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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Filmografia comentada - Clint Eastwood


Apresentação


Clint Eastwood dispensa introduções. É em seus adornos de homem feito e evoluído a tradução mais fiel de lenda viva. Homem de muitas mulheres e de uma mulher só, amante da boa música (queria ser pianista), toca vários instrumentos e compõe maravilhosamente bem. Esteve na guerra da Coréia e teve a coragem de mudar conceitos, rodou um filme para tornar isso público (Gran Torino). É republicano (já não tão) fervoroso e símbolo de uma América alfa que se enamora das armas, mas rodou filmes liberais como Menina de ouro.
Ator que não teve medo de aprender. Começou na profissão por ser bonito, mas teve que ir para fora do país, pois na América não encontrou espaço. De muso dos spaghetti italianos virou o maior autor do cinema americano. Seus filmes mobilizam críticos. A imprensa se surpreende com sua vitalidade. Em 2006 e 2008 lançou dois filmes de maneira simultânea. Clint mantém um escritório na sede da Warner, estúdio com quem mantém contrato, em Los Angeles. É admirado como homem, artista, intelectual e profissional. É um entusiasta da vida e de suas experiências. Figura apropriada para a inauguração deste novo espaço em Claquete.






Primeiro filme
Perversa paixão (Play misty for me, EUA 1971)

Clint Eastwood realiza, com invejável propriedade, esse drama em que um locutor de rádio mulherengo (o próprio Eastwood) engata um romance com uma fã no mesmo momento que a ex-namorada retorna a cidade decidida a reconquistá-lo. Um romance que vai ganhando corpo como thriller e que revela um diretor ágil, dinâmico e econômico.


Repisando as tradições
O estranho sem nome (high plans drifter, EUA 1973)

Após uma elogiada estréia como diretor, Eastwood se sentiu a vontade para conceber o próprio western emulando Leone nesse filme em que um forasteiro se incumbe da paz em um vilarejo. Um filme que honra as tradições do gênero e não denuncia um diretor iniciante.



A glória repentina
Os imperdoáveis (The unforgiven, EUA 1992)

Vinte anos separaram Eastwood do retorno ao western como diretor. Aqui ele revê o mito que ajudou a construir e demole alguns paradigmas do gênero com simplicidade narrativa, propriedade visual e uma história crepuscular que se agiganta a cada revisão.
Não à toa, o filme conquistou quatro Oscars e saudou o até então questionado Eastwood como um diretor reconhecido.



O próprio chefe
Um mundo perfeito (A perfect world, EUA 1993)

No mesmo ano, Eastwood estrelou Na linha de fogo, o último filme em que trabalhou para outro diretor. Um mundo perfeito marca uma nova fase em sua carreira em que só atuaria sob as próprias ordens. No filme, ele desvela uma trama de angústias e frustrações escondida em um filme de sequestro. Kevin Costner protagoniza, mas Clint surge como um homem da lei com alguma bagagem. Pensativo, Um mundo perfeito é dos primeiros Clints pessimistas a surgir no cinema.



Os brutos também amam
As pontes de Madison (The bridges of Madison county, EUA 1995)

Muitos até hoje se surpreendem ao constatar que Clint Eastwood é o diretor deste melodrama romântico e profundamente sereno sobre o amor. Hoje a surpresa incide menos, mas à época de seu lançamento, As pontes de Madison causou espantos na crítica e desorientação nos fãs mais conservadores de Eastwood. Ele contracena com Meryl Streep e dirige um doloroso epílogo amoroso com sensibilidade e coração. Um filme doído, verdadeiro e que figura como um dos pontos altos do cineasta.



Fase policial
Poder abolsuto (Absolute power, EUA 1997)

Com a segurança como diretor mais do que estabelecida e o trânsito pelos gêneros consolidado, Eastwood deu início a uma bem humorada fase policial. Esse filme em que Gene Hackman faz um presidente americano envolvido em uma trama de assassinato, Clint faz um ladrão de obras de arte que se transforma em peça chave do caso. Aqui Clint enseja um dos temas mais caros a sua filmografia, a orfandade e a questão da paternidade. Seu ladrão tem sérios problemas de relacionamento com a filha, vivida por Laura Linney.
A fase policial continuaria com Meia noite no jardim do bem e do mal (1997), Crime verdadeiro (1999), Dívida de sangue (2002) e culminaria no neo-clássico Sobre meninos e lobos (2003).


Clint com os dois oscars conquistados em 2005 por Menina de ouro: prestígio crescente em Hollywood



Canto do cisne
Cowboys do espaço (Space cowboys, EUA 2000)


Esse é o filme que mais se aproxima de uma comédia dentro da filmografia de Clint. Ele reuniu uma turma de veteranos (Tommy Lee Jones, James Garner e Donald Sutherland) para estrelar essa fita de ação sobre um time de veteranos astronautas que precisa resgatar um satélite no espaço. Era como se Clint antecipasse a fase áurea de sua carreira como diretor e se despedisse de sua encarnação anterior como artista.



A nova vida
Sobre meninos e lobos (Mistic River, EUA 2003)

A tragédia como elemento desagregador é a ideia que move esta crônica policial de tintas escuras narrada com maestria por Eastwood. O filme que rendeu críticas elogiosas levou Clint a Cannes e ao Oscar – de onde estava afastado desde Os imperdoáveis – e revelava um diretor sem medo de assumir sua veia autoral.

 Sean Penn e Kevin Bacon em uma das últimas cenas de um dos filmes mais dolorosos do cinema recente



Consagração suprema
Menina de ouro (Million Dollar babay, EUA 2004)

Um ano após a erupção provocada pelo sublime Sobre meninos e lobos, Eastwood volta a causar impacto com outra história dolorosa sobre perdas. Triste, Menina de ouro, no entanto, acena com a redenção que faltara ao Eastwood anterior. De underdog, virou o grande filme de 2004 e faturou os Oscars de filme e direção. Clint entrava para o seleto grupo de diretores a ostentar mais de um prêmio da academia.
A história da boxeadora e seu treinador que desenvolvem uma relação de afeto e carinho desemboca em uma dolorosa história sobre recomeço, perdão e eutanásia. Mas o filme é tão magnânimo e humano que escapou à polêmica.



A outra face da guerra
A conquista da honra/Cartas de Iwo Jima (EUA/Japão 2006)

 Cada vez mais confortável na posição de autor, Eastwood realiza esse projeto audacioso sobre uma das batalhas mais icônicas da segunda guerra mundial. Com produção de Steven Spielberg, Eastwood rodou um filme sobre a indústria da guerra e como a propaganda é vital para sua sustentação. Foi durante a produção de A conquista da honra que Eastwood teve a ideia de rodar um filme a partir da perspectiva japonesa do conflito. O incomum ponto de vista do lado perdedor da guerra rendeu nova indicação ao Oscar ao cineasta. Cartas de Iwo Jima sacramenta a visão autoral de Eastwood ao privilegiar um diálogo com os sentimentos e buscar um olhar inédito sobre o conflito.



A despedida do ator
Gran Torino (EUA 2008)

O gosto pela direção já estava mais do que provado e Eastwood jamais colhera tantos louros no ofício quanto na década de 00. A decisão de assumir inteiramente a direção, abandonando o ofício como ator, deu mais importância a esse drama revisionista e profundamente humano que lançou em 2008. Gran Torino é um testamento do ator Eastwood e mais uma prova do cineasta articulado, democrático e robusto que é Eastwood. O filme sobre o veterano da guerra da Coréia que vai sobrepujando seus inúmeros preconceitos a medida que o filme avança é uma lição de vida sem ser moralista. É dos grandes filmes, ainda que rigorosamente simples, da história do cinema.

Clint Eastwood com uma grávida Angelina Jolie no festival de Cannes de 2008, onde exibiram em competição A troca


Inquietação temática
Além da vida (Hereafter, EUA 2010)

Da altivez de seus 80 anos, Clint Eastwood tem se permitido experimentar. Realizou outro filme sobre o perdão disfarçado de biografia (Invictus) e enveredou por um drama de conotação espírita que celebra a vida (Além da vida). O filme protagonizado por Matt Damon é dos mais estilizados de Clint, mas mantém a propriedade narrativa, o esmero acadêmico e o classicismo que caracterizam seu cinema.
O diretor manipula efeitos especiais com destreza e investe na sutileza para amparar uma história de comunhão muito maior do que a restrita sinopse da fita sugere.


Cenas dos próximos capítulos: Clint Eastwood e Leonardo DiCaprio no set de J.Edgar. Ninguém ainda viu o filme, mas ele encabeça a lista de favoritos ao Oscar 2012 de quase todo mundo. Para o ano que vem, Clint irá dirigir o remake de Nasce uma estrela que será protagonizado pela cantora e atriz Beyonce

sexta-feira, 11 de junho de 2010

TOP 10 Especial - dia dos namorados

É dia dos namorados e em homenagem a essa data tão comemorada por uns e ignorada por outros, Claquete lista 10 casais tragicamente românticos do cinema. A lista, embora numerada, não objetiva listar os melhores (até porque chega a ser algo imponderável tratando-se de romance), mas traz os 10 mais expressivos e que reúnem um componente de tragédia. A morte, obviamente, é um elemento constante na vida desses casais e que ajudou a perpetuá-los, mas a tragédia de seus amores não se resume apenas a única certeza que temos na vida. Sem mais delongas, vamos a lista!




10 – Sam Wheat e Molly Jensen (Patrick Swayze e Demi Moore) em Ghost – do outro lado da vida, 1990

Quem não se emocionou com a cena de intimidade enquanto se modela um vaso de argila? Ou então com a peculiar forma de Sam de demonstrar a reciprocidade de seu amor por Molly com o insuficiente e logo valorizado “idem”? A estória de amor que superou a morte comoveu platéias do mundo inteiro que torceu para que Sam conseguisse proteger Molly das investidas de um mal intencionado colega. A fantasia do amor maior que a vida ganhava seu melhor escaldo no cinema.

9 – Justin Quayle e Tess Quayle (Ralph Fiennes e Rachel Weiz) em O jardineiro fiel, 2005
Esse talvez seja o casal mais inusitado da lista, mas Justin Quayle e Tess ostentam uma linda e trágica história de amor. A ativista política Tess casou-se com o diplomata Justin apenas por conveniência. A união atendia interesses de ambos e nunca ultrapassou as fronteiras da figuração. Contudo, após o assassinato de Tess, Justin se coloca a frente das investigações e a medida que vai descobrindo novos fatos sobre sua mulher, vai se apaixonando por ela. Uma estória tocante e envolvente que não é o eixo central do filme, mas certamente agrega valor à fita de Fernando Meirelles.


8 – Tristan Ludlow e Susanah Fincannon (Brad Pitt e Julie Ormond) em Lendas da paixão, 1994
A pior coisa que pode acontecer a uma família já não muito estável é que dois irmãos se apaixonem pela mesma mulher. É justamente isso que ocorre na família Ludlow que ainda se vê as voltas com a guerra. Tristan se apaixona pela namorada do irmão que também se apaixona por ele. Rivalidade, traições, punição, dor, perda e tristeza dão o tom de uma linda e trágica estória de amor.

7 – Jack Dawson e Rose De Witt (Leonardo DiCaprio e Kate Winslet) em Titanic,1997
A história de amor de uma geração. Essa foi a frase mais ouvida no final da década de 90 quando em pauta estava o filme Titanic. A história real do naufrágio do transatlântico foi eclipsada pela ficcional estória de amor entre o pobretão Jack e abastada Rose. O amor idílico só poderia ser vivido ali, distante da realidade, e o trágico destino de Jack fez dessa verdade algo inescapável.

6- Christian e Satine (Ewan McGregor e Nicole Kidman) em Moulin rouge – amor em vermelho, 2001
O amor pode ser intuitivo e persuasivo. A cortesã Satine e o escritor falido Christian protagonizam um amor que emperra as ambições de ambos e de todos ao redor. No entanto, a vontade de viver essa paixão (nem que por um breve período de tempo) move –os ao encontro de um destino que cada vez mais parece menos feliz.

5- Warren Justice e Sally Atwater (Robert Redford e Michelle Pfeiffer) em Íntimo e pessoal, 1996
É comum se apaixonar por um colega de trabalho. Nem tão comum se apaixonar por seu chefe. Menos comum ainda é o amor ser recíproco e temperado por compreensão, apoio e estímulo quando se tem a mesma carreira. É o que ocorre com Sally que se apaixona por seu chefe Warren que a faz evoluir na carreira. A estória de amor é abruptamente interrompida, deixando apenas a imensidão do vazio, quando Warren é morto enquanto fazia uma cobertura especial no Panamá.

4- Tommas J. Sennett e Vada Margaret (Macaulay Culkin e Anna Chlumsky) em Meu primeiro amor, 1991
Se a primeira vez é inesquecível, para Vada Margaret seu primeiro amor é ainda mais pulsante e presente em sua vida. A linda, contagiante, pura e inocente estória de amor vivida por duas crianças descobrindo o valor e o sentido de algumas palavras é tão transcendental e tão vivaz que ao mesmo tempo que prescinde do título de “estória de amor”, o faz valer com uma força arrebatadora.

3- Ennis del Mar e Jack Twist (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal) em O segredo de brokeback Mountain, 2005
Dos melodramas mais poderosos a surgir no cinema, O segredo de Brokeback Mountain conta a história de um amor proibido. Renegado. Ennis luta contra seus impulsos enquanto Jack anseia por eles. A poesia de seus encontros a cada temporada na montanha Brokeback em que podem fantasiar e sentirem-se completos se desgasta com o tempo. Enquanto o inevitável se espraia, o amor que sentem um pelo outro e o fogo abrasador dessa paixão nunca se reproduz fora daquele lugar. Um amor trágico e condenado que caracteriza uma das estórias de amor mais lindas que o cinema já concebeu.

2- Rick Blaine e Ilsa lund (Humphrey Bogart e Ingrid Bergman) em Casablanca, 1942
Entre as muitas desgraças que uma guerra pode acometer, está a separação de casais apaixonados. Seja pelo campo de batalha ou por imposições geo-políticas. É um pouco disso que ocorre com o americano Rick Blaine e a européia Ilsa que se rencontram em Casablanca, ainda divididos pela guerra. Uma estória de amor impossível atemporal, que cativa mais pelos efeitos nostálgicos do que por sua força propriamente dita. Contudo, tem a primazia de ser uma das primeiras e, certamente, a mais longeva.

1- Robert Kincaid e Francesca Johnson (Clint Eastwood e Meryl Streep) em As pontes de Madison, 1995
Não tem jeito. Por todas as circunstâncias, pelos pormenores e pela renúncia que lhe dá viço, a estória de amor (que se deu no período de uma semana) entre o fotógrafo Robert Kincaid e a dona de casa casada Francesca Johnson é a mais expressiva, dolorida e pungente de todas as estórias de amor que ganharam o cinema. Qual o amor deve prevalecer? O filme elabora e tangencia os limites do amor romântico e, ao fazê-lo, ajuda a preservar as chamas de um sentimento que pode, sim, acabar. E é essa a tragédia de todo e qualquer apaixonado.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Movie Pass

Antes de qualquer coisa, a licença para homenagear uma lenda vida do cinema. Clint Eastwood completa hoje, dia 31 de maio, 80 anos de idade. Esbanjando vitalidade e categoria, Eastwood continua prolífero e ressonante como cineasta. Como ator, encerrou sua carreira com Gran Torino (2008). Segundo Clint, ele abandonou a carreira de ator porque não vê muitos papéis para ele nesta idade. Não deixa de ter razão. Contudo, sua justificativa deixa aberta a possibilidade para que o vejamos como ator mais adiante.
A seção Movie Pass deste mês, em homenagem a essa icônica figura do cinema, destaca um filme fundamental da filmografia do ator e cineasta. As pontes de Madison (The bridges of Madison County, EUA 1996) é essencial para entender o cineasta Clint Eastwood e sua transformação de ator de westerns e filmes B de ação em mestre autoral do cinema mundial.
No filme, atípico até então na carreira de Eastwood tanto como ator quanto como diretor, Eastwood vive um fotógrafo que se apaixona por uma dona de casa interpretada por Meryl Streep. A história de amor vivida pelo discreto Robert Kincaid e por Francesca (mulher casada que só naquele momento vislumbra um ranço de plenitude) é das mais fortes já concebidas pelo cinema. Não há muito que se possa dizer sobre o filme sem se alongar ou ser estraga prazeres. Uma obra que atesta a sensibilidade de Eastwood como cineasta e antecipa o caminho que ele seguiria irreversivelmente após Sobre meninos e lobos (2003). Um cinema mais autoral, focado nos dilemas de seus personagens e permeado por questões existenciais – ainda que elas não estejam no centro de seus filmes. Seja em um romance ou em um filme de guerra, essas questões estão lá.
Mas o que torna As pontes de Madison cult é o fato de Eastwood, auxiliado por uma das melhores performances da carreira de Meryl Streep conseguir tangenciar o dissabor do amor idealizado e conferi-lo perspectiva. Tal qual no espetaculoso Titanic de James Cameron (que seria lançado dali a um ano), o amor eterno só é preservado se não for vivido. Só que neste filme, o entorno dessa conclusão, além de triste e verdadeiro, é dos mais poéticos.