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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012 - Dez sensações cinematográficas de 2012




10 – A Tóquio de Abbas Kiarostami
O olhar estrangeiro faz maravilhas por cenários urbanos pós-modernos como Tóquio. Desde que Sofia Coppola ajudou a tornar a capital japonesa cult no ocidente com Encontros e desencontros, a cidade não era capturada de maneira tão apaixonada e minimalista. Kiarostami fez de Tóquio um estado de espírito em Um alguém apaixonado.

9 – Descobrindo Georges Méliès
A grande atração de A invenção de Hugo Cabret, outra carta magna cinematográfica de Scorsese, é iluminar a figura de um dos pais do cinema. O mágico francês que ajudou a ficcionalizar a nascente sétima arte é o principal cerne do filme vencedor de cinco Oscars neste ano. O momento em que, com o préstimo do 3D, a obra de Méliès é reproduzida em frente a nossos olhos, a cinefilia ganha novo sentido.

8 – E agora?
Se houve um filme poderoso em 2012, esse filme foi A separação. A fita iraniana sufoca o espectador com inteligência e foco narrativo, em uma demonstração de força do cinema daquele país. A última cena, em que o casal que enfrenta um intrincado e muito complexo processo de divórcio, espera a decisão sobre com quem ficará a filha – sonegada para o público em vã objetividade – é das coisas mais emocionais e inquietantes surgidas no cinema em 2012.

7 – Fim do mundo... apaixonados!
Em uma época em que muito se fala sobre o fim do mundo, um filme teve a ousadia de especular sobre o comportamento humano em face do apocalipse. E enxergou no amor, a mais perene e sofisticada criação da humanidade, o remédio para a agonia provocada pela iminência do fim. A última cena de Procura-se um amigo para o fim do mundo é, nesse sentido, de uma força absurda. Os desamparados, em toda a sua existência, personagens de Keira Knightley e Steve Carell, enfim, encontraram paz um no outro.

6 – Vingadores reunidos
Por muito tempo se esperou para que o supergrupo da Marvel se reunisse no cinema. Em termos efetivos, no entanto, a espera começou ao fim de Homem de ferro (2008). Em 2012, eles finalmente estiveram juntos em Os vingadores e foi impossível não vibrar com o apelo cinematográfico dessa reunião de super-heróis ensejada por uma constelação de astros igualmente impressionante.

5 – O exame de próstata
Só em um filme de David Cronenberg para um procedimento tão indesejado e algo asséptico soar sexy. Em Cosmópolis, o personagem de Robert Pattinson, submetido a  um exame de próstata em sua limusine enquanto fala sobre pandemia econômica com uma assessora, experimenta elevações de tesão. Assim como sua assessora. Apenas Cronenberg poderia fazer a combinação economia e exame de próstata ser tão erótica...

4 – Precisamos falar sobre esse filme
Precisamos falar sobre o Kevin é um trator emocional na maneira como não facilita respostas às muitas perguntas que enseja no espectador. Depois de seu apoteótico, e ainda assim simplista, final, o filme de Lynne Ramsey joga o espectador contra a parede sufocado em seus questionamentos existenciais.

3 – Deixando o céu cair
As aberturas de 007 são sempre, por elas mesmas, acontecimentos. Mas Operação Skyfall certamente é um dos picos da série. Tanto o filme, como comprovam a bilheteria e as críticas, como a abertura. A música interpretada por Adele, "Let the sky fall", beira o sublime no adorno que faz da angústia do personagem e casa perfeitamente com a abertura mais filosófica da história de Bond.

2 – A dor de Brandon
Existe um momento no excepcional Shame, que é possível para o espectador dimensionar a angústia diária de Brandon, personagem viciado em sexo vivido por Michael Fassbender. É quando ele, no auge de uma noite em que se esgueirou em todo tipo de lugar em busca de sexo, ao atingir o orgasmo revela uma face de profunda tristeza. Um momento doce, doloroso e surpreendente que marcará a lembrança deste filme e, também, do ano de 2012.

1 - O silêncio e a música em O artista
Nos dias de hoje, dá para se dizer que poucos tiveram o privilégio de ver um filme mudo no cinema. O artista, em sua ode à gênese da indústria cinematográfica americana, recupera o valor dessa experiência. E o faz com o auxílio da música. Uma experiência saudosista com ar de inovação. O retorno ao simples ditou o sucesso do grande vencedor do Oscar 2012 e cativou plateias do mundo todo.

domingo, 25 de novembro de 2012

Insight

O discurso de Kiarostami 


Ele saiu do Irã para filmar. Mas há quem diga que o Irã não saiu dele. O cinema de Abbas Kiarostami sempre carregou em sua essência o gosto pela contradição, mas de uns tempos para cá o cineasta iraniano – filmando fora do Irã – parece propor uma estética mais esmerada na ambiguidade da curiosidade – dele e da plateia – do que de qualquer outra convenção cinematográfica ou narrativa.
O maior interesse de Kiarostami, no entanto, parece ser traduzir, ou melhor, compreender o mundo e nossa relação com ele. Mas o cineasta não é presunçoso ao ponto de julgar que detém as respostas para os questionamentos que compartilha com seu público.
Nessa vertente se enquadram alguns de seus filmes mais expressivos, como Close up (1990); um dos primeiros híbridos de documentário e ficção a ganhar forma no cinema. No filme, acompanhamos a história de um jovem cinéfilo que se faz passar por seu diretor favorito. Quando a farsa é descoberta, ele é preso e julgado por fraude. Kiarostami obteve autorização para filmar o julgamento que foi parar no filme. Outro exemplo da curiosidade irrefreável do cineasta e de como ela move seu interesse por repercutir o inusitado é Gosto de cereja (1997), filme pelo qual triunfou em Cannes vencendo a Palma de Ouro. Na fita, um homem com seus 50 e poucos anos perambula por Teerã em busca de alguém que possa enterrá-lo depois que ele se suicidar. O filme é um testamento da imaginação de Kiarostami em ofertar em imagens algo difícil de ser dimensionado visualmente. O ritmo do filme se insere como ferramenta narrativa em um movimento que cineastas como Terrence Malick em A árvore da vida tentam reproduzir, mas mal arranham.

Cena de Gosto de cereja: uma busca particular e inusitada que Kiarostami universaliza com seu cinema


Em Dez (2002), por exemplo, Kiarostami reduz ao mínimo sua atuação como realizador ao colocar duas câmeras em um carro e duas pessoas (no corte) conversando durante toda a metragem da fita. Dez foi proibido no Irã por abordar questões como prostituição, o tratamento dispensado às mulheres no país e algumas críticas à religião islâmica. Mesmo assim, a revista Time o elegeu um dos 100 melhores filmes da história. Em Dez, como se todo o mais não bastasse, Kiarostami, por meio de suas opções estéticas, relativiza o domínio do diretor sobre um filme em uma discussão rica, renovável e multifacetada.

A nova fase
No entanto, nada se compara ao que Kiarostami vem produzindo de uns anos para cá. Mais vago nas formulações esquemáticas do roteiro, mais rigoroso nas elaborações estéticas de uma narrativa e menos interessado em traços políticos, o iraniano resolveu dividir a autoria do filme com seu público. Esse talvez seja o grande norte de produções como Cópia fiel (2010) e Um alguém apaixonado (2012). Ambos os filmes compartilham o mesmo DNA em relativizar verdades e simulações. Mas enquanto o primeiro ainda apresenta à plateia os pilares sobre os quais ela irá duvidar, o segundo permite que até mesmo esses pilares sejam apresentados pelo público. São filmes desatados de uma formatação quadrada, pavimentada e que fluem livremente para somente amadurecerem algum tempo depois de vistos pela primeira vez. É uma proposta ousada e que irriga a sétima arte como catalisadora de manifestações artisticamente pulsantes. Ainda que muitos creiam que isso já não seja mais possível no cinema. 

Cena de Cópia fiel: filme que discute a arte de uma maneira cativante, mas pouco incisiva

Não é possível dizer que o cinema de Kiarostami é melhor hoje do que o era há 10, 20 anos. Mas é inegável que o cineasta atingiu um nível de maturação e desprendimento artístico que creditá-lo a “um Irã dentro dele” é simplório demais. Kiarostami talvez seja o cineasta vivo que melhor represente o fluxo constante de contradições e evoluções que marcam a humanidade. Seu cinema se impõe, não como bússola, mas como centro gravitacional da sétima arte em seu traço mais apaixonante.