro de seu mais recente filme: prestígio com o estúdio, com a crítica e com a classe artística

O faro da Warner para os negócios tem de ser louvado. Nolan obteve ótimo público e reconhecimento crítico com Insônia e a Warner viu nele o homem certo para revitalizar sua franquia do homem morcego, desgastada depois da passagem de Joel Schumacher. Batman begins (2005), como todos sabem, foi um sucesso de público e crítica e Nolan se fortaleceu como um diretor mainstream imbuído de um espírito independente.
Com o sucesso de Batman, Nolan pôde barganhar com a Warner para rodar um filme mais autoral. O grande truque (2006) é o filme em que as angústias e anseios de Nolan estão mais evidentes (isso será debatido com maior propriedade em Panorama). O filme que antagoniza dois amigos separados por uma obsessão em comum recebeu, novamente, grande atenção da crítica e fez considerável sucesso de público.

Amigos e rivais: Christian Bale e Hugh Jackman estrelam O grande truque, filme mais pessoal do cineasta

Mas Nolan entraria no seletíssimo clube do bilhão de dólares com seu filme seguinte. Em Batman o cavaleiro das trevas (2008), o diretor bancou a escalação de Heath Ledger para viver o coringa. A escolha, contestada em fóruns na internet e por fãs no mundo todo, valeu a Nolan a alcunha de cineasta visionário em um exagero tão desmedido quanto os protestos anteriores. Mas o diretor gostou da pecha de visionário e bolou um filme para justificá-la. A origem, desde o anúncio de sua concepção, foi aguardado com alvoroço. O filme que amealha críticas positivas com a mesma velocidade que registra os dólares do Box Office, é a grande sensação da temporada.
Christopher Nolan é o puro sangue de sua geração porque como denota sua curta filmografia ele realiza filmes pessoais e repletos de questões de profundo interesse humano, mas consegue adequá-las a uma lógica comercial. Nolan ainda não conheceu o gosto do fracasso, diferentemente da maioria de seus pares. Fincher e Shymalan, que buscam se lapidar dentro desta mesma seara que Nolan reina, só ratificam a força do último Midas que Hollywood conheceu. Perto dele, James Cameron é apenas um entusiasta da tecnologia

terça-feira, 3 de agosto de 2010

ESPECIAL A ORIGEM - Mundo dos sonhos

James Franco tinha um sonho. Esse sonho era o de trabalhar com o diretor de Batman, Christopher Nolan. Estrela de uma das maiores séries do cinema atualmente (Franco interpretou Harry Osborn nos três filmes Homem-aranha), ele foi o primeiro ator a entrar no novo projeto de Christopher Nolan depois de Michael Caine e Leonardo DiCaprio. Para se ter uma ideia das pretensões de parte à parte, o filme ainda não tinha nome oficial (embora já estivesse batizado como Inception). Franco, porém, teve de se retirar do projeto devido a conflitos de agenda. Estava envolvido em duas produções independentes; Howl (que estreou no festival de Sundance deste ano) e 127 hours, primeira fita de Danny Boyle após o Oscar por Quem quer ser um milionário?. Da falência do sonho de Franco, se realizou um dos sonhos de outro ator emergente em Hollywood. Joseph Gordon Levitt assumiu o papel que seria de Franco e pôde contracenar com DiCaprio, a quem considera “o grande ator de nossa geração”, segundo contou à Entertainment weekly.

Por trás de todo grande homem, há uma grande mulher: Marion Cottilard faz Leonardo DiCaprio repensar suas prioridades


Entre sonhos desfeitos e realizados, nada mais justo do que adentrar a matéria prima de A origem, o filme mais comentado de 2010 até aqui. E a matéria prima de A origem é justamente o sonho. É nos sonhos e na infinidade de possibilidades deflagradas por eles que A origem se desdobra. Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é um extrator. Figura valorizada em um mundo que a espionagem industrial evoluiu em termos conceituais. Cobb rouba segredos da mente das pessoas enquanto elas dormem. Testemunhar Cobb em seu ofício é um dos muitos vislumbres visuais propostos pela fita de Nolan. Levitt faz Arthur, parceiro de Cobb em suas atividades, embora não seja equiparável em talento.

Levitt contracena com "o maior ator de sua geração": ação que faz pensar


O poder da mente: Prédios retorcidos e efeitos especiais impressionantes marcam as pouco mais de duas horas de filme



A origem admoesta uma platéia iniciada na ficção científica pós-matrix. “Me preocupei em fazer um filme que conte com a cumplicidade do público”, disse o diretor em entrevista ao blog de cinema do Los Angeles Times sobre a possibilidade de A origem ser recebido como “rebuscado” e “difícil”. Dois adjetivos que, para Nolan, não impedem que o filme seja um blockbuster de verão altamente rentável. “Acho que a platéia aprecia se sentir desafiada e é isso que este filme faz. Não entrega tudo picadinho”, resume o diretor que redimensionou o universo do homem morcego.
Ele está certo. Quem imaginava que o público que teve como referencial o coringa histriônico de Jack Nicholson no Batman de Tim Burton em 1989 abraçaria com tamanha efusividade a caótica versão de Heath Ledger em O cavaleiro das trevas? Nolan não teme alienar uma parcela do público. A mesma que relegou Matrix ao rótulo de ficção high tech.
“Existem filmes que só recebem o devido valor com o tempo”, lembrou o cineasta Ridley Scott que até hoje não cansou de lançar as populares, entre os cinéfilos, director´s cut de seu clássico maldito, Blade Runner – o caçador de andróides.


Preparados para o culto: o elenco de A origem posa para a posteridade



Sem medo do novo
Contudo, A origem já deixou Blade Runner e, até mesmo, Matrix para trás. Com um faturamento absurdo, uma recepção para lá de positiva na mídia e um precoce buzz acerca de uma indicação ao Oscar de melhor filme, o novo filme de Christopher Nolan realmente parece ser feito de sonhos.
“O melhor do sucesso de A origem é que mostra que o público está aberto a idéias originais”, disse Jeff Robinov, presidente da Warner Brothers ao jornal Los Angeles Times. Há três semanas no topo das bilheterias americanas e prestes a estrear em outros mercados como o brasileiro, A origem é a prova de que uma boa (e original) ideia ainda dá dinheiro em Hollywood. Chris Nolan parece nos dizer com seu elaborado filme que não custa sonhar.

O presidente da Warner, Jeff Robinov, Leonardo DiCaprio, Chris Nolan e Alan Harn, outro executivo de ponta do estúdio Warner na premiere do filme em Los Angeles

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ESPECIAL A ORIGEM - O homem do ano

Leo em foto promocional de um documentário produzido por ele: na dianteira da "corrida" pelo título de homem do ano em Hollywood


Talvez ainda seja cedo para dizer, mas é possível prever que, pelos menos em Hollywood, Leonardo DiCaprio é seríssimo candidato ao título de homem do ano. Estrela de dois dos filmes mais festejados pelo público e pela crítica, em uma cada vez mais rara combinação, o ator esteve no centro dos holofotes em filmes que cada qual a sua maneira regeneram a paixão cinéfila nos quatro cantos do mundo. Em março, Ilha do medo, nova colaboração com o cineasta Martin Scorsese, arrebatou grande parte da crítica internacional e a atuação de DiCaprio também impressionou. Na fita com toques de filme B de Scorsese, o ator vive um agente do FBI destacado para investigar o desaparecimento de uma paciente de alta periculosidade na ilha Shutter. As aparências se revelam mais perigosas do que um primeiro olhar faz crer e Scorsese e DiCaprio brindam o espectador com um cinema de alto nível.
Em junho foi a vez de A origem, nova produção do elogiado Christopher Nolan. No filme que se apresenta como revolucionário, DiCaprio vive o típico personagem que está a um último trabalho da aposentadoria. Acontece que esse trabalho é extrair segredos industriais da mente de pessoas enquanto elas sonham. O último trabalho em questão é na verdade um primeiro; implantar uma memória. Algo sem precedentes dentro do universo proposto por Nolan em A origem. “Estou muito orgulhoso deste filme”, disse DiCaprio em recente entrevista coletiva no Japão. A origem, de fato, é para encher seus envolvidos de orgulho. A fita, baseada em uma idéia 100% original, registrou ótima bilheteria de estréia nos EUA, U$ 60 milhões, e continua a fazer bonito por lá. A crítica se mostra entusiasmada tanto com o resultado do filme, quanto com o vigor de seu protagonista. À frente das câmeras e por trás delas. DiCaprio tem se mostrado seletivo e criterioso na hora de escolher seus projetos. Na semana passada anunciou que estava se desligando do épico viking que iria rodar sob as ordens de Mel Gibson. Como todos sabem, Gibson anda enrolado com sua vida doméstica e não é exatamente a companhia que DiCaprio quer usufruir neste momento. A candidatura de DiCaprio ao posto de homem do ano parece estar voando baixo. Ou alto, se quem estiver olhando for Mel Gibson.

domingo, 1 de agosto de 2010

ESPECIAL A ORIGEM - Insight

Por que todo mundo para quando surge um filme conceito?



É inevitável. Há filmes que são verdadeiros eventos midiáticos. Arrastam multidões aos cinemas e invadem variadas plataformas, de vídeo games a HQs, e mídias, de revistas a redes sociais. O fenômeno pode até mesmo parecer recente, devido ao imediatismo proporcionado por Facebook, Twitter e afins, mas na verdade não é. O que acontece é que o desenrolar de um hype se dá de forma muito mais ágil e veloz na era da internet.
É preciso separar os filmes hypados dos filmes conceito. Filmes hypados são aqueles muito antecipados que geram um grande buzz e são, eminentemente, adaptações de outras mídias, sequências ou remakes. Já os filmes conceitos não deixam de ser necessariamente hypados, mas apresentam uma ideia original, geralmente ligada a ficção cientifica e tecnologia. Não obstante são filmes que pegam meio mundo de surpresa e só são descobertos em sua segunda encarnação, como ocorreu com Blade Runner – o caçador de andróides (1982). Foi justamente Blade runner que reformulou o paradigma da recepção de um filme conceito nos cinemas. Hoje eles são hypados e aguardadíssimos como A origem, ou surpresas tão arrebatadoras quanto dotadas de poder de influência como Matrix. O filme dos irmãos Watchoski ao derrubar outra produção conceitual e para lá de hypada em 1999, o Star wars de George Lucas, deflagrou um novo status quo para as produções do gênero. A origem, por exemplo, é frequentemente comparado a Matrix, já que conta com um visual arrebatador, um roteiro um tanto hermético e aparatos tecnológicos capazes de dar vida aos sonhos ou ao menos de caprichar na projeção deles.

Em Blade Runner, a inteligência artificial é a metáfora suprema para a humanidade ...



... já em O exterminador do futuro 2, há avanços notáveis na forma de dar vida a essa metáfora.


A concepção de filme conceito também foi incrementada com a chegada de O senhor dos anéis. A produção, hypada por excelência, estabeleceu novos parâmetros para a produção de trilogias e o desenvolvimento de seus argumentos em Hollywood. A própria trilogia Matrix se mostrou um reflexo de Senhor dos anéis. Mirando-se no exemplo do modelo de produção de Peter Jackson, os dois últimos filmes da saga de Neo foram gravados de uma só vez. Em um arroubo narrativo que não colou tão bem, a própria história foi contada de forma itinerante. O que de certa forma se ajustava a trilogia de Tolkien, não caiu bem na saga cibernética dos Watchoski. Bruckheimer tentou aproveitar a ideia, embora o tenha feito por razões financeiras, nos dois últimos filmes Piratas do caribe e Johnny Depp só teve que se vestir como Jack Sparrow por uma vez para rodar O baú da morte e No fim do mundo.

A dança das balas: em Matrix surgia um novo conceito de cinema de ação pós moderno



Não, não é Matrix: no mundo dos sonhos de A origem a arquitetura da mente é o eixo central


Filmes conceito são isso mesmo que você está imaginando. Eles lançam conceitos. Ditam tendências. Seja o bullet time de Matrix, a imersão na inteligência artificial propagada a partir de Blade runner, a revolução nos efeitos especiais atingidos por Exterminador do futuro 2, o upgrade da animação em Toy story ou a um modelo de produção mais econômico e organizado, como o de O senhor dos anéis. Filmes hypados vem e vão, como Salt estrelado por Angelina Jolie, mas os filmes conceituais marcam época. São eles os divisores de água nos cinemas. Existe o cinema de antes e o posterior a determinado filme conceito. Resta saber como ficará a sétima arte depois de A origem.