Tinha tudo para dar certo...
Um diretor alemão de prestígio, a maior estrela de cinema da atualidade, clima europeu, um astro instigante e que é - por si só - chamariz de bilheterias, trama inspirada em Hitchcock e uma indústria ávida por explorar essa combinação. O turista tinha tudo para ser um grande evento cinematográfico, mas a produção da Sony Pictures (que estréia nesta sexta-feira, 21 de janeiro no país) se revelou um fracasso retumbante. E um fracasso de muitos pais. Após uma mega estratégia de lançamento e pífios U$ 60 milhões nas bilheterias americanas (o orçamento do filme é estimado em cerca de U$ 110 milhões), produtores e analistas ponderam sobre o que pode ter dado errado.
Para responder essa pergunta é necessário voltar no tempo e escrutinar a problemática pré-produção do filme. O sueco Lasse Hallströn foi a primeira opção do estúdio para rodar o filme, uma adaptação de um filme francês de 2005 chamado Anthony Zimmer. Na concepção do diretor de filmes como Um lugar para recomeçar e Regras da vida, O turista seria um drama com aprofundado estudo de personagens. A Sony não aprovou as primeiras versões do roteiro e Hallströn saiu para rodar o filme Sempre ao seu lado (2009), outro remake – dessa vez de um filme japonês. Foi então quando a chairman da Sony Pictures, Amy Pascal, que produzia o filme de ação Salt do ínterim, apresentou o roteiro à atriz Angelina Jolie. A atriz sugeriu o nome do alemão Florian Henckel Von Donnersmarck, de quem tinha visto o vencedor do Oscar A vida dos outros (2006) e desejava trabalhar em conjunto. A Sony então convidou Donnersmarck que prontamente aceitou. Junto com Donnersmarck foi contratado o ator Sam Worthington, que havia causado excelente impressão junto ao público em Exterminador do futuro 4: a salvação (2009) e tinha tudo para detonar no grande lançamento do fim de 2009, Avatar.

Angelina Jolie, soberana, em cena de O turista: em meio a muitas indecisões do estúdio ela era a única certeza...
Worthington não detonou e, para piorar, entrou em atrito com a atriz Angelina Jolie e com o diretor Donnersmarck acerca dos rumos de seu personagem. Donnersmarck chegou a colocar o cargo a disposição e nomes como os dos cineastas Alfonso Cuáron e Mike Newell chegaram a ser ventilados. Contudo, só quem saiu mesmo da produção foi o ator australiano. O roteiro foi, outra vez, reescrito. Dessa vez o roteirista Julian Fellowes dividiu os créditos com o próprio diretor e com supervisão de Christopher McQuarrie (vencedor do Oscar por Os suspeitos). Paralelamente a isso, a produção ganhava um reforço midiático; Johnny Depp acabava de ser confirmado no papel de Frank Tupelo (que seria originalmente de Worthington). Donnersmarck, que já era um defensor de que o filme deveria ser menos sério, ganhou na figura de Depp um poderoso argumento.
O efeito Vanessa Paradis
A produção do filme seguia seu curso previsto quando foi abruptamente interrompida por crises de ciúmes da mulher de Johnny Depp, a cantora e atriz Vanessa Paradis. O problema era que a versão do roteiro que estava sendo gravada trazia muitas cenas que abusavam de sexualidade (e de sexo entre os protagonistas). Paradis exigiu (embora hoje todos os envolvidos neguem esse detalhe) que as cenas fossem reescritas.
Depois de uma paralisação de aproximadamente um mês (sem motivo oficial registrado, o que fomentou toda a sorte de boatos), as filmagens foram reiniciadas. Com Brad Pitt e prole em Veneza, assim como Vanessa Paradis. O clima entre as famílias era ameno e amistoso, mas a química entre os protagonistas no filme foi essencialmente prejudicada. A especulação se dá em virtude da forte rejeição da crítica (e do público) ao par nas telas. Algo matematicamente improvável, mas tangenciado pelo mal estar desencadeado pela posição de Vanessa.
Donnersmarck, entre Depp e Angelina na premiere do filme: uma comédia disfarçada de thriller...
As indicações ao globo de ouro de melhor comédia que o filme recebeu (para a fita e para os dois atores) coroaram um mal estar generalizado. A Sony vendeu o filme como um thriller romântico. A comédia, na fita, é um elemento desafogador. Como, por exemplo, em um filme como A rede social - que vez ou outra provoca risos do espectador. Nunca sua matéria prima. O diretor alemão se viu na contingência (que não exclui uma diligência do estúdio) de defender seu filme. Donnersmarck afirmou ao Hollywood Reporter que O turista, em sua concepção, é mesmo uma comédia. Ainda que disfarçada de filme de espionagem. A crítica americana, de fato, riu com O turista. Mas não com o filme propriamente dito.